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Vaca: Olho Preto Cor: Amarela Cor do bezerro: amarelada Carmen S Andriolli,

‘Vendi pêlo de boi’

Foto 12. Vaca: Olho Preto Cor: Amarela Cor do bezerro: amarelada Carmen S Andriolli,

2010.

Num retorno ao que foi exposto até o momento, o leitor pode perceber que vacas e bois são nomeados, diferentemente das galinhas, porcos e cabritos. Estão, por conseguinte, numa posição acima na hierarquia dos não-humanos143. Entretanto, como descortinado na conversa

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Para outras análises sobre a hierarquia entre os não-humanos ver Brandão, 2009 e Godoi, 2009. Godoi, 2009, por exemplo, em sua pesquisa no sertão do Piauí, analisa que dentre os animais criados o gado bovino é mais

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sobre bois apresentada anteriormente, na própria ‗nação de gado‘ conhecida por Samu uma diferenciação entre os bovinos se mostrou: o Gir era um gado manso e, assim como o gado holandês e o caracu, bom para leite. O gado crioulo, por sua vez, era fortão e, de tão grande, parecia com boi carreiro. Parecia, mas o boi carreiro, por sua vez, era maior, tanto que seu pé – e aqui a relação homóloga entre vaqueiro e gado explicita-se – era o maior que Samu conhecia, maior que o pé daquele que era mais forte do que a onça, o gado curraleiro ou marruá. Em outras palavras, dentre os bovinos há os aptos para leite, outros para força e valentia e aqueles que estão no topo da hierarquia dos bovinos, os bois carreiros; hierarquia interna à ‗nação de gado‘ de Samu que se encerra consoante à função desempenhada pelo bovino na sua relação com o vaqueiro. O boi carreiro é o maior, o mais forte, o que tem o maior pé, aquele que está em contato mais íntimo e profundo com o vaqueiro, aquele que se encerra como exemplo dessa homologia que há entre Samu e gado bovino144.

No conto Conversa de Bois, Guimarães Rosa escrevera sobre essa proximidade, sobre esse vínculo estreito entre bois carreiros e humanos. Neste conto, os bois-de-carro são personagens que pensam, que analisam tanto sobre essa proximidade entre bois carreiros e humanos, bem como se ela é boa ou ruim, quanto sobre como são diferentes dos bois soltos, dos que vêm em manada, que engordam e vão embora para dar lugar aos outros bois magros. Análises que remetem, portanto, à hierarquia que há internamente à ‗nação de gado‘.

—―Nós somos bois... Bois-de-carro... Os outros, que vêm em manadas, para ficarem um tempo-das-águas pastando na invernada, sem trabalhar, só vivendo e pastando, e vão-se embora para deixar lugar aos novos que chegam magros, esses todos não são como nós‖ (Brilhante, boi carreiro da junta do contra-coice. Conversa de Bois, Sagarana, p. 331)

prestigiado. Os responsáveis por eles são os homens. Há, ainda, o ―gadinho‖, que remete ao rebanho de caprinos, em distinção ao gado, que se trata dos bovinos. A maioria das famílias possui gadinho, mas somente os parentes ―mais forte‖ possuem gado.

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Galvão, 1972, ao analisar a obra Grande Sertão: Veredas chama atenção para a vinculação que há entre bovinos e humanos e que remete a uma hierarquia: os jagunços são a boiada; os chefes têm sua imagem vinculada a bois individuais; os dois superchefes, por sua vez, Joca Ramiro e Medeiro Vaz, são representados pelo touro.

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Para além da posição que os bois carreiros ocupam na hierarquia da ‗nação de gado‘, Samu mostrava-se compreender o que significava os diferentes esturros de seus bois carreiros, como também os dos bois carreiros de seu sobrinho Zezão – bois que compõem a ‗nação de gado‘ que o vaqueiro conhece.

Sentados à varanda, Samu, dona Ló e eu acompanhávamos a formação do anoitecer. A lua estava meio metro acima da sucupira que se encontra à beira do curral do vaqueiro. Um silêncio profundo tomava conta da varanda e do quintal. As galinhas tinham ‗caçado rumo‘ para dormir; os porcos, carneiros e cabritos já estavam acomodados cada um em seu chiqueiro. De repente, um esturro – composto por duas vozes – lento, choramingador, que parecia não ter fim de tão demorado e que ressoava como um tormento à alma rompeu o silêncio que tomava conta da varanda: Jardim e Chatim do curral da casa de Zezão, a alguns metros da varanda onde estávamos, conversavam com Samu, que em resposta lhes dissera: — ―Aôô curraleiro velho! Vontade de ir pro carro ou de sair do curral e cascar o mundo!‖ Como forma de consolo ao que expressara os bois carreiros por meio do profundo esturro, o vaqueiro, todavia lhes explicara: — ―Zezão amanhã precisa d‘ocês para ir pro Formoso!‖ Jardim e Chatim silenciaram.

