CAPÍTULO I: CRIOULO GUINEENSE E CONTEXTO
1.6. Vantagens da escrita
Andrea Bernadelli e Robert Pellerey, são os autores do livro, “Il Parlato e Lo Scritto” (“A Língua falada e a Língua Escrita”), que apresenta algumas reflexões sobre
a complexa relação entre a língua falada e a língua escrita e as consequências introduzidas nas sociedades orais com a aceitação da escrita (Bernardelli, A; Pellerey, R.: 2002).
Na Introdução os dois linguistas escrevem:
“Somente por meio da escrita os humanos têm começado a analisar, observar, reflectir sobre os sons que habitualmente pronunciavam e trocavam com os outros seus semelhantes.” (2002: 1)
A introdução da escrita tem habituado as pessoas a criarem textos autónomos e não somente a pronunciarem discursos, como na oralidade, cuja existência tem a duração do acto da fala. Ao contrário, o texto escrito continua a sua existência, disponível para uma reflexão, para averiguar se o seu conteúdo tem sentido ou deve ser melhorado ou até eliminado. Através destas análises, a capacidade de raciocínio do
escritor é exercitada com novas provas, aperfeiçoando assim o mesmo pensamento racional.
Olson David R. chama a tudo isso a “técnica ensaística” que tem habilitado os primeiros escritores a produzir frases isoladas, para analisá-las, para reflectir sobre as consequências e implicações das mesmas, e para descobrir como o conhecimento expresso pela nova frase é mais avançado ou melhor formulado do que a frase precedente (Olson, D.: 1977).
Para além dessas consequências, que podemos classificar de individuais, enquanto afectam somente os escritores, foram apercebidas também consequências mais amplas que tiveram influência sobre aspectos de toda a sociedade.
Na Grécia antiga do século IV a.C., por exemplo, com o uso mais frequente e popular da palavra escrita (Bernardelli, A.; Pellerey, R.: 133) nasce uma nova e interessante reflexão sobre a maneira de educar e de fazer filosofia. De um lado temos Sócrates que reage negativamente à nova maneira de “sofismar”, própria dos Sofistas, os quais utilizavam a escrita para fazerem propaganda da própria maneira de filosofar, e que como consequência disso não aceitava nada de escrito. Do outro lado temos Platão, um dos seus discípulos, que escreve utilizando o género literário do Diálogo e do Mito, que podemos considerar como um compromisso entre a transmissão oral e a nova transmissão por meio da escrita: porém, no seu livro “A República”, Platão exclui os poetas do governo da cidade, com certeza porque os considerava transmissores de Mitos como no tempo da oralidade. Platão não era contrário à poesia como certame lúdico, mas como exemplo de uma educação cívica contrária à realidade. Eis dois parágrafos de Platão, no seu diálogo com Gláucon:
“(607b) Aqui está o que tínhamos a dizer, ao lembrarmos de novo a
poesia, por, justificadamente, excluirmos da cidade uma arte desta espécie. Era a razão que a isso nos impelia.
(608b) Repetiremos que não devemos preocupar-nos com esta poesia, como detentora da verdade, e como coisa séria... É um grande combate, meu caro Gláucon.... De modo que não devemos deixar-nos arrebatar por honrarias, riquezas, nem poder algum, nem mesmo pela poesia, descurando a justiça e as outras virtudes.” (Pereira, M. H. da Rocha: 473-474)
O novo método seria amplamente adoptado por Aristóteles, com o seu pensamento filosófico, nascido da capacidade de reflectir e de fazer análises, como o uso da escrita vinha habituando.
Nessa cultura da escrita muda também a figura do mestre: o novo mestre é o filósofo e não o poeta ou o cantor dos poemas homéricos.
De acordo com Eric A. Havelock é a introdução do alfabeto fonético e a consequente formação de uma “capacidade analítica”, que tem ajudado essas transformações na sociedade: houve novas reflexões e mudanças não somente no campo da filosofia (Havelock: 1963), mas também noutros campos do conhecimento, como os do direito (Havelock: 1978) e da história (Goody, J; Watt, I.P.: 1963).
