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Uso de indicadores de sustentabilidade ambiental: desafios para a

CAPÍTULO 2 REVISÃO DE LITERATURA

2.1 ANÁLISE AMBIENTAL

2.1.1 Uso de indicadores de sustentabilidade ambiental: desafios para a

Durante a última década, particularmente em sua segunda metade, desenvolveu-se o interesse pela busca de indicadores de sustentabilidade por parte de organismos governamentais, não governamentais, institutos de pesquisa e universidades em todo o mundo. Muitas conferências já foram organizadas por entidades internacionais, bem como outras iniciativas de pesquisadores ligados a algumas instituições governamentais e/ou universitárias.

Com a publicação do relatório Brundtland a questão ambiental ganhou outra proporção, impulsionando pesquisas sobre indicadores de sustentabilidade. Canadá e outros países da Europa foram pioneiros em tentar delinear indicadores de sustentabilidade (QUIROGA, 2001). O trabalho com este tema, no entanto, se intensificou depois da RIO-92, com iniciativas da Comissão de Desenvolvimento Sustentável e outras propostas nacionais que incentivaram o progresso na área. É importante ressaltar que a Agenda 21, iniciativa proposta na Declaração da Conferência do Rio de Janeiro, no seu capítulo 40, recomenda a implementação de indicadores de desenvolvimento sustentável.

O World Resources Institute (WRI) (HAMMOND et al. 1995) fez um levantamento e acompanhou trabalhos que foram ou estão sendo realizados com indicadores de sustentabilidade, principalmente no que se refere a informações ambientais, observando a evolução e o incremento de trabalhos nessa direção nos últimos seis anos. O evento de referência é a Conferência Mundial sobre o Meio Ambiente (Rio-92), com a elaboração de seu documento final, a Agenda 21. Nesse documento, em seu capítulo 40, é enfatizada a necessidade do desenvolvimento de indicadores por parte de cada país, em função de sua realidade. O texto referido cita ainda o Encontro sobre Indicadores Ambientais e de Desenvolvimento Sustentável, realizadas em fins de 1993, em Genebra, organizado pelo United Nations Environmental Program (UNEP). Hammond et al. (1995) citam ainda o trabalho desenvolvido pelo governo holandês, que desde 1991 tem o programa de indicadores ambientais que permite o monitoramento efetivo das ações de desenvolvimento, agilizando a tomada de decisões e tendo uma

grande participação popular no processo. Pode-se mencionar ainda, no contexto europeu, o colóquio internacional tendo como tema “Indicadores de Desenvolvimento Sustentável”, realizado em 1996, na França. (BOUNI, 1996).

O conceito de desenvolvimento sustentável, disseminado a partir da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, Rio-92, enseja mudanças de comportamento na forma como os seres humanos se relacionam com o meio ambiente, bem como no modo de formular, implementar e avaliar políticas públicas de desenvolvimento. Na operacionalização deste conceito emerge, nas agendas de governos e da sociedade, a necessidade de pensar em novas formas de mensurar o crescimento e de garantir a existência de um processo transparente e participativo para o debate e para a tomada de decisões em busca do desenvolvimento sustentável (GUIMARÃES; FEICHAS, 2009).

Porém, ainda em 1991, na Áustria, iniciou-se um programa de “eco-pontos”, dentro do programa nacional agroambiental, com a aplicação de 13 indicadores, subdivididos em sete para superfícies cultivadas e seis para pastagens. Em 1992 foram desenvolvidas pela Organização Internacional da Luta Biológica e Integrada, na Suíça, experiências-piloto em produção integrada (PI), onde se determinaram as exigências mínimas quanto à produção integrada, e na qual são usados 16 indicadores. Na Alemanha, a Universidade de Bonn desenvolve o diagnóstico biótico, com objetivo de avaliar a biodiversidade (CLAIN, 1997).

Além desses trabalhos e iniciativas, encontram-se disponíveis on line, via Internet, documentos desenvolvidos por alguns municípios, como o de Rushmoor, na Inglaterra (MAcDONALD, 1996), que desenvolvem sua própria Agenda 21, com seus respectivos indicadores, urbanos em sua maioria. Existem ainda estudos efetuados em períodos anteriores que propõem tecnologias para avaliar desempenhos na agricultura, mas nem sempre é possível interpretá-los à luz dos novos conceitos trazidos pela discussão da sustentabilidade, pois estes representam um referencial maior, requerendo dos especialistas ultrapassar as linhas disciplinares bem estabelecidas, para possibilitar desenvolver trabalhos multi e interdisciplinares (FREYENBERG; JANKE; NORMAN, 1996). Além disso, deve-se considerar que, por estarem em desenvolvimento um quadro conceitual e metodológico ainda não totalmente claro, há grande dificuldade para se chegar a um consenso (MARZALL; ALMEIDA, 1998). Assim, o uso dos

indicadores surge para responder às questões relacionadas à expansão continuada das atividades socioeconômicas, se as mesmas não comprometem o funcionamento dos ecossistemas, sob dois aspectos fundamentais: a taxa de biorreposição dos estoques de recursos providos pelo Planeta Terra e a manutenção da qualidade dos serviços ecológicos, dos quais os humanos dependem para a qualidade de vida (FURTADO, 2009).

