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C APÍTULO III D A D IRECTIVA 1999/44/CE

3. D OS A NTECEDENTES DA D IRECTIVA 1999/44/CE

4.5. T UTELA DO CONSUMIDOR

Cumpre, nesta sede, identificar quais os direitos que a Directiva atribui ao consumidor no caso de estarmos perante a venda de bens desconformes.

Os direitos do consumidor estão expressamente previstos no artigo 3.º n.º 2 da Directiva, estabelecendo que aquele tem direito a que a desconformidade seja reposta por via da reparação ou substituição sem quaisquer encargos, ou, verificando-se as condições dos números 5 e 6, através da redução do preço ou a rescisão do contrato.

Por conseguinte, verifica-se que os direitos atribuídos ao consumidor são a reparação, a substituição, a redução do preço e a resolução do contrato, o que corresponde ao que supra referimos a propósito da venda de coisas defeituosas no Código Civil bem como na LDC. 236

Sobre esta problemática, perfilhando o entendimento de Calvão da Silva, “se bem que o n.º 2 do art. 3.º da Directiva inculque uma alternativa de direitos, à escolha do consumidor, os números seguintes do mesmo preceito mostram ser ténue e muito relativo esse concurso electivo dados os requisitos objectivos a que subordina o seu exercício. Assim, e à cabeça, salta à vista a seguinte hieraraquia: primus, reparação ou substituição do bem; secundus, redução do preço ou resolução do contrato. É o que resulta da conjugação do n.º 3 – em primeiro lugar, o consumidor pode exigir do

234 ALMEIDA, Carlos Ferreira, Orientações de Política Legislativa Adoptadas Pela Directiva 1999/44/CE Sobre a Venda de Bens de

Consumo. Comparação Com o Direito Português Vigente, in Themis, Ano II, n.º4, Coimbra, 2001, p. 111.

235 ALMEIDA, Carlos Ferreira, Orientações de Política Legislativa Adoptadas Pela Directiva 1999/44/CE Sobre a Venda de Bens de

Consumo. Comparação Com o Direito Português Vigente, in Themis, Ano II, n.º4, Coimbra, 2001, p. 112.

236 Subscrevemos na íntegra as palavras de Calvão da Silva quando refere que “neste aspecto dos quatro direitos primários

reconhecidos ao consumidor de coisa defeituosa ou não conforme ao contrato, a Directiva e revolucionária para muitos dos Direitos dos Estados-membros, entre os quais a Alemanha, a França, a Itália, a Inglaterra, a Bélgica e o Luxemburgo, mas não, seguramente, para a ordem jurídica portuguesa.” SILVA, João Calvão, Compra e Venda de Coisas Defeituosas, Conformidade e

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vendedor a reparação ou a substituição do bem, em qualquer dos casos em encargos, a meos que isso seja impossivel ou desproporcionado – com o n.º 5 “O consumidor pode exigir uma redução adequada do preço, ou a resolução do contrato: - se o consumidr não tiver direito a reparação nem a substuição; ou se o vendedor não tiver encontrado uma solução num prazo razoável; ou se o vendedor não tiver encontrado uma solução sem grande inconveniente para o consumidor.”237

Destarte, “o consumidor tem o poder-dever de seguir primeiramente e preferencialmente a via da reparação ou substiutição da coisa sempre que possível e proporcionada, em nome da conservação do negócio juridico, tão importante numa economia de contratação em cadeia, e só subsidiariamente, o caminho da redução do preço ou resolução do contrato.”238

Mota Pinto afirma que estes direitos não concedem liberdade de escolha ao consumidor, tratando-se de uma “solução a dois tempos, que fixa uma ordem de precedência entre dos grupos de direitos.239

Relativamente ao par reparação/substituição, que ”em regra satisfaz ambas as partes e que é a mais consentânea com a distribuição em cadeia de bens produzidos em série, procura-se não agravar desmesurada e desnecessariamente a posição do vendedor, atribuindo-lhe o direito de se opor ambas as faculdades – vejam-se, no Código Civil os arts. 829º, nº 2 e 1221, nº 2 – ou a uma delas por comparação com a outra sempre que acarretem um sacrifício excessivo e desproporcionado dos seus interesses, objectivamente determinado (considerando nº 11) nos termos do n.º 3, 2ª parte, do art. 3º da Directiva: presume-se que uma solução é desproporcionada se implicar para o vendedor custos que, em comparação com a outra solução, não sejam razoáveis, tendo em conta: o valor que o bem teria se não existisse falta de conformidade; a importância da falta de conformidade; a possibilidade de a solução alternativa ser concretizada sem grave inconveniente para o consumidor”.240

237 Nesta senda, o Autor acrescenta ainda que “a regra e proeminência da parelha reparação/substituição sobre o par

redução/resolução, surge confirmada no considerando n.º 10: em caso de não conformidade do bem com o contrato, os consumidores devem ter o direito de obter que os bens sejam tornados conformes com ele sem encargos, podendo escolher entre a reparação ou substituição, ou, se isso não for possível, a redução do preço ou a resolução do contrato.” SILVA, João Calvão, Compra

e Venda de Coisas Defeituosas, Conformidade e Segurança, Almedina, 2001, p. 155.

238 SILVA, João Calvão, Compra e Venda de Coisas Defeituosas, Conformidade e Segurança, Almedina, 2001, p. 156.

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PINTO, Mota - Conformidade e Garantias na Venda de Bens de Consumo, A Directiva 1999/44/CE e o Direito Português, Estudos de Direito do Consumidor – 2, p. 254.

