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Fonte: Ana Carolina Abreu.

4.1 TELEFONE SEM FIO

4.1.1 Véspera e Canto de Abertura

Diferente dos outros dias, calmos e tranquilos, ontem e hoje, véspera e dia de se iniciar o Jàt jõ pĩ, as atividades se multiplicaram na aldeia. O boi chegou, foi cortado e distribuído nas casas, em maior quantidade para as famílias que iriam trocar o paparuto - bolo de mandioca com carne, comida cerimonial - no dia da tora de batata. Enquanto isso, os hôxwa Ismael Ahpracti e Paulo Jõwàt finalizavam a preparação das toras, no meio do mato. À noite, teve cantoria no pátio. Hoje, quarta-feira, pela manhã, já se podia ver e ouvir o ralar das mandiocas pelas mulheres de algumas casas, durante a tarde, as mulheres separavam as pedras e os homens cortavam as lenhas para o moquém. Várias crianças brincavam de futebol no espaço da associação

hôxwa, próximo ao quintal de Ahpracti e de “pular de saco”, próximo à casa

da pahhi Raquel Rõrcaxa. Ambas as mulheres dessas famílias, entre outras, preparavam a mandioca e cortavam a carne para servir de base para o paparuto. Observei minha inxê, Maria Rosa Amxôkwỳj , esposa de Ahpracti, fazer com muito cuidado todas as etapas de preparação do paparuto, minha

tyj, Maria Helena Pokwỳj , havia ralado a mandioca. Ahpracti acompanhava

o processo e fazia piadas, inclusive com o tamanho da faca de Amxôkwỳj . Num repente, os homens se prepararam e correram com a crow (tora de buriti). Quando os moquém começaram a pegar fogo, Paulo Jõwàt, que em 2014 e 2015 estava aprendendo as canções da tora de batata, iniciou o ritual, com o canto de abertura, agora como mestre ritual (Diário, 11 de julho de 2018).

121 Entardecer. O sol se pondo e avermelhando o céu, uma cena típica de verão. Nas casas e quintais, as mulheres começam a escutar o canto de abertura que ecoa do centro da aldeia. Os homens estão todos sentados no pátio, acompanhando o mestre ritual cantar em voz grave (LIMA, 2016, p. 267). Em 2009, a antropóloga Ana Gabriela Morim de Lima registrou este cântico na casa de Domingos Crate, mestre ritual da aldeia Pedra Branca; em 2018, filmei Paulo Jõwàt, mestre ritual, cantor da batata, neste momento do Jàt jõ pĩ, no pátio central, junto dos homens, cantando a segunda estrofe deste cântico:

Prỳ, prỳ, prrrỳ

Pàre a tora grande camẽ hẽ empurraram

pàre a tora grande camẽ hẽ empurraram pàre a tora grande pỳpỳmỳ derrubaram pàre a tora grande pỳpỳmỳ derrubaram pàre a tora grande camẽ hẽ empurraram pàre a tora grande camẽ hẽ empurraram Prỳ, prỳ, prrrỳ ha narê ja já arrancaram narê ja he arrancaram he ha nare ja já arrancaram narê ja he arrancaram he narê ja arrancaram hô ryre a folha compridinha21 narê ja arrancaram

hô ryre a folha compridinha ha narê ja já arrancaram narê ja he arrancaram he ha narê ja já arrancaram narê ja he arrancaram he

Prỳ, prỳ, prrrỳ (LIMA, 2016, p. 268)

Após o cântico, os homens levantam e seguem rumo às toras de batata que se encontram no meio do mato e que foram minuciosamente preparadas pelos hôxwa durante a semana. As toras já foram empurradas e posicionadas a oeste da aldeia, local de onde partirá a

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Segundo Lima (2016, p. 269), a folha compridinha é a da madioca, que é parente da batata e que foram arrancadas pelas mulheres em suas roças, para fazer o paparuto que será trocado entre as famílias dos jovens recém-casados.

122 corrida, no dia seguinte, pela manhã. Em 2014, os homens do partido do verão e do inverno colocaram as toras no rio para ficarem ainda mais pesadas, elas foram retiradas após três dias, foram necessários três homens para conseguir levantar cada tora.

Após uma pausa de várias horas, depois que todos se banham e se alimentam, a cantoria recomeça no pátio central. Desta vez, pelas mãos e voz de outro cantador. Segundo Lima (2016, p. 269), essas famílias de cantos de maracá, que serão cantados na madrugada, podem ser entoadas em qualquer ritual e por isso podem ser cantadas por outros cantadores.

Lua crescente, noite, o increr (cantador de maracá) inicia os cânticos, as hõkrepoj (mulheres cantoras), de todas as idades, cantam dispostas numa fila única, ombro a ombro, voltadas para o nascente, como é de costume. Algumas mulheres usam, além do cupentxê, outro pano que perpassa as costas e o peito para proteger do frio. Os homens se posicionam atrás do cantador, voltados para o poente, espalhados pelo kà, dançando, andando, pulando e também assistindo de pé ou sentados. O cantador se posiciona de costas para os homens, um pouco à frente deles e de frente para as mulheres, olhando para elas e cantando com elas, ou seja, ele fica entre os homens e as mulheres. Em algumas canções, ele pergunta, elas respondem, noutras, todos cantam juntos. Às mulheres, em alguns cânticos, cabem alguns movimentos, ainda que permaneçam a todo tempo em fila, no mesmo lugar: “Seus braços movem-se, em alguns cânticos, marcando o ritmo com o corpo, pelo movimento do quadril, projetando o ventre para frente e para trás” (LIMA, 2016, p. 269).

