PARTE III – A PESQUISA DE CAMPO
6.4 VISÕES DOS ESPECIALISTAS SOBRE BIG DATA
6.4.4 Usos de dados pessoais
A massificação do big data, no entanto, ainda enfrenta obstáculos, segundo a visão de alguns especialistas. O mais comentado desses obstáculos é a questão da privacidade e ética do uso de dados, principalmente as informações de caráter pessoal. A respeito disso, na pesquisa abordou junto aos entrevistados sobre como lidavam com a questão da privacidade representada pelo aumento do armazenamento e integração de informações pessoalmente identificáveis117.
117 Informações pessoalmente identificáveis refere-se a informações que podem ser usados para identificar, contactar ou localizar uma única pessoa ou pode ser usado com outras fontes para identificar um único indivíduo.
Do ponto de vista científico, Walter Teixeira Lima Júnior118 (2014) observa que a ética é ponto crucial no uso dos dados para pesquisas em big data. Segundo ele:
“O big data para ser válido dentro da ciência tem que ser open (aberto). Tem que dar possibilidades para que as outras pessoas interessadas em pesquisas com determinados dados possam verificar como estão sendo utilizadas as metodologias em torno da pesquisa. Quem usa o big data na ciência tem que comprovar que os dados são verdadeiros do ponto de vista científico” (LIMA JÚNIOR, 2014).
No entanto, o pesquisador observa que, do ponto de vista comercial, isso é um tanto complicado e não funciona assim de forma tão transparente em se tratando de dados principalmente pessoais.
“Se uma empresa abrir os dados, outra empresa concorrente pode copiar os seus dados e tomar o mercado a partir do que essas informações dizem ou projetam” (LIMA JÚNIOR, 2014).
Assim segundo Lima Júnior, as empresas e mesmo campanhas eleitorais sempre trabalham mais no anonimato das suas ações de coleta, análise e uso de dados no desenvolvimento de estratégias e inteligência competitivas.
Da mesma forma Luciana Costa observa que o ideal seria que dados pessoais, como por exemplo, de redes sociais fossem open (abertos), principalmente para serem utilizados em pesquisas acadêmicas, e não, somente, para fins comerciais como as provedoras dos sites de relacionamentos usam.
“Hoje quem tem acesso total aos dados pessoais de usuários do Facebook é somente a empresa do site, que diz usá-los para melhorar a qualidade de seus serviços, mas ninguém pode garantir que isso realmente aconteça. E muitas vezes os usos que a provedora faz desses dados não são claros. Seria muito bom se pudéssemos ter acesso a esses dados para que outras pesquisas fossem realizadas, com outros olhares” (COSTA).
No que se refere a prática de usos de dados para outras finalidades, Costa ainda observa que hoje as pessoas que usam da tecnologia como redes sociais e aplicativos não têm como fugir dessa coleta de dados pessoais feitas por essas empresas.
“Ao acessar um aplicativo que te oferece serviços, você autoriza, mesmo que você não saiba, o uso dos seus dados. Então, todos os aplicativos vão te oferecer soluções para as suas necessidades, em contrapartida, você dará a eles por esses serviços seus dados que serão automaticamente coletados, analisados e usados. Mas o que se espera é que esses dados sejam utilizados de maneira anônima, porque na verdade o que interessa é essa dinâmica do comportamento humano” (COSTA, 2015).
Assim, manter a privacidade ou mesmo o anonimato diante dessas empresas é praticamente impossível. No entanto, Costa diz que é importante que os usuários tenham educação e orientações para os usos das mídias sociais, no sentindo, de ao acessarem os
118Walter Lima Júnior é um defensor do open data e da open science, por isso todas as suas pesquisas são
publicadas em plataformas em Apis (Application Programming Interface) para que qualquer pessoa interessada
tenha acesso ao seus bancos de dados e possam verificar como foram utilizados aquelas informações dentro de uma metodologia específica.
serviços ou fazerem adesões, possam avaliar se os serviços que querem dessas mídias e ferramentas valem os seus dados pessoais, que serão entregues e fornecidos a essas empresas.
Pensando assim, os dados e informações pessoais se configuram mais numa decisão individual a ser tomada do que propriamente de um caso de ética do uso pelas empresas que se apropriam e se beneficiam desses dados.