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Deste modo, sem olvidar os casos em que a reparação ou substituição não sejam devidas por se revelaram desproporcionadas, a reparação será impossível quando, atendendo ao defeito, seja impossível ao vendedor proceder à sua reparação, seja devido à inexistência de meios para proceder à mesma, seja devido á desconformidade de que o bem padece, bem como a substituição poderá ser impossível, por não existir outro bem correspondente ao mesmo tipo e características adquiridas pelo consumidor.241

Trata-se de direitos relativos à reposição da conformidade contratual, e que, portanto, se reportam ainda à realização da pretensão contratual. A falta de conformidade ao contrato não atribui logo ao consumidor o direito de se retirar do contrato – a anulá-lo ou a resolvê-lo – ou a exigir a redução do preço. Manifesta-se aqui, pois, um favor contractus.242

Almejando um melhor entendimento, se qualquer uma das soluções se revelar desproporcionada em relação à outra, o vendedor poderá opor-se a uma delas.243

Verificando-se os pressupostos do n.º 5 do artigo 3.º, o consumidor terá ainda direito à redução do preço ou à resolução do contrato. Assim, se porventura devido à impossibilidade ou desproporcionalidade da reparação e/ou substituição o consumidor não tiver direito a exigir essas prestações ao vendedor, poderá socorrer-se da redução do preço ou da resolução do contrato.

Contudo, mesmo que a reparação ou substituição sejam possíveis, se o vendedor não apresentar uma solução num prazo razoável ou sem grave inconveniente para o consumidor, este poderá terá direito à redução do preço ou a resolução do contrato.

Naturaliter, saliente-se ainda que tal como (já) consagrado no Código Civil nos artigos 793.º e 802.º do Código Civil, preceitua o artigo 3.º n.º 6 que “o consumidor não tem direito à resolução do contrato se a falta de conformidade for insignificante”.244

241 A título exemplificativo, é o caso dos bens alimentares deteriorados que, em princípio, não serão passiveis de reparação e o

caso de bens infungíveis que não são passiveis de substituição. Na mesma situação encontram-se os bens em segunda mão, casos em que por via de regra não será possível procedermos à sua substituição.

242 PINTO, Mota - Conformidade e Garantias na Venda de Bens de Consumo, A Directiva 1999/44/CE e o Direito Português, Estudos

de Direito do Consumidor – 2, p. 254. Sublinhe-se que o comprador é igualmente titular desses direitos na nossa ordem jurídica, o que resulta dos artigos 914.º do Código Civil, bem como do artigo 12.º n.º 1 da LDC.

243 Exemplificando, se o consumidor exigir a reparação de um bem, mas devido às especificidades deste, for mais vantajoso e

menos oneroso para o vendedor proceder à substituição, este poderá oferecer esta última solução. Pela sua elevada importância prática, destaque para Calvão da Silva quando relata que “na composição amigável do conflito, o vendedor pode sempre oferecer,

como solução, qualquer outra forma de reparação possível, que o consumidor livremente aceitará ou rejeitará (considerando n.º 12).” SILVA, João Calvão, Compra e Venda de Coisas Defeituosas, Conformidade e Segurança, Almedina, 2001, p. 156.

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Ora, in casu, estamos perante uma estrutura hierarquizada, o que nas doutas palavras de Calvão da Silva e que desde já sufragamos, “traduz uma solução de bom senso, de senso comum, correspondente à da empreitada no Código Civil, aos resultados equilibrados lográveis na compra e venda mediante recurso ao princípio da boa-fé a nortear a electio de que o comprador veneficia, e às regras (arts. 45º a 52º) da Convenção de Viena de 1980.”245

Isto posto, no que tange à tutela do consumidor-comprador, seguindo novamente a opinião de Calvão da Silva, verifica-se a adesão à “teoria do cumprimento ou teoria do dever de prestação, ao não prever, em coerência, o direito à anulação por erro ou dolo, à semelhança da Lei n.º 24/96 e diferente do nosso Código Civil”.

Deste modo, não vislumbramos nada de substancialmente novo no regime, porquanto a Directiva implementou a resposta que temos por consentânea e que, como supra se referiu, globalmente se ratifica.

4.6.INDEMNIZAÇÃO

Consagra o artigo 8.º da Directiva que:

“1. O exercício dos direitos resultantes da presente Directiva não prejudica o exercício de outros direitos que o consumidor possa invocar ao abrigo de outras disposições nacionais relativas à responsabilidade contratual ou extracontratual.

2. Os Estados-membros podem adoptar ou manter, no domínio regido pela presente Directiva, disposições mais estritas, compatíveis com o Tratado, com o objectivo de garantir um nível mais elevado de protecção do consumidor.”

Face ao antedito, estamos perante uma Directiva de harmonização mínima, no sentido de que visa apenas assegurar um denominador comum e uniforme de defesa dos consumidores no contexto da União Europeia, não impedindo, por essa razão, protecção nacional mais elevada, pelo que entre os direitos que o consumidor pode invocar, não obstante a sua falta de regulação na Directiva, o consumidor poderá lançar mão do direito à indemnização, cumulável com qualquer um dos quatro direitos referidos, ou até a exercer em alternativa, bem como a exceptio non adimpleti contractus.

244 Para além disso, e pela sua importância prática, apraz-nos salientar ainda que no reembolso ao consumidor do preço por força

da resolução potestativa do contrato ou da actio quanti minoris, a utilização do produto pelo consumidor pode justificar uma redução do valor a restituir.

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