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Conceitos e Determinantes Sociais de Saúde

CAPÍTULO 2- Uso de Substâncias Psicoativas e o Serviço Social: Conceitos e Determinantes Sociais de Saúde

2.1 Uso de Álcool e outras drogas e seus conceitos

O uso de drogas na história da humanidade é uma prática milenar e universal, como pode-se observar na fala de Sollero (1979):

Procurou o homem, desde a mais remota antiguidade, encontrar um remédio que tivesse a propriedade de aliviar suas dores, serenar suas paixões, trazer-lhe alegria, livrá-lo de angústias, do medo ou que lhe desse o privilégio de prever o futuro, que lhe proporcionasse coragem, ânimo para enfrentar as tristezas e o vazio da vida.

(SOLLERO, 1979, p. 39).

Nesse sentido, o homem, nas diversas culturas, sociedades e épocas sempre consumiu drogas, o que, na maioria das vezes, não se concebeu em problemas e motivos para alarmes sociais. Elas eram consumidas com fins religiosos, terapêuticos e lúdicos, entendidas como uma manifestação cultural e humana (BRASIL, 1999). O café, as bebidas alcoólicas, a cocaína, o rapé são substâncias que segundo Bastos e Cotrim (1998), estiveram e ainda estão presentes nas cerimônias religiosas e em medicamentos caseiros, dentre outros.

Nessa direção, existe uma relação histórica dos homens e das mulheres com as drogas, pois não existiu sociedade que não se tenha registros do uso de alguma substância psicoativa. Logo, o uso de drogas e seus significados são produtos da práxis social17 historicamente construída: sejam os usos terapêuticos, os rituais ou os alimentares das sociedades tradicionais, seja os usos hedonistas ou dependentes, atualmente presentes na sociedade capitalista tardia (BRITES, 2006).

Ao longo da história da sociedade, muitas demandas foram postas à atuação profissional do assistente social, as então denominadas expressões da Questão Social, entendidas como o “conjunto das expressões das desigualdades da sociedade capitalista”

(IAMAMOTO, 1999, p. 27).

Nessa perspectiva, contemporaneamente, segundo a autora Woerner (2015), o uso e abuso de drogas, aqui denominadas substâncias psicoativas (SPA), tem se constituído enquanto uma expressão da Questão Social, sendo considerada uma problemática de Saúde Pública. De acordo com a autora, o trabalho do assistente social também contempla a atuação junto a dependentes químicos, assim denominados aqueles que fazem uso abusivo de substâncias psicoativas e de seus familiares. Essa intervenção é materializada em distintos

17 A práxis dos seres humanos é previamente determinada de forma consciente, é justamente isso que diferencia a práxis humana. O homem cria suas próprias necessidades, mesmo a necessidade de alimentação é socialmente condicionada no homem. (VASQUES, 2007)

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espaços sócio ocupacional e a modalidades de atendimento, sendo os profissionais requisitados a intervir em tais situações.

Nessa lógica, Crives & Dimenstein (2003) sinalizam que, nas últimas décadas, indicadores apontam que o consumo alarmante tem tomado dimensões preocupantes, tendo graves consequências, sobretudo para os jovens e adultos, materializando-se- nos vários aspectos da vida cotidiana, como por exemplo, em relação à família, comprometendo vínculos afetivos, no trabalho, no trânsito, na saúde, e inclusive, na disseminação do vírus HIV (BRASIL, 1999).

De acordo com Bastos e Cotrim (1998) incontáveis são os danos secundários ao consumo abusivo de substâncias psicoativas, a saber: acidentes de trânsito, overdoses, envenenamentos, doenças cardiorrespiratórias e a violência resultante da ação farmacológica das drogas, como: brigas, homicídios, furtos e roubos, etc.

Além desses, muitos são os danos sociais relacionados à Saúde Mental que com o uso de substâncias psicoativas acentuam mais ainda a gravidade, tais como a depressão, a ansiedade, e outros transtornos mentais, sem contar as alterações significativas de percepção, de pensamento e de humor. Estudos revelam que cerca de uma em cada cinco pessoas que faz uso de drogas ilícitas possui critério para diagnóstico de dependência, e essas substâncias afetam a percepção, o humor e a consciência de seus usuários, o que pode reduzir e/ou influenciar a capacidade dos usuários em exercer o controle sobre o uso de drogas.