Cezar Taurion (2014) também chama atenção sobre as questões de privacidade dos dados. Sobre isso afirma que:
“Pessoalmente, opto pelo viés positivo, mas com fortes alertas às questões como privacidade e uso indevido e não autorizado de informações pessoais” (TAURION, 2014).
Segundo ele um dos grandes desafios que precisa ser debatido com relação ao big data relaciona-se justamente com a questão da privacidade dos usuários das redes sociais, porque somos condicionados a utilizar esses ambientes de forma gratuita na base da troca de nossas informações. É o caso do Google e Facebook que coletam essas informações, alegando em seus termos de uso e nas politicas de privacidade respeitarem veementemente a privacidade e segurança de seus usuários. No entanto, ocultam os reais interesses na utilização desses dados, que podem ser facilmente comercializados.
O Google e o Facebook, citados por Taurion, utilizam-se de ferramentas, como os cookies119, para coletar e armazenar informações pessoais. Eles afirmam em seus termos de usos do site que serão para fins de segurança, aprimoramento de produtos e serviços, e também para um melhor desempenho no uso do serviço.
Assim, essas empresas agregam informações pessoais dos usuários, tornando-se assim habilitados a usar essas informações para personalizar o que será enviado aos mesmos, como por exemplos anúncios e propagandas do interesse do seu perfil.
O jornalista americano Sasha Issenberg (2015) em sua fala para a pesquisa faz referências aos Estados Unidos, ressaltando que o uso de dados pessoais, principalmente de redes sociais são considerados públicos lá, porque as empresas de relacionamento como o Facebook deixam isso claro para os seus usuários no momento em que eles aceitam os seus serviços. Por outro lado, a própria cultura americana é baseada na disponibilização e divulgação de dados pessoais, principalmente para o governo. Da mesma forma, os partidos (Republicano e Democrata) buscam manter atualizados suas bases de dados com informações pessoais e precisas sobre os americanos. A preocupação do governo americano em ter dados
119 Segundo a definição de Sawaya (2010), cookie é um arquivo usado pelos servidores para manter rastro dos padrões e preferencias dos usuários quando este entra em certas páginas da web.
dos americanos a sua disposição se intensificou a partir dos atentados de 11 de setembro de 2001, a fim de manter controle sobre as ações dos cidadãos.
Compartilhando da mesma opinião de Sasha, o jornalista Alessandro Lima ressalta sobre os usos dos dados pessoais das redes sociais digitais.
“Os dados são abertos e os eleitores autorizaram o seu uso uma vez que concordam com as políticas de privacidade das principais redes sociais. As redes por sua vez apenas comercializam estes dados para empresas outras empresas. E muitas vezes os dados são anonimizados. Por isso, não vejo muitos problemas em relação a isso desde que essas informações e dados sejam usadas de uma forma positiva em relação aos usuários dessas redes” (LIMA).
Já para a cientista política Carolina de Paula, o uso de dados pessoais também se mostra como um problema em relação as campanhas eleitorais. Porém, nem sempre é possível coletar dados tão precisos assim para o big data. Isso deve-se ao fato de que existe leis que protegem os dados pessoais.
“Esse é o ponto mais delicado sobre o uso de big data, sem dúvida. Por isso temos leis que protegem severamente a privacidade do indivíduo. Sabemos que há possibilidades técnicas de obtenção de dados melhores, via hackers, por exemplo. Mas o profissional precisa saber que este não é um jogo de vale tudo, né? Sempre teremos dados “piores” do que aquilo que potencialmente poderíamos usar devido à proteção do Estado, mas é bom que isso continue assim” (PAULA, 2014).
Da mesma forma o professor Marcos Cavalcanti defende que:
“O que deve ser preservado é a anonimização dos dados. Acredito que o processo de geração e compartilhamento de dados é um processo irreversível e que tende a aumentar. O que devíamos assegurar, além da anonimização é que os cidadãos terão acesso a seus dados e que eles não poderão se tornar propriedade de nenhum governo ou empresa” (CAVALCANTI).
Na visão geral dos especialistas, os dados pessoais sempre serão uma questão a ser debatida, porém acham que seja provável que soluções mais eficientes das que já existam garantidas por lei para manter o direito aos dados pessoais e o anonimato a curto prazo devam aparecer, já que o uso do big data em diversos setores está se expandido.
No que se refere as campanhas eleitorais isso também vem sendo visto como um problema, já que candidatos e campanhas se utilizam de todas as estratégias na busca por votos, principalmente diante de uma disputa acirrada.