2 APROPRIAÇÃO
2.3 JORNALISMO LATERAL
4.2.4 Utilizações e jornalismo lateral
Como citado anteriormente, uma das principais características do jornalismo participativo na sua relação com as organizações de mídia tradicional, segundo as propostas de Antonio Sofi (2006) seria a ampliação do jornalismo de forma lateral. Ou seja, a ampliação de assuntos e temas cobertos e que, por consequência, receberiam o destaque e a atenção do público. Essa mudança dar-se-ia pela utilização de outros valores ou critérios de noticiabilidade distintos daqueles compartilhados pela tribo jornalística e presentes nas redações (TRAQUINA, 2005).
Uma vez que a observação sistemática realizada para esta pesquisa se limitou àquele conteúdo que sofreu a interferência do jornalista – o que, no caso do Cidadão
Repórter, implica a sua apuração escrita e publicação no veículo impresso – não foi
possível identificar diretamente, neste material, discrepâncias acintosas entre o material que se baseou na contribuição do leitor e aquele próprio da redação.
Neste tópico, as declarações das jornalistas entrevistadas são um tanto contraditórias. Por um lado, fazem questão de ressaltar que “os critérios de noticiablidade [...] não mudam porque muda o suporte ou muda a forma como a informação chega até o jornal”. De maneira condizente com o material encontrado no período de observação da publicação, entre estes critérios, a editora explicita que “a notícia precisa ter alguma relevância, precisa ter impacto, precisa de preferência ser exclusiva, embora já esteja ali publicada, não ter sido publicada em outro veículo”.
Em contrapartida, como já destacado anteriormente, as entrevistadas relataram a importância de um olhar distinto e mais atento quando da seleção e realização de pautas provenientes do fórum de leitores. Se por um lado, a necessidade do olhar do jornalista é uma forma de evidenciar a sua importância em trabalhar a informação bruta enviada pelo leitor, pode-se também encarar o processo como uma forma de modificar a rotina tradicional do jornalismo, impondo-lhe uma nova atividade – de integrar o caráter jornalístico ao material do leitor.
Uma dupla adaptação, portanto, pode ser vista nessa situação: ao mesmo tempo em que o profissional molda a contribuição do usuário para que esta se enquadre em seus critérios, também o leitor interfere na ampliação e mudança de algumas perspectivas do jornalista sobre a realidade social que é responsável por publicizar.
Uma entrevista descreve bem a situação, apontando a mudança de percepção do veículo em relação a alguns dos temas que têm forte presença no espaço dos leitores, como a situação das ruas. “A gente às vezes evitava, por exemplo, pauta de buraco. Porque até pouco tempo, [...] buraco não era uma pauta que fosse ser considerada uma boa pauta”, comenta.
É importante frisar, como o faz a editora, que os comentários dos leitores não são a única força em questão. Comentando ainda o mesmo exemplo, ela complementa que, devido à situação das ruas da cidade “buraco virou até uma pauta de política. Então, de repente o contexto vai mudando, com o passar do tempo você vai vendo que uma pauta que há um ano, dois anos atrás, poderia não servir, hoje já tem outro significado”.
Caso se considere – como demonstra fazê-lo a própria equipe do portal – o fórum como um espaço próprio de publicação, no entanto, é possível identificar uma ampliação ainda maior dos critérios de noticiabilidade tradicionais quando da escolha dos temas e das informações que ali circulam.
A própria abertura – inicialmente completa e hoje mediada – e a pouca preocupação e ação direta da redação com o conteúdo que circula no Cidadão Repórter, quando não é retirado dele para se tornar conteúdo de outros espaços e veículos do grupo pode ser a melhor explicação para presença de diversas formas de mensagem.
Esta atividade é inclusive facilitada pela escolha da plataforma – de fórum – que permite o encadeamento de mensagens, sua leitura consecutiva e a citação de pessoas e
mensagens anteriores em um novo texto. É assim um espaço propício para a escrita coletiva. Ou seja, assim como identificado anteriormente, o espaço é utilizado de formas diversas, servindo também para a troca de mensagens entre seus integrantes, de tal maneira que não apenas se tem espaço para comentários únicos, denúncias e flagrantes como para a discussão e a colaboração entre os participantes na coleta e organização das informações relativas a um mesmo tema.
