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I CAPÍTULO

1.2 Universos da luta de classes

Começa desta forma uma incursão do narrador no universo da luta de classes em Salvador nos anos de 1930. Estabelecendo paralelos com a historiografia, o autor nos aproxima do que, de fato, ocorria com a classe operária baiana. Jorge Amado elabora, por meio de suas personagens extremamente realistas, um paralelo com os aspectos efervescentes que representaram os levantes populares da época. Em quatro de outubro de 1930, por exemplo, eclode em Salvador uma manifestação espontânea denominada de “quebra-bonde”. Em seu estudo sobre Movimentos Sociais na Bahia de 1930, Consuelo Novais Sampaio mostra que,

nesse dia, uma multidão de populares queimou bondes e destruiu propriedades das companhias Linha Circular e Energia Elétrica da Bahia, subsidiárias da Eletric Bond and Share Company. Aquelas empresas controlavam o fornecimento de luz elétrica, o sistema de telefone, os bondes e o Elevador Lacerda e o Plano Inclinado, que ligam a parte alta à parte baixa da cidade de Salvador60

Em suas considerações sobre este acontecimento, Luiz Henrique Dias Tavares em História da Bahia coloca que a manifestação do quebra- bonde teve sua origem na insatisfação da população frente ao recente aumento dos preços das passagens dos bondes, do elevador Lacerda e do plano inclinado, somado as notícias de levantes militares que conduziriam o país para uma guerra civil. Com o levante popular evidenciado nas destruições de alguns bondes, os governantes decretam estado de sítio por concluir que a população é que havia tomado a iniciativa de atos violentos.61

A princípio ingenuamente, o protagonista Baldo vai, aos poucos,

percebendo como a luta era organizada e como deveriam ser as regras para que se pudesse exercer poder de fato. Temos nos início desta conscientização um personagem ainda imerso na melancolia com ideias suicidas, entregando-se ao trabalho braçal desumano no cais. Mas com o burburinho da greve e a percepção de existir ao redor dele, nas ruas, nos ambientes do trabalho, algo maior que vinha se instaurando na agitação das ruas, nas manifestações populares, vai assumindo cada vez mais espaço em sua mente. Lembra-se do primeiro discurso de rua que assistiu, a emoção que o tomou e ânsia de ser motivado por aquele mesmo sentimento:

Saem em grupos e na porta Antônio Balduíno se recorda de um homem que foi preso ali, quando fazia um discurso. Ele era moleque de rua mas se lembrava perfeitamente. Gritara, e com ele o grupo todo, protestando contra a

      

60 SAMPAIO, Consuelo Novais. op. cit., p. 99. 61 Cf. TAVARES, Luis Henrique Dias. op. cit., p. 381.

prisão do homem. Gritara porque amava gritar, vaiar a polícia, jogar pedra em soldado. Hoje ele precisa de gritar novamente, como no tempo em que corria solto pela rua e não via os guindastes inimigos prontos a lhe rebentar a cabeça62

É precisamente este impulso para o engajamento político, atrelado a uma energia física envolvendo o revigoramento das próprias aspirações pessoais, que podem modificar as relações de força no campo social. Assim, o impulso que desencadeia esta energia capaz de modificações sociais é a energia biológica (ou libido) transformada em objetivos de luta

social. 63

Ou seja, esboça-se aqui uma noção de política como expressão da ação voltada para o coletivo, seja este o das micro relações familiares, seja o do âmbito público, o que se pode associar à noção extraída de Félix Guattari,

se dirige tanto ao desejo do indvíduo quanto ao desejo que se manifesta no campo social mais amplo. E isso sob duas formas: seja uma micropolítica que vise tanto os problemas individuais quanto os problemas sociais, seja uma macropolítica que vise os mesmos campos (indivíduo, família, problemas de partido, de Estado, etc)64

O que para Guattari constitui um problema fundamental no campo social, são justamente os tipos de estratificações ou formações sociais que acabam por imperar e que oprimem, exploram e escravizam a vida das pessoas. Estas formações sociais, ditadas pela lógica interna do sistema dominante atuam em diversos âmbitos de sociabilidade, propagando a mesma opressão sofrida e impondo um tipo de despotismo que se instala

