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2. Revisão Bibliográfica

2.3 Contextualização do conceito de e-book

2.3.5 Vantagens e desvantagens

Existem características diferenciadoras entre os livros impressos e os e-books. Isto faz com que uma pessoa que esteja habituada a ler no formato tradicional possua algumas dificuldades quando experimenta a leitura digital (Cristóvão, 2013, p.24). Sendo os e-books um dos produtos mais polémicos e discutidos, torna-se fácil enunciar a quantidade de vantagens e desvantagens associadas aos mesmos para os leitores, editores e autores, assim como para o meio ambiente.

Começando pelas vantagens ao leitor, o motor de pesquisa é uma das mais relevantes e reconhecidas pelos seus utilizadores e não utilizadores (Warren, 2010, p.39). Permitindo a navegação rápida entre páginas e capítulos, facilitando a procura daquilo que se pretende ler e economizando tempo ao seu utilizador (Carvalho, 2012, pp. 30-173). Outro benefício é a facilidade em procurar e encontrar obras mais antigas que fisicamente são complicadas de adquirir (Coutinho e Pestana, 2015, pp.178-179). Existe ainda a possibilidade de customização, podendo alterar-se o tipo de letra em termos de tamanho e fonte, atendendo às necessidades dos leitores com deficiências visuais (Stork, 2001). Também é valorizada a presença de conteúdos cada vez mais multimédia que permitem transformar os e-books em audiobooks e que criam maior interatividade com os seus utilizadores através do hipertexto e das hiperligações. Relativamente à interatividade, os e-books permitem ligação às redes sociais, facilitando a partilha e citação dos livros, tendo ainda os utilizadores a possibilidade de avaliar e comentar o livro (Coutinho, 2014, p.41).

Outra vantagem para o leitor é a incorporação de um dicionário. Assim, quando não souber o significado de uma palavra, o clique sobre a mesma remeterá para a sua definição (Coutinho, 2014, p.41). Possui ainda funcionalidades que permitem tirar notas e colocar marcadores de forma a identificar palavras, capítulos ou parágrafos (Carvalho, 2012, pp. 30-173). A sua leveza também é valorizada, pois comparados com os livros impressos possuem um peso muito inferior, o que permite maior portabilidade (Coutinho e Pestana, 2015, pp.178-179). A capacidade de armazenamento facilita não só o transporte da “biblioteca pessoal” do utilizador, como a economização de espaço, colocando um ponto final nas prateleiras lotadas e na dificuldade de arrumação. A aquisição dos e-books é muito mais simples, basta ter acesso à Internet e fazer o

download e obtem-se, de forma imediata, o livro eletrónico no dispositivo, não havendo listas de

espera ou prazos de entrega das encomendas, nem a necessidade de deslocação aos pontos de venda físicos. Para além disso, uma vez que os e-books são vendidos exclusivamente online, não possuem rotura de stocks, estando sempre disponíveis (Carvalho, 2012, pp. 30-173).

São ainda de fácil atualização (Myrberg, 2017, p.115) e o preço também é um aspeto positivo, visto serem tipicamente mais baratos que os livros impressos. Quando lidos em e-

readers, possuem uma vantagem associada à tinta eletrónica, a e-ink. Esta contribui para uma

redução substancial do esforço dos olhos que os utilizadores fazem durante a leitura (Carvalho, 2012, pp.30-173). Outra vantagem com a leitura em e-readers é a possibilidade de leitura em ambientes de baixa luminosidade (Coutinho e Pestana, 2015, pp. 178-179).

Relativamente ao meio ambiente, os e-books possuem um reduzido impacto ambiental. Uma vez que não é necessário papel, verifica-se uma redução de cortes de árvores, o que permite preservar um recurso que é cada vez mais escasso. Graças à e-ink, os e-readers possuem uma autonomia bastante prolongada, visto que o consumo de energia só se verifica no “folheamento” do livro eletrónico. Isto significa que durante a leitura em si, o gasto energético é reduzido substancialmente (Carvalho, 2012, pp.32-173).

Para as editoras e autores, destaca-se a economização de espaço, visto que o modelo de vendas dos e-books não necessita de armazéns ou plataformas físicas de vendas, e a poupança de custos de produção e distribuição, visto não serem necessárias impressoras ou meios de transportes. Isto leva a um aumento de receitas das editoras e a uma maior retenção dos ganhos de cada venda por parte dos autores. Com os e-books, eliminam-se custos relacionados com a existência dos stocks, seja por excesso ou rutura dos mesmos (Coutinho e Pestana, 2015, pp.177- 178).

Para além disso, os e-books e o mercado digital alargaram horizontes, permitindo a venda de capítulos de livros que interessem ao consumidor. Isto verifica-se em livros mais técnicos, que por norma possuem um preço mais elevado. Com esta opção de venda, consumidores que antes não compravam determinados livros pelo seu preço ou por possuirem interesse em apenas algums capítulos, passaram a comprar mais usufruindo desta possibilidade, o que gera mais receitas às editoras e autores (Carvalho, 2012, p.34). Comparativamente com os livros impressos, os e-books são também mais fáceis de editar, principalmente na correção de erros, no lançamento de uma nova edição ou mesmo para atualização de informação (Coutinho, 2014, p.39).

Outro benefício dos e-books, e que se relaciona com a sociedade e a cultura, é a preservação das obras. De facto, o armazenamento digital permite preservar os livros durante mais tempo, evitando situações adversas como incêndios ou desgaste físico (Coutinho, 2014, p.43). Resumidamente, as vantagens da publicação de e-books podem ser divididas em legibilidade, usabilidade, capacidade de alteração, portabilidade, uso do multimédia e disponibilidade dos mesmos (Stork, 2000).

