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Capítulo 3 Estudos de caso no setor de autopeças

3.3. Resultados

3.3.4. Uso do Seis Sigma

No survey, identificou-se que o Seis Sigma estava entre os métodos menos citados pelos 96 respondentes, conforme consta na Tabela 3.5, tendo sido mencionado em 26 empresas, das quais 21 continuavam utilizando-o e 15 envolviam os trabalhadores com o método. Observou-se que das cinco empresas que descontinuaram o uso do método, quatro não envolviam o trabalhador, o que pode estar associado ao seu abandono. O survey apontou, ainda, que o método começou a ser adotado pelas

85 empresas a partir de 1999, tendo um pico de adesões entre 2005 e 2008. Nos anos que antecederam ao survey (2013), verificou-se que poucas empresas participantes aderiram ao método, o que, apesar das limitações representadas pelo tamanho da amostra, pode sinalizar uma tendência de diminuição da adoção do Seis Sigma.

A maioria das empresas do survey que adotou o método eram de grande porte, tal como a Freios e a Rolbrea, estudadas nessa pesquisa.

Ao contatar as seis empresas por telefone, que, segundo informado no survey, usavam o Seis Sigma, verificou-se que três delas não o utilizavam ou não deram continuidade à sua implementação, a saber, a Metalplas, Mancompo e Morames. No caso da Metalplas, o analista informou que há intenção de iniciar alguns projetos. Talvez essa intenção tenha levado o coordenador da qualidade, respondente do survey, a declarar que a empresa já utilizava o Seis Sigma. Como apontado por Helper e Kleiner (2009), esse problema, de se obter respostas que refletem mais as intenções dos respondentes do que os fatos propriamente, pode ocorrer em pesquisas tipo survey. Esse problema pode ser contornado em estudos de caso aprofundados, o que se confirma no caso da presente pesquisa, que permitiu acesso a informações não disponibilizadas no survey.

O analista de qualidade da Mancompo declarou que alguns funcionários chegaram a se certificar no método por meio de treinamentos oferecidos por consultorias, porém nenhum projeto foi desenvolvido e o uso das ferramentas não foi disseminado entre os funcionários. A Morames lança mão de algumas ferramentas e ações de melhorias, mas não há desenvolvimento sistemático de projetos ou formação de grupos, conforme recomendação do método. O início do processo de certificação de belts, no caso da Mancompo, e o uso de ferramentas do Seis Sigma, no caso da Morames, pode ter levado os respondentes dessas empresas a declarar, no survey, que utilizavam o Seis Sigma.

Nos demais casos contatados somente ao telefone, o Seis Sigma vinha sendo implementado na época do survey, mas depois deixou de ser usado, como apontado pelos entrevistados da Eletrométrica e Tecsol. O coordenador da Eletrométrica informou que não havia tempo para realizar os projetos conforme a recomendação dos manuais, o que motivou seu abandono. Na Tecsol, o gerente relatou que a Ford exigia o

86 método, o qual foi abandonado quando a empresa deixou de fornecer para o setor automotivo.

O líder da qualidade da Manguitubo também informou que uma montadora cliente exige o uso do Seis Sigma. Ele afirmou que a empresa dá suporte ao desenvolvimento de um projeto Seis Sigma ao ano, realizado pela montadora cliente na planta da Manguitubo. Trata-se, segundo ele, de uma exigência para a continuidade do fornecimento.

Por outro lado, os entrevistados da Rolbrea, Comtub e Freios disseram que nenhum cliente exige que o método seja adotado e implementado nas fábricas ou que seus funcionários se certifiquem.

Apesar de não ter alegado exigência das montadoras, o gerente da Comtub certificou-se como belt por incentivo de um cliente do setor automotivo. Na Rolbrea, a iniciativa por implementar o Seis Sigma veio da matriz, assim como na Freios. Segundo o black belt da Freios, a decisão pela adoção do Seis Sigma foi uma "diretriz global", aplicando-se a todas as unidades e áreas da empresa. Deu-se em 2001, logo depois da aquisição pela empresa de origem norteamericana, que acarretou um conjunto de mudanças na organização.

