• Nenhum resultado encontrado

ENQUADRAMENTO METODOLÓGICO

2. AS INVESTIGAÇÕES DE BAIXO CONSTRANGIMENTO

2.2. Usando Metodologias de Baixo Constrangimento

2.2.1. Formulação de Problemas e Hipóteses

Vimos já a importância destas fases na selecção de metodologias de elevado ou baixo constrangimento.

Vimos também que o estabelecimento das hipóteses em estudo derivam do refinamento dos problemas inicialmente colocados e que estes vão, no decorrer da investigação, servindo de apoio na organização e orientação da investigação, pois são aquelas as questões que gostaríamos de ver respondidas. Mas nem sempre, nas investigações de baixo constrangimento, nos deparamos com hipóteses. Em vez disso, existe um conjunto de questões, de problemas - que não são necessariamente hipóteses - que o investigador pretende explorar.

Face à ameaça de dispersão com que frequentemente o investigador se depara, os problemas que o investigador formulou nos estádios iniciais, quando continuamente tidos em conta, são importantes pontos de referência pois ajudam o investigador a focar-se nos objectivos do estudo e fornecem feed-

backs relativamente ao andamento da investigação: será que a forma como a

investigação está a ser levada a cabo vai dar (ou pelo menos tenta dar) resposta às perguntas das quais partiu este estudo?

Dos problemas formulados podemos ainda acrescentar a sua utilidade no que se refere às inferências que se podem tirar dos dados recolhidos. Aquando da descrição dos vários tipos de métodos que a ciência dispõe para conhecer o real, fizemos alusão aos diferentes enfoques que cada um propõe relativamente à relação entre variáveis. As inferências consistem, assim, na interpretação que podemos fazer da relação existente entre variáveis. Como a tentação de estabelecer relações de causalidade entre variáveis está muitas vezes presente nas metodologias de baixo constrangimento, as ideias ou problemas iniciais ajudam também o investigador a refrear as tentações e a focar-se mais comedidamente no que se propôs.

Poderíamos descrever os problemas iniciais na investigação, e mais particularmente nas de baixos níveis de constrangimento, como o periscópio num submarino.

No que diz respeito às hipóteses colocadas, há que mencionar que estas podem ser testadas em qualquer estudo, e que quando se testam as hipóteses está-se, também, a reunir informações acerca das questões originais.

O cuidado a ter em específico nas metodologias de baixo constrangimento é o de não cair no risco de construir e argumentar sobre relações de causalidade que só são possíveis com confiança ao nível experimental.

Uma das propriedades atribuídas às investigações de baixo constrangimento diz respeito à liberdade que o investigador possui para poder alterar as hipóteses ou questões estabelecidas no decorrer da investigação, sem que isso desvirtue ou afecte negativamente a própria investigação. No exemplo dos comportamentos ecológicos em crianças, podemos supor que uma das hipóteses deste estudo seria que as crianças manifestam este tipo de comportamentos quando, no meio envolvente, estes comportamentos se verificam em adultos significativos para a criança. Imagine-se agora que no período em que as crianças esperam pelos pais e no qual diariamente assistem aos canais televisivos passa, por acaso, um documentário sobre a protecção do ambiente3 e, que no dia seguinte, um pouco inesperadamente, começam a

observar-se nas crianças comportamentos que são considerados ecológicos. Este acontecimento poderia reflectir-se na mudança da hipótese colocada e que passaria a ser: as crianças quando confrontadas com documentários televisivos sobre a protecção do ambiente manifestam comportamentos ecológicos. Impõe-se, como condição para testar esta hipótese, a necessidade de levar a cabo observações continuadas de situações e comportamentos similares assegurando que não se tratou de um facto isolado, de modo a

3 Neste exemplo interessa ressalvar que aquele evento foi urn acaso - não houve interferência

directa ou indirecta do investigador.

confirmar ou refutar se os documentários televisivos despoletam comportamentos ecológicos nas crianças.

2.2.2. Recolha de Dados

A principal fase, numa investigação, é a fase de observação ou recolha de dados, na medida em que o sucesso ou fracasso da investigação depende da forma como esta fase foi planeada e executada.

Uma das características mais salientes nas investigações de baixo constrangimento relaciona-se com a flexibilidade quer no seu planeamento, quer na sua concretização. Entenda-se que flexibilidade não significa falta de rigor ou de valor científico das suas descobertas, mas que a investigação é desenvolvida num plano menos formal. Aliás, esta é, por vezes, a única forma de conhecimento de uma realidade - veja-se o exemplo do estudo com chimpanzés - devendo ser ressalvada a necessidade de ter em conta os cuidados e as condições em que devem ser levadas a cabo.

Acrescente-se ainda que, embora os procedimentos de recolha de informações possam ser de baixo constrangimento, os métodos de observação e registo das informações podem ser muito sofisticados como, por exemplo, o uso de câmara de vídeo para registar as ocorrências, gravadores para registar informações em entrevistas com os sujeitos, etc....

Interessa sublinhar que os controlos ou constrangimentos que, em investigações de elevado nível de constrangimento, são inerentes aos procedimentos e que acabam por ser algo externo, quer ao observador quer aos sujeitos, em investigações de baixo constrangimento, estão primeiramente no investigador. Esta responsabilidade pelo controlo na investigação exige, da parte do investigador, uma sólida preparação teórica sobre metodologias de baixo constrangimento, em geral e, sobre os seus procedimentos, em particular.