      

62 Jubiabá, p. 279.

63 GUATTARI, Félix. Revolução Molecular: pulsações políticas do desejo. São Paulo: Editora

Brasiliense, 1986, passim.

nas relações conjugais, familiares ou patronais, derivando do mesmo agenciamento libidinal que aquele do campo social mais amplo. Ou seja, é sempre necessário estabelecer as condições para um novo exercício do desejo no campo social, possibilitando desta forma, a criação de outras formas de viver desatreladas da dominação auto-imposta. É sempre necessário intervir ativamente contra todas as máquinas (estruturas) de

poder dominante, quer se trate do poder do Estado burguês, do poder das burocracias de toda e qualquer espécie, do poder escolar, do poder familial.65

Observamos isto no romance Jubiabá quando nos deparamos com trabalhadores pobres, já acostumados a servir de “escravos” do sistema opressor, que acabavam por perpetuar um ciclo vicioso de submissão e opressão em seu próprio convívio social e pessoal, evidenciado nos trabalhadores que se entregam a acordos ou são “comprados” por advogados dos patrões. E, ao contrário, aqueles outros trabalhadores que se articulam em comícios e resistem ao acordo fácil com os patrões. Félix Guattari chama atenção para a importância do posicionamento do desejo coletivo no campo social e sua constante captura pelo sistema dominante, propondo que o desejo – sendo instintivo e motivador de luta coletiva - reposicione-se por meio de estratégias ativas, configurando o que o analista institucional francês chamou de exercício do desejo.

Desejo aqui é entendido como fluxo incessante que não é propriedade nem de um sujeito nem de um objeto, pois é uma formação coletiva. Segundo o pensador francês,

ele permeia o campo social, tanto em práticas imediatas quanto em projetos muito ambiciosos.(...) Eu proporia denominar desejo a toda as formas de vontade de viver, de vontade de criar, de vontade de amar, de vontade de

      

inventar uma outra sociedade, outra percepção do mundo, outros sistemas de valores66

Desejo de Baldo por uma sociedade mais justa com o fim da luta de

classes e a liberdade para todos os escravizados. Tal desejo coaduna-se com o de toda uma comunidade que se move, a princípio aleatoriamente, pois ainda não conhece a luta organizada como forma de manifestação de seu descontentamento. Esta energia coletiva originada na vibração por um mesmo ideal cujo motor é o desejo, pode sofrer represálias e ser abortada, como já se viu na manifestação do “quebra-bonde”, ocorrido na realidade e que foi boicotado. Para o sistema dominante, que com sua imensa máquina

produtiva de uma subjetividade industrializada e nivelada em escala mundial tornou-se dado de base na formação da força coletiva de trabalho e da força de controle social coletivo,67 essa manifestação de desejo com seu levante popular correspondente, se mostra perigosa e anárquica. Por isso o sistema dominante lhe atribui o rótulo de vergonhoso, secreto, e previne-se deste a infância dos cidadãos, construindo na subjetividade coletiva a convicção de que dependem do Estado para tudo e assim, não tem autonomia sobre suas próprias vidas. As vítimas desse sistema manipulador se sentem corroídas

por uma angústia e uma culpabilidade inconscientes que constituem uma das engrenagens essenciais para o bom funcionamento do sistema de auto- sujeição dos indivíduos à produção.68

Vê-se indícios desta culpabilização e auto-sujeição em Jubiabá, nos muitos trabalhadores que, intimados pelos colegas a aderir ao movimento grevista, tem medo, não concordam com as propostas ou então, temem

qualquer coisa que possa acontecer antes mesmo de tentar.69 Ao contrário

de Baldo que desde o início, antes mesmo da greve explodir, busca o

      

66 GUATTARI, Félix. Micropolítica: cartografias do desejo. 6ª ed., Petrópolis: Vozes, 2000, p.

215.

67 Ibid., p. 39.

68 IDEM, Revolução Molecular: pulsações políticas do desejo. p. 13. 69 Jubiabá, p. 282.

sentido da liberdade de uma forma puramente instintiva, movido pelo desejo de mudança e pelo abandono de mordaças e grilhões que prendem todo trabalhador pobre.

