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O USO DOS TERMOS BRASIL, BRASIL COLÔNIA E/OU BRASIL COLONIAL

LISTA DE TABELAS

1.1.4 O CONCEITO DE CIDADE

1.1.5. O USO DOS TERMOS BRASIL, BRASIL COLÔNIA E/OU BRASIL COLONIAL

Apenas no intuito de evitar pequenas dúvidas acerca do uso do termo “Brasil”, nesta pesquisa, pretende-se aqui expor o que se entende por Brasil colônia ou Brasil colonial.

Nos últimos anos, os historiadores brasileiros têm discutido os termos a serem usados para designar o território hoje conhecido como Brasil e que foi uma colônia portuguesa de 1500 a 1808 (VAINFAS, et al., 2000). Autores como Novais (1999, p. 17) sustentam que a expressão “Brasil Colônia” é um “anacronismo” (id.) já que “não podemos fazer a história desse período como se os protagonistas que a viveram soubessem que a colônia iria se constituir, no século XIX, num Estado nacional” (id. ib.). O autor prefere usar a expressão “América portuguesa”, cunhada por Sebastião da Rocha Pita em sua “História da América Portuguesa”, editado em 1730, mas há que considerar que tal expressão só foi utilizada por este autor e vem sendo relembrada nos últimos trabalhos historiográficos mais por modismo do que por um embasamento mais sério.

É certo que o Brasil tal como se entende hoje não existia nem era entendido como tal no período de dominação portuguesa, mas todos os territórios da “América portuguesa” hoje formam o Brasil e todos os objetos de pesquisa estão hoje em território brasileiro. Mesmo assim, apesar do entendimento e aceitação de que o Brasil tal como se conhece hoje é fruto do processo de independência deflagrado em 1822, por questões de simplificação, o território que um dia abrigou os estados coloniais do Brasil (1549-1808), Maranhão (1621-1652), Maranhão e Grão-Pará (1654-1) e Grão-Pará e Maranhão (1731-1774), será chamado de Brasil colônia ou colonial amparado na opinião de Vainfas (2000, p. 83), ao afirmar que:

“O uso do termo colonial como qualificativo do Brasil entre o século XVI e início do XIX não parece ser, assim, de todo impróprio, se a referência for a cronologia e não o território ou a consciência da nacionalidade – esta última ausente mesmo nas ‘conjurações’ e ‘inconfidências’ do final do século XVIII.”

Portanto, os termos utilizados nesta pesquisa serão Brasil colônia ou Brasil colonial, abarcando o território hoje brasileiro.

63 1.1.6. A MORFOLOGIA URBANA

Esta pesquisa buscou unir história e morfologia urbanas na intenção de explicar o processo de transposição da cidade portuguesa para o território hoje conhecido como Brasil nos séculos XVI e XVII. Se o uso da História já foi definido e delimitado, faz-se agora necessário a explicitação de como a Morfologia Urbana irá auxiliar na pesquisa. A despeito das muitas teorias existentes e de uma certa tendência atual por valorizar teorias mais complexas e “matematizadas” em detrimento de outras apenas descritivas, esta pesquisa busca uma síntese entre estas duas vertentes no intuito de se utilizar o que de melhor estas possuem para a explicação do fenômeno urbano.

Lamas (2004, p. 37) define a Morfologia Urbana da seguinte forma:

“O termo ‘morfologia’ utiliza-se para designar o estudo da configuração e da estrutura exterior de um objecto. É a ciência que estuda as formas, interligando-as com os fenômenos que lhes deram origem [grifo nosso].

A morfologia urbana estudará essencialmente os aspectos exteriores do meio urbano e as suas relações recíprocas, definindo e explicando a paisagem urbana e sua estrutura”

O que parece deixar claro que, a forma por si só não é suficiente para se explicar, devendo recorrer para tanto a um complexo de eventos que lhe justificam a existência e o modo de ser e “funcionar”.

