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Utopia Comunitária: origens do Desenvolvimento de Comuni dade

No documento Quem define o serviço social no mundo (páginas 146-151)

Representante do metodologismo característico da vertente de modernização conservadora e uma das principais intelectuais do Desen- volvimento de Comunidade no Brasil61, Vieira (1978, p. 71-75) concebe o DC como “abordagem comunitária” do Serviço Social. As diferencia- ções da trajetória na sua aplicação, no Velho Continente, levaram-no a se consolidar enquanto “trabalho comunitário”, ligado à Ação Social da Igreja Católica e difundido pela UCISS. Ao passo que o Desenvolvimen- to de Comunidade difundido mundialmente a partir do pós-guerra, in- clusive na América Latina, teve suas referências nas experiências norte- americanas de “Organização Social de Comunidade” nos anos anteriores à Segunda Guerra Mundial, cujas origens se encontram nas “Organiza- ções de Caridades”. Para a autora, a segunda surge com a finalidade de “remediar as disfunções da sociedade”, apesar de que “ambas são vistas de um ângulo sociológico: o ambiente do indivíduo e/ou da família ou os problemas de determinada classe de indivíduos em relação à socieda- de”. Vieira vocaliza a presença da sociologia funcionalista norte-ameri- cana no fundamento teórico-metodológico de ambas as vertentes, que encontra na noção de comunidade o substrato comum destas fontes cul- turais diversas do pensamento conservador.

Segundo Iamamoto (2000, p. 25-26), o “componente utópico” contido na concepção de comunidade, devido ao seu caráter de refor- mismo restaurador de uma idealizada ordem pré-capitalista, adequou-se perfeitamente aos propósitos de cristianização da sociedade estabeleci- dos pela Ação Social da Igreja Católica no Brasil à formação dos primei- ros quadros de assistentes sociais, ao mesmo tempo que serviu como fio condutor da transição à influência norte-americana, por incorporar tal noção “como matriz analítica da sociedade capitalista e como projeto norteador da ação profissional”. A comunidade é a forma social de soli- dariedade orgânica localizada no horizonte histórico da teoria funciona- lista e haurida da crítica romântica anticapitalista do pensamento con- servador europeu. Reside nela, portanto, um dos núcleos duros do en- contro entre as duas perspectivas do reformismo, contidas no arranjo

61 "Ainda nessa década [de 1950] é publicado pelo SESC o livro de Balbina

Ottoni Vieira, que, malgrado incorpore sugestões metodológicas da Missão Ru- ral de Itaperuna, guarda traços nítidos da Organização de Comunidade (que caracterizam os trabalhos durante os anos 40).” (AMANN, p. 38).

teórico-doutrinário do Serviço Social: a fusão dos princípios morais do humanismo abstrato, próprios às relações familiares e comunitárias ditas saudáveis, com a manipulação empírica da sociologia conservadora nor- te-americana, vista como necessária à organização dessas relações para a obtenção comum do bem-estar.

A força da comunidade provém de motivações mais profundas que o mero interesse racional; nela o homem é concebido como totalidade, e não a partir dos papéis que desempenha na ordem social. Seu modelo, do ponto de vista histórico, é a famí- lia. Os laços de comunidade passam a compor a idéia da “boa sociedade”, estando na base do con- ceito do social, tal como é predominantemente utilizado pelos sociólogos. O simbolismo da co- munidade torna-se um meio de legitimação das relações sociais, um novo esquema de utopia. (NISBET apud IAMAMOTO, 2000, p. 26).

De acordo com Vieira (1978, p. 75), a definição da “abordagem comunitária” que parece ter adquirido maior aceitação nos Estados Uni- dos parece ter sido a de Arthur Dunham: “A Organização da Comunida- de, no campo do Serviço Social, é o processo pelo qual se promove e se mantém um equilíbrio constante entre os recursos e as necessidades, dentro de uma área geográfica ou de um campo do Serviço Social”. Fica patente, nesta definição, o caráter pragmático da manipulação empírica de variáveis em vista do ajustamento social típico do funcionalismo, no sentido do pólo das “reformas macroscópicas” do reformismo conserva- dor. A “abordagem comunitária”, todavia, não exclui a perspectiva indi- vidualizada do ajustamento, presente na teoria funcionalista e implemen- tada no Serviço Social de Casos. Ao contrário, a “organização" da co- munidade, em vista do "progresso" e do "bem-estar comum”, pressupõe a “adaptação” dos indivíduos “disfuncionais” à “divisão do trabalho em seu interior” – apesar de que as “abordagens" de caso, grupo e comuni- dade nem sempre tenham sido aplicadas de forma sincronizada em cada país. Segue esta linha a definição de Social Work proposta por Finck, e apresentada por Vieira (1978, p. 59-60), como acoplamento do case work de Richmond à “abordagem comunitária” oriunda do Settlement Movement:

Para que todos pudessem trabalhar, a pequena comunidade precisava se “organizar”, fornecer trabalho e “organizar" recursos para lutar contra os males sociais que infalivelmente podiam atacar a comunidade, mas também para preveni-los.

