2 BASES DO PROCESSO
2.1 Da Linguagem em PERELMAN e HABERMAS
2.1.1 Linguagem Natural e Língua(gem)Jurídica
2.1.1.3 Validade da Tradição e dos Lugares-Comuns
PERELMAN aponta que os lugares comuns são "premissas de ordem muito
geral"279construídas e consagradas através do raciocínio dialético. Graças a sua generalidade tornaram-se banais em nossos tempos, perdendo em grande parte seu valor argumentativo apesar de serem elementos essenciais ao discurso. Os lugares280 constroem em torno de si acordos sobre o "preferível"281 o que os vincula a uma fundamentação valorativa.282
Devido à fundamentação valorativa, o lugar-comum reproduz a capacidade de gerar adesão dos valores. Assim, o autor apresenta dois grupos principais sobre os quais os acordos valorativos já estão consubstanciados no tempo, entre eles os lugares de quantidade e os de
qualidade, entre outros,283 sem, no entanto, exauri-los. Todos são uma representação contextual da linguagem natural.
Os lugares-comuns tornam-se o ponto de partida para debater situações concretas, pois se assemelham a "prénoções" segundo o autor284 que permitem um embate entre posições distintas do orador e do auditório. Como o lugar-comum não possui uma clareza e precisão, debate-se principalmente no ambiente semântico para adequá-lo à pragmática,285 ou seja, uma forma de explicar o significado das palavras que este lugar contém para reforçar sua
279 PERELMAN, Tratado da Argumentação: A nova retórica. 2005, p.94.
280 BITTAR, 2009, p.143 (incluindo outros lugares comuns, ainda mais comuns que os reportados por Perelman em Lógica Jurídica, como por exemplo a boa fé e ordem pública).
281 PERELMAN, Tratado da Argumentação: A nova retórica. 2005, p.74. 282 PERELMAN, Ética e Direito, 2005, p.678.
283 PERELMAN, Tratado da Argumentação: A nova retórica. 2005, pp.96-108. 284 PERELMAN, Ética e Direito, 2005, p.678.
validade. De qualquer forma, o lugar-comum mantém não só um espaço para alteração semântica, mas também um sentido emotivo.
Os lugares-comuns assemelham-se às imagens do mundo da vide de HABERMAS especialmente como fonte de valoração cultural,286 pois são pré-estruturas simbólicas de convicções e de interpretações que permitem a inserção do sujeito dentro da sociedade através de relações comunicativas. Porém, HABERMAS, ao contrário do autor anterior, considera que estas imagens não permitem dar uma estabilidade sólida à sociedade devido a seu caráter falível e à possibilidade da realização de um dissenso fundamentado sobre elas.287 Daí que se torna necessário, a todo o momento, a apresentação de novos argumentos contextuais, para tentar manter um espaço de socialização. O mundo da vida fica fornecendo um pano de fundo inicialmente aproblemático, mas sobre o qual a comunicação torna-se problematizável quando tematizada, nos impulsionado a jogar com normas e valores para produzir aceitação de ações.288 Simplificando, o mundo da vida é um espaço de reinterpretação com elementos já interpretados. Nas palavras de HABERMAS, tratando do mundo da vida dentro um conceito culturalista:
(...)os padrões culturais de interpretação, de valoração e a de expressão servem como recursos para as faenas e rendimentos interpretativos dos participantes na interação que negociam uma definição comum da situação, em cujo marco pode chegar a um consenso sobre algo no mundo. (HABERMAS, Teoria de la Acción Comunicativa: Racionalidad de la Acción y Racionalización Social, vol. I. 1987, p.191)
Apesar disso, o mundo da vida não se reproduz simplesmente, ele se renova também na tradição. Assim, os lugares-comuns, que antes eram uma fonte de certeza e de coerência, ficam à mercê das relações comunicativas capazes de alterá-lo quando ele não for capaz de reproduzir um conhecimento válido. Ao fim e ao cabo, sua posição em relação ao mundo da
vida, enquanto valores subsumidos a expressões valorativas como os lugares-comuns, chega ao mesmo ponto que PERELMAN.289
A generalidade que PERELMAN atribui aos lugares-comuns assenta-se num consenso sobre o acervo cultural que os membros da sociedade possuem e que se preserva graças à confiança na sua reprodutibilidade e na sua validade. Aceitam-se os lugares-comuns
286 Recorrendo ao mundo da vida desde uma perspectiva culturalista, sem observar uma perspectiva social (HABERMAS, Teoria de la Acción Comunicativa: Crítica de la Razón Funcionalista, vol. II. 1987, pp.189- 191,196).
287 HABERMAS, Direito e Democracia: entre a Faticidade e a Validez, vol. I. 1997, p.56.
288 HABERMAS, Teoria de la Acción Comunicativa: Crítica de la Razón Funcionalista, vol. II. 1987, p.190. 289 HABERMAS, 1991, p.37.
enquanto consigam ter correspondência com a crença subjetiva, com a crença exposta pela sociedade em detrimento a um objeto, ou seja, enquanto não tematizados.
A tematização os tira de um fundo sombrio para trazê-los à tona na comunicação. O que antes era consensual e intersubjetivamente compartilhado passa ser uma proposição subjetiva, que deve ser entendida dentro de um contexto de falantes-ouvintes. A diferença entre os dois autores, no que toca a validade dos lugares-comuns, refere-se a tematização em si. Para HABERMAS quando essas convicções de fundo são tematizadas, ou elas tombam definitivamente, ou se mantêm como são, não há um espaço aberto para a ampla problematização;290 PERELMAN, em oposição, crê que a tematização destes é um caminho para reforçar sua validade de dentro de um discurso que busca o convencimento de outro sujeito.291
Em ambos autores permanece a nebulosidade que envolve essa realidade já interpretada que nos é dada e que, por decurso de fatos que consideramos novos, é posta à prova. Intui-se que o Direito tem esta penumbra, ao mesmo tempo e da mesma maneira, a formação da norma não se dá exclusivamente com base nela. O Direito funda-se numa realidade problematizada que pressupõem este conhecimento, criando relações que a levam em consideração.