Na Rolbrea, o uso do Seis Sigma parece ser secundário ao lean e ao kaizen. Nessa empresa, não se usam os softwares próprios, desenvolvidos para o Seis Sigma, ou algumas de suas ferramentas (como os experimentos). Apesar disso, o coordenador da Rolbrea apontou que alguns princípios do Seis Sigma são aproveitados e disseminados na organização.

Implementamos a filosofia no dia a dia. Ao invés do relatório com um Pareto no Excel®, ele usa um teste de hipóteses, verifica a normalidade, ele usa as ferramentas, o Minitab®, enriquecem o relatório, antes era meio que “achismo”.

O chefe da qualidade afirmou que a Rolbrea procura usar o tipo de raciocínio e algumas ferramentas do Seis Sigma para condução dos projetos kaizen, mas não realiza

87 outros projetos Seis Sigma além daqueles exigidos para a obtenção do certificado de black belt. Na Rolbrea, os projetos Seis Sigma parecem ter por principal finalidade a capacitação e certificação de seus especialistas. O técnico de engenharia de processo entrevistado, no entanto, referiu-se a outros projetos Seis Sigma, desvinculados da certificação dos black belts.

Em relação ao envolvimento dos trabalhadores com o Seis Sigma, para duas empresas contatadas ao telefone, houve divergência dos dados levantados nas entrevistas em relação ao survey. Os respondentes da Mancompo e da Eletrométrica haviam declarado, na ocasião do survey, envolver os trabalhadores no Seis Sigma, porém não confirmaram tal informação ao telefone. A Mancompo chegou a certificar alguns funcionários, como apontado, porém não deu continuidade aos projetos de Seis Sigma. Na época do survey, pode-se inferir que a empresa tinha a intenção de usar o método e envolver os trabalhadores, o que pode ter suscitado a resposta concedida, caracterizando o problema descrito por Helper e Kleiner (2009) referente às pesquisas survey. Em relação à Eletrométrica, quando utilizava o Seis Sigma, envolvia, nos projetos, técnicos de processo e da qualidade e funcionários da área da engenharia, mas não trabalhadores de fábrica.

No survey, a Comtub declarou utilizar o Seis Sigma e envolver o trabalhador, porém, a entrevista e as observações realizadas neste estudo indicaram que a empresa não utiliza efetivamente o método e, quando o fez, o trabalhador não estava envolvido. Esse contraste de informações reforça a complementaridade dos estudos de caso aprofundados em relação ao survey, como discorrido anteriormente. O único projeto Seis Sigma desenvolvido na Comtub foi realizado na área de soldagem pelo gerente entrevistado para obter sua certificação como black belt, após realizar, em 2009, o curso oferecido por um cliente do setor automotivo, que é considerado benchmarking no método. Ele é o único funcionário certificado pelo Seis Sigma na planta visitada.

A Tabela 3.6 sumariza as principais informações a respeito do uso do Seis Sigma nas empresas participantes. O envolvimento no Seis Sigma da Rolbrea, Freios, Namec e Sistel será explorado ao longo dos próximos tópicos.

88 Tabela 3.6 - Uso do Seis Sigma nas empresas participantes.

Empresa Ano de adoção do Seis Sigma

Usa o Seis Sigma (presente estudo)? Envolve os trabalhadores no Seis Sigma (survey)? Envolve os trabalhadores no Seis Sigma (presente estudo)? Freios* 2001 S - N

Rolbrea não informado S S N

Comtub 2006 N S -

Namec 2005 S S S

Sistel não informado S S N

Tecsol 2011 N N - Manguitubo 2011 N N N Eletrométrica 2008 N S - Metalplas 2008 N N - Morames 2008 N N - Mancompo 2005 N S -

Legenda: N- Não; S - Sim * - Não participou do survey Fonte: Elaborado pela autora