Social Work será então uma ‘conexão' para utili- zação das potencialidades humanas, em forma de serviços tangíveis e intangíveis: ‘Organizar as potencialidades na comunidade e nos indivíduos, de maneira que os seus recursos ou recursos limi- tados ou que não os sabem utilizar, possam alcan- çar uma vida mais adequada e feliz’. Social Work possui, assim, dois objetivos: 1º – criar condições para uma vida melhor e 2º – desenvolver nos indi- víduos capacidade para essa vida melhor.

Fica claro na concepção de Fink que, diante das sequelas da ques- tão social decorrentes da consolidação da ordem burguesa nos Estados Unidos – desigualdades sociais oriundas da exploração, pauperização e desemprego da classe trabalhadora na transição à ordem monopólica –, o autor opunha a utopia comunitária do pensamento conservador norte- americano. A comunidade aqui comparece como o lócus da reprodução social das classes subalternas, espaço da assistência e da pedagogia para o trabalho, que deve se organizar com otimização de seus recursos para prestar os “serviços tangíveis e intangíveis” que atendem a este objetivo. O apelo moral à busca do bem-estar comunitário (“vida mais adequada e feliz”, “vida melhor”) pelos vínculos de solidariedade tenta esconder timidamente o caráter compulsório, com que se reveste, de normalização dos comportamentos à disciplina do trabalho, “para lutar contra os males sociais que infalivelmente podiam atacar a comunidade, mas também para preveni-los” – resposta esta, dada ao enfrentamento das sequelas da questão social, que aqui comparecem sob a forma de “males sociais”, num inequívoco sentido de criminalização da pobreza. Na "conexão" entre os vetores de organização da comunidade para a oferta dos servi- ços e de ajustamento dos indivíduos para cumprirem seu adequado papel na comunidade, Finck localiza o espaço de atuação do Social Work. Se- ria, portanto, o assistente social (social worker), o profissional responsá- vel por realizar a programática durkheimiana de articular os laços de solidariedade mecânica próprios da comunidade em meio ao estado de anomia da sociedade deixado pela industrialização, com seus frouxos vínculos de solidariedade orgânica.

Em crítica à “organização de comunidade”, Castro (1984, p. 136- 137) sinaliza que a sociedade norte-americana foi tomada como modela- gem de sua aplicação indistinta nos demais países, principalmente em seu pragmatismo empírico. O equacionamento entre “identificação das necessidades” e “alocação de recursos”, tal como proposto por Finck e Dunham, reduz “a questão social a problemas técnicos”, abrindo a vaga do metodologismo. A legitimidade do trabalho do assistente social con- sistiria, então, em sua capacidade de “responder aos problemas com aquilo que estivesse ao seu dispor”, aí incluído o “apoio de entidades e agências”, dirigindo sua intervenção profissional à organização da “po-

pulação com o objetivo de colimar realizações materiais”. A organização de comunidade traz implícito o conteúdo funcionalista de ajustamento e responsabilização da “comunidade" por sua própria condição contido no pólo das “reformas macroscópicas” do reformismo conservador.

A comunidade como tal – imprecisamente defini- da – deve, segundo esta concepção, chegar ao convencimento de que os instrumentos para o seu desenvolvimento residem nela e, por conseguinte, que as razões do seu atraso também se explicam a partir dela mesma. Nesta interação de entraves e potencialidades, a comunidade terá que descobrir e libertar aquelas energias que a direcionem ao progresso econômico-social. Deduz-se também que este processo implica o acatamento dos ter- mos desiguais da “associação" com o “governo”, frente aos quais a capacidade negociadora da co- munidade, para fazer prevalecer os seus pontos de vista, será insignificante se comparada com a magnitude real dos recursos disponíveis pelo Es- tado. (CASTRO, 1984, p. 142-143).