Dessa maneira, com as implicações e uma profunda incapacidade e perda da Saúde Física, as pessoas com transtornos causados pelo uso de álcool e outras drogas podem sofrer gravemente com problemas psicológicos e psicossociais, problemas interpessoais, perda de emprego, dificuldades cognitivas, bem como problemas com a justiça.

Considerando a temática do uso de drogas, é fundamental esclarecer as diferenças que existem entre o uso, o abuso e a dependência de SPA’s. Todavia, tais diferenças apresentam-se em uma linha tênue, uma vez que o término de uma e início de outra não são evidentemente definidos, bem como a passagem entre tais estágios não ocorre de forma linear. Assim sendo, efetivar a identificação do uso problemático de SPAs se institui uma tarefa ainda controversa, sobretudo com relação à definição do que se estabelece como normalidade e “anormalidade”18 do uso (PECHANSKY et al, 2004).

Nesse sentido, segundo a OMS, os principais padrões de uso de substâncias psicoativas, são o uso, o abuso e a dependência. De maneira sintética pode-se entender o

18 Destaque do autor

estágio de uso como a utilização esporádica de algum tipo de SPA, o abuso como um uso que acaba por acarretar algum tipo de prejuízo, e a dependência encontra-se associada ao surgimento de vários problemas, bem como a ausência de controle sobre o uso.

Na atualidade, a dependência de substâncias psicoativas é diagnosticada tomando como base os critérios definidos na Classificação Internacional de Doenças – CID (OMS, 1993) e no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM, Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders 1952) (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2013) adquirindo, dessa forma, status de doença propriamente dita. Os autores Edwars e Gross (1999) utilizam elementos-chave para caracterizar a síndrome da dependência, sendo eles: Estreitamento do repertório, a saliência do uso, o aumento da tolerância, os sintomas de abstinência, o alívio ou evitação dos sintomas, a percepção subjetiva da compulsão para o uso e a reinstalação após a abstinência.

Estudos do UNODC ano de 2014 mostram que cerca de 243 milhões de pessoas, número que se equipara a 5% da população, faz o uso de substâncias psicoativas ilícitas e, destes, 0,6% desenvolvem a dependência de tais substâncias, causando intenso abalo na vida individual, familiar, social e ocupacional. Três anos depois, segundo o Relatório Mundial sobre Drogas de 2017, é evidenciado que cerca de 250 milhões de pessoas usaram drogas no ano de 2015 (UNODC, 2017)

Desta forma, é evidente que o fenômeno do uso, do abuso e da dependência de substâncias psicoativas tem tomado proporções cada vez maiores, acarretando consequências adversas em escala individual e coletiva. Os reflexos de tal realidade são percebidos na esfera da Saúde, da Segurança Pública e as preocupações se ampliam nas questões concernentes ao tráfico de drogas e à violência em seus diversos aspectos.

À vista disso, os impactos de tal fenômeno não ficam restritos ao indivíduo que faz o uso da substância propriamente dita, mas são excedidos para o escopo familiar e comunitário, constituindo-se como preocupação e foco de ação de diversas políticas públicas e demais setores da sociedade civil.

Por muito tempo, no Brasil, o uso de substâncias psicoativas foi encarado somente sob o prisma da segurança pública e, só no séc. XX, devido aos diversos impactos na vida social, política e econômica, que se tornou uma questão de saúde pública. Segundo o relatório de “Gestão 2003-2006: Saúde mental no SUS: acesso ao tratamento e mudança do modelo de atenção”, a saúde pública brasileira não vinha se ocupando devidamente do grave problema da prevenção e do tratamento de transtornos associados ao consumo de álcool e outras drogas, produzindo historicamente uma importante lacuna na política pública de saúde, deixando-se a

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questão das drogas para as instituições da justiça, segurança pública, pedagogia, benemerência, associações religiosas.

A complexidade da problemática cooperou para a relativa ausência do Estado, e possibilitou a disseminação em todo o país de alternativas de atenção de caráter total, fechado, baseadas em práticas predominantemente medicamentosa, disciplinar, proibicionista ou, ainda, de cunho religioso, tendo como objetivo quase exclusivo a ser alcançada a abstinência.

