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Vínculo humano e a multiplicidade do uno.

O vínculo humano é um fenômeno de natureza complexa, justamente por se tratar de algo humano e humanizante É algo a respeito do qual todos nós temos

2.3.2. Vínculo humano e a multiplicidade do uno.

Separar as partes do todo e analisar as partes separadamente é essencial para o pensamento clássico científico. Entretanto, é preciso ir além e não perder de vista aquilo que une, isto é, não perder o todo, e com isso, correr o risco de tomar a parte pelo todo. É justo neste ponto que devemos perceber a unidade na diversidade e a multiplicidade do uno, reconhecendo como diz Morin (2003a) que a diversidade criadora é nosso tesouro, mas a unidade geradora é a fonte da nossa criatividade.

Seguindo na senda dessa lógica complexa de pensar e no intuito de alargar e clarear mais o fenômeno que me ocupo, agregarei ao tema algumas contribuições oriundas da psicologia sócio-histórica e da sociologia, buscando compreender agora a multiplicidade do uno.

 Um ponto de vista da Psicologia Sócio-histórica.

A afetividade é o fio que nos vincula a todos como espécie, todavia, nossa humanidade não se reduz à espécie, somos humanos como cultura e história, nos humanizamos na e pela sociedade. Os estudos da psicologia sócio-histórica inserem o indivíduo, nó górdio da trindade, na cultura, evidenciando a diversidade inerente aos processos de vinculação entre os humanos.

Sheila Daniela Medeiros dos Santos (2009) da Universidade de Campinas traz uma contribuição interessante em seu artigo intitulado A natureza do vínculo na

vida humana. Ela propõe uma reinterpretação do vínculo em uma perspectiva

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por John Bowlby. Para ela a necessidade de criar vínculos surge entre a natureza e a cultura, cruzamento responsável pela sociabilidade humana.

Segundo analisa Santos em seu artigo as diversas teorias que abordam o vínculo do bebê humano com a figura de ligação apresentam diversos pontos de inconsistência e, por isso, se apresentam como objeto sistemático de reflexões. Segundo ela, a ideia intrigante e nebulosa não é o fato em si do estabelecimento desta união mãe/bebê, e sim, a origem deste vínculo e suas implicações para existência humana.

Após apresentar os principais conceitos da teoria da ligação de Bowlby e sua aproximação dos estudos etológicos de Konrad Lorenz, Santos se propõe agregar à noção de vínculo alguns constructos da psicologia sócio-histórica para compreender mais amplamente a natureza do vínculo na vida humana.

Com base na afirmação de Renè Zazzo12 (1974) segundo a qual tanto as proposições psicanalíticas quanto as derivadas das teorias da aprendizagem são insuficientes na explicação sobre a origem do vínculo na vida humana. A autora afirma que, embora os teóricos das relações objetais e da aprendizagem reconheçam a importância chave do vínculo na vida humana, ainda não há uma abordagem científica que forneça uma compreensão mais adequada sobre a criação, manutenção e rompimentos dos vínculos afetivos.

A partir disso a autora apresenta a perspectiva sócio-cultural em psicologia que compreende as funções biológicas como os substratos sobre os quais se constroem as funções sociais. Com base nessa premissa a autora defende que as

relações sociais se sustentam numa sociabilidade cuja base é a necessidade de criar vínculos.

(Santos, 2009, p. 192). Os humanos somos sociais por natureza, em função disso, argumenta a autora, há uma natureza biológica da sociabilidade que poderá ser entendida no processo de conversão da função biológica, em função simbólica, desde que se diferenciem claramente as noções de vinculação e de sociabilidade

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para evitar armadilhas etiológicas. Tal afirmação converge com as proposições de Eibl-Eibesfeldt, embora a autora não lhe faça referência e baseie seus estudos somente nas ideias de John Bowlby.

