8.2 Formalização
8.2.2 Utilidade Esperada (formal)
De…nição: Uma função utilidade U : $! R é uma utilidade esperada se existe um vetor (u1; u2; :::; uN) tal que para toda loteria L= ( 1; :::; N)2$, temos que
Teorema 4 Uma função utilidade U :$!R é uma utilidade esperada se e somente se é linear em probabilidades, i.e., se
U PK
k=1 kLk =PK
k=1 kU(Lk) (8.2)
para quaisquer K loterias Lk 2 $; k = 1; :::; K, e probabilidades ( 1; :::; K) 0; PK
k=1 k= 1:
Demonstração (Necessidade)Suponha queU( )satisfaz (8.2). Podemos então escr-everL= (p1; :::; pN)como uma combinação convexa de loterias degeneradasL1; :::; LN; i.e., L=PN n=1pnLn:Neste caso, U(L) =U PN n=1pnLn =PN n=1pnU(Ln) =PN n=1pnun:
(Su…ciência) Suponha que U( ) tem o formato de utilidade esperada, e considere a loteria composta (L1; :::; LK; 1; :::; K);ondeLk = pk1; :::; pkN : A loteria reduzida é, então, L0 =PK k=1 kLk:Donde, U PK k=1 kLk =PN n=1un PK k=1 kpkn =PK k=1 k PN n=1unpkn =PK k=1 kU(Lk)
Teorema (existência) Se a ordenação de preferências em $ é “conseqüentista” (axioma 1), racional (completa e transitiva, axioma 2), contínua (axioma 3) e in-dependente (axioma 4), então nós podemos encontrar uma função utilidade esper-ada U : $ ! R que representa . Isto é, existem números un para cada resultado
n= 1; :::; N tais que, para quaisquer loterias L= ( 1; :::; N) e L0 = ( 01; :::; N0 ); L L0 () n X n=1 nun n X n=1 0 nun
Demonstração Considere as loterias L e L tais que L % L % L para todo L 2 $: De…namos os conjuntos
A 2[0;1] : L+ (1 )L%L e B 2[0;1] : L+ (1 )L-L :
O axioma decontinuidade nos garante que AeB são fechados. Completeza, por outro lado, é su…ciente para vermos que para todo 2 [0;1]; temos 2 A[B: Como o conjunto [0;1]é conexo,2 podemos então garantir que existe pelo menos um 2[0;1]
tal que 2A\B;i.e., L L+ (1 )L:
A seguir mostraremos que esse número é único e que a função que associa a cada L o número com esta propriedade representa as preferências sobre loterias. É a esse escalar que associaremos a utilidade da loteria, i.e., U(L) = L, onde L LL+
(1 L)L:
Tomemos primeiramente duas loterias compostas L = L+ (1 )L e L0 = L+ (1 )L; ; 2 [0;1]: Vamos mostrar que L+ (1 )L L+ (1 )L se e só se > : Isto nos permitirá, não somente provar a unicidade de ; mas ajudará na demonstração de que o assim construído efetivamente representa as preferências. Suponha > e de…na
1 2(0;1]
Então, L L+ (1 )L.3 Além disso,
L+ (1 ) L+ (1 )L L+ (1 )L ou seja, 1 L+ 1 1 L+ (1 )L L+ (1 )L + 1 L+ 1 1 (1 )L L+ (1 )L L+ (1 )L L+ (1 )L
Suponha, por outro lado L+ (1 )L L+ (1 )L, mas :Se = , então L+ (1 )L = L+ (1 )L, donde, por re‡exividade, L L0, o que contradiz preferência estrita. Suponha então > . Podemos, então reconstruir a argumentação
2
Uma cisão de um conjuntoXé uma decomposição do conjuntoX; X=A[B;ondeA\B=?eA eBsão conjuntos abertos emX:Um conjunto é dito conexo quando só admite a cisão trivialX=X[?
. Ou seja, se a intreseção for vazia, ou A= [0; )ou B = ( ;1]que são conjuntos abertos em[0;1]: Como os dois conjuntos são fechados (por continuidade) temos um conjunto não-vazio diferente de[0;1]
ao mesmo tempo aberto e fechado em[0;1]o que não é compatível com o fato de que o intervalo é um conjunto conexo.
3
De fato, para duas loterias quaisquerLeL0comL L0;e 2(0;1);temos L= L+ (1 )L L+ (1 )L0
L0+ (1 )L0=L0; por simples aplicação do axioma da independência.
anterior invertendo os papéis de e e provar que L+ (1 )L L+ (1 )L, uma contradição. Isto nos garante que, para toda loteriaL;o escalar 2[0;1]tal que L L+ (1 )L é único.
