73 Lam et al. (1996) encontraram digestibilidade in vitro da matéria seca de 73,3% para o milheto BMR e 61,2% para o milheto normal. Estes autores também encontraram, no milheto BMR, menores concentrações de ácidos ferúlico e p-cumarico, que são os principais monômeros envolvidos na ligação entre a lignina e as hemiceluloses. De acordo com Cherney et al. (1988), o milheto BMR apresentou redução de 20% no teor de lignina e aumento de 10% na digestibilidade in vitro de matéria seca. Cherney et al.
(1990) também observaram preferência dos animais em pastejar o milheto BMR, fato que foi comprovado por maior tempo de pastejo e maior desfolha deste. Van Soest (1994) concluiu que o gene BMR foi responsável por um significativo aumento no valor nutritivo das silagens de milho europeias, as quais apresentavam em média 12% a mais de digestibilidade que as silagens americanas.
Com o avançar da idade da planta, os teores de MS e fibra da planta aumentam, e a digestibilidade e o teor de proteína diminuem. Além da idade da planta, outro fator que influencia muito na qualidade do milheto como forragem é a época de plantio, pois quanto mais tardio for este plantio, menor será seu ciclo produtivo.
Consequentemente, as alterações estruturais da planta ocorrerão mais rapidamente e seu valor nutritivo também reduzirá mais rapidamente. Dessa forma, é essencial realizar a análise bromatológica da forragem para o correto balanceamento da dieta.
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milheto pode substituir grão de milho e sorgo nas dietas, mas que estas devem ser formuladas para utilizar eficientemente a alta quantidade de proteína no milheto em substituição à proteína suplementar.
Leão (2002) testou diferentes níveis de substituição do grão de milho por milheto em dietas de novilhos confinados. Os níveis de milheto nas rações testadas foram 0,0, 23,0, 49,0, 80,0 e 96,3% com base na matéria natural. Foi concluído que o milheto pode substituir o milho no concentrado sem prejuízo na digestibilidade dos nutrientes e no desempenho (ganho de peso, consumo de matéria seca e conversão alimentar) de bovinos.
Poucos estudos existem na literatura com a utilização de grão de milheto relacionada à produção de leite. Em um estudo realizado em Goiás, França et al. (1997) substituíram 0, 33, 66 e 99% do milho por milheto na ração de cabras leiteiras. A produção de leite e o teor de gordura do leite dos animais, nos diferentes tratamentos, foram semelhantes.
Ribeiro et al. (2004) avaliaram o efeito da substituição do grão de milho pelo milheto, com base no teor de amido, sobre o desempenho e os parâmetros ruminais de vacas Holandesas com 90 dias de lactação em média. A dieta das vacas foi composta de 52,4% de concentrado e 48,6% de volumoso. Os tratamentos foram 100/0, 75/25, 50/50, 25/75 e 0/100 da relação amido de milho/milheto. Não foram encontradas diferenças no consumo de matéria seca, produção de leite (24,6kg/d) e de leite corrigido para 3,5% de gordura (23,8kg/d). O teor e a produção de gordura e a produção de proteína do leite também não foram diferentes entre os tratamentos. Não houve diferença entre os tratamentos na concentração de acetato, propionato, ácidos graxos voláteis totais e pH ruminal, ocorrendo efeito linear negativo na concentração de N-NH3 com o aumento do teor de milheto. A substituição de milho por milheto não alterou o desempenho de vacas Holandesas em lactação (Tabela 3).
Hill et al. (1996) determinaram que o valor energético do milheto estava entre 85 e 90% do milho.
Tabela 3. Influência da inclusão de milheto sobre a produção e composição do leite.
Itens 0% 25% 50% 75% 100%
Consumo de MS 19,28 19,53 18,97 18,89 18,52
Produção de leite 24,30 24,18 25,11 25,06 24,50
PLC 23,79 23,49 24,61 24,22 23,11
% de proteína 3,00 3,08 3,02 3,04 2,96
% de gordura 3,39 3,41 3,52 3,34 3,21
Fonte: Ribeiro et al. (2004).
