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3 O DESENVOLVIMENTO DO EGO POR LOEVINGER

3.4 Validade da teoria do desenvolvimento do ego

Desde a publicação da teoria de Loevinger (1970), foram feitas quatro revisões críticas da validade da teoria do desenvolvimento do ego, na forma de meta-análises. Além da revisão

27 LAHEY, L.; SOUVAINE, E.; KEGAN, R.; GOODMAN, R., FELIX, S. A guide to the subject object interview: its administration and interpretation. Cambridge: Harvard School of Education, 1988.

realizada por Loevinger (1979), as duas primeiras revisões independentes foram realizadas por Hauser (1976, 1993) e a mais recente por Manners e Durkin (2001) que considerou as publicações científicas relevantes até 1999.

O objetivo desta seção é revisar as evidências da validade da teoria do desenvolvimento do ego. Este entendimento fornece os fundamentos (i.e., explicita os pontos fortes e as fragilidades desta teoria) para a sua eventual utilização no desenvolvimento da liderança ou em outras aplicações. Para tanto, tem-se como ponto de partida os resultados de Manners e Durkin (2001) bem como os resultados de 3 teses de doutorado e de 10 artigos científicos publicados no período de 2000 a 2004.

Como as conclusões de Manners e Durkin (2001) indicam que existem evidências substanciais da validade da teoria do desenvolvimento do ego e das suas mensurações, esta seção concentra-se nos aspectos mais distintivos da validação e nas dissonâncias do desenvolvimento do ego como constructo (sendo que os resultados referentes ao WUSCT, como instrumento de mensuração, estão na seção 4.2). Com base na linha de Manners e Durkin (2001), a discussão está estruturada em: validade do constructo, validade projetiva e validade discriminante.

3.4.1 Validade do constructo

Relação com Formas Alternativas de Mensuração do Desenvolvimento do Ego.

Manners e Durkin (2001), devido ao caráter empírico-teórico da teoria do desenvolvimento do ego, ressaltam a dificuldade da comparação dos seus resultados com outras formas de mensuração. Dentre os estudos avaliados por estes autores, destacam-se os resultados obtidos por Westenberg e Block (1993) que utilizaram o California Adult Q-set (CAQ) para investigar

as relações entre as variáveis da personalidade e o desenvolvimento do ego, a partir de hipóteses derivadas das teorias da personalidade. Dos 80 descritores da personalidade do CAQ, Westenberg e Block (1993) avaliaram categorias homogêneas que estariam relacionadas ao desenvolvimento do ego. A partir de uma ampla amostra de indivíduos de ambos os sexos em duas faixas etárias de 14 anos (104 adolescentes) e de 23 anos (98 adultos), Westenberg e Block (1993) concluem que certas diferenças de personalidade estão coerentemente conectadas com o desenvolvimento do ego e de forma independente da idade. As categorias relacionadas ao desenvolvimento do ego foram: resistência/ recuperação do ego (ou ego resilience que é composto por intelectualismo, resistência/recuperação e importância

dos aspectos psicológicos), integridade interpessoal (composto por solidez moral e intimidade interpessoal), conformidade (composto por cumprimento de regras e cordialidade) e necessidade de regulação (need regulation). Para Manners e Durkin (2001), estes resultados

(juntamente com outros três estudos) sustentam a validade do desenvolvimento do ego como constructo.

Natureza Unitária do Ego. Manners e Durkin (2001) acreditam que, apesar da

complexidade e da abrangência do constructo, existem consideráveis evidências para a natureza unitária do ego. O principal estudo foi o realizado por Loevinger e Wessler (1970) que efetuou uma análise fatorial de uma grande amostra de protocolos WUSCT onde o primeiro componente foi responsável por 20% da variação total e o segundo por 5,6%. Apenas o primeiro fator apresentou elevada correlação com o índice das soma dos itens do WUSCT e os demais foram inconclusivos. Manners e Durkin (2001) mencionam que outros estudos não conseguiram fracionar os aspectos particulares do desenvolvimento do ego.

No entendimento de Blasi (1976), o desenvolvimento do ego seria o principal traço da personalidade (master trait) e indivisível que subjugaria todos os outros domínios do

desenvolvimento. Conforme Manners e Durkin (2001), apenas o estudo de Novy et al. (1994) investigou esta proposição de forma empírica e os resultados não apoiavam a conclusão de que o desenvolvimento do ego medido pelo WUSCT é um master trait. Através de um

modelo de equações estruturais, Novy et al. (1994) avaliaram as relações entre o desenvolvimento do ego e os seus principais componentes: o desenvolvimento do caráter, o estilo cognitivo, o estilo interpessoal e as preocupações conscientes. Conforme Novy et al. (1994), o melhor modelo correspondeu a um modelo hierárquico onde as 5 variáveis estavam inter-correlacionadas e com apenas um constructo de segunda ordem subjacente às 5 variáveis. Deste modo, estas 5 variáveis são manifestações de um único processo.

