Patrimônio natural, socioambiental e cultural da humanidade, o Vale do Ribeira é a maior área contínua do bioma Mata Atlântica ainda preservada no Brasil. O referido bioma é considerado um dos mais ricos conjuntos de ecossistemas em termos de diversidade biológica. Estendia-se originalmente por aproximadamente 1.300.000 km2 em 17 estados do território brasileiro e hoje está reduzido a cerca de 7% de sua área original (Figura 6) e grande parte das áreas que restam se encontram em avançado estado de fragmentação (BRASIL, 2017c).
Figura 6- Domínio original da Mata Atlântica e remanescentes atuais.
Fonte: São Paulo (2008a).
Remanescentes da Mata Atlântica Domínio da Mata Atlântica
Por sua reconhecida importância, a utilização e proteção de sua vegetação estão estabelecidas na Lei da Mata Atlântica - Lei 11.428/2006 e no Decreto 6660/2008 que a regulamenta (BRASIL, 2017d). A Mata Atlântica é composta por formações florestais que expressam sua enorme riqueza: as florestas Ombrófila Densa, Ombrófila Mista, Ombrófila Aberta, Estacional Semidecidual e Estacional Decidual, junto a ecossistemas associados de restingas, manguezais e campos de altitude compõe uma coleção de espécies representantes dos diferentes grupos de seres vivos (Figura 7).
Figura 7 - Fisionomias da Mata Atlântica.
Fonte: Brasil (2017c).
São cerca de 20.000 espécies vegetais, 849 espécies de aves, 370 de anfíbios, 200 de répteis, 270 de mamíferos, 350 de peixes. Em comparação, na Europa e na América do Norte são catalogadas, respectivamente, 12.500 e 17.000 espécies vegetais (BRASIL, 2017b). O Bioma também apresenta uma enorme diversidade de outras formas de vida, como insetos,
fungos, bactérias de grande importância na estruturação dos ecossistemas. Por apresentar grande variedade de formações e uma vasta extensão, alguns autores utilizam o termo Mata Atlântica stricto sensu para designar a vegetação que ocorre ao longo do litoral brasileiro, com as áreas de Floresta Ombrófila Densa litorâneas, e Mata Atlântica lato sensu, para abranger as extensões que ocorrem em direção ao interior do país (SÃO PAULO, 2008a). No Estado de São Paulo são encontradas três formações de Floresta Ombrófila, as matas de planície litorânea, as matas de encosta e as matas de altitude (Joly et al. 1992).
O histórico de ocupação do Brasil pelos estrangeiros, a partir da chegada dos portugueses, diferente dos povos que aqui habitavam, deixou um rastro de destruição da Mata Atlântica e marcou as formas de relacionamento com a floresta. O adensamento populacional ao longo da costa brasileira, os modelos de extração e produção que caracterizaram os ciclos do pau-brasil e da cana de açúcar, as explorações do ouro e outros minerais, o povoamento estrangeiro através de uma ocupação territorial desordenada das planícies do litoral e posterior ocupação dos planaltos do interior e sua industrialização com grande concentração da população nas cidades (SÃO PAULO, 2008b). Nesta trajetória, o Bioma foi destruído quase que por completo, mais de 90% da Mata Atlântica lato sensu foi derrubada e fragmentada e ocupa aproximadamente 130 mil km2. A pressão antrópica sobre as áreas remanescentes da Floresta se mantém nos dias de hoje, apesar da diminuição nas taxas de desmatamento (Figura 8).
Figura 8 - Bioma Mata Atlântica e desmatamentos ressaltados em vermelho, período 2013-2014.
No Vale do Ribeira, se encontra cerca de 20% da cobertura vegetal nativa que restou da Mata Atlântica, o maior remanescente da região sudeste do País, denominado Continuum Ecológico de Paranapiacaba, um corredor ecológico de aproximadamente 320.000 hectares da Floresta (FURLAN et al., 2009). De acordo com Ab’Saber (2003), a região do continuum se insere no Domínio dos Mares de Morros Florestados do Brasil Atlântico, onde viceja a Floresta Ombrófila Densa sob climas mais úmidos com alta precipitação distribuída regularmente ao longo do ano. Mais da metade do Continuum Ecológico de Paranapiacaba compreende mosaicos de UCs, dentre os quais se destaca o Mosaico de Unidades de Conservação da Serra de Paranapiacaba (Figura 9) a maior área remanescente de Mata Atlântica do país legalmente protegida, com mais de 120.000 hectares. (SÃO PAULO, 2012).