Temos que o resultado deste trabalho de auto-sujeição provocado pelas forças hegemônicas é a produção em série de um indivíduo fragilizado, despreparado e vulnerabilizado de tal forma que está sempre pronto a se agarrar a todas as regras institucionais organizadas por esta moralidade instituída que nasce colada a ele: a hierarquia, a escola, a submissão, a modéstia, o gosto pelo trabalho, pela pátria, pelo sindicato, etc.

Assim, se dá o esmagamento do desejo posto que ele seja justamente o modo de produção de algo que ultrapassa o individual e germina no coletivo. É por isso que o desejo deve ser exercitado e principalmente porque em toda a parte, a máquina totalitária experimenta estruturas que melhor se adaptem à situação, ou seja, cada vez mais adequadas para captar o desejo e colocá-lo a serviço do capital.

O protagonista Antônio Balduíno é um lutador por excelência, pois luta desde que nasceu. Além da força física, tem poder de sedução de sobra, só ainda não tem o poder do raciocínio consciente da luta que estaria por vir. Assim vai criando instintivamente este caminho de forma enviesada, anárquica, parecida com sua própria história de vida e movido pelo impulso dos que conhecem a potencialidade do viver, a energia física revitalizante da própria libido e também pela profunda indignação originada pela análise

empírica do social, uma vez que percebeu que todo pobre já virou negro.70

Baldo começa a frequentar as reuniões do sindicato dos estivadores, sua categoria. A greve dos bondes já paralisava a cidade que se tornara festiva:

Passam grupos de homens que conversam animadamente. Rapazes empregados no comércio caminham rindo, gozando a cara do patrão que

      

não poderá reclamar o atraso da chegada.71 Eis mais um exemplo esboçado

por Jorge Amado do potencial do desejo coletivo e seu caráter de subversão às normas.

No seu sindicato foi votada a adesão à greve também, como forma de solidariedade para com os grevistas da Companhia Circular, responsável pelo transporte sobre trilhos nos bondes. Ao mesmo tempo os entregadores de pão aderem à greve, assim como os trabalhadores da Companhia responsável pela distribuição de energia elétrica. Em pouco tempo a cidade estava completamente parada e no escuro. Os trabalhadores tomados por este sentimento de união vibravam e exaltavam a vitória eminente da greve. Os discursos nos sindicatos e nas ruas se inflamavam e a cidade toda sentia os efeitos poderosos da paralisação dos serviços essenciais e, sua agitação correspondente:

Estavam parados todos os serviços de bondes e telefone. À noite não haveria luz elétrica. Os operários haviam enviado à alta direção da Companhia um memorial com suas pretensões. A diretoria declarara que não concordava e recorrera ao governo. Por falta de energia elétrica não circulavam os jornais. Havia muita gente na rua e grupos de operários eram encontrados em todas as esquinas, conversando. Passavam patrulhas de cavalaria. Corriam boatos de que a Circular estava contratando os desempregados a peso de ouro para que furassem a greve.72

Baldo sentia-se novamente dono da cidade, mas ele não era seu único dono. Desta vez o poder era coletivo e só funcionava se assim fosse. Ele que sempre cultivava grande desprezo pelos trabalhadores, pensava em entrar pelo caminho do mar para não precisar trabalhar, pois seria um escravo. A partir desta demonstração do poder coletivo, que domina a cidade toda, Baldo começa a olhar com respeito os trabalhadores, pois

      

71 Jubiabá, p. 280. 72 Ibid., p. 283.

agora todos eram uma força. Desta forma, com esta descoberta, ele se sente nascer de novo. Seu olhar muda, ao mesmo tempo em que muda o sentimento coletivo dos próprios trabalhadores, uma vez que, com a greve eles recuperaram sua dignidade, seu orgulho como força, como grupo e instauraram uma nova configuração no campo social.

Essa mudança de postura do coletivo ou esse novo exercício do desejo como explicamos ser necessário para que mudanças efetivas se enraízem no campo social, é responsável por desencadear a revolução ou o processo revolucionário. Revolução aqui, como entende Félix Guattari é um

certo momento de transformação, que poderíamos caracterizar como um momento de irreversibilidade num processo.73 É acima de tudo, um

processo que se lança numa via irreversível e que por esse fato escreve a história de maneira inédita.74 Pensando desta forma, uma transformação revolucionária só se desencadeia se ocorrer ao mesmo tempo uma revolução cultural, uma espécie de mutação entre as pessoas, sem o que

caímos na reprodução da sociedade anterior .75 Ou seja, são mudanças de modos de vida juntamente com seu potencial criador que constitui as condições para qualquer transformação social.