A cidade, como todo sistema complexo, é formada por elementos constituintes que podem ser tomados como invariáveis, pelo menos no que tange às cidades ocidentais. Tais elementos, chamados por Lamas (2004, p. 79-108) de “elementos morfológicos do espaço urbano” e utlizados nas análises desta pesquisa são:

- O solo – o pavimento: “é a topografia e modelação do terreno” (LAMAS, 2004, p.80) e é nesse sentido que será tratado aqui;

- Os edifícios – o elemento mínimo: “é através dos edifícios que se constitui o espaço urbano e se organizam os diferentes espaços identificáveis...: a rua, a praça, o beco...” (id. ib,, p. 84); - O lote – a parcela fundiária: “o lote não é apenas uma porção cadastral: é também a gênese e o fundamento do edificado” (id. Ib., p. 86) ;

- O quarteirão: “... é um contínuo de edifícios agrupados entre si em anel, ou sistema fechado e separado dos demais; é o espaço delimitado por três ou mais vias” (id. ib., p. 88);

- O traçado, a rua: “o traçado estabelece a relação mais directa de assentamento entre a cidade e o território” (id. ib., p. 98);

- A praça: “a praça é um elemento morfológico das cidades ocidentais e distingue-se de outros espaços, que são resultado acidental de alargamento e confluência de traçados – pela organização espacial e intencionalidade de desenho” (id. ib., p. 100);

- O monumento: “é um facto urbano singular, elemento morfológico individualizado pela sua presença, configuração e posicionamento na cidade e pelo seu significado. Para Poète, é um dos elementos que fundamentam o princípio das permanências.” (id. ib. p.102);

Por outro lado, deve-se incluir a muralha como um elemento preponderante na estrutura urbana medieval, pois “delimita a cidade e caracteriza a sua imagem e forma” (LAMAS, 1992, p. 152) e que, de modo um tanto precário e já alterada pela pirobalística será trazida para o Brasil no período estudado.

Além dos elementos físicos que compõem a cidade, acima denominados e descritos, Panerai (1983, p. 38-42) também salienta a existência dos “elementos reguladores”, definidos como22: - Linha de crescimento: Suporte de crescimento, ao longo dela constroem-se os edifícios. Pode ser natural, motivada por um elemento geográfico como um rio ou uma cumeada ou pode ser artificial, projetada como via de acesso ou de expansão, independente das condições naturais do espaço. É o “percurso-matriz” definido por Caniggia e Maffei (1995);

- Pólo de crescimento: O agrupamento primordial a partir do qual se desenvolve o tecido urbano, o ponto de origem;

- Limite de crescimento: Obstáculo que impede a continuação do crescimento linear. Comumente, o limite acaba, com o tempo por se transformar em um novo pólo. Uma ponte, uma porta ou um monumento podem se constituir em limites de crescimento

- Barreira de crescimento: é um obstáculo ao crescimento do tecido urbano. Pode ser um obstáculo geográfico: rio, lago, floresta, morro ou montanhas, etc. ou artificiais: muralhas, fossos, canais, estradas, limite de propriedade, etc.

A associação entre os elementos morfológicos do espaço urbano e os elementos reguladores estabelecem um corpus analítico do espaço urbano que pode descrever certos fenômenos na formação das cidades, mas que parecem ser insuficientes para determinar o porquê das diferenças de “funcionamento” das cidades no tempo, no espaço e em cada sociedade. Se o que se busca é a definição do que seria uma cidade portuguesa e como esta cidade foi transferida para o Brasil, faz-se necessário inserir o conceito de “cidade social” estabelecido por Hillier e Hanson (1984), o que será feito abaixo.

22

Adaptados do original em espanhol: Línea de crecimiento, Polo de crecimiento, Límite de crecimiento, Barrera de crecimiento. In: PANERAI, Philippe et al.. Elementos de analisis urbano. p. 38-42.

65 Na realidade o que se pretende é uma análise morfológica que leve em conta seus elementos físicos (constituintes e reguladores) e como estes elementos são utilizados e contornados segundo as leis do espaço definidas pela Sintaxe Espacial na produção de um tipo de cidade, a portuguesa e como este tipo de cidade é trazido, mantido ou adaptado às condições encontradas na nova colônia.