A autora segue sua argumentação apoiada na relação dialética que a psicologia de base sócio-histórica estabelece entre as funções biológicas e culturais na constituição do psiquismo humano, e ressalta que a função cultural jamais poderá

substituir uma função básica; afinal, nenhum tipo de relação interpessoal substitui aquela relação básica que é sentir que o outro o reconhece enquanto espécie, seja quem for. Isso quer dizer que não se pode construir uma sociabilidade em cima de princípios abstratos, metafísicos. (SANTOS,

2009. p. 19). A sociabilidade humana, explica a autora, não é simplesmente dada pela natureza como ocorre com a sociabilidade animal. Os humanos a assumem concretizando-a de formas diversas, a partir de seus processos de significação. A função biológica que permite, tanto aos humanos quanto a algumas espécies animais, identificar e reconhecer o familiar e o estranho, especificando do que deve se afastar, e do pode se aproximar, se reveste de uma mediação simbólica nos humanos, que a engloba e ultrapassa. O ser humano como produtor do real transcende o plano biológico e inscreve sua natureza no plano simbólico.

Com efeito, a sociabilidade humana não pode ser explicada por modelos animais a não ser por analogia, jamais por semelhança ou redução. Os princípios que estão na origem da sociabilidade humana são outros que vão além do biológico, embora neles tenham sua base. A partir disso a autora argumenta que o problema fundamental é procurar saber quais processos, e em que condições o vínculo dá origem a sociabilidade humana, isto é, como conceber a passagem do biológico

ao cultural?

A autora vai buscar na Teoria de Vygotsky, principal referência da vertente sócio-histórica em psicologia, os subsídios para suas proposições. Para Vygotsky são as relações sociais que originam as funções psicológicas superiores e estruturam a natureza psíquica humana. Embasada na proposição do autor soviético segundo a qual a criança passa de um estado biológico a um estatuto de ser cultural na medida

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de constituição de suas primeiras interações sociais, Sousa afirma que, sendo o outro e as relações sociais constitutivas do ser humano, é “evidente que a necessidade de

criar vínculos não pode ser explicada apenas no mundo animal, uma vez que é essa mesma necessidade, imersa no mundo simbólico ou da significação, que leva a sociabilidade humana.”

(SANTOS, 2009, p. 196).

Segundo defende a autora a necessidade de criar vínculos é um ponto de intersecção entre a sociabilidade biológica e a sociabilidade humana, uma vez que sem a necessidade biológica do vínculo não haveriam as relações sociais, e ao contrário, se não houvesse relações sociais não haveria como se instituir os vínculos. Se a vida humana, em termos de sua natureza psíquica, possui a marca das relações sociais, a vida humana é que imprime um sentido de dramaticidade às relações sociais, defende Santos.

A autora conclui em seu artigo que as proposições da psicologia sócio- histórica trazem uma nova gama de possibilidades para compreendermos o vínculo humano, fenômeno de fronteira entre o mundo natural, biológico e o mundo cultural, o que nos abre o desafio de perceber os enlaces e as intersecções de tais fronteiras. Desafio que a autora deixa em aberto!

Compreendo que as contribuições são relevantes aqui porque ela amplia o discurso sobre o vínculo e o coloca para além do lugar eminentemente clínico ao qual tem se limitado o discurso no campo da psicologia. Ela amplia a visão e traz o simbólico e o cultural como nuances importantes dos vínculos em termos da sociabilidade humana. Em termos da ontogênese e filogênese o vínculo humano tem sua unidade ancorada na afetividade como algo comum à espécie. No entanto, tal natureza afetiva dos vínculos humanos tem inscrição simbólica.

Há certamente uma forma particular e singular de cada cultura expressar sua capacidade inata para formar e manter vínculos, propiciada por outra capacidade humana: a de representação simbólica. É justo neste ponto que devemos nos atentar para a multiplicidade do uno que inscreve o fenômeno

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vínculo na diversidade cultural e histórica em termos de sociabilidade humana. De que forma as emoções e sentimentos que compõe a afetividade humana que consubstancia o vínculo adquirem expressividade?

 Um ponto de vista da Sociologia.

Um interessante ensaio escrito pelo sociólogo Eduardo Diatahy Bezerra de Menezes (2002) da Universidade Federal do Ceará, intitulado A modelagem

Sociocultural na Expressão das Emoções, traz contribuições interessantes para

pensarmos neste assunto, oferecendo valiosas contribuições nesta perspectiva em que adentramos agora.

