Aquando do levantamento das danças e cantares, atividade intitulada “As músicas e os cantares populares: o som das danças”24 foi evidente o clima de regozijo e alegria, pois os idosos ao partilharem as letras das canções, por escrito, não conseguiam conter os risos, bem como não se inibiam de tecer comentários alusivos aos tempos que cantavam e dançavam essas canções. No decorrer dessas partilhas sentiu-se uma manifesta satisfação de estarem a fazer coisas que lhes dava imenso prazer, como também as poderiam perpetuar mostrando-as às suas famílias. De certa forma, sentiam-se valorizados e reconhecidos por serem, ainda capazes, de “reproduzir”
ativamente as canções de outros tempos. Esta atividade fá-los sentir úteis, vivos, ativos e produtivos.
Para que os colaboradores e voluntários da instituição pudessem, mais facilmente compreender e utilizar a estratégia das danças circulares, rentabilizando outras atividades vindouras, foi necessário promover um momento de aprendizagem, através da realização de um workshop de “Danças circulares dos povos”25, que se realizou no dia 13 de março pelas 18:30h, no CSN, com a duração de 2 horas. Esta iniciativa foi dinamizada por uma focalizadora convidada, com larga experiência na utilização das danças com idosos, o que permitiu aos participantes contactarem com a história e filosofia das danças circulares, tendo a oportunidade de experimentar este movimento e compreender a adaptabilidade possível a todas as faixas etárias e eventuais limitações.
24Ver apêndice XIII.
25Apêndice XIV.
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Após este momento formativo e a recolha dos recursos culturais significativos para os idosos, nasceu o grupo de danças e cantares populares26. As danças e músicas a ensaiar foram ensinadas pelos idosos aos colaboradores e voluntários da instituição e, posteriormente, dançadas por todos. Esta atividade impulsionou de tal forma o interesse dos idosos, que eles próprios começaram a marcar sessões de dança27, sendo agora uma atividade regular da academia sénior. Estas sessões têm lugar duas vezes por semana, das 15:30 às 16:30h, sendo dinamizadas na presença do enfermeiro de reabilitação, de quem os idosos ouvem os conselhos e cuidados a ter, estando bastante atentos e fazendo o seu melhor para não se lesionarem. Os idosos que, por força da sua condição física não conseguem ainda dançar alguma das danças, participam na organização das sessões e cantam. Esta atividade, poderá a longo prazo ser complementada e enriquecida com outras atividades promovidas pela AcS, nomeadamente pelas aulas de Sociologia.
Todavia, ao existir e acontecer, também de forma espontânea denota o respeito dos espaços e dos tempos, mas sobretudo das vontades dos idosos, por um lado e o gosto e motivação para dar continuidade de forma autónoma.
Um exemplo que explana esta realidade é o facto de que quando se dirigiam para o refeitório e nas viagens para a hidroginástica cantarolavam as músicas.
Como já vimos, anteriormente, os idosos mostravam alguma apatia e desinteresse face às atividades que lhes eram propostas, delegando, muitas vezes, a escolha das mesmas nos técnicos que as dinamizavam, negligenciado as suas próprias vontades. Não obstante, e contrariando esta ideia, a literatura diz-nos que a ênfase deve recair nos idosos, ou seja, que os idosos deviam tornar-se mais autónomos, implicados e participativos nos processos de tomada de decisão, tomando o leme para decidir fazer aquilo que fosse ao encontro das suas potencialidades, gostos, vontades e aspirações. No que concerne ao facto de não terem grande poder de decisão, ficou claro que só se fazia aquilo que tivessem vontade e quisessem, por isso e para isso tinham que
“meter mãos à obra”. E eles não se fizeram rogados, sendo a sessão bastante
26 Grupo danças e cantares populares: “Dançando conforme a música”
27 Apêndice XV.
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participada, possibilitando aos idosos um espaço de reflexão conjunta sobre o tema e até o entrecruzar de muitas visões e opiniões partilhadas. Alguém referiu: “ [São] bom estes momentos. Nós rimos, brincamos e aprendamos uns com os outros, adoro estes momentos” (PS), logo pudemos concluir, no final da sessão, que a sessão foi positiva e produtiva, afirmando eles, quase em uníssono, que gostaram muito dessa atividade.
