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1. A LTERAÇÕES AO P LANO C ONVENCIONADO

O regime das alterações ao plano convencionado encontra-se previsto no art. 1214º a 1217º do CC.

Em linhas gerais, importa reter algumas distinções:

a) Alterações em sentido próprio ou em sentido estrito: art. 1214º a 1216º.

b) Alterações que comportam autonomia em relação ao plano inicial, obras novas ou trabalhos extracontratuais: art. 1217º.

c) Alterações da iniciativa do empreiteiro: art. 1214º.

d) Alterações da iniciativa do dono da obra: art. 1216º.

e) Alterações necessárias: art. 1215º.

Note-se, no entanto, que, muitas vezes, o dono da obra pode emitir simples instruções complementares ao projeto, ou ainda podem resultar pequenos ajustes da parte do empreiteiro, que estejam dentro da margem de previsibilidade (ambos) e que se comportem como formas de suprir “lacunas” no plano convencionado. Estes casos não representam alterações ao contrato, sujeitas ao regime enunciado, já que a sua existência depende do regular cumprimento do pactuado, nos termos da boa fé (762º/2).

1.1. A

LTERAÇÕES DA

I

NICIATIVA DO

E

MPREITEIRO

As alterações da iniciativa do empreiteiro, nos termos do art. 1214º/1, em princípio estão vedadas:

vale, assim, nos termos gerais do art. 406º/1, uma modificação sujeita à vontade de ambas partes, não admissível como imposição unilateral do empreiteiro.

Nos casos em que o empreiteiro considere poder o plano convencionado ser alterado (alteração, essa, que não se enquadre na previsão do art. 1215º), a proposta deve ser feita ao dono da obra, que só mediante aceitação do dono da obra comporta uma alteração eficaz (art. 406º/1). Caso sejam realizadas sem a correspondente alteração, o dono da obra pode aceitá-las – tem-se a obra por defeituosa – e não fica, este, obrigado a aumentar o preço (assim como não é aplicável o regime do enriquecimento sem causa), art.

1214º/2. Funciona como uma penalização ao empreiteiro.

Pedro Albuquerque e Miguel Assis Raimundo consideram, no entanto, que o art. 1214º/2 deve ser alvo de uma interpretação restritiva: nos casos em que a alteração tiver resultado em valorização objetiva, não se verificando qualquer desvalorização subjetiva (não se prejudicando o interesse do dono da obra), a solução tornar-se-ia abusiva. Assim: (1) é afastada a 1ª parte do artigo 1214º/2, ou seja, o dono da obra fica impedido de tratar a coisa como defeituosa; (2) não é afastada a 2ª parte do art. 1214º/2, ou seja, não é, do mesmo modo, invocável perante o dono da obra o instituto do enriquecimento sem causa.

O art. 1214º/3 prevê uma exceção, aplicável aos casos de empreitada por preço global, nos quais é admissível o recurso ao enriquecimento sem causa pelo empreiteiro, contra o dono da obra, sempre que a autorização for dada, mas não revestir a forma escrita com indicação do aumento do preço. Em consequência:

a) Autorização verbal s/ indicação do aumento do preço: só tem direito ao enriquecimento.

b) Autorização verbal c/ indicação do aumento do preço: só tem direito ao enriquecimento.

c) Autorização por escrito s/ indicação do aumento do preço: só tem direito ao enriquecimento.

d) Autorização por escrito c/ indicação do aumento do preço: tem direito ao aumento do preço indicado.

Nota: o caracter excecional das exigências de forma do art. 1214º/3 e o escopo (proteger o dono contra aumentos do preço global inicialmente fixado), indicam que o preceito só tem aplicação se as alterações importarem um aumento do preço. Assim: a autorização do dono, em caso de alteração geradora de diminuição do preço, não tem de ser dada por escrito com indicação da redução do preço.

Nas outras hipóteses de empreitada (empreitada por medida, por artigo, por tempo de trabalho ou por percentagem), as alterações da iniciativa do empreiteiro não precisam de autorização por escrito, mesmo que tenham as partes optado por forma mais solene para a celebração do contrato – dando, assim, ao empreiteiro o direito de aumento do preço10.