Figura 9 - Mosaico de Unidades de Conservação da Serra de Paranapiacaba.
Fonte: www.brasilviajesturismo.com
Apresar de ser também usado para designar trechos de vegetação nativa que conectam fragmentos, o termo Corredor ecológico, nesta concepção, corresponde a uma extensa área de
significativa importância ecológica constituída por um mosaico de unidades de conservação entremeadas por áreas com diferentes usos e ocupações do solo, na qual a estratégia de gestão da paisagem inclui o manejo integrado com objetivo de conciliar a manutenção dos processos ecológicos e evolutivos e o desenvolvimento socioeconômico baseado no uso sustentável dos recursos naturais (AYRES, et al., 2005).
A visão de continuum é parte de uma nova concepção de territorialidade da conservação dos ecossistemas que busca considerar “a formação socioespacial, compreender e identificar as diferentes dinâmicas socioambientais, seus conflitos e benefícios de vizinhança com a rede de Áreas Protegidas” (FURLAN, et al., 2009, p. 52).
Neste sentido, é necessário ampliar o olhar sobre o território do Vale do Ribeira para além da imensa diversidade ecológica que ele expressa e perceber suas paisagens variadas de grande beleza e conhecer a grande diversidade de culturas das comunidades tradicionais, além de reconhecer os vários povos imigrantes que povoaram seus territórios (DIEGUES, 2007). Em contraposição à riqueza ambiental e cultural, a região apresenta uma das piores condições de vida e de renda do estado de São Paulo com grande parte de sua população vivendo sob condições precárias de infraestrutura e saneamento básico (CHABARIBERY et al., 2004). O Vale apresenta os mais baixos indicadores de condições de vida e de renda, com índice médio de desnutrição infantil de 8,3%, sendo 9,7% na zona rural e 6,3% na urbana, contabilizando os menores Índices de Desenvolvimento Humano – IDH dos estados de São Paulo e Paraná e os mais altos índices de mortalidade infantil e analfabetismo (ROMÃO, 2006). Uma parcela substancial da população vive do extrativismo vegetal, principalmente de madeira e palmito da palmeira juçara (ALVES, 2007).
Tal contradição, entre as riquezas ambiental e cultural em oposição aos baixos indicadores de desenvolvimento socioeconômico, expressa a exclusão das populações locais do processo de desenvolvimentismo instaurado no restante do estado. Este modelo de desenvolvimento, com intensa destruição dos ecossistemas naturais e implantação de monoculturas resultou na drástica transformação da paisagem no País. A Figura 10 apresenta o mapa de cobertura e uso da terra no estado de São Paulo, no ano de 2014, onde se observa a concentração das áreas de vegetação florestal no Vale do Ribeira e próximo à costa. O território concentra 40% das unidades de conservação do estado (ROMÃO, 2006) e em termos de área, segundo Marinho e Furlan (2007), 60% do território é constituído por unidades de conservação de proteção integral e de uso sustentável. Podem-se observar
também as áreas desmatadas durante o referido ano, com uma concentração nas proximidades da região metropolitana de São Paulo e áreas dispersas no interior paulista.
Figura 10 - Mapa de cobertura e uso da terra no Estado de São Paulo, Vale do Ribeira em destaque, em 2014.
Fonte: SOS Mata Atlântica; INPE (2015).
O Vale do Ribeira paulista, destacado na Figura anterior (Figura 10), tem área de 1.711.533 hectares e abrange 23 municípios: Apiaí, Barra do Chapéu, Barrado Turvo, Cajatí, Cananéia, Eldorado, Iguape, Ilha Comprida, Iporanga, Itaóca, Itapirapuã Paulista, Itariri, Jacupiranga, Juquiá, Juquitiba, Miracatu, Pariquera-Açú, Pedro de Toledo, Registro, Ribeira, São Lourenço da Serra, Sete Barras e Tapiraí. Destes, 15 pertencem à Região Administrativa de Registro, seis pertencem à Região Administrativa de Sorocaba e dois pertencem à Região Metropolitana de São Paulo. Juntos atingem uma população de mais de 326 mil habitantes (HOGAN et al., 1999).