75 7. MILHETO PARA PASTEJO
No Brasil, o milheto tem sido cultivado em duas épocas: após a cultura de verão e no final do inverno/início da primavera.
O milheto é cultivado após a colheita da cultura principal, para ser utilizado em pastejo por um período de 40 a 60 dias, do outono até o início do inverno. Pode atingir uma produtividade de 2 a 5@ de carne/ha, possibilitando a vedação de parte das pastagens perenes da propriedade para serem utilizadas de julho a setembro, quando ocorre a maior deficiência de forragem no Brasil central. Dessa forma, podem-se atrasar as aberturas dos silos e aumentar a produtividade da propriedade.
Outra alternativa para a utilização do milheto seria para a implantação e recuperação de pastagens, principalmente para forrageiras do gênero Brachiaria, tais como B.brizantha e B.decumbens (Kichel et al., 1997). Faz-se a semeadura da braquiária consorciada com o milheto na primavera ou no início do período das águas, o que proporcionará um período de pastejo que poderá variar de 80 a 120 dias. Após o ciclo vegetativo do milheto, a pastagem estará formada ou recuperada (Kichel et al., 1999).
Devido ao seu crescimento rápido, o milheto possibilita o uso da área de pastagem recuperada já a partir dos quarenta dias após o plantio, fase em que a braquiária ainda se encontra com baixa produtividade. Em pastoreio rotacionado, obteve-se de 1400 a 2300kg NDT, quantidades superiores à fornecida pelo sorgo e pelo capim-sudão (Andrews e Kumar, 1992).
Por ser uma planta de porte ereto, o milheto deveria ser utilizado em pastejo rotativo.
No entanto, a grande plasticidade da planta faz com que apresente boa performance em pastejo contínuo. Desde que se mantenha um controle da lotação, podem-se atingir ganhos de peso diários de 0,17 a 1,47kg/animal/dia (Hillesheim, 1988). Para que se obtenha um bom controle do pastejo, é necessário que se mantenha uma lotação capaz de consumir o crescimento da forragem e mantê-la numa altura entre 20-30cm, que permita disponibilidade de matéria seca de 2000kg/ha ao longo de toda estação de pastejo. No caso de pastejo rotativo, a pastagem deverá ser pastejada sempre que atingir 50 - 70cm de altura, retirando os animais quando houver rebaixamento para 20 a 30cm do solo. Deve-se dar um período de descanso de 18 a 24 dias (Kichel et al., 1999).
Na região Sul, o milheto tem sido utilizado sob pastejo, associado à desmama precoce (90 a 100 dias de idade) de bezerros, visando garantir pesos semelhantes aos de bezerros submetidos à desmama tradicional, entre seis e oito meses de idade. Moojen et al. (1994) verificaram pesos superiores aos 213 dias (152,71kg) para bezerros desmamados aos 101 dias e submetidos à pastagem de milheto (com 41 dias) quando comparados a bezerros mantidos ao pé da vaca em pastagens naturais do nascimento até a desmama com 213 dias (128,36 kg).
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Dorow e Quadros (1994) avaliaram o efeito de diferentes sistemas de alimentação pós-desmama (milheto, pangola ou pastagem natural) sobre o desempenho de bezerros desmamados aos 90 dias. Durante 96 dias de observação, os animais pastejando milheto apresentaram os maiores ganhos diários (0,509 e 0,380kg/dia), seguidos pelos mantidos em pastagens de pangola (0,203 e 0,187kg/dia) e pastagem natural (0,100kg/dia). A disponibilidade (3190kg de MS/ha) e a qualidade (12,5% de PB e 61,9% de digestibilidade in vitro da matéria orgânica) da forragem foram apontadas como fatores responsáveis pelo desempenho superior dos bezerros mantidos em pastagem de milheto.
