Pesquisa Especial de Tabagismo - PETab
A prevalência do uso do tabaco no Brasil (fumado e sem fumaça) encontrada na pesquisa foi de 17,5% (sendo 22% em homens e 13,3% em mulheres). Esse percentual correspondeu a cerca de 25 milhões de pessoas.
Estimativa de prevalência de tabaco fumado e percentual de fumantes no país
Com base na PETab, estima-se que, em 2008, 17,2% da população com idade igual ou superior a 15 anos de idade eram fumantes atuais (24,6 milhões), sendo 21,6% de homens (14,8 milhões) e 13,1% de mulheres (9,8 milhões) (Tabelas 5.1 e 5.2). Do total de fumantes, cerca de 82% viviam em área urbana (20,1 milhões) e 18%
viviam em área rural (4,4 milhões) (Tabela 5.3 e 5.4).
Padrão de uso do tabaco fumado
Entre os 17,2% dos fumantes atuais, a maioria fazia uso diário de produtos de tabaco (15,1%) enquanto que o percentual de fumantes ocasionais era de apenas 2,1%. Esse padrão foi observado em todas as regiões do país (Tabela 5.2). A maior parte dos fumantes atuais consumia cigarros, sendo a prevalência de uso de cigarros industrializados de 14,4% e de cigarros de palha ou enrolados a mão de 5,1%. O percentual de fumantes de outros produtos do tabaco, tais como charutos, cachimbos, cigarrilhas, cigarros indianos e narguilé foi baixo, ou seja, 0,8% em média, sendo 0,9% entre homens e 0,7% entre mulheres (Tabela 5.4). Esses percentuais, embora bem menores do que aqueles observados para consumo de cigarros, representavam aproximadamente 600 mil homens e 540 mil mulheres, os quais se encontravam sob risco de desenvolver os mesmos agravos relacionados ao consumo de cigarros, sendo que com riscos relativamente mais elevados para câncer de boca41, 42 (Tabela 5.3).
Padrão de uso do tabaco sem fumaça
Pela primeira vez, no Brasil, foi possível estimar o percentual de usuários de tabaco sem fumaça, tais como rapé e tabaco mascado. A proporção de indivíduos que consumiram este tipo de produto foi, em média, de 0,4%, sendo 0,6% entre homens e 0,3% entre mulheres, o que correspondia a 420 mil homens e 200 mil mulheres.
Tabagismo nas áreas rurais
A PETab foi a primeira pesquisa nacional a permitir uma análise mais aprofundada da magnitude e das carac-terísticas do tabagismo em área rural. O percentual de fumantes foi maior nas áreas rurais (20,4%) do que nas áreas urbanas (16,6%) (Tabela 5.4). Porém, devido à forte concentração da população nas áreas urbanas, o número absoluto de fumantes foi consideravelmente maior nessas áreas.
Nas áreas rurais, observou-se um percentual maior de fumantes de cigarros de palha ou enrolados à mão em relação às áreas urbanas (13,8% contra 3,6%), tal como descrito na Tabela 5.4. A maior prevalência de usuários de tabaco sem fumaça também foi encontrado nas áreas rurais em relação às áreas urbanas (1,2% contra 0,3%).
Prevalência de consumo de cigarro segundo variáveis sociodemográficas selecionadas
O percentual de fumantes aumentou progressivamente das categorias de 15 a 24 anos até 45 a 64 anos, mas para a faixa de 65 anos ou mais, observou-se um decréscimo considerável (Tabela 5.4). Ao se analisar o percentual de indivíduos que consumia cigarro segundo sexo e idade (Figura 5.1), notou-se que, consistentemente, para todos os subgrupos etários, os homens apresentaram maiores percentuais do que as mulheres. Observou-se que, para aqueles com menos de 25 anos, a diferença entre homens e mulheres foi superior à verificada para as faixas etárias de 25 a 44 e de 45 a 64 anos.
USO DO TABACO
53 Figura 5.1 Prevalência e Razão de Prevalência (RP) de fumantes, segundo sexo e faixa etária. PETab Brasil, 2008
Prevalência (%) 14,8
22,5
28,1
17,3
6,4
14,5
17,9
10,7 9,3
18,3
22,7
12,4
0 5 10 15 20 25 30 35 40
15-24 25-44 45-64 65 +
Faixa etária (anos)
Masculino Feminino Ambos os sexos
RP= 2,3 RP = 1,6 RP = 1,6 RP= 1,9
O tabagismo é um problema que reflete as desigualdades sociais no país, demonstrado na pesquisa pela dimi-nuição do percentual de fumantes em face do aumento do número de anos de estudo. Pessoas com 11 anos de estudo ou mais apresentaram cerca de metade do percentual de usuários de tabaco quando comparadas às pessoas sem instrução ou com menos de um ano de estudo. Uma relação igualmente inversa foi observada entre tabagismo e renda (Tabela 5.4). Essa relação se manteve independentemente do tipo de tabaco fuma-do. Os dados observados para prevalência de fumantes segundo cor da pele autorreferida indicaram que esta variável pode ser entendida também como um determinante social que refletiria as desigualdades de renda e escolaridade dos indivíduos e, consequentemente, os seus respectivos padrões de consumo de cigarro. A maior prevalência em grupos populacionais economicamente mais desprivilegiados é uma tendência em vários países e sugere a necessidade de promoção de políticas para o controle do tabaco dirigidas, especificamente, a estes subgrupos. Destaca-se a necessidade de uma política de preços e impostos e eliminação do mercado ilegal, uma vez que estas são especialmente eficazes para reduzir o consumo na população de baixa renda30, 43, 44, 45.
