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Usando a restrição orçamentária para obter o valor de um QALY

2. Políticas baseadas em mercado:

4.4. Valoração Monetária de Impactos Ambientais

4.4.3. O método de restrição orçamentária do Stepwise

4.4.3.2. Usando a restrição orçamentária para obter o valor de um QALY

O valor monetário de um QALY é derivado da restrição orçamentária total, e o valor resultante é comparado e discutido no contexto dos resultados de outros métodos que chegaram em um valor para um QALY.

Segundo (WEIDEMA, 2009), a restrição orçamentária, isto é, o fato de que a renda anual média é o máximo que uma pessoa na média pode pagar por um ano adicional de vida, fornece um limite superior para o valor monetário de um QALY. Desde que um QALY é, por definição, um ano de vida em completo bem estar, a restrição orçamentária pode ser determinada como a potencial renda anual média em completo bem estar, que é igual à potencial produção econômica per capita anual.

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Ainda segundo o mesmo autor, como um QALY conceitualmente cobre todos os aspectos de bem estar humano pelos quais alguém poderia estar disposto a pagar, toda renda será, na média, gasta na produção total para manter o completo bem estar. Portanto, a potencial renda anual média em completo bem estar também fornece o limite inferior para o valor monetário de um QALY. Pode- se então concluir que exista uma equivalência conceitual entre o valor monetário de um QALY e a potencial produção econômica per capita.

A potencial produção econômica anual per capita é calculada, chegando a um valor equivalente a 74.000 €2003. Uma faixa de incerteza entre 62.000 – 84.000 €2003 por QALY foi estimada. A potencial produção econômica anual é calculada por considerar o Produto Interno Bruto (PIB) corrente dos EUA (39.500 €2003) como ponto de partida – atentando-se que os EUA tem o maior PIB no mundo, quando ignoradas algumas economias atípicas baseadas pesadamente em petróleo ou serviços bancários – e levando em consideração impactos decorrentes de desemprego e subemprego, impactos na saúde, barreiras transacionais e falhas na educação. Exceto por estes impactos, as diferenças correntes entre os EUA e a média global são assumidas a ser devidas à falta de infraestrutura física e social, não havendo outras razões aparentes para que o PIB dos países se diferenciem.

É interessante notar que estudos da disposição a pagar realizados como parte da atualização da metodologia ExternE (BICKEL E FRIEDRICH, 2005) (sobre o ExternE, ver item 4.5 desta dissertação) resultaram em um valor para um ano de vida de 74.627 EUR, ou seja, praticamente os mesmos 74.000 EUR2003 calculados como a potencial produção econômica anual pelo método da restrição orçamentária. Embora isto seja uma pura coincidência, confirma que o valor proposto pelo método está em uma faixa de valores aceitável (WEIDEMA, 2009).

84 4.4.3.3. Expressando impactos ao ecossistema em termos do bem estar

humano

A ausência de valores de disposição a pagar para impactos gerais em ecossistemas tem sido o principal obstáculo para a inclusão de tais impactos em análises de custo benefício.

Como uma alternativa mais sólida às estimativas de disposição a pagar, a modelagem de escolha (choice modelling) está ganhando terreno como uma forma de valorar impactos ao ecossistema. Esta já é amplamente usada para valorações de estado de saúde que nos permitem agregar diferentes impactos ao bem estar humano a uma unidade comum, o QALY. Por exemplo, poderia ser investigado qual sacrifício, em termos de desajustes ou anos de vida perdidos, poderiam ser aceitos para proteger certa área ambiental, ou, colocado em outros termos: qual redução na qualidade de vida é considerada equivalente à perda de uma certa área de ecossistema.

Entretanto, embora esta modelagem venha sendo aplicada para ecossistemas específicos e limitados geograficamente, somente um estudo (ITSUBO et al., 2004) foi realizado num nível que permita que se obtenha uma medida de BAHYs em termos de QALYs ou unidades monetárias. Em antecipação, e para estimular a sua execução, é sugerido um valor representativo dos impactos aos ecossistemas.

A derivação de um valor de referência para os ecossistemas inicia-se distribuindo a área de espécies no globo terrestre de 13x109 ha entre uma população global de 6,2x109 pessoas, notando que se fosse dada uma ponderação igual na valoração, isto resultaria em uma “taxa de troca” de 2,1 ha por vida humana, ou 2,1 ha-anos por ano de vida humana. Poder-se-ia também expressar estes 2,1 BAHY/QALY, uma vez que QALYs representam anos vividos em completo bem estar, correspondendo aos BAHYs representando anos de hectares de natureza em estado não-afetado. Para ajustar o fato de que a biodiversidade do ecossistema e a vida humana não tenham na prática o mesmo peso, sugere-se que uma meta de proteção de 10% do ecossistema global, posto na Convention

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on Biological Diversity (www.cbd.int) possa ser comparada a uma meta final de proteção do bem estar humano de 100%, dando um fator de ajuste de 10 para a “taxa de troca” entre biodiversidade e bem estar humano. O valor resultante de 21 BAHY/QALY ou 0,048 QALY/BAHY pode ser entendido como a completa proteção de uma área de ecossistema de 21 ha por um ano como tendo o mesmo valor de um ano de vida extra em completa saúde para uma pessoa, o que é equivalente a 3.500 EUR/BAHY (WEIDEMA, 2009).

São considerados ainda os resultados de valoração do ecossistema de dois outros estudos: o primeiro é o ExternE (European Comission, 2005), que chegou a valores na faixa de 63-350 EUR por ha de ecossistema protegido e o outro é o LIME (ITSUBO et al., 2004), chegando ao valor de 1500 EUR/BAHY. Ainda de acordo com (WEIDEMA, 2009), foi notado que o gasto com proteção ambiental em países desenvolvidos é na faixa de 1-2% do PIB, e conclui que a estimativa inicial (0,048 QALY/BAHY ou 3.500 EUR/BAHY) pode ser um limite superior para o valor a atribuir a ecossistemas. Assim, utilizando este limite superior e os valores do ExternE como limite inferior, chegou-se a uma ordem de magnitude entre 350 e 3500 EUR/BAHY.

Nas aplicações do método em (WEIDEMA et al., 2008), foi utilizado um valor correspondente aos gastos atuais com impactos nos ecossistemas globais, de 2% do PIB potencial, ou seja, 1.400 EUR/BAHY, destacando-se que este é puramente um valor de referência que mostra a importância de sermos capaz de expressar danos ecossistema em termos monetários, à espera de ser substituído por melhores estimativas.