CAPÍTULO I ENQUADRAMENTO CONCEPTUAL
1.4. Vantagens do aleitamento materno
O papel da alimentação na infância, particularmente durante o primeiro ano de vida, é decisivo para a saúde e tem repercussões ao longo de toda a vida. A alimentação infantil deve, necessariamente, ser considerada quando se fala do desenvolvimento socioeconómico de cada país. O AM é imprescindível e adequado à saúde, crescimento e desenvolvimento da criança e são inúmeras as suas vantagens (Ferreira, 2005).
Na análise dos benefícios do AM, com base na evidência, podem-se salientar vantagens relacionadas com as taxas de morbimortalidade infantil, sobretudo em países em desenvolvimento, com o desenvolvimento físico e intelectual da criança, com as doenças crónicas na vida adulta, com a saúde materna e, paralelamente, benefícios económicos, directa ou indirectamente decorrentes.
O AM associa-se a diminuição da morbimortalidade infantil, directamente relacionada com as propriedades anti-infecciosas, pois as crianças alimentadas com leite materno exclusivo, nos primeiros seis meses de vida, têm risco diminuído para um grande número de doenças agudas e crónicas, entre as quais diarreias, infecções do tracto respiratório, infecções urinárias, otite média e
doenças alérgicas. No entanto, é de salientar que quando a criança recebe, para além do leite materno, outro alimento líquido ou sólido incluindo água ou chá, o efeito protector contra infecções respiratórias e intestinais diminui substancialmente (Giugliani, 2000; Heining, 2001; Kramer, et al., 2001; Léon-Cava, Lutter, Ross, & Martin, 2002). A introdução de água ou chá contribuem para o abandono precoce do AM e AM exclusivo (Susin, Giugliani, & Kummer, 2005) e são utilizados frequentemente para acalmar o bebé, aliviar a dor e sobretudo a sede (WHO, 1991).
A relação entre a mortalidade infantil e o AM implica também factores de ordem demográfica, socioeconómica e ambiental, sendo a protecção conferida pelo leite materno maior em crianças pequenas, exclusivamente amamentadas, e que residem em locais onde a pobreza e as condições higiénico-sanitárias, nomeadamente o acesso a água potável, colocam em risco a saúde das populações. Um estudo baseado em dados de 6 países (Brasil, Filipinas, Gâmbia, Gana, Paquistão e Senegal) demonstrou uma taxa de mortalidade por doenças infecciosas seis vezes maior em crianças com menos de dois meses não amamentadas quando comparadas com crianças alimentadas ao seio (WHO, 2000).
O leite materno tem também propriedades imunológicas com potencial protector contra a sensibilização alérgica, inflamatória ou infecciosa, durante e após o período de aleitamento, na medida em que é rico em substâncias anti-inflamatórias/infecciosas como a lactoferrina, imunoglobulina M (IgM), imunoglobulina G (IgG), imunoglobulina A (IgA), macrófagos, neutrófilos, linfócitos T, linfócitos B, citoquinas e factores de crescimento (Wold & Hanson, 1994).
A susceptibilidade do recém-nascido e crianças pequenas a infecções decorre da imaturidade do sistema imunológico que pode ser reforçado pelo leite materno, devido à sua elevada concentração de imunoglobulinas, que não é afectada pelo estado nutricional materno (Calvano, 2002; Valero, 2009).
Embora a maior parte dos artigos de revisão salientem o AM exclusivo como recomendação para reduzir a probabilidade de atopia e asma na infância alguns investigadores encaram isto com restrições (Sears, et al., 2002). Segundo Silva, Schneider e Stein (2009), o leite materno é imunologicamente complexo, pelo que alguns dos seus constituintes têm efeito protector no desenvolvimento de alergia, enquanto outros, importantes na produção de IgE, estão presentes em maior concentração no leite materno de mães atópicas aumentando o risco de atopia no lactente, o que justifica a necessidade de maior pesquisa atendendo à incidência desta patologia a nível mundial.
Por outro lado, o leite materno tem propriedades nutricionais únicas associadas à sua fácil digestão e biodisponibilidade em relação a fórmulas artificiais. Trata-se de um alimento vivo, completo e natural adaptado ao estádio de desenvolvimento da criança (Ferreira, 2005).
O AM exclusivo não tem efeitos negativos no crescimento da criança sendo as suas necessidades nutricionais satisfeitas até aos 6 meses de vida. As crianças saudáveis, com peso normal e cujas mães apresentam níveis adequados de ferro não têm necessidade de suplementação com este micronutriente, cuja concentração no leite materno é baixa, visto que as reservas de ferritina no fígado asseguram as suas necessidades até à idade de introdução de novos alimentos. Também a concentração de zinco é baixa no leite materno, no entanto tem alta biodisponibilidade (PAHA & Dewey, 2003).