Neste âmbito gostaríamos de salientar os conceitos de reactividade à medição, desejabilidade social, medidas reactivas e não reactivas.

O conceito de reactividade à medição diz respeito ao fenómeno que acontece quando os sujeitos, sabendo que estão a ser observados ou avaliados, se comportam de maneira diferente do que fariam se não estivessem naquela situação. Este fenómeno acarreta um certo enviesamento na investigação e, embora o investigador possa tomar algumas medidas no sentido de o minimizar, esta ocorrência está frequentemente fora do seu controlo.

Refira-se que a reactividade à medição não é uma particularidade das Ciências Sociais e Humanas. Como ilustram Graziano e Raulin (1989), mesmo em Ciências Exactas como é o caso da Física, quando o investigador pretende observar a trajectória de um electrão sabe que o simples facto de o estar observar - e de para isso ter que usar um microscópio electrónico - altera a própria trajectória do electrão, de maneira que o investigador, efectivamente, não observa a trajectória original mas a trajectória que é possível observar.

Nas Ciências Sociais e Humanas, e em particular na Psicologia, a reactividade surge frequentemente como o reflexo daquilo que o sujeito acredita que é o comportamento adequado numa situação específica. Introduz- se, assim, o conceito de desejabilidade social que corresponde à "tendência de muitos sujeitos em responder aquilo que pensam ser a maneira mais aceitável socialmente" (Graziano&Raulin,1989,p.75).

Quanto às medidas reactivas e não-reactivas, importa distinguir que nas primeiras há uma particular tendência para esse enviesamento, e que as medidas não reactivas dizem respeito àquelas em que o facto de os sujeitos saberem que estão a ser observados não altera as suas respostas ou comportamentos.

2.2.3. Sujeitos da Amostra

A importância da amostragem (selecção dos sujeitos) está directamente ligada às questões da representatividade e, consequentemente, da generalização. Quando se refere que uma amostra é representativa, está-se a assumir que o que se observa naqueles sujeitos é possível ser observado em quaisquer outros de populações que possuam características similares. Ora, quando existem diferenças entre a amostra em estudo e a população em geral, está-se a admitir que essa amostra não é representativa. E, se se verifica a não representatividade da amostra, então há que ter muitos cuidados na generalização abusiva dos resultados da investigação que poderá, eventualmente, suceder. Os dados são generalizáveis quando se considera que o que foi observado nos sujeitos que compõem a amostra pode ser igualmente observado em qualquer outro grupo de sujeitos (com características semelhantes) da população em geral.

No Estudo de Caso, assim como na Investigação Naturalista, não é invulgar o investigador não seleccionar, efectivamente, a amostra de sujeitos. Freud, por exemplo, não seleccionou os casos que foram por ele estudados Os sujeitos consistiam, essencialmente, em casos da sua prática clínica4. Posto

isto, quando se pretendem fazer generalizações acerca dos resultados a que se chega, é necessário saber precisamente de que forma a amostra alvo do estudo é representativa da população para a qual essas generalizações se aplicam.

Para finalizar esta parte sobre a amostragem, gostaríamos de deixar um pequeno apontamento sobre a amostragem de situações e de comportamentos que é também possível ser feita.

4 Uma das críticas apontadas ao trabalhos de Freud consiste nas sobregeneralizaçoes

efectuadas a partir de uma amostra não seleccionada de indivíduos sem que tenha havido antecipadamente a confirmação de que aqueles resultados se aplicam a população em geral. O facto de estes sujeitos terem procurado apoio clínico origina a pergunta se os sujeitos fossem outros que não tivessem procurado essa ajuda forneceriam as mesmas informações ou se as informações recolhidas dirão respeito a este grupo específico.

2.2.4. Avaliação e Interpretação das Informações Recolhidas

Numa investigação, à fase da recolha de dados segue-se a fase da análise e interpretação desses mesmos dados. As análises estatísticas são, normalmente, utilizadas nesta fase.

Nas investigações de baixo constrangimento, os tratamentos estatísticos empregues são, na maior parte das vezes, médias, desvios padrões e contagens de frequências. Pode, no entanto, haver necessidade de efectuar algumas comparações entre grupos de sujeitos ou entre os mesmos sujeitos analisando as suas respostas em mais do que uma variável. As análises estatísticas não serão, portanto, tarefas muito complicadas quando comparadas com os tratamentos exigidos em investigações de níveis de constrangimento mais elevado.

Assim, porque nesta fase os procedimentos não implicam grande controlo estatístico, o investigador terá que se munir de cuidados e atenção especiais na interpretação dos resultados. O controlo da investigação tem como objectivo eliminar explicações alternativas para os resultados, de modo a tornar mais simples a tarefa de construir uma única e sólida conclusão (Graziano & Raulin, 1989). Ora, perante o baixo controlo dos estudos de baixo constrangimento, o investigador deverá ter consciência de que a construção de uma única conclusão está fora do seu alcance já que não poderá introduzir controlo onde originalmente ele não existe.