Apesar de Manners e Durkin (2001) não terem citado resultados clínicos, Westen (1998) apontou estudos anteriores (e.g., WESTEN, 199128 apud WESTEN, 1998) baseados em evidências clínicas que demonstravam que variáveis semelhantes (neste caso: desenvolvimento moral, “quadro de referência” cognitivo-afetivo e preocupação com aspectos psicológicos) estavam imperfeitamente correlacionadas e que, portanto, questionavam a noção de dimensão unificada e a inseparabilidade destas dimensões.

Para Manners e Durkin (2001), apesar das limitações do modelo utilizado, a importância dos resultados de Novy et al. (1994) é que traz evidências plausíveis sobre o

questionamento do desenvolvimento do ego como master trait ao mesmo tempo em que traz

evidências de que o conceito do ego é de fato um constructo abrangente e que está presente em uma ampla gama de características da personalidade.

Seqüencialidade dos Estágios do Ego. Loevinger (1993) enfatizou que uma questão

crítica para a validade dos constructos das teorias de desenvolvimento baseadas em estágios é a demonstração da seqüencialidade de estágios. Para Loevinger (1976), seqüencialidade significa que as mudanças ocorrem de forma particular, invariável, progressiva e são conseqüências de uma lógica interna de desenvolvimento e não de fatores externos. Após citarem os resultados favoráveis de vários estudos longitudinais sobre o desenvolvimento do ego, Manners e Durkin (2001) concluem que existem amplas evidências que asseguram a seqüencialidade dos estágios tanto na infância, na adolescência e no período adulto, porém existem também indicações de reversibilidade das transições de estágio (ou seja, de regressão de estágios).

Dentre os estudos longitudinais posteriores, destaca-se o trabalho de Henninghausen et al. (2004) que apresenta uma correlação da evolução do desenvolvimento do ego ao longo da adolescência (medidos com 14, 15, 16 e 17 anos) e o estágio de desenvolvimento na idade de 25 anos. A população analisada incluía alunos regulares de uma escola pública e adolescentes de um hospital psiquiátrico (com o objetivo de ampliar o espectro de captura do funcionamento psicossocial). Dentre as possibilidades de evolução dos estágios na adolescência, Henninghausen et al. (2004) não identificaram nenhum caso de regressividade (ou seja, de regressão sistemática de estágios) nem de forte ascensão (uma rápida progressão de estágios a partir de um estágio inferior), porém 18% dos alunos regulares e 16% dos adolescentes problemáticos apresentaram o padrão denominado de moratório que reflete a oscilação dos estágios de desenvolvimento do ego no período de 14 a 17 anos. Na idade de 25 anos, foram avaliadas as características de compartilhamento da experiência, negociação interpessoal, entendimento interpessoal, resistência/recuperação do ego (ego resilience) e

hostilidade. Os piores resultados foram associados a adultos cujo desenvolvimento do ego ficou permanentemente baixo ou que oscilaram (moratório) durante a adolescência. Os melhores resultados foram associados a adultos cujo desenvolvimento do ego esteve permanentemente alto ou que apresentaram crescimento durante a adolescência.

Outro importante estudo posterior foi o realizado por Manners, Durkin e Nasdale (2004) que demonstraram a possibilidade de desenvolvimento do ego na idade adulta através de processos de intervenção. O principal resultado foi promover o avanço de indivíduos no

estágio Autoconsciente (E5) para o estágio Consciencioso (E6), pois até então, os resultados das experiências de intervenção consistiam apenas no avanço de indivíduos do estágio Conformista (E4) para o estágio Autoconsciente (E5). Estes autores basearam-se na hipótese de trabalho de que as transições entre os estágios ocorrem como resultado de experiências de vida que são: 1) estruturalmente desequilibrantes (não necessariamente traumáticas); 2) pessoalmente importantes; 3) emocionalmente atraentes, cativantes ou relevantes; e 4) envolvem aspectos interpessoais.