O sociológico em seu ensaio inicia sua linha de pensar assinalando que o ser humano possui uma amplitude de horizonte que lhe confere um vasto campo fenomenológico e existencial, que abriga um tempo histórico com uma magnitude significativa de alcance, tanto para o passado, como para o futuro, que se apoia numa memória individual e coletiva. O autor chama atenção que um dos pontos mais significativos neste vasto horizonte humano é sua capacidade de se tornar objeto para si mesmo. Ele afirma que o ser humano não apenas sente emoções e

necessidades externas, em relação aos outros seres humanos e ao real, mas também percebe, sente e pensa sua vida interior. (MENEZES, 2002, p.7). É esta capacidade que cria

subjetividades e nos proporciona assumir uma posição de pessoa no mundo, arremata o autor.

Menezes reitera que a sociedade humana, tal como a conhecemos hoje, resultou, dentre outros aspectos, de um grau de organização na captação de fatos e relações pelo desenvolvimento de estruturas cognitivas complexas, em ausência das quais, nenhuma sociedade humana, com seu complexo sistema organização e ordenamento de relações sociais, seria possível. Ele explica que essas capacidades

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cognitivas, articuladas com as motivações e os sentimentos e afetos mais elaborados, que propiciam a passagem do modo de vida bio-societário para modalidade do viver humano-social.

(MENESES, 2002, p. 8).

Há uma unidade psíquica básica como já bem demonstraram as pesquisas em epistemologia genética que não se restringe aos processos cognitivos, uma vez que a nossa estrutura emocional também possui similitude generalizada. Em termos cognitivos há uma lenta maturação na construção de noções de espaço, tempo, número, e demais categorias fundamentais do entendimento humano. Por outro lado, também é certo, que as nossas estruturas emocionais, também passam por transformações, tão complexas quanto as cognitivas.

Meneses segue seu pensar explicando que quase todas as emoções humanas ocorrem em função da presença ou ausência dos outros. Em termos de expressão das emoções humanas estas são sistemáticas e não episódicas, ou seja, se organizam em torno de objetos permanentes (pessoas e grupos assimilados por um complexo jogo de códigos sociais) e incorporam objetos sociais, grupos, instituições, até incluir a sociedade, a humanidade. Em última instância, somente em sociedade nos humanizamos e/ou também nos deshumanizamos, esclarece o autor.

Com base nestes pressupostos é que Menezes tece interessantes reflexões sobre a contribuição das expressões emocionais para compreendermos a vida social. Ele nos esclarece que a forma humana é o objeto mais expressivo do ambiente que vivemos. A captação de tais expressões em suas formas mais sutis amplia nossa compreensão do outro na mesma medida que aumenta, em rapidez e complexidade, a interação social. Há mutações sutis e infinitamente ricas na forma humana de se expressar que integra uma escala mais ampla de atributos expressivos que povoam nosso ambiente e que condicionam nossa forma de nos aproximar das pessoas e dos ambientes para captar formas, jeitos, gestos, símbolos e que, por sua vez, modulam nossa interação no mundo. Há uma linguagem expressiva que é bem mais ampla que a linguagem verbal e a antecede. E mais, até mesmo a linguagem verbal é dotada de tal grau de sutileza, finura e acuidade, que reveste a comunicação

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humana, que torna o modo de apreensão das emoções dos outros, uma problemática importante e crucial para o estudo da vida social, arremata o autor.

É neste ponto que Meneses apresenta o coração de suas reflexões e indaga: existiria uma expressão específica para cada tipo de emoção? Isso é fundamental para esclarecer se o que liga a experiência emocional a sua forma de expressão ocorre pela via inata, ou por aprendizagem sociocultural, pondera Meneses. O autor lembra que há um ponto de vista clássico sobre essa questão já apresentado por Darwin quando tratou da expressão das emoções nos seres humanos e animais. Nesta obra o naturalista britânico defende que os movimentos expressivos são, em sua origem, partes de atividades práticas, como, por exemplo, arreganhar os dentes, cerrar os punhos, estremecer com um ruído, cuja permanência, tem valor de sobrevivência para espécie em face a situações análogas. Com base nesta ideia, Meneses explica que:

Na expressão emocional, existe uma relação de isomorfismo entre a experiência interna e a ação exterior, que constitui condição necessária para a compreensão recíproca, isto é, esta não é subproduto daquela. Em resumo, as funções da expressão emocional são, primeiramente, uma ação externa de tensões que provêm de situação que provoca emoção, ampliando a resposta emocional. Num plano simbólico, elas servem à liberação de tendências impedidas de se completarem em determinadas condições. É a expressão, finalmente, que serve para comunicar a outros a qualidade de nossas experiências emocionais e de nossos sentimentos.