Muitos estudiosos do assunto (ACSERALD, 2003; TIBA, 1999; SUDBRACK et al, 2003) advertem que as políticas antidrogas precisam romper com a perspectiva exclusivamente repressiva e investir categoricamente em ações preventivas. São harmônicos em afirmar que a repressão por si só, não é capaz de prevenir o uso indevido de drogas. Pois como é sabido, o uso de drogas é uma prática que ultrapassa as condições de decisão e de escolha dos sujeitos.

De acordo com os vários teóricos do assunto (ACSERALD, 2003; TIBA, 1999;

SUDBRACK et al, 2003), o consumo pode ser feito de forma ocasional, sem nenhuma determinação orgânica, porém também pode ocorrer por determinação orgânica. Nesta última, as pessoas consomem drogas pela existência de dependência físico-química e psíquica, isto é, o consumo de drogas é uma doença.

Segundo Silva (2007), os efeitos negativos consequentes do uso de drogas fizeram com que fosse construída paulatinamente e no interior do Estado Brasileiro uma tendência de enfrentamento a essa problemática. No início, prevaleceu a perspectiva de repressão. Nos meados dos anos 1990, surgiu outra proposta defendida por estudiosos que criticavam a repressão: a perspectiva da prevenção e do tratamento.

Essa proposta, de acordo com a supracitada autora (2007) rompeu com a tendência repressiva e incluiu a temática das drogas no centro do debate das políticas públicas, como uma expressão da Questão Social. Deste modo, a questão das drogas foi inserida na agenda pública passando a constituir-se como uma construção coletiva, que deveria envolver os sujeitos em todas as suas relações sociais: na família, na vizinhança, nos grupos de amigos, de trabalho, na escola, isto é, em todos os espaços sociais.

Nesse sentido, no ano de 2006, o Brasil instituiu a Lei nº 11.343/2006 que estabelece a necessidade do acompanhamento psicossocial ao usuário de substâncias psicoativas, oportunizando a reflexão do mesmo sobre a sua prática ao invés da privação de liberdade, sendo aplicadas penas alternativas ao dependente/usuário e não medidas de encarceramento (BRASIL, 2006).

A Lei nº 11.343/2006 foi aprovada e instituiu o Sistema Nacional de Políticas Públicas sobre Drogas (SISNAD)19, inserindo o Brasil em evidência no cenário internacional ao instituir o SISNAD, passou a prescrever medidas para prevenção do uso indevido, atenção e reinserção social de usuários e dependentes de drogas, em consonância com a atual política sobre drogas. Esta lei procura harmonizar os dois mecanismos normativos: as Leis nº 6.368/1976 e 10.409/2002, e os anula a partir de sua promulgação, com o reconhecimento das diferenças entre a figura do traficante e a do usuário/dependente, os quais passaram a ser tratados de modo diferenciado e a ocupar capítulos diferentes da lei.

O Estado Brasileiro entendeu que a questão das drogas é complexa e que não deveria ser entendida somente sob o prisma judicial, nesse sentido, compreendeu que os usuários e dependentes de substâncias psicoativas não poderiam ser penalizados pela justiça com a privação de liberdade. Isto posta, a justiça retributiva fundamentada no castigo é deslocada pela justiça restaurativa, cujo propósito maior é a ressocialização por meio de penas alternativas:

1. Advertência sobre os efeitos das drogas;

2. Prestação de serviço à comunidade em locais/programas que se ocupem da prevenção/recuperação de usuários e dependentes de drogas;

3. Medida educativa de comparecimento à programa ou curso educativo.

Além do mais, existem, atualmente, duas políticas públicas para as questões relacionadas ao consumo de álcool e outras drogas: uma elaborada pelo Ministério da Saúde, de Atenção aos Usuários de Álcool e outras Drogas, e outra, aprovada pelo Conselho Nacional Antidrogas da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas – SENAD.

Segundo a Política de Atenção Integral aos usuários de Álcool e Outras Drogas, são práticas que devem ser obrigatoriamente consideradas em uma perspectiva ampliada de saúde pública: proporcionar tratamento na atenção primária; garantir o acesso a medicamentos, garantir atenção na comunidade; fornecer educação em saúde para a população, envolver comunidades /famílias /usuários; formar recursos humanos, criar vínculos com outros setores, monitorizar a saúde mental na comunidade, dar mais apoio à pesquisa e estabelecer programas.