Com objetivo de melhor integrar os aspectos ambientais às políticas setoriais, a OECD (1993) procurou agrupar os indicadores por temas e por setores. A classificação por temas é dividida em: mudança climática, diminuição da camada de ozônio, eutrofização, acidificação, contaminação tóxica, qualidade ambiental urbana, biodiversidade, paisagens culturais, resíduos, recursos hídricos, recursos florestais, recursos pesqueiros, degradação do solo (desertificação e erosão) e indicadores gerais. Os setores são classificados em transportes, energia e agricultura pressão (FERREIRA; LIRA; CÂNDIDO, 2010).

O modelo PER possibilita uma visão conjunta dos vários componentes de um problema ambiental, sendo esta uma grande vantagem que facilita o diagnóstico do problema e a elaboração da respectiva política pública, pois vai além da mera constatação da degradação ambiental e revela seu impacto, suas causas, o que está por trás dessas causas e as ações que estão sendo tomadas para melhorar esse quadro (CARVALHO; BARCELLOS; MOREIRA, 2007).

Entretanto, este modelo reduz as pressões sobre o ambiente àquelas causadas pela ação do homem, desconsiderando as provenientes da ação da natureza, e sabe-se que os eventos naturais também podem causar impacto ambiental, sendo fontes de pressão (FERREIRA; LIRA; CÂNDIDO, 2010).

De acordo com Martinez (2001), a principal crítica a esses modelos é que induzem a leitura da existência de uma relação de causalidade linear, o que causa uma simplificação excessiva de uma situação complexa que envolve causalidades múltiplas e interação de fenômenos sociais, econômicos e ambientais. A adoção do modelo PER acabaria, portanto, estimulando a adoção de políticas corretivas, de curto prazo. Esse modelo também não estabelecem metas de sustentabilidade a serem alcançadas e como foi concebido originalmente para tratar de indicadores ambientais, nem sempre é adaptável para indicadores de desenvolvimento sustentável (IDS) onde a complexidade é maior.

A fim de que se alcance êxito na avaliação é importante à definição clara dos objetivos que devem ser alcançados pelo programa e

pelos indicadores propostos. Também se deve prezar pela qualidade do indicador, sendo que esta depende das propriedades dos componentes utilizados em sua formulação e da precisão dos sistemas de informação empregados. O grau de excelência de um indicador deve ser definido por sua validade, ou seja, sua capacidade de medir o que se pretende, por sua confiabilidade, capacidade de reproduzir os mesmos resultados quando aplicado em condições similares. Em geral, a validade de um indicador é determinada pelas características de sensibilidade, capacidade de medir as alterações do fenômeno e especificidade, capacidade de medir somente o fenômeno analisado (SALDANHA, 2007).

Em função das simplificações que são efetuadas na aplicação dos indicadores, sempre há alguma controvérsia técnica/científica. As eventuais perdas de informação têm constituído um entrave à adoção de forma generalizada e consensual dos sistemas de indicadores. Na Tabela 1 é apresentada uma síntese de algumas das principais vantagens e limitações da aplicação destes métodos.

Tabela 1. Síntese de algumas vantagens e limitações da aplicação de indicadores de desenvolvimento sustentável.

Vantagens Limitações

-Avaliação dos níveis de desenvolvimento

sustentável.

-Capacidade de sintetizar a

informação de carácter

técnico/científico;

-Identificação das variáveis- chave do sistema;

-Facilidade de transmitir a informação;

-Bom instrumento de apoio à decisão e aos processos de gestão ambiental;

-Sublinhar a existência de tendências;

-Possibilidade de

comparação com padrões e/ou metas pré-definidas.

-Inexistência de informação base; -Dificuldades na definição de

expressões matemáticas que

melhor traduzam os parâmetros selecionados;

-Perda de informação nos

processos de agregação dos dados; -Diferentes critérios na definição dos limites de variação do índice

em relação às imposições

estabelecidas;

-Ausência de critérios robustos para seleção de alguns indicadores; -Dificuldades na aplicação em

determinadas áreas como o

ordenamento do território e a paisagem.

Fonte: DGA, 2000

Na Tabela 2 apresenta-se uma síntese das principais potencialidades e fragilidades do modelo PER.

Tabela 2. Síntese de algumas potencialidades e fragilidades do modelo PER

Modelo Pressão-Estado-Resposta (PER)

Potencialidades Fragilidades

-Evidencia os elos entre a

atividade humana e o

ambiente.

-Pressões sobre o ambiente são reduzidas àquelas causadas pela ação do homem.

-Visão conjunta dos vários

componentes de um

problema ambiental.

-Existência de uma relação de causalidade linear, a qual simplifica excessivamente uma situação complexa.

-Não estabelece metas de

sustentabilidade a serem

alcançadas.

Fonte: Elaborada pelos autores

2.1.2 A função dos indicadores na avaliação da sustentabilidade