Houve, ainda lugar, para concretizar duas sessões orientadas por duas idosas, uma vez que o enfermeiro de reabilitação não pode estar presente.
Inicialmente, as duas idosas que estavam a aconselhar pareciam ligeiramente nervosas, todavia logo se abstraíram e acalmaram, deixando-se levar pelo momento e completamente imbuídas no que faziam e transmitiam aos colegas, com enorme vontade de com eles partilharem o que sabiam, numa lógia de que todos podemos aprender e que em conjunto se pode fazer mais e melhor. Ora, cremos que estas atitudes são reveladoras, por um lado da confiança que o enfermeiro lhes depositou e, por outro lado reveladoras de capacidades que, à priori, poderiam parecer não existir, aumentando-lhes a confiança e elevando-lhes a autoestima, como demonstra a opinião de uma delas: “gosto muito disso” (…) “É bom ensinar e ver que elas têm muito interesse que sejamos nós, porque as nossas coleguinhas só gostam do enfermeiro (risos) ” (PR).
Creio que já o dissemos, mas não será demais repetir que as sessões foram momentos de aprendizagem e partilha, recheadas de emoções e bastante participadas. Eventualmente, esta “aparente” informalidade potenciou maior à vontade na partilha de saberes num ambiente de cumplicidade, respeito e entreajuda entre todos os participantes. Consequentemente, como diz o povo, e com razão: “Duas ou mais cabeças pensam melhor que só uma”. Assim, em conjunto a reflexão era potenciada e os participantes foram unânimes ao referir que gostavam muito de aprender com os colegas e que isso vinha a fortalecer e intensificar a relação entre todos. Ora, parafraseando os idosos: “é mesmo bom, estes momentos. Nós continuamos a aprender uns com os outros. É muito bom. Podemos dizer e contar às pessoas o que fazíamos.
Antigamente eramos mais felizes” (PG).
Os idosos enquanto aprendiam, ainda falaram bastante sobre as suas vidas e sobre assuntos do mundo atual, tornando-se assim também um espaço de convívio, felicidade e alegria, denotando que havia sentido naquilo que faziam,
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pois referiam: “fazemos o que gostamos e ainda falamos bastante entre nós”
(PA).
A este propósito, foi curioso verificar, que numa das sessões falamos sobre a dificuldade em estar mais presente, porque estava a trabalhar longe e disseram
“é injusto, uns vão para fora, outros vêm, isto é uma vergonha” e daqui emergiu uma discussão que nos fez “dissecar” acerca da nossa conjuntura atual, levando-nos a uma genuína partilha de opiniões acerca da crise económica que o país atravessa e da forma como influencia as vidas de cada um. Nesta partilha, as pessoas idosas deixaram bem patente o seu desagrado face a várias situações, nomeadamente aquelas que estão diretamente ligadas com a empregabilidade, ou falta dela, e ainda manifestaram opiniões acerca da vida económica e política do concelho, mostrando, todavia que o futuro tem de ser encarado com confiança e com esperança que tudo irá melhorar. Referiram que as adversidades que tiveram na vida nunca as fizeram desistir, pelo contrário. E que agora os novos, também não podem desistir, mas sim lutar pelo seu futuro. Deixaram, ainda, patente que apesar de serem idosos, continuam a gostar de saber e ter interesse por aquilo que se passa à sua volta, mostrando-se interessados nos acontecimentos atuais, por um lado e vontade em ajudar a melhorar o futuro do local, por outro.
Não sei se influenciados pelo facto de gostarem de estar mais vezes com a investigadora, não paravam de dizer que não entendiam como se faziam, atualmente os concursos e as colocações e que não conseguiam perceber o porquê de se fazer como se faz e que nas suas opiniões é injusto pelo tempo e dinheiro que se gasta, pela fragilidade dos vínculos, pela não garantia de continuidade, pela solidão que se tem que passar, entre outros. Consideram que o desgaste é muito, logo isso será refletido na produtividade.