Ora, Jorge Amado no momento em que escrevia o romance Jubiabá estava envolto numa atmosfera de intenso desejo de transformação social, lutando contra o nazismo no plano externo, e acompanhando o desenrolar das greves reais que sacudiam Salvador em 1934. Sendo assim, se evidencia neste romance suas orientações marxistas-leninistas aproximando o trabalho assalariado da escravidão e exaltando a união proletária para além das diferenças étnicas, pois esta união entre os trabalhadores ultrapassaria qualquer característica de etnia ou gênero, já que teria lugar na revolução, o desejo orientando o jogo das forças no campo social.

      

73 GUATARRI, Félix. Micropolítica: cartografias do desejo, p. 185-6. 74 Ibid., p. 186.

Baldo vai desenvolvendo sua postura de liderança em meio à greve geral. Atento a tudo o que se passa no meio sindical, nas rodas de agitação grevista, nos trâmites dos advogados corrompidos por dinheiro, é muitas vezes refreado em suas ações e orientado por um colega operário chamado Severino a ser menos agressivo e mais sensato ao agir. Mais uma vez temos outro personagem responsável por conter os ímpetos instintivos do herói, assim como Gordo o fazia. Foi Severino quem lhe ensinou uma frase usada durante a greve: - Rapaz, greve é como esses colares que a gente vê

nas vitrinas. É preso por uma linha. Se cortar a linha caem todas as contas. É preciso não furar a greve.76

Baldo ia aprendendo muitas coisas que, de certa forma, já sentira ou já ouvira nos A.B.C., como a desigualdade entre pobres e ricos, as condições difíceis do trabalhador nas fábricas, a baixa remuneração. Porém, falados em forma de discurso nos sindicatos ou nas ruas, causavam euforia coletiva e exaltavam o espírito do negro que começa a discursar também. Com seu primeiro discurso improvisado, tomado no ímpeto de outras falas acaloradas, ele conta histórias sobre sua vida de malandro, a situação difícil dos camponeses nas plantações de tabaco, o trabalho das mulheres nas fábricas de charuto e é ovacionado pelos demais grevistas.

Quase é carregado. Não tomou ainda perfeito conhecimento de seu triunfo. Por que o aplaudem assim? Ele não contou nenhuma história bonita, não bateu em ninguém, não fez um ato de coragem. Contou somente o que viu. Mas os homens aplaudem e muitos o abraçam, quando ele passa. Um investigador o fita, procurando não esquecer aquela cara. Cada vez Antônio Balduíno gosta mais da greve.77

Ampliando sua consciência em relação ao coletivo, arrebatado pela forte emoção de comprovar que os oprimidos e escravizados trabalhadores

      

76 Jubiabá, p. 285. 77 Ibid., p. 287.

tinham o poder das cidades nas mãos, e principalmente pela sensação de pertencer a tudo isso e saber o sentido da sua luta, Baldo acredita ter a obrigação de avisar todos os negros que vão à macumba de pai Jubiabá. Ou seja, é a sua comunidade, os negros com os quais cresceu e conviveu: o Gordo, Joaquim, Zé Camarão, o próprio pai de santo Jubiabá. Pondera que pai Jubiabá que sempre soube de tudo e lhes ensinou a luta por meio da história de Zumbi dos Palmares e muitas outras, não lhes havia ensinado o que era a greve. Acredita que sua comunidade precisa saber da luta que é certamente vencida quando se toma a estratégia da greve.

No capítulo “Primeira Noite da Greve”, tem-se o rompimento ou o afastamento de Baldo da religião negra. Ele que era ogã e tinha o terreiro de Candomblé como parte de seu cotidiano, começa a duvidar desta prática religiosa como forma de resistência. Segundo nosso olhar, os ensinamentos do pai Jubiabá foram muito úteis para o menino Baldo enquanto crescia, uma vez lhe dera referências sólidas e o situara como fazendo parte daqueles que lutam, daqueles que têm a vida como grande desafio a vencer devido à condição de negro e de pobre. No entanto, outra estratégia de luta se impôs com maior alcance ressoando em toda a sociedade e por que não, em todo o mundo.