O alfabeto fonético permite escrever a frase pronunciada numa cadeia contínua e a palavra permanecer na página escrita: desta maneira o pensamento pode ser fixado como um objecto e analisado em todas as suas partes e significados. Por meio do alfabeto, a língua escrita é como um objecto, o objecto falado distinto e separado do sujeito que fala. Assim o sujeito pode conhecer melhor o objecto criado por meio da escrita, porque esse objecto pode ser examinado nas suas componentes de sons, frases, textos e discursos, um instrumento próprio dos humanos, que aprendem assim a habilidade metalinguística: não somente os humanos falam e criam palavras novas, como são capazes de reflectir sobre esse instrumento e explicar o seu funcionamento.
É também o nascimento de uma nova maneira de legislar e de reflectir sobre as leis, e uma maior habilidade para “explicitar o que é implícito”.
Goody e Watt escrevem:
“O que a escrita tem favorecido é explicitar o que é implícito, o que permite à sociedade a possibilidade de ampliar as suas maneiras de agir, seja porque as contradições não evidentes tornam-se evidentes, obrigando os indivíduos a buscar novas soluções (ou também novas contradições), seja porque surgem relações e passagens mais exactas e definidas (…); assim essas novas formas de agregação tornam-se mais firmes numa sociedade mais complexa e, às vezes, mais anónima”. (1986: 204)
Mas é sobretudo na maneira de pensar a história que assistimos a uma nova reflexão, entre o método histórico de Heródoto, cujas histórias, nem sempre escolhidas criticamente, eram escritas para serem proclamadas oralmente e imitavam ainda o género literário épico, e o novo método de Tucídites, mais crítico, que utilizava o cruzamento de dados e fontes diferentes, cujas histórias eram escritas para um grupo mais amplo de pessoas no presente e no futuro.
Agora, por meio da escrita os documentos históricos não podem ser mudados ou mesmo ignorados. Nasce assim um novo sentido da história, porque as pessoas têm instrumentos, “os documentos gravados por meio da escrita”, para confrontar listagens e tabelas como testemunhos do passado.
Jack Goody e Ian Watt analisaram esses dois períodos da sociedade, o período da cultura da oralidade e o da nova cultura da escrita. Para eles é como se existissem dois mundos diferentes e separados, às vezes em conflito: o mundo da oralidade que é gerador de Mitos, onde os documentos são tratados com a mentalidade e em função do presente e o mundo da escrita, onde os feitos podem ser arquivados para futuras análises e reflexões ou como testemunhos para as gerações futuras.
Acontece que nas sociedades da cultura da oralidade, o mesmo conteúdo de transmissão oral de feitos ou de genealogias é modificado e actualizado em função do poder dos novos grupos para garantir o equilíbrio e evitar conflitos. Um caso interessante apresentado pelos dois estudiosos, é o exemplo do povo Tiv, da Nigéria, cuja transmissão oral das genealogias estava sujeita a mudanças que reflectiam as novas relações de poder nos grupos: quando a Autoridade Administrativa inglesa, que tinha a documentação escrita de tais genealogias, as utilizavam para resolver as frequentes queixas entre os grupos étnicos, tais tabelas escritas nem sempre eram aceites pelo povo Tiv, que as considerava desactualizadas (Goody, J; Watt, I.P.: 1963).
Este é um dos exemplos mais significativos para reflectir sobre as consequências, nesse caso específico positivas ou negativas conforme os interesses dos grupos em conflito, que a introdução da escrita gera nas sociedades.
Exemplos similares foram encontrados pelo autor, no seu dia-a-dia, com a sociedade Bijagó da Ilha de Canhabaque, onde a primeira classe de Ensino Básico conseguiu ser concluída somente em 1979, apesar de uma senhora portuguesa, esposa de um oficial do Exército português, consciente do valor da educação escolar, tivesse
construído uma escola já em 12 de Agosto de 1945, na aldeia de Inorei, dedicada a São João Baptista (Rema, H., 1982: 634).
O que interessa, aqui, é apresentar as iniciativas e os resultados obtidos pelos professores do PAEBB quando o Crioulo Guineense atingiu a normalização necessária para ser o instrumento adequado do Ensino bilingue.