Idade de iniciação
Entre os fumantes diários e ex-fumantes diários, com idades entre 20 e 34 anos, a faixa etária de iniciação predominante foi de 17 a 19 anos (Tabela 5.14).
As mulheres começaram a fumar mais cedo que os homens e as regiões Nordeste e Centro-Oeste destacaram--se com as maiores proporções de indivíduos que começaram a fumar com menos de 15 anos (Tabela 5.14).
Um fator que impactou de forma diferenciada a idade de iniciação foi o nível de instrução. Entre os fumantes diários e ex-fumantes diários sem instrução ou com menos de um ano de estudo, a proporção daqueles que começaram a fumar com menos de 15 anos foi maior do que a proporção observada entre os indivíduos com 8 anos ou mais de estudo
A iniciação precoce no uso de tabaco é um importante fator prognóstico para o adoecimento e deve ser com-batida. Quanto mais cedo se estabelece a dependência ao tabaco, maior o risco de morte prematura na meia--idade ou na idade madura. A diferença em alguns anos no início do uso do tabaco pode aumentar, em quase o dobro, os riscos de danos à saúde.
Diferenças regionais na prevalência de fumantes atuais
Não houve diferenças significativas entre as proporções de fumantes atuais nas regiões Norte, Nordeste, Sudeste e Centro-Oeste. Apenas a região Sul apresentou um percentual mais elevado do que as demais regiões (Tabela 5.2). Estes achados são consistentes com os resultados observados em outros estudos conduzidos no Brasil22. Vale
Pesquisa Especial de Tabagismo - PETab
a pena ressaltar que a produção do fumo está concentrada principalmente no sul do país o que, possivelmente, influencia as esferas social, política e econômica, no sentido de promover a aceitação e consumo do tabaco.
O percentual de fumantes atuais entre homens foi maior do que entre mulheres em todas as regiões. Entre as mulheres, houve um aumento gradual da prevalência de tabagismo das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste para as regiões Sudeste e Sul. Esta última se destacou com o maior percentual de mulheres fumantes (Tabela 5.2), tal como já vem sendo observado em outras pesquisas conduzidas no país ao longo dos últimos 20 anos20. Segundo o modelo de Lopez e Collishaw12, que propõe que a transição do consumo de cigarros seja descrita em estágios, uma hipótese possível seria a de que a epidemia do tabaco tenha se iniciado mais cedo nesta re-gião. Outra hipótese seria a já mencionada influência da indústria do tabaco na região Sul bem como a elevada concentração de imigrantes de origem europeia e os seus reflexos socioculturais no comportamento de fumar desta região46. Esses fatores poderiam explicar um início do uso do tabaco mais precoce e, consequentemente, a maior proporção de fumantes observada nessa região.
Dependência à nicotina
Duas perguntas incluídas na pesquisa contribuíram de forma independente para a melhor compreensão do fenômeno da dependência da nicotina associada ao consumo de cigarro: consumo médio diário de cigarros e o intervalo de tempo para fumar o primeiro cigarro depois de acordar. Ao se analisar conjuntamente essas perguntas através do Índice de Intensidade do Tabagismo (Heaviness of Smoking Index)47, percebeu-se que as mulheres, os jovens, os indivíduos com baixo nível de instrução e de renda e a população residente em áreas rurais e regiões Norte e Nordeste apresentaram menor indicação de dependência à nicotina, segundo o ponto de corte de dependência proposto por Chabrol et al48 (Tabelas 5.19 e 5.20).
Cabe salientar que os jovens da região Sul (com idades entre 15 e 24 anos) apresentaram um percentual de dependência elevada ou muito elevada acima do nível de outras regiões para esta faixa etária (a diferença foi estatiscamente significativa na comparação com as regiões Norte e Sudeste) (Figura 5.2). Esse é um achado que mostra a necessidade de haver estratégias específicas enfocando a população da região Sul, tanto na prevenção da iniciação quanto no estímulo à cessação. Esta população, tal como já foi assinalado anteriormente, é a mais vulnerável às estratégias de marketing da indústria do tabaco na região e, consequentemente, à “normalização cultural”49, ou seja, à aceitação do consumo desse produto.
É possível que os menores níveis de dependência associados a residir nas áreas rurais, ter menor escolaridade e residir nas regiões Norte e Nordeste possam estar associados a questões socioeconômicas que implicariam em um menor acesso aos produtos do tabaco (Tabelas 5.19 e 5.20).
Finalmente, observou-se que, nas áreas rurais, onde o consumo de cigarros diários foi menor e predominavam os cigarros de palha ou enrolados a mão, o intervalo de tempo até fumar o primeiro cigarro após acordar foi tão elevado quanto o observado nas áreas urbanas, sugerindo um padrão de uso a ser investigado em futuras pesquisas (Tabelas 5.4, 5.10 e 5.17).
Figura 5.2 Percentual de jovens (15 a 24 anos) com dependência em nicotina considerada alta e muito elevada, segundo Regiões Geográficas. PETab Brasil 2008
2,7
12,9 11,3
21,5
15,6
0 5 10 15 20 25 30 35 40
Norte Nordeste Sudeste
Regiões Geográficas
Sul Centro-Oeste
%