Material e Métodos
3.3. A VALIAÇÃO DE PROCESSOS NO ÂMBITO DO CONSELHO GESTOR DE UC S
No caso de processos no âmbito dos conselhos gestores das UCs, para coleta de dados e informações em campo, foi adotada a abordagem de pesquisa-ação (Deshler & Ewert, 1995) associada à aplicação do SISUC. O questionamento sistêmico da pesquisa-ação teve por referência dois protocolos de avaliação que foram testados quanto à aderência do SISUC: 1. o protocolo de transformação deliberada de sistemas socioecológicos, proposto por Moore et al. (2014 – adaptado de Olsson, 2004) e 2. o protocolo de princípios de boa governança de áreas protegidas, proposto por Lockwood (2010). Ambos os protocolos e os testes de aderência são detalhados abaixo (subitens 3.3.1 e 3.3.2).
A coleta de dados e informação referente aos questionamentos da pesquisa- ação propostos por esses dois protocolos (Moore et al., 2014; Lockwood, 2010) foi feita ao longo das atividades de aplicação do SISUC durante as reuniões dos conselhos gestores, por meio de uma técnica de abordagem qualitativa, a observação participante (Seixas, 2005).
Como explicado na introdução do presente capítulo, a sequência de passos do SISUC desenvolvidas a cada ciclo de reuniões foram os mesmos para todos os conselhos gestores pesquisados, de forma que, obtidos os dados e as informações de um determinado passo, nas demais reuniões para execução do mesmo passo em outras UCs, tais dados e informações eram usados como referência, depois de checados em sua coerência e, se necessário, complementados e/ou ajustados.
3.3.1. Avaliação da transformação deliberada de sistemas socioecológicos
O protocolo de transformação deliberada de sistemas socioecológicos (Moore et al., 2014) adota uma abordagem de caráter transformacional baseada em aspectos de governança, gestão transicional e inovação social, que considera múltiplos subprocessos das seguintes quatro fases: pré-transformação, preparação para mudança, transição e institucionalização da mudança, as quais seguem detalhadas no Quadro 3.2.
Quadro 3.2. Múltiplos subprocessos em cada fase da transformação deliberada de um sistema socioecológico (Moore et al., 2014).
Fase Subprocessos
Pré
Transformação Perturbações sociais ou ecológicas criam janelas de oportunidade Oportunidade de mudança do contexto atual torna-se transparente para os atores
Preparação para
Mudança ‘Despertar para o fazer’: análise das estruturas que são mais problemáticas na trajetória atual do sistema socioecológico ‘Prever’: geração de inovação e novas visões para o futuro
‘Ganhar impulso’: auto-organização a partir de novas idéias, criação e mobilização de redes de apoio e experimentação em "nichos" protegidos Transição ‘Selecionar’: escolha da inovação ou processo de mudança em que se
quer investir capital social, intelectual e financeiro
‘Aprender’: avaliação dos resultados de experiências anteriores e desenvolvimento de entendimentos compartilhados e novas formas de conhecimento
‘Adotar’: absorção e replicação da mudança inovadora que foi bem sucedida em fase experimental - ponto de inflexão
Institucionalização
da nova trajetória ‘Estabelecer rotinas’: gestão de estabilidade dinâmica para incorporar nova trajetória ao sistema socioecológico e estabelecer ou reforçar novos mecanismos de retroalimentação
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Institucionalização
da nova trajetória ‘Fortalecer relações entre-escalas’: expansão da mudança envolvendo um tipo diferente de inovação do que foi criado originalmente, adequando-se a diferentes contextos
‘Estabilizar’: sistema transformado atinge novos interessados e precisa lidar com as próximas e prováveis perturbações inesperadas, como atores influentes que podem oferecer resistência.
3.3.2. Avaliação de princípios de governança de áreas protegidas
O protocolo de avaliação de princípios de boa governança de áreas protegidas (Lockwood, 2010) é composto por 30 parâmetros referentes a sete princípios: legitimidade, transparência, responsabilização, inclusão, justiça, conectividade e resiliência. Esse protocolo pode ser utilizado para uma área protegida, para um conjunto ou para um sistema de áreas protegidas.
