PARTE I Fundamentação Teórica
Capítulo 1 Amamentação: Evolução Histórica
1.3. Leite Materno
1.3.2. Vantagens do aleitamento materno
São inúmeras as vantagens do aleitamento para o bebé, para a mãe, para a família e também para o ambiente. Assim, para o bebé, são destacadas as principais vantagens do leite materno (Aguiar & Silva, 2011; Ferreira, 2005; Gartner et al., 2005; Levy & Bértolo, 2012; Real, 2010):
Fornece o alimento ideal, mais barato e seguro para dar em exclusividade até aos 6 meses;
O leite materno é um alimento natural, com elevada riqueza nutricional que permite um crescimento e desenvolvimento saudável do bebé;
Previne o aparecimento de infeções gastrointestinais (diarreias), respiratórias (pneumonias e bronquiolites) e urinárias;
Protege de algumas alergias;
Confere maior proteção contra vírus e bactérias;
Permite uma melhor adaptação do bebé ao apetite e sede, bem como aos outros alimentos;
Previne o aparecimento futuro de Diabetes, Linfomas, Obesidade, Doença de Crohn, Colite Ulcerosa e Doença celíaca na criança;
Melhora o desenvolvimento da visão;
Reduz a propensão a cárie dentária, melhora o desenvolvimento das mandíbulas, dos dentes e da fala;
Facilita a digestão e o funcionamento do intestino.
Oddy (2013) realizou um estudo ecológico em 67 países com o intuito de analisar as associações entre a proporção de neonatos amamentados na primeira hora de vida e as taxas de mortalidade neonatal (número de óbitos de crianças com menos de 28 dias de vida por 1.000 nascidos vivos). Os principais resultados mostraram que o AM na primeira hora de vida se encontrava associado a uma menor mortalidade neonatal e a correlação foi mais forte nos países com mais óbitos e, os países com menores taxas de AM apresentaram taxas superiores de mortalidade, concluindo que o AM na primeira hora de vida deve ser um hábito rotineiro dos cuidados neonatais.
Todavia, muitos autores têm questionado se a vantagem do leite materno enquanto protetor de infeções se verifica nos países desenvolvidos, onde existem boas condições sanitárias e de higiene ou se, pelo contrário, essa questão apenas deve ser colocada nos países subdesenvolvidos (Anderson, Malley, & Snell, 2009; IP, Chung, Raman, Trikalinos, & Lau, 2009).
Um outro estudo realizado pela Agency for Healthcare Research and Quality (AHRQ, IP et al., 2009) constatou que o aleitamento materno nos países desenvolvidos aporta, no lactente, uma diminuição de Otite Média Aguda, Infeções Gastrointestinais, hospitalização por Infeções Respiratórias, Obesidade, Diabetes Mellitus tipo II, Dermatite Atópica (se história familiar positiva), Asma (em indivíduos sem história familiar), Leucemia Linfocítica Aguda, Síndrome da Morte Súbita do Lactente, descida no Colesterol e Pressão Arterial.
Também o estudo de Taveras e col. (2004), sobre o AM em países desenvolvidos e em desenvolvimento, mostrou que a longo prazo o AM, promove no lactente uma diminuição de Pressão Arterial Sistólica e Diastólica, diminuição do Colesterol total, diminuição em 22% de Obesidade, diminuição em 47% da probabilidade de Diabetes Mellitus tipo II e probabilidade aumentada da sua capacidade cognitiva.
De salientar, todavia, que quando a criança recebe, para além do leite materno outro líquido ou sólido, incluindo água ou chá, o efeito protetor contra infeções respiratórias e intestinais diminui substancialmente (Giugliani, 2000; Heining, 2001; Cava, Lutter, Ross, & Martin, 2002).
O estudo realizado pela WHO (2000), em seis países (Brasil, Filipinas, Gâmbia, Gana, Paquistão e Senegal), demonstrou uma taxa de mortalidade por doenças infeciosas era seis vezes maior em crianças com menos de dois meses, não amamentadas, quando comparadas com crianças alimentadas com leite materno.
Da mesma forma, a suscetibilidade do recém-nascido e crianças pequenas para infeções, decorre da imaturidade do seu sistema imunológico, que pode ser reforçada pelo leite materno devido à sua elevada concentração de imunoglobulinas, que não é afetada pelo estado nutricional materno (Calvano, 2002; Valero, 2009). Por outro lado, o leite materno tem efeitos na modulação do gosto da criança, introduzindo-a na dieta familiar, através do contacto com o sabor dos alimentos ingeridos pela mãe (Gartner et al., 2005; González, 2008).
Também para a mãe, a amamentação possui vantagens (Aguiar & Silva, 2011; Lévy & Bértolo, 2012; Real, 2010), pois o leite materno é prático e conveniente, sem necessidade de preparação, aquecimento e desinfeção. Ao amamentar, a mãe recupera mais rapidamente a forma do seu corpo no pós-parto (Rea, 2004). Estudos têm mostrado que a amamentação reduz a probabilidade de aparecimento do cancro da mama, do ovário, osteoporose, doenças cardíacas, diabetes e artrite reumatóide (IP et al., 2009), ao mesmo tempo que atrasa a menstruação, funcionando como um controlo da fertilidade (Cardoso, 2006). Da mesma forma, a amamentação permite potenciar a confiança da mãe e a sensação de bem-estar, bem como proporciona uma melhor ligação emocional entre a mãe e o bebé, o que garante uma maior estabilidade da criança (Galvão, 2006; Rea, 2004; Valero, 2009).
Para além dos benefícios individuais para a saúde do bebé e da mãe, o AM aporta igualmente vantagens ao nível micro familiar, pois permite uma maior gestão de custos, uma vez que se poupa dinheiro em leite artificial, biberões e esterilizações, bem como facilita as deslocações, pois não há necessidade de se levarem utensílios (Real, 2010).
As vantagens são igualmente visíveis ao nível social e económico do país, já que acarreta menores custos em saúde e redução do absentismo laboral do país, pois as crianças
adoecem menos (Rea, 2004), necessitando de menores cuidados médicos, hospitalizações ou medicamentos (Silva, Schneider, & Stein, 2009).
Apesar de ser difícil quantificar o real impacto social do AM conclui-se que, se as crianças que recebem leite materno adoecem menos, necessitam de menos cuidados de saúde, nomeadamente hospitalizações e medicamentos, o que consequentemente leva a uma diminuição do absentismo ao trabalho por parte dos pais, então o benefício será não apenas para as crianças e para as suas famílias, mas também para a sociedade como um todo (Rea, 2004).
Por último, o AM tem igualmente vantagens ao nível do ambiente, uma vez que não são necessárias embalagens, utensílios e gasto de energia (Real, 2010), pois o AM é isento de desperdícios não biodegradáveis com impacto a nível ambiental (Albuquerque, 2001; Rea, 2004).