Muhelman et al. (1997) também avaliaram o efeito de pastagens de verão (pastagem nativa, coastcross-1, capim-elefante e milheto comum) sobre o desempenho de bezerras submetidas à desmama precoce (94 dias e 84kg de peso vivo), em 83 dias de experimentação. Os ganhos médios diários das bezerras mantidas em pastagens de milheto (0,275kg/dia), capim-elefante (0,175kg/dia) e coastcross-1 (0,314kg/dia) foram semelhantes, porém superiores aos de bezerras mantidas em pastagens nativas (0,012kg/dia), sendo o mesmo comportamento observado para ganho de peso/hectare (344, 353, 259 e 9kg/ha, respectivamente). O consumo de forragem não foi limitado pela disponibilidade; entretanto, houve diferenças quanto à composição das pastagens. Nas pastagens de coastcross-1 e milheto, a oferta de material disponível para consumo (folhas e caules tenros) era, em média, superior a 70%, enquanto nas outras se situou próxima de 50%.
Harvey e Burns (1988) avaliaram o desempenho de bezerras cruzadas, com peso médio de 150kg, em quatro sistemas de pastejo com diferentes forrageiras (1- controle - Poa pratensis L., Trifoliurn repens L. Dactylis glomerata L, 2 - Trifoliurn repens L, 3 - Festuca arundinacea Schreb. 4 - Pennisetum americanum L. Leeke) e com dois níveis de concentrado (ad libitum e restrito a 1% do peso vivo). Os melhores resultados para ambos os níveis de concentrado foram no pastejo de milheto (Pennisetum americanum L. Leeke) com 0,84 e 1,00kg de ganho de peso por dia com restrição ou não do concentrado, respectivamente. Os pesquisadores consideraram excelentes os resultados atingidos no pastejo de milheto mesmo com restrição do concentrado.
Prado et al. (2004) determinaram a degradabilidade in situ de algumas gramíneas sob pastejo continuo (Tabelas 4 e 5). As amostras de milheto, capim-mombaça e estrela roxa foram colhidas a cada 28 dias, e a aveia preta a cada 14 dias. A amostra de milheto apresentava 18,14% de MS, 11,26% de PB e 61,38% de FDN. Pode-se observar que a aveia preta e o milheto apresentaram as melhores degradações efetivas da matéria seca para as taxas de passagem de 5 e 8%/hora. Foi observado também maior valor para a taxa de gradação (c) 3,7%/hora. Juntamente com a aveia preta, o milheto apresentou maior degradabilidade efetiva para a taxa de passagem de 8%. O milheto apresentou maior fração solúvel, maior taxa de degradação e maior degradabilidade efetiva da matéria seca e fibra em detergente neutro em relação à grama estrela roxa e capim-mombaça.
77 Tabela 4. Fração solúvel (a) e potencialmente degradável (b), taxa de degradação (c) e degradação efetiva (DE) da matéria seca das gramíneas para taxas de passagem de 2, 5 e 8%/hora.
Gramíneas a (%) b (%) c (%/h) DE (%)
2 (%/h) 5 (%/h) 8 (%/h) Aveia preta 31,7a 58,0a 2,9 65,6a 52,6a 46,9a Estrela roxa1 13,8c 41,2b 1,5 31,1d 23,1b 20,2b Estrela roxa2 14,1bc 41,7b 2,9 38,5c 29,2b 25,0b
Milheto 24,3ab 54,7ab 3,7 59,9b 47,7a 41,7a
Mombaça 18bc 59,1a 1,4 40,8c 30,0b 26,2b
1Estrela roxa no inverno (entre maio e outubro); 2Estrela roxa no verão (entre novembro e fevereiro).
Médias na mesma coluna seguidas de letras diferentes diferem entre si pelo teste Tukey a 5% de probabilidade.
