4. SISTEMA CICLOVIÁRIO
4.4 O Uso das Bicicletas no Brasil e no Exterior
Ao longo dos últimos anos, várias cidades brasileiras resolveram incentivar o uso
intensivo das bicicletas, expandindo a malha cicloviária e as faixas de tráfego
destinadas a circulação deste modal. Porém, em cidades como Rio de Janeiro e São
Paulo, as ciclovias são utilizadas normalmente para viagens a lazer, pois as
distâncias percorridas em viagens regulares são maiores (MAIA et al, 2004).
Na cidade do Rio de Janeiro a Lei Complementar nº 77, de 22 de Abril de 2005
exige que shoppings centers e hipermercados destinem áreas para estacionamento
de bicicletas. Apesar dessa obrigatoriedade muitos shoppings ainda não
implantaram paraciclos e bicicletários. O TRANSPORTE ATIVO, (2007) fez uma
pesquisa em 24 dos 50 shoppings apurados na cidade e constatou que dezoito possuíam bicicletário, dois estavam se adequando e quatro não possuíam nenhum
tipo de estacionamento para bicicletas. Além disso, constataram que dentre os
dezoito shoppings visitados que tinham bicicletário, quatro estavam regulares e
quatorze irregulares.
Em São Paulo a Lei nº 13.995, de 10 de Junho de 2005 também obriga a criação
de estacionamento para bicicletas em órgãos públicos municipais; parques;
shopping centers; supermercados; instituições de ensinos públicos e privados;
agências bancárias; igrejas e locais de cultos religiosos; hospitais; instalações
desportivas; museus e outros equipamentos de natureza culturais (teatro, cinemas, casas de cultura, etc.); e indústrias (TRANSPORTE ATIVO, 2007). Além disso, a
cidade de São Paulo possui a Lei nº 14.266, de 6 de fevereiro de 2007 que dispõe
sobre a criação do sistema cicloviário no município de São Paulo. O artigo 3 desta
lei menciona que São Paulo deverá agregar aos terminais de transporte coletivo
urbano infra-estrutura apropriada para a guarda de bicicletas (estacionamentos) e estabelecer negociações com o governo estadual com o objetivo de permitir o
acesso e transporte de ciclistas e bicicletas em vagão especial no metrô e em trens
metropolitanos.
Na cidade de Salvador, segundo estudo realizado por RIBEIRO & FEITAS, (2005) uma das dificuldades de deslocamento dos usuários pelo modo bicicleta está
estações de trem. Muitos ciclistas realizam a integração ilegalmente. As bicicletas
são presas com correntes na grade de proteção da estação Periperi e os ciclistas
utilizam o trem até a estação Calçada possibilitando a partir daí, acesso a outras áreas da Cidade.
No exterior, várias cidades, entre elas Groningen na Holanda, Beijing na China e
Tóquio no Japão, decidiram priorizar o transporte público e a integração das
ciclovias como importante instrumento para melhorar o fluxo no trânsito urbano, a
qualidade de vida e a paisagem urbana. Nessas cidades os índices de
deslocamentos urbanos utilizando o modo bicicleta confirmam a viabilidade deste meio de transporte e demonstram o seu potencial de expansão em ambientes
urbanos de grandes cidades, conforme pode ser visto na tabela 4.4 (PREFEITURA DE SÃO PAULO, 2006).
TAB. 4.4 Porcentagem de viagens diárias utilizando ciclovias
CIDADE % USO CICLOVIAS
Groningen, Holanda 50%
Beijing, China 48%
Tóquio, Japão 25%
Moscou, Rússia 24%
Nova Deli, Índia 22%
Manhattan, NY, EUA 8%
Toronto, Canadá 3%
Londres, Inglaterra 3%
Fonte: http://www.aulasp.prefeitura.sp.gov.br/transportesustentavel3.htm
Para obter sucesso nesta integração é necessário que exista um local seguro
(bicicletário/paraciclo) para os ciclistas estacionarem seus veículos, ou que seja
permitida a circulação dos mesmos dentro do transporte coletivo, como ocorre em
Cuba, Holanda e França (figura 4.14, 4.15 e 4.16 respectivamente). Além disto, as
estações devem ser projetadas de forma a facilitar o acesso das bicicletas, evitando
FIG. 4.14 Ciclobus - Cuba
FIG. 4.15 Copenhagen (Metrô) – Holanda (Trem)
Algumas cidades européias, para desencorajar o uso de automóveis e estimular
o uso da bicicleta, estão cobrando pedágio urbano e altas taxas para gasolina e
estacionamento de automóveis. Além disso, eles estão adotando medidas para
incentivar formas mais sustentáveis de transporte (MAIA, 2004).
Recentemente, o Parlamento Europeu votou a favor do direito dos passageiros ferroviários de transportar bicicletas em trens por toda a União Européia. Na
Alemanha, na Dinamarca, na Suíça e nos Países Baixos o uso da bicicleta está
aumentando significativamente.
