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Uso da ferramenta “Pinakarri”

4 RESULTADOS OBTIDOS

4.2 ALGUMAS REFLEXÕES

4.2.4 Uso da ferramenta “Pinakarri”

No final do segundo dia, sábado, houve abertura para partilhas, em uma roda de diálogo. O convite feito foi para que algumas vozes trouxessem o que havia ficado de mais forte naquele dia. A maioria das falas trouxe apreciações, apontaram para atividades e o que aprenderam com elas ou qual foi o sentimento que trouxeram. Foi possível recapitular muitos passos que foram vivenciados e colher mais aprendizagens.

A partir das primeiras falas que trouxeram o ocorrido no dia anterior (saída de uma das participantes) e como o sentimento decorrido disto se propagava para o sábado, a roda começou a se desvirtuar do seu objetivo. Ao invés de trazer um ponto do dia (sábado) que fosse mais forte, algumas pessoas começaram analisar o ocorrido na sexta-feira, a querer justificar atitudes suas ou da participante que saiu e a discursar sobre a necessidade do acolhimento.

Um dos integrantes que não estava se sentindo contemplado pelo caminho que a conversa na roda tomou, pediu um Pinakarri. O grupo fez o minuto de silêncio, mas no retorno voltaram a debater o caso do dia anterior e sentiram o Pinakarri como uma falta de respeito, assumindo que quem tocou queria calar a pessoa que estava falando.

De acordo com Croft (2010), o Pinakarri deve ser utilizado com indivíduos que são totalmente engajados com a sua intenção na outra pessoa:

“Pinakarri ocorre quando todos os indivíduos são totalmente engajados com a sua intenção na outra pessoa, tentando ver e entender através ‘do andar de seus mocassins’ ou ‘ver com os seus olhos’. Os povos aborígines Mandjilidjara Martu do Grande Deserto Arenoso da Austrália Ocidental chamam de ‘Pinakarri’ a este processo de escuta profunda, sendo uma parte importante de sua cultura. É muito diferente da escuta cotidiana à qual

estamos acostumados, onde enquanto escutamos com a metade de um ouvido, estamos preparando internamente a resposta. O Pinakarri exige que seja silenciada a voz individual interna da mente, e a doação de uma empatia profunda, tanto para si mesmo como para o outro. Aqui, muitas vezes a insistência em um período de silêncio de 20 a 30 segundos pode ajudar.”

Para estar totalmente engajado na outra pessoa é preciso que o grupo esteja coeso, conectado e seguindo juntos para um mesmo ponto e esta não era a realidade do grupo de aplicação que tinha acabado de se conhecer e ainda não possuíam clareza e acordo de objetivo comum.

Por estas características e por um não aprofundamento na explicação do uso e do intuito da ferramenta, sua utilização neste momento de conflito, causou diferenças de interpretações e gerou sentimentos negativos. Ao invés de uma escuta profunda e de potencialização do que está sendo dito e vivido (empatia profunda), o Pinakarri foi entendido como um sinal de exclusão.

“O propósito por trás desta prática é sobrepor alguns aspectos do comportamento humano. Por um lado o Pinakarri ajuda as pessoas que estão no momento em conflito ao tentarem ultrapassar barreiras internas. Nós tendemos a nos fixar mais e mais a um ponto de vista quanto mais outra argumente contra ele. E frequentemente não faz nenhuma diferença se a outra pessoa pode estar certa. Ao efetuarmos rápidas pausas de Pinakarri nós temos a chance de ‘esfriarmos’ e então olharmos a discussão que acontece com um ponto de vista mais neutro.” (Guia Prático Dragon Dreaming)

O propósito do Pinakarri não foi alcançado e a discussão continuou. Em busca de retornar ao objetivo original, a equipe pediu a voz e valorizou todas as diferentes falas explicando que apesar de serem diversas, elas não se excluem. Não há um posicionamento válido e outro não. Um posicionamento é legítimo e o outro também.

Buscou-se honrar todas as falas e voltar para o objetivo inicial, porém o grupo manteve-se na discussão com algumas pessoas defendendo que era uma necessidade do grupo cuidar deste ponto que tinha abalado as pessoas. Nesta defesa, houve manifestação contrária de quem não se reconhecia nesta necessidade

e, portanto, não se sentia parte do grupo. Este momento o conflito se acentuou e as falas começaram a mudar o tom e se tornar agressivas. Foi necessária a intervenção das facilitadoras para explicitar que nenhuma fala deveria ser levada para o pessoal.

Que ninguém deveria se ofender, pois a fala do outro diz respeito apenas a ele.

No dia seguinte, quando a roda de diálogo foi proposta novamente, compreendendo que a maturidade do grupo não estava consolidada para o uso do Pinakarri e, para evitar que situação semelhante acontecesse, foi feito uso do bastão da fala, todos apenas ouviam enquanto alguma pessoa falava.

Também no final do segundo dia, quando apenas nós, as facilitadoras, conversávamos e partilhávamos as experiências e houve uso da ferramenta do Pinakarri, novamente houve sentimento de exclusão. Após o silêncio, algumas de nós se manifestaram de forma contrária ao pedido, entendendo que houve corte da fala da outra pessoa e que o silêncio era muito mais uma necessidade individual do que do grupo, portanto havia sido inoportuno.

Entendemos que, mais uma vez, o grupo (mesmo o grupo de pesquisa) não estava maduro o suficiente para a aplicação da ferramenta. O Pinakarri deve significar empatia profunda e potencializar o que está sendo dito, por meio do silêncio. Não deve ser entendido como um “calar a boca” e nem deve gerar expectativas de uma explicação. Quem pede deve ter maturidade de entender a necessidade de silêncio do grupo. Os demais que recebem também devem ter maturidade para respeitar a necessidade do silêncio e não desvirtuar seu entendimento.

Ficou claro que o grupo não estava coeso e maduro o suficiente para o uso de uma ferramenta tão delicada. O grupo se conhecia há muito pouco tempo. Porém, as divergências geradas pelo uso do Pinakarri nos trouxeram reflexões importantes, de novo, sobre o sentimento de inclusão e exclusão. Os Pinakarris pedidos geraram sentimento de exclusão por parte de quem falava. Por sua vez, quando não aceito, geraram sentimento de exclusão também por parte de quem pediu. Isso nos mostra como todos precisam se sentir incluídos para estar bem. O sentimento de exclusão torna o processo enfadonho, triste e não divertido.