Fonte: Prado et al. (2004).
Tabela 5. Fração solúvel (a) e potencialmente degradável (b), taxa de degradação (c) e degradação efetiva (DE) da fibra em detergente neutro (FDN) das gramíneas para taxas de passagem de 2, 5 e 8%/hora.
Gramíneas a (%) b (%) c (%/h) DE (%)
2 (%/h) 5 (%/h) 8 (%/h)
Aveia preta 16,0a 73,3a 2,4a 55,7a 39,7a 32,9a
Estrela roxa1 9,6ab 40,6c 1,4a 26,4d 18,7d 15,8b
Estrela roxa2 5,9b 44,1c 3,2a 32,5c 22,7c 18,3b
Milheto 8,3b 63,5b 3,6a 49,1b 34,8b 28,0a
Mombaça 1,8b 66,1ab 1,5a 29,0d 16,2d 11,6b
1Estrela roxa no inverno (entre maio e outubro); 2Estrela roxa no verão (entre novembro e fevereiro).
Médias na mesma coluna seguidas de letras diferentes diferem entre si pelo teste Tukey a 5% de probabilidade.
Fonte: Prado et al. (2004).
Clark et al. (1965) compararam o milheto, capim-sudão e um híbrido de sorgo com capim-sudão em experimento de pastejo com vacas em lactação durante um período de três anos de avaliações. Os animais foram suplementados com 6,3kg de concentrado/dia em média. As pastagens não diferiram quanto à produção de matéria seca (2,22 a 4,30t de MS/ha), capacidade de suporte (6,67 a 4,12 vacas/ha/dia) ou produção de leite por vaca (19,85; 20 e 20kg/dia). Ocorreu um menor teor de gordura no leite dos animais pastejando milheto (2,91%) em comparação com o capim-sudão e o híbrido de sorgo com capim-sudão (3,39%).
Bucholtz et al. (1969) também compararam o pastejo de milheto com o capim-sudão, avaliando a performance de vacas Holandesas. Não foram observadas diferenças nas produções de leite das vacas no pastejo de milheto (17,8kg/dia) e capim-sudão (17,9kg/dia). Entretanto, ocorreu um menor teor de gordura no leite das vacas pastejando milheto (2,80%) quando comparado com capim-sudão (3,32%). Foi observada uma redução na porcentagem molar de butirato no rúmen de vacas
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pastejando milheto. As proporções molares de acetato e propionato não diferiram entre os dois tratamentos.
A performance de vacas em dois sistemas de pastejo (milheto e tífton 85) ou confinadas foi avaliada por Fontaneli et al. (2005). O pastejo do milheto ocorreu quando as plantas apresentavam 40cm de altura. Os animas em pastejo receberam em média 6kg de concentrado. O consumo de matéria seca (19kg), a produção de leite (25,1kg/dia) e os teores de gordura (3,65%) e proteína (2,95%) do leite foram semelhantes entre os animais pastejando milheto ou tífton 85. Os animais em pastejo produziram 19% a menos de leite que os animais confinados, mas com um custo de alimentação 50% menor.
Pode-se perceber que, de acordo com alguns experimentos realizados nas décadas de 60 e 70, o pastejo de milheto promoveu redução do teor de gordura no leite. Alguns autores levantaram a hipótese de mudanças nas proporções de ácidos graxos voláteis no rúmen (aumentando o propionato e reduzindo o acetato), entretanto isso não ficou provado. Experimentos mais atuais com o de Fontaneli et al. (2005) não observaram esse efeito.
O milheto pode ser utilizado como uma fonte nutricional importante na pecuária de leite a pasto, já que esta tende a ser mais econômica que a baseada somente na suplementação, e os pastos de verão no país, como um todo, são de baixa digestibilidade e valor energético. Freitas (1988) sugere o aproveitamento do milheto para melhorar a oferta de forragem com maior qualidade.