O céu, que parecia uma tela sem moldura, estava todo estrelado, e era possível observar lentamente o ciclo que o sol fazia, sereno, ao empurrar as estrelas e borrar a lua para a noite ir embora. Na girândola dos cantos, na fila com as mulheres, ao olhar para frente, se via o dia, para trás, a noite. Outros desenhos compunham essa pintura: galões de água e de café trazidos pelos homens para as mulheres, chinelos nos pés que ajudavam a proteger do frio, crianças nos colos, lanternas e o brilho e o som barulhento dos foguetes invadindo o céu.

Hoje eu vivenciei um cântico pela primeira vez, a fila de mulheres andou, na escuridão, na direção dos homens! Andamos cerca de cinco passos à frente e paramos, e assim sucessivamente, até o momento em que os homens ficaram “encurralados”, presos no pouco espaço do kà que lhes havia restado. A música aumentou seu ritmo, os homens pulavam mais animados, riam, gritavam e se chocavam uns com os outros, ao manterem o ritmo e o andar de um lado para o outro. Nós mulheres, continuamos entoando a canção, eu imitava minha inxu e minha tyj, que permaneciam “sérias”, como se estivessem ameaçando os homens, até que o cantador, vendo-os debulhar-se em gargalhadas e sem espaço para se mexerem, parou o cântico. É interessante que só ali se podia distinguir quais eram os homens que estavam presentes no pátio. Com a escuridão, cantava-se na direção deles, sentia-se

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suas presenças, contudo, não era possível enxergá-los (Diário, 6 de maio de 2014).

O sol trazia consigo o dia, que revelava a imagem dos homens, exceto, claro, a de Ismael Ahpracti, o único homem que já havia sido visto e ouvido desde o começo, por todos e todas, nos poucos intervalos dados pelo cantador e durante os cânticos, “interferindo” no ritual, passando entre as mulheres, estimulando-as e fazendo piadas e brincadeiras. Ismael Ahpracti passava perto das mulheres dizendo frases em Krahô, elas riam, se animavam, algumas respondiam, fazendo com que todas rissem mais, outras, como o cantador, mantinham o cântico, sem rir, mas visualmente modificadas. Perguntei à minha tyj o que ele estava falando, ela respondeu “que algumas não sabem a letra e que as mulheres que não foram cantar é porque a mãe não mandou ir”. Nota-se que não saber a letra das músicas e não ir ao pátio cantar são atitudes vistas com “maus olhos”; dessa forma, para reafirmar as normas sociais, o hôxwa as coloca à tona, usando da graça, do humor e da alegria.

Ao amanhecer, ou no momento em que se via o sol por todos os lados, o canto cessou. Alguns Krahô foram se banhar no rio, outros foram para suas casas tomar um rápido café e se pintar, ou reforçar sua pintura para o próximo momento do ritual.

Em 2014, os cânticos nas noites foram ininterruptos, iniciavam ao redor de 3 da manhã e duravam até o dia amanhecer. Em 2015 e agora em 2018, os cânticos terminaram na madrugada. Nesses últimos anos, o número de mulheres cantando no pátio era menor. Inclusive em 2018, sei que minha

inxu estava fazendo tratamento para diabetes. Mesmo sem cantarmos até o

dia amanhecer, eu não podia acreditar na sua força em permanecer de pé, cantando na madrugada fria por tanto tempo. Eu senti um cansaço enorme hoje e só permaneci até o final dos cânticos por ela, que me chamou junto de sua filha Carmelita com tanto carinho para ir ao kà, como nos outros anos. Minha tyj não pode nos acompanhar por que está com um crare pequeno, outro motivo pelo qual que me esforcei para estar ao lado de Amxôkwỳj até o final (Diário, 11 de julho de 2018).

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Figura 18- Maria Helena Pokwỳj ralando a mandioca para o paparuto

Fonte: Ana Carolina Abreu.

Figura 19- Maria Rosa Amxôkwỳj cortando a carne para o paparuto e Ismael Ahpracti Krahô

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Figuras 20 e 21- Mulheres Krahô preparando o paparuto22

Fonte: Ana Carolina Abreu.

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Para fazer o paparuto, explica Guilherma Xah Krahô (in ALBUQUERQUE, 2014c, p. 103), as mulheres vão arrancar muitas mandiocas em cofos cheios. Depois os homens e as crianças vão descascar as mandiocas, e as mulheres vão ralar, quando terminar de ralar, os homens vão buscar lenha e as mulheres vão buscar a folha de bananeira, enquanto as outras mulheres vão fazer o moquém. Depois os homens vão cortar a carne, e as mulheres vão começar a botar embira no chão, juntamente com as folhas de bananeira e vão espalhando todas arrumadinhas. Feito isso, três mulheres vão botar a massa de mandioca e carne nas folhas de bananeira, depois enrolam todas as folhas de bananeira e amarra com embira. Depois colocam no moquém e joga a areia por cima e deixa lá até amanhecer. No dia seguinte, os homens vão tirar o paparuto do moquém e está pronto para comer.

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Figura 22- Filhas de Maria Helena Pokwỳj , ajudando a avó paterna a fazer o moquém

Fonte: Ana Carolina Abreu.

Figura 23- Corrida com a crow (tora de buriti)

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Figura 24- Paulo Jõwàt, cantor da tora de batata, juntos dos homens no cântico de abertura, 2018

Fonte: Ana Carolina Abreu.