1.2. A

LTERAÇÕES

N

ECESSÁRIAS

As alterações necessárias, reguladas no art. 1215º, ocorrem se as regras técnicas ou a salvaguarda de direitos de terceiro exigirem a introdução de modificações ao plano convencionado – ocorrendo, assim, uma derrogação do princípio da estabilidade dos contratos (art. 406º/1). A ratio do preceito (art. 1215º) é admitir uma alteração unilateral (imposta quer pelo empreiteiro, quer pelo dono da obra), que resulta de fatores externos às partes.

Pedro Albuquerque, adotando uma perspetiva própria a respeito da interpretação, invoca o sentido normativo do art. 1215º/1 no sentido do seu alargamento a alterações ao projeto determinadas por ato do poder público (porque se trata de uma alteração externa, de carater vinculativo, em tudo semelhante às previstas normativamente no preceito).

O art. 1215º/2 prevê a possibilidade de o empreiteiro denunciar o contrato, se o preço for elevado em mais de 20% face ao valor inicialmente considerado, e ainda de exigir uma indemnização equitativa. O objetivo é a inexigibilidade de manter o empreiteiro vinculado a um contrato para cujo cumprimento, após as alterações, pode não ter habilitação. O objetivo da indemnização é a proibição do enriquecimento sem causa, daí que esta deve ser calculada tendo em conta o trabalho e as despesas já efetuadas e a utilidade proporcionada pela obra já realizada para o dono da obra.

Nota: as alterações podem comportar uma diminuição do custo da obra para o empreiteiro.

Perante tal situação, várias soluções (a regência parece concordar com ambas):

1) O dono da obra tem direito à diminuição da contraprestação a pagar ao empreiteiro (perda de parte da remuneração do empreiteiro).

2) Aplicação do art. 1216º/3: o empreiteiro mantém o direito à remuneração, deduzida apenas do que eventualmente tenha utilizada em outras aplicações da sua atividade.

Problema: supondo que não há acordo acerca da natureza necessária da alteração, quais as consequências aplicáveis ao empreiteiro que executa as alterações?

a) Pires de Lima e Antunes Varela: aplicação do art. 1214º/2 e 3; entendem depender de decisão judicial a determinação das alterações como necessárias, em caso de desacordo.

a. Problema: a ampliação do regime do art. 1214º a estas situações é inaceitável, tendo em conta que o empreiteiro pode estar a cumprir regras técnicas, regras emitidas por ato de poder publico;

b) J. Espírito Santo: o empreiteiro, por sua iniciativa, faz as alterações necessárias, sem dar conta ao dono da obra, tendo a proteção do art. 1215º (tem direito ao preço das alterações e a alterações ao prazo).

a. Problema: o dono da obra, perante a necessidade de alterações, pode querer prescindir da realização da obra (o que pode fazer livremente, por via do art. 1229º) – logo, do regime resulta a comunicação ao dono da obra.

c) Pedro Albuquerque/Miguel Assis Raimundo: a solução exige a construção de uma regra específica, resultante da boa fé e procurando evitar enriquecimentos injustificados.

a. Se o dono da obra aceitar a obra nos termos executados não se justifica uma consequência negativa para o empreiteiro – o dono da obra dá o acordo tácito a

10Podem, no entanto, surgir dificuldades de âmbito probatório, sobretudo se o contrato houver sido celebrado por escrito.

alterações efetuadas em proveito da obra ou da salvaguarda de direitos de terceiros;

deve o empreiteiro ser ressarcido do preço respetivo por inteiro.

b. Se o dono da obra demonstrar, a posteriori, que as alterações não correspondem à sua planificação subjetiva, poderá exigir a eliminação nos termos do art. 1214º/2/1ª parte (se impossível ou excessivamente onerosa, deve existir ressarcimento na medida do enriquecimento do dono da obra (art. 473º e ss.);

1.3. A

LTERAÇÕES DA

I

NICIATIVA DO

D

ONO DA

O

BRA

Nas alterações impostas pelo dono da obra não funciona o art. 406º/: antes, tais alterações, nos termos do art. 1216º podem ser impostas unilateralmente pelo dono da obra. No entanto, as alterações a operar, unilateralmente, pelo dono da obra comportam limitações (art. 1216º/1 CC – resultando, ainda, da boa fé):

a) Limites qualitativos: a alteração não pode alterar a natureza da obra (tem de se limitar a algo ainda compreendido no que possa ser considerado necessário, ou pelo menos oportuno e proveitoso, para a obra acordada, tendo em conta as necessidades inicialmente expressas no plano convencionado).

i. Caso envolver alteração da natureza da obra: aplicação do art. 1217º (obras novas).

b) Limites quantitativos: a alteração (o valor da contraprestação a pagar ao empreiteiro pela sua realização) não exceder a quinta parte do preço (da totalidade da obra) estipulado;

i. Quando não se trate de empreitada por preço global: parte-se do valor estimado da obra, obtido pela multiplicação dos valores unitários estabelecidos pela dimensão estimada da obra;

A comunicação ao empreiteiro, das alterações, segue a liberdade de forma (art. 1216º e 219º do CC).