As deficiências vitamínicas associadas ao AM exclusivo são raras. Podem surgir associadas a dieta materna inadequada (vitamina A, B2, B6, B12) ou nos casos de fraca exposição solar (vitamina D) e podem ser corrigidas com recurso a medicamentos (González, 2008; PAHA & Dewey, 2003).
O leite materno tem efeitos na modulação do gosto da criança introduzindo-a na dieta familiar, através do contacto com o sabor dos alimentos ingeridos pela mãe (González, 2008).
No que se refere a efeitos do AM na saúde adulta e na propensão para doenças crónicas são enfatizadas ao nível da literatura a obesidade, a diabetes, certos tipos de cancro e a hipertensão arterial. O AM parece ter efeito protector para a obesidade, sendo proporcional à sua duração (Gillman, et al., 2001; Hediger, Overpeck, Kuczmarski, & Ruan, 2001). O risco de desenvolver diabetes mellitus na vida adulta aumenta no caso das crianças não amamentadas (Jones, Swerdlow, & Gill, 1998; Malcova, Sumnik, Drevinek, Venhacova, Lebl, & Cinek, 2006). O AM exclusivo parece diminuir a incidência da diabetes mellitus não insulino-dependente (Pettitt, Forman, Hanson, Knowler, & Bennett, 1997) e parece haver um aumento do risco de incidência de diabetes mellitus insulinodependente em função da idade de introdução de substituto do leite materno (Norris & Scott, 1996). O AM tem também um efeito protector para alguns tipos de cancro (Martim, Gunnell, Owen, & Smith, 2005; Shu, et al., 1999).
Estudos comprovaram que o AM proporciona à criança um desenvolvimento cognitivo ligeiramente superior (Anderson, Johnstone, & Remley, 1999). Esta ideia é, no entanto, questionada por outros estudos que consideram que a relação entre o AM e o desenvolvimento cognitivo parece inconclusivo (Nobre, Issler, Ramos, & Grisi, 2010), por ter razão multifactorial, relacionada com a interacção e estímulos da mãe para com a criança (Gibson-Davis & Brooks-Gunn, 2006), a condição
socioeconómico mais elevada da família, o nível de escolaridade superior e a saúde mental e física da mãe (Angelsen, Jacobsen, & Bakketeig, 2001).
O AM permite, através do contacto estreito entre mãe e filho, o reforço do processo vinculativo pela interacção e respostas mútuas que se verificam durante a amamentação, nomeadamente durante o contacto pele a pele e mamada na 1.ª hora de vida (Figueiredo, 2003), preconizado pela IHAB nos passos para o sucesso do AM.
Diversos estudos demonstram uma associação positiva entre o AM e o melhor desenvolvimento neurológico e motor (Clark, et al., 2006; Morley, Fewtrell, Abbott, Stephenson, Macfadyen, & Lucas, 2004; Nobre et al., 2010).
Os benefícios para a saúde materna englobam: menor hemorragia pós-parto, involução uterina mais rápida, maior facilidade em recuperar o peso pré-gravidez, amenorreia da lactação funcionando como anticoncepcional natural e redução do risco de osteoporose, cancro do ovário e da mama no período pré-menopausa (Rea, 2004).
Além dos benefícios individuais para a saúde, o AM traz também vantagens sociais e económicas para o país, acarretando menores custos em saúde e redução do absentismo laboral dos pais, na medida em que as crianças adoecem menos (Rea, 2004) necessitando de menores cuidados médicos, hospitalizações ou medicamentos (Silva et al., 2009).
O leite materno é um recurso natural, perfeitamente adaptado à espécie, de alto valor nutricional e que se associa a uma prática ecológica e económica ao passo que a produção, transporte e consumo de leites artificiais e a sua associação com o recurso a biberões, tetinas, chupetas e outros materiais, directa ou indirectamente relacionados, implicam gastos energéticos e de recursos e originam desperdícios não biodegradáveis com impacto a nível ambiental (Albuquerque, 2001; Rea, 2004).
Apesar das vantagens apontadas pela comunidade científica o desmame precoce continua a revelar-se uma preocupação mundial. Além de um acto biologicamente determinado, o AM é também regulável pela sociedade e impregnado de ideologias e determinantes que resultam das condições concretas de vida (Almeida & Novak, 2004).
O sucesso do AM depende de um conjunto complexo de factores que devem ser considerados para o planeamento de intervenções a nível individual, familiar e comunitário ou numa perspectiva mais abrangente a nível institucional, local, regional e nacional.