Portanto, a atuação intelectual do assistente social, na organização de comunidade, se volta à obtenção do seu consenso passivo às “refor- mas macroscópicas” do Estado – real significado do “bem-estar comum” –, com vistas à organização da classe trabalhadora sob a tutela dos apa- relhos de coerção – aos moldes do sindicalismo fordista. Neste ponto consiste a funcionalidade da organização de comunidade à estratégia do pan-americanismo monroísta no segundo pós-guerra: o Serviço Social seria colocado na linha de frente das relações institucionais com a classe trabalhadora para conquistar sua adesão às políticas sociais implementa- das pelo Estado brasileiro na esteira das reformas americanistas, ditadas pelos organismos internacionais sob a direção e o controle dos Estados Unidos.

Conforme Ammann (50-51), o Conselho Econômico e Social da ONU (ECOSOC), em agosto de 1951, organizou uma comissão para mapear as experiências de organização e desenvolvimento de comunida- de pelo mundo. Foram identificadas três vertentes: os Centros Sociais de Comunidade, locais “para reuniões de grupos que organizam atividades culturais, educacionais e recreativas, bem como para a prestação de ser- viços especiais” a segmentos populacionais; o Settlement Movement; e os Conselhos Comunitários, “organizados com representação de várias entidades locais, objetivando a coordenação de obras e caixas comunitá- rias reunindo fundos para proporcionar serviços unificados de financia- mento, recreação e assistência sanitária”. Embora o primeiro contato do Serviço Social nos países da América Latina tenha havido com a Ação

Social europeia da Igreja Católica e, depois, com a experiência oriunda dos Settlements, por intermédio dos intercâmbios nos anos de 1940, Amman demonstra que prevaleceria a primeira vertente na difusão da organização e do desenvolvimento de comunidade nas décadas posterio- res junto à América Latina.

A ONU fez suas primeiras experiências piloto no Egito (1939), na Costa do Ouro africana (1948) e na Índia (1946 e 1948), a partir das quais desenvolveria seus programas oficiais de maior envergadura (VI- EIRA, 1978, p. 148). De acordo com Castro (1984, p. 133), o chamado “desenvolvimento de comunidade” abrangeu estes projetos realizados no processo de descolonização da África e da Ásia, enquanto a “organiza- ção de comunidade” esteve inserida nas políticas implementadas nos Estados Unidos, “com uma ênfase técnica maior e com uma mais alta vinculação profissional do Serviço Social enquanto método”. A inter- venção dos organismos internacionais nos anos seguintes sistematizaria ambos os métodos num “conjunto de técnicas e processos”, que resulta- ria no moderno Desenvolvimento de Comunidade. Bonfiglio (apud CASTRO, 1978, p. 134) indica dois componentes de continuidade entre o desenvolvimento e a organização de comunidade: um, “ideológico”; outro, “técnico-metodológico”. O primeiro, caudatário do pragmatismo inglês, da corrente estrutural-funcionalista da sociologia norte-america- na, e do liberalismo – com sua correspondente definição do mercado como instância organizadora da vida social –, “consistia em considerar os problemas sociais (de integração ou modernização) como passíveis de tratamento a nível de cada ‘comunidade’, enquanto núcleos básicos ou células da sociedade”. O segundo dizia respeito a um arsenal comum de técnicas recolhido das chamadas ciências sociais aplicadas, como “a psicologia social […], a dinâmica de grupos, […] e outros procedimen- tos que confluem no chamado método de grupo do Serviço Social. Há que mencionar, ainda, os métodos e técnicas da antropologia aplicada”.

Em face destes elementos, vemos que o método de comunidade do Serviço Social já era uma proposta de intervenção consolidada nos Estados Unidos na década de 1940. Ammann (1985, p. 37) afirma que até 1951 a literatura adotada como guia para a formação de técnicos e para a implementação no trabalho comunitário era produzida nos Esta- dos Unidos. A autora lista uma série de programas de cooperação técnica estabelecidos pelo governo estadunidense com o Brasil naquele decênio, mediante os quais os Estados Unidos formaram os primeiros quadros brasileiros na ideologia do Desenvolvimento de Comunidade e prepara- ram o terreno institucional para a implantação das políticas desenvolvi-

mentistas62. No bojo destes programas, localizamos o convênio de inter- câmbio assinado pelo Bureau da Infância entre as escolas latinas e esta- dunidenses, pelo qual teria início a difusão do método de comunidade no Serviço Social. Resnick (1995, p. 71) menciona, inclusive, que após a Segunda Guerra, “especialistas das Nações Unidas […] visitaram vários países Latino-Americanos para aconselharem as escolas de serviço soci- al na criação de novos programas que seriam mais conducentes com os planos de desenvolvimento formulados pelos diversos governos nacio- nais”. Logo, as instâncias do pan-americanismo, na década de 1940, abriram caminho para a posterior vinculação à ONU do Serviço Social na região.

6.3. Início do Desenvolvimento de Comunidade no Serviço Social da

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