Desta forma, a cena no terreiro começa com a aproximação de Baldo enquanto ouve sons de batuque que vinham de lá. E esses sons ainda são

para ele sons guerreiros, sons de libertação.78 Ao mesmo tempo, sabemos

pelo narrador, que desta vez o orixá Exu não quer deixar a cerimônia, sabendo que em todo início das festas de Candomblé, ele deve ser reverenciado para que possa ir embora e não atrapalhe a festa. Baldo toma seu lugar no círculo e antes de iniciar seus afazeres, declara:

- Meu povo, vocês não sabe nada... Eu tou pensando na

minha cabeça que vocês não sabe nada... Vocês precisam ver a greve, ir para a greve. Negro faz greve, não é mais escravo. Que adianta negro rezar, negro vir

      

cantar para Oxóssi? Os ricos manda fechar a festa de Oxóssi. Uma vez os polícias fecharam a festa de Oxalá quando ele era Oxalufã, o velho. E pai Jubiabá foi com eles, foi pra cadeia. Vocês se lembram, sim. O que é que negro pode fazer? Negro não pode fazer nada, nem dançar para santo. Pois vocês não sabem de nada.Negro pode tudo, negro pode fazer o que quiser. Negro faz greve, pára tudo, pára guindastes, pára bonde, cadê luz? Só tem as estrelas. Negro é a luz, é os bondes. Negro e branco pobre, tudo é escravo, mas tem tudo na mão. É só não querer, não é mais escravo. Meu povo, vamos pra greve que a greve é como um colar. Tudo junto é mesmo bonito. Cai uma conta, as outras caem também. Gente vamos pra greve, vamos brigar para não ter mais fome. Os outros já estão lá.79

O resultado desta fala faz com que muitos o sigam e pai Jubiabá afirme: Exu pegou ele. Uma das perspectivas possíveis de análise a partir da problemática da subjetividade coletiva e inconsciente no campo social, capaz de unir os trabalhadores munidos dos mesmos sentimentos e ideais, reposicionando o desejo e criando possibilidades para a transformação social, se dá na análise micropolítica do desejo. A questão micropolítica é a

de reproduzirmos (ou não) os modos de subjetividade dominante.80

Analisando o que seria esta força, ou sentimento de união entre os trabalhadores, Guattari pondera que nesta situação, não se está mais em

presença de uma unidade ideal, representando e mediando interesses múltiplos, mas de uma multiplicidade equívoca de desejo, cujo processo secreta seus próprios sistemas de referência e de regulagem.81 E a respeito do objetivo central que os une:

Essa multiplicidade de máquinas desejantes (neste caso o proletariado) não é composta de sistemas estandardizados e ordenados, que se poderia disciplinar e

      

79 Jubiabá, p. 290.

80 GUATARRI, Félix. Micropolitica: cartografia do desejo, p. 133. 81 IDEM, Revolução Molecular: pulsações políticas do desejo, p. 177.

hierarquizar, em função de um objetivo central. Ela se estratifica, segundo diferentes conjuntos sociais, de acordo com as faixas etárias, os sexos, as origens geográficas e profissionais, as práticas sexuais, etc. Não realiza uma unidade totalizante. É a univocidade dos desejos e dos afetos das massas, e não seu agrupamento em torno de objetivos padronizados, que funda a unidade de sua luta.82

Neste ponto, o arrebatamento do protagonista era completo pelo poderio demonstrado por aquela união de sentimentos e de forças de vários “escravizados” que, de forma enviesada, reagiam contra a opressão e a auto-sujeição do sistema de modelização dominante. Com estas experiências de luta social fortemente vividas, Baldo considera ser mais eficaz lutar da forma organizada pela cultura operária ocidental recém adotada, tendo em vista o processo industrial, e que certamente daria um

belo A.B.C. devido as artimanhas utilizadas nesta luta, do que lutar da forma

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