Esta atividade coletiva foi ressaltada durante as entrevistas, quando uma editora destacou a atuação da comunidade em suprir-se a si mesma de informações. Ela conta que em alguns casos a resposta para uma denúncia vem do próprio fórum: “Uma pessoa posta que a luz da rua dela está queimada ou então o poste da rua está aceso durante o dia, desperdício de energia elétrica. Outra pessoa vai, no dia seguinte, e diz, olhe a rua que você botou, o poste já está apagado não está mais aceso durante o dia.”
Em outros momentos o espaço consegue obter respostas ou atenção por si só. Uma das propostas iniciais do Cidadão Repórter foi a sua abertura também à presença de assessorias de comunicação de órgãos e empresas de serviço público para que estas pudessem por si mesmas responder às questões e denúncias levantadas pelos leitores no fórum. Assim, mesmo sem a presença no veículo impresso, era possível aos membros da comunidade receber o retorno necessário.
Uma editora relembra um caso especial da atenção dada ao fórum por empresas prestadoras de serviço público. Atenta ao fato de que o transporte público urbano é um dos temas mais comentados nas páginas do fórum, uma empresa que atende à Região Metropolitana do Recife convidou membros do espaço para discutir o tema.
Os cidadãos que participam com mais frequência do tópico de transporte já foram chamados por uma empresa de ônibus para participar de reuniões (eu não sei se semestrais ou trimestrais). Eu sei que eles foram convidados e isso tudo aconteceu dentro do cidadão: marcaram hora, local, compareceram, fizeram uma visita à garagem da empresa, ouviram explicações, deram sugestões.
Estes exemplos reforçam o caráter deliberativo (DANTAS; SAMPAIO, 2010) inerente à própria ferramenta utilizada – o Bulletin Board – e ressaltada pela temática central do espaço, a cidadania. O que dá ao mesmo a definição extraoficial de “rede
social com pegada jornalística”, na qual os indivíduos se organizam e se agrupam “por afinidades ou por interesses comuns”.
Essas organizações e formação de grupos não se restringem àqueles destinados à discussão de assuntos do cotidiano e/ou da agenda jornalística. Também estão presentes no fórum que não são diretamente relacionadas a denúncias, notícias ou sugestões de pauta; são conversas entre os participantes, troca de informações pessoais e outros tipos de comunicação interpessoal e interação.
Uma editora recobra algumas manifestações espontâneas de grupos e amizades que se formaram; alguns destes ultrapassaram os limites do fórum. “Por exemplo, a gente já teve a confraternização de fim de ano do cidadão repórter. Então eles se organizaram, fizeram um amigo-secreto e uma confraternização”, conta.
Seguindo as categorias elencadas quando do mapeamento inicial deste trabalho, pode-se identificar na página do Cidadão Repórter conteúdos de caráter informativo e opinativo – principalmente presentes na forma de denúncias, flagrantes e comentários sobre o cotidiano –, assim como conteúdo de caráter pessoal ou aleatório – onde se encaixam as trocas de mensagens pessoais outros tipos de material compartilhados.
Ainda que não seja incentivada diretamente, essa movimentação interna dos membros da comunidade é vista com bons olhos pelos jornalistas da casa que acompanham o projeto. Atualmente, segundo uma das jornalistas entrevistadas “as pessoas querem se ver. Querem se ver refletidas no jornal, querem se ver na televisão e as redes sociais são acho que uma resposta”. Mas continua explicando que “foge um pouco da proposta do Cidadão Repórter a gente publicar esse tipo de conteúdo. [...] a gente não dá visibilidade para esse tipo de coisa” – o que significa não “botar a mão e respaldar de alguma forma esse conteúdo, como a gente nunca fez”.
Apesar disso, como coloca uma editora, essa movimentação é “extremamente saudável e acho muito rico, assim. Mais um efeito colateral do cidadão que terminou dando certo também”. No entanto, como visto, não faz parte dos planos do veículo, para incentivar este processo, aumentar a participação direta dos seus jornalistas na conversação do fórum.