Estando verificados os requisitos previstos no art. 1216º, o empreiteiro fica vinculado à realização daquelas alterações. No entanto, uma vez que as alterações podem comportar consequências para o equilíbrio contratual, o art. 1216º/2 e 3 postulam formas de correção desse equilíbrio: aumento do preço e do prazo da obra (1216º/2).

Pergunta-se: pode o empreiteiro renunciar, antecipadamente, por meio de clausula contratual, ao direito de receber a compensação? Para a regência: existem, no Direito Civil, várias disposições que indiciam a proibição de disposição de direitos futuros (arts. 809º e 942º do CC). Assim, a solução passa por verificar, perante um contrato de empreitada, se há, à luz do art. 1216º, uma mera repartição do risco e delimitação das obrigações das partes ou, por outro lado, uma renuncia efetiva ao direito nele estipulado.

A propósito do art. 1216º/2: está na base um pressuposto de aumento do esforço do empreiteiro para a conclusão da obra. Pode, no entanto, suceder o oposto: nestes casos, o empreiteiro recebe o preço acordado, deduzido do montante poupado em despesas ou adquirido por outras aplicações da sua atividade (assim resulta do art. 1216º/3).

De acordo com a regência: os trabalhos a menos devem ser compensados com os trabalhos a mais. Exemplo: numa obra de 100000€, trabalhos suplementares no valor de 25000€ (valor superior a 1/5 do preço inicial), mas ter o dono da obra retirado trabalhos ao plano no valor de 10000€.

Solução: o empreiteiro ficará obrigado a realizar todos os trabalhos a mais assim como deverá receber apenas 15000€ (foi esse, apenas, o valor real de aumento do valor da obra – descontados 10000€ de trabalhos a menos de 25000€ de trabalhos a mais).

Motivo: não faria sentido o empreiteiro recusar-se a realizar os 5000€ de trabalhos a mais (por exceder 1/5), receber os 20000€ correspondentes aos

trabalhos a mais realizados e, ainda, o preço dos trabalhos a menos, mesmo descontado das despesas poupadas e o que ganhou com outras aplicações da sua atividade.

Na circunstância de não estarem verificados os pressupostos (art. 1216º), o empreiteiro pode recusar-se a efetuá-las e prosseguir com a execução dos trabalhos nos termos inicialmente acordados.

Destarte, o dono da obra, perante tal recusa, pode sempre recorrer da solução prevista no art. 1229º do CC.

1.4. T

RABALHOS

E

XTRACONTRATUAIS

Reguladas no art. 1217º do CC, os trabalhos extracontratuais respeitam a alterações posteriores à entrega e a obras novas, ou seja, têm em comum alterações/obras situadas fora da relação contratual estabelecida.

1) Obras novas: a autonomia resulta de um juízo técnico ou funcional – trabalhos suscetíveis de serem objeto de uma obra independente.

2) Alterações posteriores à entrega: a autonomia resulta de um critério criminológico, ou seja, por serem efetuadas depois da entrega;

Na hipótese de ser realizada, sem autorização do dono da obra, permite: a recusa da obra/alteração;

a eliminação (se possível), e uma indemnização pelo prejuízo causado (art. 1217º/2). Na circunstâncias de o dono da autorizar, pergunta-se se deve haver compensação ao empreiteiro e, a haver, em que termos.

a) Solução maioritária: pode haver lugar a compensação, por vários títulos – arts. 473º e ss., por via do enriquecimento sem causa; arts. 464º e ss., por via da gestão de negócios; arts. 1340º e 1341º, por via da acessão industrial.

Na hipótese de ser realizada a pedido do dono da obra, o empreiteiro não fica obrigado a realizar os trabalhos, mas pode aceitar fazê-lo: podem constituir, estas, um novo contrato ou, eventualmente, alterações ao contrato já existente.