2 MORADIA 1
4.1 FAVELA 110
4.1.1 Urbanização desigual e combinada 110
Anteriormente buscou-se de forma sintética traçar a evolução histórica do processo de urbanização latino-americano e brasileiro. Destacou-se então a teoria da dependência, que foi incorporada por Castells em sua obra “La question urbaine” na análise do processo de desenvolvimento urbano das sociedades periféricas do capitalismo.
Para Castells o grande mérito da teoria da dependência foi a contraposição à idéia expressa no conceito de subdesenvolvimento, que devido a grande influência dos pesquisadores cepalinos237 foi a teoria hegemônica utilizada na América Latina para explicar o desenvolvimento desigual do processo de urbanização entre os países desenvolvidos e aqueles catalogados como “subdesenvolvidos”. Castells entende o subdesenvolvimento “que alude a uma questão de nível de crescimento, é equívoco, na medida que só designa uma das partes de uma estrutura complexa em relação com o processo de desenvolvimento”.238
Efetivamente os defensores da teoria do subdesenvolvimento diagnosticam a urbanização dos países rotulados como subdesenvolvidos como
237
A CEPAL - Comissão Econômica para a América Latina, criada em 1948 por economistas, políticos e sociólogos latino-americanos, caracteriza-se por ter desenvolvido os fundamentos teóricos da ideologia desenvolvimentista, que via na industrialização, única forma de libertação dos países subdesenvolvidos, da sua situação de pobreza e dependência externa. Assim, a industrialização é vista como caminho para o desenvolvimento. Fonte: <http://pt.shvoong.com/social- sciences/economics/1809057-desenvolvimentismo-teoria-da-cepal-auge/#ixzz1TRpfWvAN
238
fruto de uma “insuficiência dinâmica do desenvolvimento”239 capitalista padrão, que seria aquele existente nos países centrais.
Para os cepalinos a urbanização dos países subdesenvolvidos é caracterizada como uma “uma urbanização sócio-pática”240, ou seja, atávica e deformada, que acaba criando uma população “marginal” ao processo de urbanização capitalista:
A formação de uma população marginal e submarginal com freqüência nos limites dos níveis de subsistência, foi o preço notório que as grandes cidades latino-americanas tiveram de pagar para conciliar as altas taxas de incremento de sua população com os baixos níveis de produtividade de sua estrutura econômica. A presença de barriadas, villas misérias, poblaciones callampas, favelas, que durante o período de 1945-60 se difundiram profusamente no espaço urbano, deve ser considerada como indicadora de um fenômeno mais geral: a existência de um setor maciço da população urbana em condições marginais do ponto de vista econômico, social e político.241
Conforme explica Pochmann para os “cepalinos clássicos, aos países latino-americanos restava como única alternativa a industrialização”, sendo que somente através dela seria possível “vencer os limites impostos pelo modelo primário exportador”242, que caracterizava os países subdesenvolvidos.
No entanto, apesar a concepção do processo de desenvolvimento urbano latino-americana desenvolvida por Castells ter o mérito em demonstrar que em grande parte os problemas urbanos dos países periféricos decorrem da relação de dominação pelos países centrais, por outro lado, deixa de enfatizar que este desenvolvimento geográfico desigual, na atual fase do desenvolvimento capitalista, é condição necessária e indispensável para a manutenção do processo de acumulação capitalista.
Soja quando da análise da obra “Capitalismo Tardio” do economista belga Ernest Mandel, explicita a tese da necessidade do desenvolvimento geograficamente desigual do capitalismo:
239
CEPAL. Urbanização na América Latina. 1966. In: Urbanização e subdesenvolvimento. Rio de Janeiro: Zahar. 1973.p.88.
240
PEREIRA, L. Urbanização e subdesenvolvimento. In: Urbanização e subdesenvolvimento. Rio de Janeiro: Zahar. 1973.p.71.
241
CEPAL. op. cit., p.88. 242
POCHMANN, M. Outra cidade é possível: alternativas de inclusão social em São Paulo. São Paulo: Cortez, 2003., p. 16.
O que eu estou discutindo aqui, através das palavras de Mandel, não é apenas que o desenvolvimento capitalista é geograficamente desigual, pois uma certa desigualdade geográfica resulta de todos os processos sociais. O ponto fundamental é que o capitalismo – ou, se preferirmos, a atividade normal dos capitalistas em busca de lucros – baseia-se instrinsicamente, nas desigualdades regionais ou espaciais, como meio necessário de sua sobrevivência continua. A própria existência do capitalismos pressupõe a presença mantenedora e a instrumentalidade vital do desenvolvimento geograficamente desigual.243
Portanto, o processo de urbanização brasileiro está imbricado como desenvolvimento desigual e combinado do capitalismo mundial, sendo que a existência de uma parcela significativa da população vivendo em condições de exclusão sócio-espacial dos países periféricos decorre da troca desigual de valor com os países centrais. Soja explica o processo de transferência espacial de valor onde “parte da produção excedente gerada num local é impedida de localmente ser realizada e acumulada, enquanto o excedente produzido em outro local é aumentado”.244
Munido de um prodigioso arsenal de dados estatísticos, Davis explicita a globalização do fenômeno da favela (“slums”, em inglês), enfatizando a sua concentração nos países menos desenvolvidos:
Os pesquisadores da ONU estimam que havia pelo menos 921 milhões de favelados em 2001 e mais de um bilhão em 2005: quase a mesma população do mundo quando o jovem Engels aventurou-se pela primeira vez pelas ruas ignóbeis de St. Giles e da Old Town de Manchester em 1844. (...) Os favelados, embora sejam apenas 6% da população urbana dos países desenvolvidos, constituem 78,2% dos habitantes urbanos dos países menos desenvolvidos; isso corresponde a pelo menos um terço da população urbana global.245
A percepção clara de que a questão urbana está vinculada ao desenvolvimento desigual e combinado do processo de urbanização capitalista, é fundamental para que não se gaste esforços com praticas pontuais e locacionais, deslocadas de uma estratégia global de enfrentamento ao capital. Nesse sentido, sempre é válido relembrar a lição de Santos, que em 1975 já afirmava de forma categórica, ao analisar a questão da pobreza urbana:
De fato, se há crise, trata-se de uma crise global, sendo a crise urbana apenas um epifenômeno. As condições nas quais os países que comanda a economia mundial exercem sua ação sobre os países da periferia criam
243
SOJA, E. W. Geografias pós modernas: a reafirmação do espaço na teoria social. Rio de janeiro: Jorge Zahar, 1993. p. 129.
244
Ibid., p. 127. 245
uma forma de organização da economia, da sociedade e do espaço, uma transferência de civilização, cujas bases principais não dependem do países atingidos. As raízes dessa “crise urbana” encontram-se no sistema mundial.246
Importante salientar que esta pesquisa não tem por objeto a análise do desenvolvimento do processo de urbanização capitalista, uma vez que o estudo do tema exigiria uma profunda revisão bibliográfica e a análise minuciosa das diversas teorias formuladas a respeito do tema. O objetivo deste intróito é contextualizar a abordagem de um aspecto específico das cidades hodiernas, que é a existência de cidades ilegais dentro das grandes e médias aglomerações urbanas da parte Sul do globo terrestre, deixando clara a compreensão de que a existência da favela é fruto de um fenômeno global do capitalismo, ou seja, o desenvolvimento desigual e combinado do processo de urbanização.