No entanto, apesar das inúmeras vantagens, existem aspetos negativos associados aos mesmos. Relativamente às desvantagens para os leitores, a que mais se destaca para os utilizadores portugueses é o número reduzido de obras em língua portuguesa. A grande tendência dos e-books é serem em inglês, o que também dificulta a expansão do seu mercado em Portugal, visto que a população prefere ler na sua língua materna. Verifica-se também uma tendência por parte dos leitores em manterem a tradição de leitura, associada às sensações físicas, auditivas e olfativas do livro (Carvalho, 2012, p.32). Isto é algo que um e-book dificilmente poderá proporcionar, apesar de já utilizarem o multimédia numa tentativa de replicar o estímulo a estes sentidos, por exemplo, com a adição do som de virar as páginas (Stork, 2001).

A dependência de um dispositivo de leitura e as características do mesmo são fatores determinantes para as pessoas não aderirem aos e-books (Martins, 2014, p.18). Isto prende-se com a duração da bateria, o limite de memória de armazenamento e os preços elevados dos e-readers,

o que exige um investimento inicial por parte do leitor, apesar de, posteriormente, poupar nos custos dos livros. Outra desvantagem relaciona-se com a tecnologia Digital Right Management (DRM) que apesar de visar a proteção dos direitos de autor, restringe a utilização do e-book comprado (Carvalho, 2012, p.32). A impossibilidade de revenda ou de empréstimo também é uma desvantagem (Martins, 2014, p.18).

Alguns formatos de e-book permitem que o texto seja reformatado para se ajustar às dimensões físicas do e-reader. No entanto, isto pode levar a uma desformatação do conteúdo ou alterar mesmo a organização da história (Stork, 2001). Há ainda a questão do cansaço associado à utilização dos dispositivos eletrónicos, porque a exposição prolongada aos ecrãs aumenta a debilidade dos olhos, podendo mesmo agravar alguns problemas oftalmológicos já existentes (Coutinho, 2014, p.44). Este facto contribuiu para uma tendência de fatiga por parte dos leitores, o que é um risco para a existência dos e-books (Kelly, 2018).

Para além disso, verifica-se também a impossibilidade do leitor, após ter adquirido o e-book, de o ler em diferentes dispositivos. Por outras palavras, existe uma limitação na aquisição de obras a formatos compatíveis com o dispositivo de leitura, assim como a atualização de aplicações. (Cristóvão, 2013, p.9) Isto exige que o leitor escolha com cuidado o dispositivo de leitura, uma vez que os e-books não são cambiáveis (Stork, 2001), facto que contribui para a frustração de muitas pessoas pela impossibilidade de copiarem o seu e-book para outros dispositivos sem terem de realizar a compra novamente (Helm et al., 2018, p.5). No entanto, existem outras situações, como o empréstimo e oferta de um livro a um conhecido e a requisição em bibliotecas, que também não são permitidas com este formato eletrónico (Coutinho, 2014, pp.44-45). Isto afeta o valor que os consumidores atribuem ao produto, sendo que muitas pessoas consideram que o preço dos e-books não está alinhado com o valor da experiência de posse e utilização (Helm et al., 2018, p.5).

Uma desvantagem clara em termos do impacto ambiental relaciona-se com o consumo energético. De facto, apesar de haver grandes avanços tecnológicos neste setor, como a e-ink, e o facto de cada vez mais os e-readers possuírem baterias de longa duração, existe sempre um consumo energético acrescido (Coutinho, 2014, p.43).

Relativamente às editoras e autores, verifica-se que apesar dos editores conseguirem poupar muito em custos de produção, armazenamento e distribuição, existem casos em que a produção de um e-book revela ser mais cara do que a sua versão impressa. Isso acontece quando há presença de conteúdo multimédia. Outro fator é que, apesar de haver uma redução quase total dos custos de stock é necessário um sistema de armazenamento de dados (Coutinho, 2014, p.39), o que implica que as editoras e os autores tenham de lidar com “servidores, redes, backups, problemas de design, códigos de acesso, preservação de conteúdos, upgrades e adaptação às mudanças constantes relacionadas com o desenvolvimento da tecnologia” (Carvalho, 2012).

Muitas editoras que trabalhavam com os livros impressos não estavam preparadas para a entrada no digital. Isso exigiu um forte investimento inicial, tendo sido necessária a compra da tecnologia adequada e a aquisição do know-how para produção e comercialização de e-books

(Coutinho, 2014, p.43). Há ainda um grande problema, já referido nas desvantagens para os leitores, devido à variedade de formatos de leitura que impossibilida a leitura dos e-books em determinados dispostivos. De facto, os e-readers de maior sucesso de mercado só permitem ler ficheiros em determinados formatos e, apesar da utilização crescente, ainda nenhum formato de

e-books assumiu o domínio no mercado devido às diferentes preferências das editoras (Carvalho,

2012). Existe ainda a situação das cores e imagens que não são facilmente reproduzíveis nos dispositivos, o que faz com que a reprodução de elementos gráficos sejam um desafio para as editoras, mas isso tem vindo a ser combatido com os avanços da multimédia (Stork, 2001).

Aferiu-se então que os principais obstáculos à publicação de e-books são a resistência a mudanças por parte dos leitores, problemas de fontes, falta de um formato padrão, DRM, reprodução de gráficos e dispositivo de leitura (Stork, 2001).