Na Alemanha os primeiros investimentos no modo bicicleta aconteceram no final da década de 70 e início da década de 80, quando o governo federal decidiu
construir várias ciclovias e lançar um programa para promover a bicicleta nas
cidades. Com estes investimentos, a divisão modal mostrou um crescimento da
proporção de viagens feitas utilizando o modo bicicleta de 8 para 12% entre 1972 e
1995 (PUCHER et al, 1999 apud MARTENS, 2004). Atualmente, várias estações de
trem possuem estacionamentos para bicicletas que permitem a integração entre os
modos de transporte. Munique, por exemplo, possui uma rede cicloviária de
aproximadamente 700 km que alcança praticamente toda a cidade
(LANDESHAUPTSTADT MÜNCHEN, 2000 apud MARTENS, 2004). Ela também foi
uma das primeiras cidades a instalar equipamentos que facilitem a integração da
bicicleta com outros modos de transporte, como paraciclos e bicicletários em
estações de metrô e trens. O número de estacionamentos de bicicletas em Munique
e região metropolitana aumentou de 19 mil em 1986 para mais de 41 mil em 1998
(BÖRDLEIN, 2000 apud MARTENS, 2004).
A bicicleta nas cidades dinamarquesas, segundo ANPET/BNDES (2007(b)) chega a ser o modo predominante de acesso às estações (25% a 39% dos
passageiros chegam de bicicleta). Segundo MIRANDA, (2006) na cidade de Copenhagem há 353 km de ciclovias e estão construindo mais 100 km, metade
desse valor em parques e o restante para ciclovias com rotas para o trabalho. Um terço dos deslocamentos diários (100 mil viagens/dia) é realizado por bicicleta. Na
maioria dos trens e metrôs e até em táxis as bicicletas são aceitas. Desde 1995, a
cidade possui uma frota pública de bicicletas que atualmente conta com três mil
e o numero de acidentes diminuiu 50% (ANPET/BNDES, 2007(b)). Nesta cidade também é permitido embarcar bicicletas nos ônibus, trem e metro
A Holanda é o país que mais utiliza bicicleta no mundo. PUCHER e DIJKSTRA,
2000 apud MARTENS, 2004 menciona que na Holanda mais de 27% de todas as
viagens são realizadas por bicicleta, enquanto que no Brasil, segundo a ANTP,
(2005) apenas 2,7% das viagens são realizadas por bicicleta. Desde a década de
70, com a crise do petróleo e a preocupação com os impactos negativos
provenientes do uso de veículos automotores, os holandeses resolveram investir em
ciclovias. Desde então, a rede de ciclovias mais que dobrou de comprimento, de
9282 km em 1978 para 18.948 km em 1996. Além disso, a Holanda desenvolveu um
programa para incentivar adolescentes a utilizarem a bicicleta em viagens com destino à escola. Atualmente, 60% das viagens casa – escola são realizadas por
bicicletas (BEURET e CÂMARA 2000 apud MAIA et al. 2004). Esses mesmos
autores ainda mencionam que no Reino Unido esse percentual é de somente 4% e
aproximadamente 75% dos estudantes possuem bicicleta, o que equivale a 18 milhões de bicicletas. Em todas as estações de trens e metrôs há estacionamento
para bicicletas e, em algumas delas, serviços de aluguel e manutenção e armários
para guardar equipamentos. Isso encoraja os ciclistas a utilizarem a bicicleta. Além
de uma infra-estrutura exemplar a Holanda conta com uma forte cultura voltada para o uso da bicicleta.
Em Limburg, na Bélgica há também medidas para incentivar os estudantes a
utilizarem o modal bicicleta. Esse incentivo é dado através da formação de
pequenos grupos de estudantes chamados de “bicycle pooling” que circulam em
uma mesma rota com destino a escola. Esses grupos são formados por estudantes
que moram próximos e as viagens são supervisionadas por um adulto
(VANCLUSEN, 1999 apud MAIA et al 2004).
Na Inglaterra, muitos empregadores têm incentivado o uso da bicicleta. Os
trabalhadores contam com reembolso referente à distância percorrida nas viagens
casa – trabalho e com subsídios para comprá-las. Para isso, os empregadores
recebem incentivos fiscais do governo federal (CÂMARA, 2000 apud MAIA et al,
2004).
A legislação da cidade de Paris é muito severa. Bicicletas sem freio, buzina e
reduzir em 40% o número de veículos em circulação até 2020, a prefeitura depositou
na cidade em 2007 mais de 10.000 bicicletas para integração com o transporte
público e instalou mais de 750 pontos de bicicleta. Com este sistema os moradores
e turistas pegam a bicicleta em um ponto próximo ao início da viagem e no final da
mesma a depositam num outro ponto perto do seu destino. Para evitar roubos os usuários são obrigados a deixar uma pré-autorização de débito no cartão de crédito
de €150,00, que equivale ao valor de uma bicicleta e paga-se uma tarifa pelo uso.
Também na França, Lyon adotou esta estratégia e obteve muito sucesso e Marselha
e Provença pretendem adotá-la (O GLOBO, 2007).
4.5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Pode-se verificar que a bicicleta permite a inclusão na sociedade das pessoas
que possuem baixa renda e que normalmente, moram em áreas distantes dos
centros urbanos. Além disso, observou-se que mesmo para viagens longas, esse
modo de transporte pode ser indicado quando integrado ao transporte público. Isso
pode ser comprovado a partir de exemplos do uso da bicicleta em vários países.
No capítulo seguinte serão apresentados os métodos de análise multicritério
que podem ser utilizados no processo de tomada de decisão quanto ao melhor local
para a implantação de estacionamentos de automóveis e bicicletas para integração