Como o presente trabalho de pesquisa analisa as práticas de governança local de um conjunto de seis UCs, 11 dos 30 parâmetros do protocolo original, os quais são voltados para sistemas de áreas protegidas (e.g. marco regulatório de governança), foram excluídos da avaliação. Os demais 19 parâmetros são apresentados no Quadro 3.3., conforme sua distribuição entre os princípios de boa governança de áreas protegidas.
Quadro 3.3. Parâmetros do protocolo de avaliação de princípios de boa governança de áreas protegidas (modificado de Lockwood, 2010).
Princípio Parâmetro
Legitimidade 1. Conselho gestor atua de acordo com o seu mandato e o propósito da UC Transparência 2. Governança e tomada de decisão são abertas para participação dos
conselheiros
3. As razões por trás das decisões são evidentes 4. Sucessos e falhas são evidentes
5. Informações são apresentadas de forma adequada às necessidades dos conselheiros
Responsabilidade 6. Conselho gestor e conselheiros têm claramente definidos seus papéis e responsabilidades
7. Conselho gestor tem prestado contas aos atores nele representados 8. Conselho gestor está sujeito à prestação de contas para instâncias superiores
Responsabilidade 9. O nível no qual o poder é exercido corresponde ao dos direitos, necessidades, temas e valores associados
Inclusão 10. Todos os conselheiros têm oportunidades apropriadas no encaminhamento de processos e ações
11. O conselho busca, ativamente, engajar as lideranças interessadas que estejam em desvantagem ou marginalizadas
Justiça 12. Decisões são tomadas de maneira consistente e sem enviesamento 13. Direitos humanos e das populações tradicionais/ povos indígenas são respeitados
Conectividade 14. O conselho gestor é efetivamente conectado com colegiados de diferentes níveis de governança
15. O conselho gestor é efetivamente conectado com colegiados que operam no mesmo nível de governança
Resiliência 16. O conselho gestor tem uma cultura de, intencionalmente, aprender a partir das experiências e absorver novos conhecimentos
17. O conselho gestor tem flexibilidade para rearranjar processos internos e procedimentos, em resposta a mudança de condições internas e externas 18. O conselho gestor utiliza processos de planejamento e gestão adaptativos
19. O conselho tem procedimentos para identificar, caracterizar e gerir riscos
Apesar de o ciclo completo de aplicação do SISUC ser composto por nove passos (v. Quadro 3.1), para avaliação da aderência deste método a princípios de boa governança foram realizados agrupamentos e exclusões de alguns passos, de forma que ao final são considerados um total de cinco tipos de atividades. Por serem complementares entre si, os passos 2, 3 e 4 foram agrupados em um único tipo de atividade (avaliação de indicadores=AVAL.). Os passos 5 (análise de viabilidade e definição de ações=AÇÃO), 6 (estabelecimento de meta para indicadores=META), 8 (monitoramento e avaliação de ações e indicadores=M&A) e 9 (balanço do desempenho das ações e metas=BAL.) foram considerados tipos de atividade independentes. O passo 7 (treinamento de conselheiros para o monitoramento de ações) foi excluído por não ser relacionado à governança propriamente dita.
Em caráter complementar à pesquisa-ação, relatórios e publicações referentes ao SISUC (disponíveis em www.blogdosisuc.socioambiental.org)6 também
6 Para download de arquivos do blog do SISUC é necessário o cadastro do usuário, disponível na página
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foram utilizados para compor os resultados qualitativos da análise de aderência entre o SISUC e os protocolos propostos por Moore et al. (2014) e Lockwood (2010). Os produtos dessas análises foram organizados em quadros-síntese, que integram os resultados do conjunto de UCs pesquisadas (Quadros 4.2 e 4.3, Capítulo 4, Resultados).
Além de avaliar efeitos da implantação do método SISUC sobre a situação socioecológica das UCs pesquisadas e no âmbito de seus conselhos gestores, foram investigados também quais os fatores-chave e mecanismos envolvidos nesses processos, conforme descrito no subitem abaixo.