―Que já houve um tempo em que eles conversavam, entre si e com os homens, é certo e indiscutível, pois que bem comprovado nos livros das fadas carochas. Mas, hoje-em-dia, agora, agorinha mesmo, aqui, aí, ali, e em toda parte, poderão os bichos falar e serem entendidos, por você, por mim, por todo o mundo, por qualquer um filhos de Deus?!‖ (Conversa de Bois, Sagarana, p. 325)

Como resposta à pergunta apresentada acima e que inicia o conto Conversa de Bois é possível afirmar, a partir do diálogo entre Samu e os bois Jardim e Chatim, que os bichos falam e são entendidos; o vaqueiro Samu conversava com os bois.

Além do diálogo anteriormente apresentado, esse vínculo mais estreito entre o vaqueiro e os bois carreiros, tanto com os seus, quanto com os de seu sobrinho, ficava claro quando o ‗mexer com criação‘ remetia ao trabalho de buscar água. Antes de apresentar o trabalho em si,

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uma explicação se faz necessária: como é feita a escolha do bovino que será boi-de-carro, explicação que traz a tona novamente a diferenciação entre os bovinos que compõem a ‗nação de gado‘ que Samu conhece e que muitas vezes remete a uma hierarquia.

Para ser boi carreiro, a escolha é feita quando o gado ainda é bezerro. —―Tira os mais graúdos, mas pode ser miúdo também. Pode ser qualquer um e não precisa ser irmão. Vai treinando eles até crescerem. Bota na trela. Depois põe no carro.‖ — explicou-me dona Ló certa vez.

No momento em que dona Ló me falara como eram escolhidos os bois carreiros, Samu saíra para ‗caçar‘ Barrete e Retinto para modo de ‗apanhar água‘. Samu retornou e perguntei a ele como se escolhia o boi para ser carreiro. Em detalhes sobre quais raças se sobressaem para o trabalho com força a explicação foi-me dada, e a diferenciação entre os bovinos que remete a hierarquia interna existente à ‗nação de gado‘ voltou a se apresentar. —―Nelore não presta. Ele amansa, tem força, mas é estranhador. Bom mesmo é dessa outra raça, caracu, curraleiro, esses. Boi mais forçoso, curraleiro que tinha de primeiro...‖

Como fazia para amansar, perguntei. Escolhe qualquer bezerro? — ―Qualquer bezerro e mansa. Trela eles [amarra-os por uma corda], eles vão andando, andando, quando eles estiverem andando desobrigados, daí põe a canga. Daí põe, põe eles para arrastar pau, outra hora já põe logo no carro. Tem um boi velho na guia para eles não dispararem. Depois... tem paciência de não correr. Caracu é melhor. Boi mais forçoso! Aquele boi bufa145 também... eu nunca vi não, mas quem é que estava me falando que tinha uns bois bufa?... Sabe, é um gado que eu nunca vi! Esse bufa. Povo fala, mas eu não conheço não. Mas diz que ali é que é boi pra ter força, mas quando chegam nos meios d‘águas eles deitam! [risos] Vai banhar, banhar daí é que sai.‖

Barrete e Retinto – os carreiros de Samu – acompanham o vaqueiro há mais de quinze anos. Foram amansados para auxiliarem Samu no trabalho de buscar água, buscar lenha ou fazer carretos. Quando a necessidade de Samu era de água, por exemplo, à tarde o vaqueiro ‗caçava‘ —―os bois amarelão para apanhar água na manhã seguinte.‖ Na mangueira, os bois carreiros passavam a noite. Pela manhã, Samu os levava até o carro-de-bois, prendia e a conversa com os bois se iniciava.

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150 —―Vira, Barrete. Passa,

Retinto‖ — dizia Samu aos carreiros quando precisava virar o carro para a esquerda. Se o rumo fosse para a direita: —―Entra Barrete, arruma, Retinto.‖ O carro-de-bois cantava. Nhein... nheinhein... renheinhein... Perguntei e Samu me explicou quais madeiras usava para fazer carro de boi. Ipê era usado para a mesa, jatobá para as rodas e sucupira-branca ou pequizeiro para o eixo. O Angelim também pode ser usado para o eixo, embora seja ruim para trabalhá-lo ‗porque amarga muito‘146

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Ipê: Tabebuia áurea, Tabebuia ochracea, Tabebuia serratifolia; Jatobá: Hymenaea stigonocarpa

Hymenaea courbaril L.; Sucupira-branca: Pterodon pubescens; Pequizeiro: Caryocar brasiliensis; Sucupira- preta: Bowdichia virgilioides; Angelim: Vatairea macrocarpa.