(MENESES, 202, p. 18).

Para concluir suas reflexões sobre a modelagem sociocultural das emoções o autor exorta um espírito crítico capaz de nos salvaguardar da sedução que convida a crer que quando nossa consciência se deixa absorver por expressões de dor, gozo, tristeza, etc, encontramos, enfim, o “homem universal”. Há uma ampla gama de estudos etnológicos, lembra o autor, que comprovam, com abundancia de fatos seguramente registrados, uma intensa variedade de expressões emocionais. Assim, choro, lágrima, beijo, riso, raiva, evitação, agressão, associados a situações

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de alegria, separação, ciúme, morte, perda, disputas, conflitos, que, por sua vez, inseridos em diversos contextos culturais, ou diferentes épocas históricas, se revestem de ampla variedade.

Meneses destaca que há três pontos de vistas que tornam relevantes os fatores socioculturais do comportamento afetivo. Primeiro, quando eles representam

quase sempre um papel saliente na determinação das situações que provocam esta ou aquela emoção; segundo, quando condicionam também o nível do comportamento emocional manifesto que se produzirá em tais situações. E por fim, quando eles tendem a influenciar poderosamente o modo como as emoções se manifestam. (MENESES, 2002, p. 19). A

expressão das emoções é uma linguagem e, portanto, possui seus códigos a partir dos modelos que lhe fornece a cultura na qual se manifesta. O sociólogo apresenta vários exemplos disso. Um deles, que gostaria de destacar, é o riso e sua variedade de significações. Diz ele que,

(...) os Cafres e os Dayaks de Bornéu costumam sorrir para exprimir seu desdém; já no Japão tradicional, não se costuma sorrir por júbilo, mas antes para exprimir embaraço, quando por exemplo um superior passa uma reprimenda ou quando traz má notícia; quando uma mãe de samurai sabia da morte do marido ou do filho em combate, ela sorria. (MENESES, 2002, p. 20).

As situações vividas pelos humanos exigem expressões e reações emocionais que variam amplamente e que, em limites amplos, destaca o autor, podemos afirmar que há uma modelagem cultural das emoções e de suas expressões. É na e pela afetividade, reconhece o autor, que os humanos tomam conhecimento dos valores que incorporam e transformam em crenças. Não há sociedade que não se interesse pelo comportamento afetivo porque é justamente aí que reside suas manifestações, podendo, até mesmo, se tornar perturbações de difícil gestão com capacidade de comprometer a ordem coletiva. Esse é o motivo, segundo aponta Menezes, para a sociedade sempre intervir com definição de valores e regulação de condutas a ponto de institucionaliza-las. O sociólogo finaliza suas conclusões apontando a

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importância de uma teoria dos sentimentos humanos e da relevância da contribuição da sociologia e da antropologia neste debate.

Em síntese, o vínculo humano em sua filogênese e ontogênese tem a afetividade como unidade singular da espécie. Todavia, a compreensão do humano em termos da complexidade que entrelaça indivíduo-espécie-sociedade insere a unidade, na diversidade. Com efeito, a afetividade adquire uma expressão cultural em função da representação simbólica que caracteriza o indivíduo, e a multiplicidade do uno se revela na sociedade em sua diversidade cultural.

A afetividade é o que consubstancia o vínculo nos permitindo compreender sua unidade na diversidade. Com efeito, perguntas e inquietações daí se desdobram. Se falando de vínculo pressupomos afetividade em seu colorido de emoções e sentimentos é preciso clarear esta noção amplamente polifônica, tanto para o pensamento científico quanto para o pensamento do senso comum. É importante ampliar a estrela agora buscando clarear o que conotamos quando nos referimos a

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emoção que, por vezes, pode ser referida como sinônimo de sentimento, e ambos, podem ser reduzidos aos afetos. A psicogênese e a neurologia trazem importantes contribuições para aclararmos estas questões.