No âmbito desta mesma política, no Brasil, é notório que o tema tem sido tratado de modo pontual, contando com esforços de setores e grupos preocupados com o aumento

19Para maiores esclarecimentos, disponível em: https://obid.senad.gov.br/nova-arquitetura/a-politica-sobre-drogas-no-brasil/legislacao/sistema-nacional-de-politicas-publicas-sobre-drogas-sisnad> Acesso em:

06.mar.2019.

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exponencial do problema do uso abusivo de álcool e outras drogas. O Ministério da Saúde assume de modo integral e articulado o desafio de prevenir, tratar, reabilitar os usuários de álcool e outras drogas como um problema de saúde pública (BRASIL, 2003). Esta deliberação responde às propostas que foram destacadamente recomendadas pela III Conferência Nacional de Saúde Mental, em dezembro de 2001 (III CNSM, Relatório Final, 2001).

Conforme Vargas & Oliveira (2012) embora as reformas na saúde, educação ou previdência social anunciadas no mundo pós-moderno sejam, na maioria das vezes, para piorar a vida dos cidadãos, há de se ponderar que, teoricamente, a Política Nacional para a Atenção aos Usuários de Álcool e outras Drogas, do Ministério da Saúde, concorre para a emancipação social dessas pessoas, uma vez que propõe estratégias que promovem o cuidado, a autonomia, a reabilitação psicossocial e a inclusão social pelo trabalho, uma vez que as pessoas se reconhecem como cidadãs, pelo trabalho.

Nessa direção, a vigente Política Nacional do Ministério da Saúde para a atenção integral dos usuários de álcool e outras drogas observou as prescrições das Conferências de Saúde Mental e da Lei nº 10.216 também conhecida como Lei da Reforma Psiquiátrica que instituiu um novo modelo de tratamento aos transtornos mentais no Brasil e redirecionou o modelo de atenção, buscando a reabilitação psicossocial das pessoas que sofrem de transtornos mentais e dos usuários de álcool e outras drogas.

Uma das estratégias de cuidado estabelecida na Lei nº 10.216 é a Redução de Danos (RD), a definição do objetivo, das metas intermediárias e dos procedimentos não é imposta, mas discutida com o usuário. A interrupção do uso de álcool e de outras drogas quase sempre é um dos objetivos, contudo outros avanços são valorizados, como evitar colocar-se em risco, melhorar o relacionamento familiar e recuperar a atividade profissional.

De acordo com o Portal do SENAD (2016), muitas outras dimensões da vida e relacionamento familiar e no trabalho/escola, condições clínicas e psíquicas, relações com a lei, são usadas também para a avaliação do resultado do tratamento. A participação do usuário nas escolhas das metas e das etapas do tratamento valoriza e aumenta a sua motivação e seu engajamento.

Por esse ângulo, segundo a Política Nacional a Atenção Integral a Usuários de Álcool e outras Drogas, do Ministério da Saúde a abstinência não pode ser, então, o único objetivo a ser alcançado. Muito pelo contrário, quando se trata de cuidar de vidas humanas, tem-se que, necessariamente, lidar com as singularidades, com as diferentes possibilidades e escolhas que são feitas. As práticas de saúde, em qualquer nível de ocorrência, devem levar em consideração esta diversidade. Os profissionais de saúde, e dentre estes os assistentes

sociais, devem acolher, sem julgamento, o que em cada situação, com cada usuário, é possível, o que é necessário, o que está sendo demandado, o que pode ser ofertado, o que deve ser feito, sempre estimulando a sua participação e o seu engajamento no processo de tratamento.

Em suma, levando em consideração as reflexões de Pereira, Vargas & Oliveira (2011), se a Política foi concebida a partir das demandas sociais, o que lhe confere legitimidade, o Ministério da Saúde e os trabalhadores em saúde mental devem investir muito, a fim de que ofereçam, no futuro, a assistência que desejam para os usuários e para os dependentes de álcool e outras drogas.

Com o objetivo de que isso aconteça, é necessário que se lance mão de uma assistência mais humana, pautada em uma maior sensibilidade para a escuta, desprovida de preconceitos. Essa assistência poderá ser viabilizada pela mudança de atitudes, busca de conhecimentos, aperfeiçoamento de habilidades e reconhecimento da existência do outro considerando o leque de limites e de possibilidades.

2.2 Substâncias psicoativas e Serviço Social: contextualização com os