Vamos mostrar que esse número efetivamenterepresenta a relação de preferênciasem$: Tomemos, então duas loteriasL; L02$:Note queL L0 se e só se LL+(1 L)L
L0L+(1 L0)Lo que ocorre se e só se L L0;pelo passo anterior da demonstração. Vamos agora mostrar a propriedade de linearidade. Para isto, basta provar que para qualquer loteria composta L = L + (1 )L0; temos que U L = U(L) + (1 )U(L0): Já que, por indução, posso generalizar para qualquer loteria composta e então invocar o teorema anterior para garantir que a representação é de utilidade esperada. L+ (1 )L0 L+ (1 )L + (1 ) 0L+ 1 0 L + (1 ) 0 L+ (1 ) + (1 ) 1 0 | {z } (1 ( +(1 ) 0)) L L LogoU L = U(L) + (1 )U(L0):
Digressão: Cardinalidade ou Ordinalidade? Vários economistas acreditam que a função utilidade esperada possui algum sentido cardinal. O motivo dessa crença vem do seguinte teorema:
Teorema: seja uma função utilidade esperada U :$!R que representa a relação de preferências sobre $: Então, Ue(L) :$!R é uma outra função utilidade esperada que representa a mesma relação de preferências se e somente se existem escalares
>0 e tais que Ue(L) = U(L) + :
Demonstração: Suponha que U tem forma de utilidade esperada, e que Ue(L) =
U(L) + ;entãoUe(L) = U(L) e U PK k=1 kLk = U PK k=1 kLk + = PK k=1 kU(Lk) + =PK k=1 k( U(Lk) + ) =PK k=1 kUe(Lk):
Para a volta, considereU~( )eU( )ambas VNM e ambas representando :Considere, então uma loteriaLe de…na L2[0;1]por meio deU(L) = LU(L) + (1 L)U L ; onde L e L são como de…nidos na demonstração anterior. Neste caso L LL+ (1 L)L:ComoU~( ) representa as mesmas preferências, temos
~ U(L) = ~U LL+ (1 L)L = LU~(L) + (1 L) ~U L = ~U L + Lh ~ U(L) U L~ i :
Mas, pela de…nição de L;temos L= U(L) U L U(L) U L ; donde, ~ U(L) = U(L) U L U(L) U L h ~ U(L) U L~ i + ~U L =U(L) ~ U(L) U L~ U(L) U L | {z } + ~U L U L U(L) U L | {z } :
Considere a seguinte a…rmação
u1 u2 > u3 u4 =) u1 u2> u3 u4
Perceba que o sinal da diferença de utilidades é sempre a mesma para qualquer representação de utilidade esperada (Por quê?). Logo, muitos concluem que a diferença de utilidades possui algum signi…cado.
Isto não quer dizer que autilidade esperada tenha signi…cado cardinal.
Teorema (popularesco): Se a relação de preferências sobre $ pode ser repre-sentada por uma função utilidade esperada U :$! R; os números atribuídos a essa representação não possuem nenhum signi…cado além da ordenação de loterias. (Ou seja, não podem ser interpretados cardinalmente).
Demonstração: Seja f(:) uma função estritamente crescente qualquer. A função g(L) =f[U(L)] preserva a ordenação de loterias original, logog( ) representa :
Em palavras: qualquer transformação monotônica de uma utilidade esperada rep-resenta a mesma ordenação de preferências, mesmo que essa função …nal não seja uma utilidade esperada.
O Paradoxo de Allais
De…na os seguintes prêmios monetários
e sobre eles de…na as seguintes loterias
La= (0;1;0) Ma= (0:89;0:11;0)
Lb= (0:01;0:89;0:1) Mb = (0:9;0;0:10)
Note que posso ‘implementar’a loteria da seguinte maneira. Coloco 100bolas numer-adas de0 a 99em uma urna e de…no os seguintes prêmios
loteria 0 1 10 11 99
La 50 50 50
Lb 0 250 50
Ma 50 50 0
Mb 0 250 0
Note queLa%Lb=)Ma%Mb pelo axioma da indepenência.
Uma outra maneira de ver essa implicação é olhando diretamente para a utilidade esperada. Isto é, suponha que
u05 :10u25+:89u05+:01u0 e some :89u0 :89u05dos dois lados da desigualdade
u05+ (:89u0 :89u05) :10u25+:89u05+:01u0+ (:89u0 :89u05)
:11u05+:89u0 :10u25+:90u0;
o que mostra queU(La) U Lb =)U(Ma) U Mb :
No entanto, experimentos de laboratório mostram que escolhem de maneira incon-sistente (curiosamente, Savage foi um dos participantes do experimento conduzido por Allais e um dos que escolheramLano primeiro eMbno segundo experimentos). É este o paradoxo de Allais.
Reações comuns ao paradoxo de Allais:
1) Posição normativa - mostra como os agentes devem agir.
Interessante decompor o problema de tal modo que o axioma da independência é conseqüência de agumas hipóteses fundamentais de comportamento: i) conseqüencial-ismo ou irrelevância de eventos passados e não ocorridos; ii) consistência intertemporal; iii) independência do contexto e iv) redução. A vioalção do axioma da independência imlica na violação de pelo menos um desses pressupostos sobre o comportamento.
2) Desprezar o problema já que está fundamentalmente associado a probabilidades extremas. O problema dessa postura é que torna questionável a utilização em áreas importantes como o cálculo de disposição a pagar por tratamentos de doenças de baixa incidência mas grande fatalidade.
3) De…nir a escolha em termos de objetos mais complexos (e.g., regret theory) 4) Relaxar o axioma da independência.