A teoria das representações sociais, tal qual proposta por Moscovici (2012a;2012b), pressupõe a existência de formas diferentes de conhecer e de se comunicar, cada uma caracterizada e guiada por objetivos diferentes, produzindo universos próprios. Dentre essas formas destaca-se a consensual, cuja distinção da científica não teria um caráter hierárquico, mas referido a diversidade de seus propósitos. As representações sociais são construídas predominantemente na esfera consensual, constituída principalmente na vida cotidiana (ARRUDA, 2002). Araújo esclarece que as representações sociais
são elaboradas na relação dos indivíduos em seu grupo social, na ação no espaço coletivo comum a todos, sendo assim, diferente da ação individual. O espaço público é o lugar onde o grupo social pode desenvolver e sustentar saberes sobre si próprio, saberes consensuais, isto é, representações sociais (2008, p. 100)
Considera-se, na teoria das representações sociais, que os sujeitos procuram elaborar explicações acerca dos objetos que consideram socialmente relevantes, a fim de se comunicar e atuar ante as situações que trespassam o seu cotidiano (CRUZ; FERREIRA, 2011). A formação das representações sociais permite aos indivíduos se aproximar do que lhe é estranho, familiarizando-se com determinado objeto e a partir daí podendo tomar parte no processo comunicativo. Moscovici destacara que:
Nenhuma noção vem com o modo de usar, nenhuma experiência apresenta-se com o método, e quando as recebe, o indivíduo as usa como bem entende. O importante é poder integrá-los num esquema coerente do real ou passar para uma linguagem que permita falar daquilo que o mundo fala (2012a, p. 51).
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Em conversa informal com um dos residentes, o mesmo se queixou que seu sabonete sempre acabava sendo confundido e trocado pelo de outro residente, em razão do que ele estava andando com o sabonete dele em uma bolsa plástica presa à sua cadeira.
O processo de familiarização do desconhecido ocorre, no modelo proposto por Moscovici, através dos processos que denomina de objetivação e ancoragem. O processo de objetivação corresponderia a uma apropriação do não familiar pelo uso do núcleo figurativo em sua representação e de uma descolagem da imagem em relação ao conceito, parecendo aquela uma realidade substancial. Por meio da objetivação a imagem é totalmente assimilada e o que é percebido substitui o que é concebido como resultado lógico desse processo (MOSCOVICI, 2012b). Já o processo de ancoragem se refere à transformação de algo não familiar e estranho por meio de sua ligação a dados já conhecidos, correlacionando-o em nosso sistema particular de categorias. A esse respeito, esclareceu Moscovici:
Ancoragem e objetivação são, pois, maneiras de lidar com a memória. A primeira mantém a memória em movimento e a memória é dirigida para dentro, está sempre colocando e tirando objetos, pessoas e acontecimentos, que ela classifica de acordo com um tipo e os rotula com um nome. A segunda, sendo mais ou menos direcionada para fora (para outros), tira daí conceitos e imagens para juntá-los e reproduzi-los no mundo exterior, para fazer as coisas conhecidas a partir do que já é conhecido (2012b, p.78).
Nesse processo, por meio do qual as representações sociais são engendradas, ganha relevo o fato de que as reações ou avaliações produzidas ante o não familiar se organizam diferentemente com base nas distinções de classe, cultura ou grupos que constituem universos de opiniões correspondentes a tais distinções. Esses universos são compostos, segundo Moscovici, por três dimensões, quais sejam a atitude, a informação e o campo de representação ou imagem. (2012a). A informação diria respeito “a organização dos conhecimentos que o grupo possui com respeito ao objeto social” (MOSCOVICI, 2012a, p. 62). O campo de representação “remete à ideia de imagem, de modelo social, com conteúdo concreto e limitado das proposições que expressam um aspecto determinado do objeto de representação” (MOSCOVICI, 2012a, p.64), correspondendo à imagem reconstruída do objeto a partir dos processos de ancoragem e objetivação, para o que é determinante a existência da dimensão designada de informação. Por fim, a atitude “explicita a orientação global em relação ao objeto de representação social” (MOSCOVICI, 2012a, p.65).
No modelo teórico proposto por Moscovici a atitude é apresentada como a mais frequente das três dimensões, posto que a avaliação positiva ou negativa de um dado objeto pode se manifestar ainda quando o grau de informações sobre o mesmo é significativamente reduzido. Além do mais, a atitude é apresentada como, geneticamente, a primeira das dimensões, enfatizando-se que o processo de familiarização com um objeto não é neutro e que
“nos informamos e representamos alguma coisa unicamente depois de ter tomado uma posição e em função desse posicionamento” (MOSCOVICI, 2012a, p. 69). Essa observação permite compreender como a representação social pode ser considerada uma preparação para a ação e aquilo que a caracteriza como social, a função de contribuir exclusivamente aos processos de formação da conduta e de orientação das comunicações sociais (MOSCOVICI, 2012a). Assim é que esclarece Araújo:
As representações sociais são formas de conhecimento socialmente construídas pelos integrantes dos grupos para explicar as relações estabelecidas entre eles, com outros grupos e com a natureza. Isso ocorre mediante o caráter coletivo das idéias, histórias e experiências vividas por um grupo social específico e essa construção vai servir de orientação para a ação social (2008, p. 110).
A utilização do conceito de representação social nesse trabalho se justifica no objetivo de compreender como os residentes das instituições de longa permanência pesquisadas compreendem e comunicam a velhice e a vida institucionalizada, pressupondo-se que a maneira como representam essas questões remodela e reconstrói os elementos do ambiente em que o comportamento passa a se realizar e, assim, estabelece a forma de atuação nesse ambiente. Os recursos metodológicos utilizados para tanto foram a entrevista semiestruturada, na qual se destacaram questões como a caracterização da vida antes do ingresso na instituição, as causas do ingresso na instituição, o processo de adaptação à vida institucionalizada, o significado atribuído à velhice e as perspectivas dos sujeitos quanto ao futuro, bem como observação direta pelo pesquisador, que segundo Araújo constituem os métodos por excelência na pesquisa acerca das representações sociais (2008)97.
Reconhecendo-se que as representações sociais se configuram a partir das experiências vividas por cada indivíduo (CRUZ, FERREIRA, 2011), é de se observar que as imagens construídas pelos sujeitos da pesquisa apenas podem ser compreendidas no contexto da vida institucionalizada e de um contato direto com a velhice dependente, construídas que são a partir da realidade e do contexto concreto em que estes sujeitos estão inseridos.
Na tentativa de compreensão da maneira como os sujeitos da pesquisa representam a velhice e a vida institucionalizada, buscamos estabelecer algumas comparações com a caracterização a que chega Norbert Elias acerca da nossa relação com a velhice e com os moribundos na sua análise do processo civilizador, que tentamos expor na seção 2 do trabalho, apontando aqui alguns pontos de acesso e elementos distanciadores daquela caracterização. Não se tratou contudo de observar a adequação ou não do modelo eliasiano à
97 Para uma indicação completa dos métodos e técnicas empregados remetemos o leitor à introdução desse
forma como os sujeitos da pesquisa e de maneira mais geral nossa sociedade se relaciona com o velhos e com os moribundos, mas tão somente de observar se a caracterização que expõe Elias sobre a solidão dos moribundos pode ser percebida nas representação construída pelos sujeitos da pesquisa.