Em resumo, apesar das amplas evidências empíricas da seqüencialidade dos estágios em estudos longitudinais (e com resultados consistentes), as evidências demonstram a ocorrência da reversibilidade dos estágios. As causas desta reversibilidade não são claras e praticamente inexistem investigações sobre este tema. No entanto, pode-se formular algumas hipóteses como: 1) possíveis limitações do instrumento de medida e, assim, as oscilações são devido às atuais características intrínsecas do WUSCT; 2) as dimensões do desenvolvimento apresentam evolução heterogênea que se manifestam como oscilações de estágio; ou 3) efetivamente é possível a regressão de estágios caso a nova lógica de construção de significados resulte em um elevado custo emocional. Por fim, as linhas de pesquisa sobre os processos de intervenção começam a demonstrar evidências empíricas da viabilidade de ações que “estimulem” o desenvolvimento do ego.

3.4.2 Validade projetiva

Manners e Durkin (2001) ratificam a posição de Loevinger e Wessler (1970) de que, como o desenvolvimento do ego é um constructo interno e subjacente, considera-se inapropriado esperar uma relação direta entre o estágio do ego e o comportamento observável. Para Loevinger e Wessler (1970) este tende a ser um relacionamento probabilístico. Neste contexto, Manners e Durkin (2001) apenas mencionam um único estudo que avalia a validade projetiva do instrumento WUSCT.

Neste contexto, considera-se que a insuficiência de estudos de validade projetiva pode estar refletindo a dificuldade de se estender às características do desenvolvimento do ego de cada estágio (por ser um constructo interno e subjacente) para características comportamentais observáveis e que não seja na forma probabilística, aproximada ou ilustrativa. Desta maneira, não é prudente generalizar ainda mais as descrições dos estágios de desenvolvimento para o domínio comportamental. Além disto, como o estágio do ego reflete apenas o modo como

ocorre a construção de significados, faz-se necessário o entendimento do contexto (incluindo pelo menos as dimensões motivacionais e de conteúdo – Por quê? e O quê?) para melhor caracterizar o comportamento observável.

3.4.3 Validade discriminante

A análise discriminante visa determinar se não existem outras variáveis mais simples ou mais difundidas que já mensuram o desenvolvimento do ego. Neste caso, deve-se demonstrar que a mensuração do desenvolvimento do ego efetivamente traz algo de novo. As principais variáveis que podem se sobrepor ao desenvolvimento do ego são inteligência, fluência verbal e variáveis sócio-econômicas.

Inteligência. A discussão sobre a validade discriminante do desenvolvimento do ego

foi reavivada com um extenso artigo de Lubinski e Humphreys (1997, p. 191), onde defendem a posição de que o constructo da inteligência geral é o principal diferenciador e preditor do comportamento humano. No caso específico, afirmam que as medidas contemporâneas como o desenvolvimento do ego “acrescentam muito pouco sobre as predições do fenômeno psicológico em relação às mensurações convencionais de habilidade”.

A revisão de Manners e Durkin (2001) de um parágrafo sobre o tema inteligência não responde adequadamente a contestação de Lubinski e Humphreys (1997) sobre a validade discriminante deste constructo. Por outro lado, Cohn e Westenberg (2004) conduziram uma meta-análise de 52 correlações entre os níveis de desenvolvimento do ego e os resultados dos testes de inteligência (retirados de 42 estudos envolvendo um total de 5.648 participantes). A correlação ponderada média foi de 0,20 a 0,34 dependendo do tipo de habilidade intelectual avaliada (e.g., inteligência geral com 0,32; inteligência verbal com 0,32; e conhecimento e resultados com 0,20). A conclusão deste trabalho foi que os estágios de desenvolvimento do ego e os níveis de inteligência não são constructos intercambiáveis, ou seja, são conceitualmente e funcionalmente distintos. Desta maneira, o desenvolvimento do ego não é determinado pela habilidade intelectual ou, de modo alternativo, capacidades intelectuais mais elevadas não asseguram o progresso do desenvolvimento do ego.

Fluência verbal. Manners e Durkin (2001) mencionam que apesar da fluência verbal

estar relacionada ao desenvolvimento do ego, as evidências indicam que o WUSCT, em função das baixas correlações positivas (na faixa de 0,30 a 0,35), não estão simplesmente

medindo fluência verbal. Os resultados de Cohn e Westenberg (2004) sobre inteligência verbal confirmam esta interpretação.

Variáveis Sócio-econômicas. Manners e Durkin (2001) fazem uma ampla revisão de

estudos sobre possíveis correlações entre o desenvolvimento do ego e variáveis sócio- econômicas como renda familiar, formação escolar dos pais, idade, etc. A conclusão aponta para correlações de moderadas a baixas para estas variáveis demográficas.