CAPÍTULO II – APRENDIZAGEM COOPERATIVA
4. VANTAGENS E DESVANTAGENS DA APRENDIZAGEM COOPERATIVA
Ao considerar que a escola deve proporcionar, para além da aprendizagem dos conteúdos científicos específicos, a formação integral dos estudantes, desenvolvendo competências e atitudes, que permitam a sua intervenção e transformação na sociedade de que fazem parte, não podemos ficar indiferentes às vantagens da aprendizagem cooperativa, com vista a aprendizagens significativas de conteúdos científicos e ao desenvolvimento de competências sociais. Contudo, é igualmente importante estar atento a algumas desvantagens, que podem condicionar a sua aplicação, em sala de aula.
4.1. Vantagens da aprendizagem cooperativa
O professor, quando utiliza esta estratégia, assume um papel de organizador, de mediador e dinamizador e os educandos adquirem maior autonomia, pois têm de ser capazes de encontrar as melhores soluções, para as questões que surgem dentro do grupo. Os discentes são confrontados com a criação de ideias novas e respetivas soluções, o que torna a aprendizagem verdadeiramente significativa (Arends, 2008).
A conceção de aprendizagem, associada a esta estratégia, é entendida como um processo ativo, construído nas relações e interações entre estudantes e com o professor (Roldão, 2009; 2007a). Aprender deixa de ser a mera transmissão da informação de conteúdos, a que o estudante não reconhece qualquer utilidade, e a sua posterior
reprodução, para passar a ser a construção do saber, tendo por base o princípio de Aprender a Aprender e Aprender a Ser e a Estar.
Palmer, Peters e Streetman (2003), Ted Panitz (2000) (cit. por Lopes & Silva, 2009), referem mais de cinquenta vantagens da Aprendizagem Cooperativa. Essas vantagens podem ser agrupadas em quatro grandes áreas: sociais, psicológicas, académicas e de avaliação. O quadro seguinte apresenta algumas das vantagens sociais.
Quadro 4- Vantagens sociais da aprendizagem cooperativa
• Estimula e desenvolve as relações interpessoais. • Encoraja a responsabilidade.
• Encoraja a compreensão da diversidade.
• Estabelece uma atmosfera de cooperação e ajuda. • Os discentes são ensinados a criticar ideias e não
pessoas.
• Os estudantes praticam a modelagem social.
• Fomenta o espírito de equipa, ao mesmo tempo que mantém a responsabilidade individual.
• Potencia a resolução de problemas.
• Ajuda o professor a deixar de ser o centro do processo de ensino, para se tornar facilitador da aprendizagem, permitindo passar da aprendizagem centrada no professor, para a aprendizagem centrada no aluno.
Fonte: Lopes e Silva (2009, p. 50), adaptação.
Em síntese, trabalhar cooperativamente traduz-se no reforço das competências sociais, de aceitação do outro e reforço das relações de amizade.A solidariedade e ajuda mútua, o apoio social e instrucional, entre pares de idade, como base de construção de relações interpessoais, só poderão ser uma realidade, se forem promovidas, na sala de aula, situações em que os estudantes desenvolvam essas competências (Cohen, 1994).
A socialização torna-se, então, uma realidade, com a inclusão de aprendizagem de modalidades comunicacionais e de convivência, controlo de impulsos agressivos, a adaptação às normas estabelecidas (incluindo a aprendizagem relativa ao desempenho de papéis sociais) e a superação do egocentrismo, por meio da relativização progressiva do ponto de vista próprio (Pozo, 2002).
As vantagens psicológicas são mencionadas no próximo quadro.
Quadro 5- Vantagens psicológicas da aprendizagem cooperativa
• Promove o aumento da autoestima.
• Melhora a satisfação do aluno com as experiências de aprendizagem.
• Encoraja os alunos a procurar ajuda e a aceitar a tutoria dos outros colegas.
• A ansiedade na sala de aula é significativamente reduzida com a aprendizagem cooperativa.
• Cria uma atitude mais positiva dos alunos em relação aos professores e uma atitude mais positiva dos professores em relação aos seus alunos.
• Estabelece elevadas expetativas para alunos e professores.
Assim, a capacidade para desenvolver a autonomia na aprendizagem está intimamente ligada à aprendizagem cooperativa, a qual implica crescimento moral interior, domínio pessoal e responsabilidade social. Do mesmo modo, verifica-se um aumento da autoestima e do sentido crítico. Além disso, constrói-se uma cultura de solidariedade, de ajuda do outro, encorajamento, elogio, partilha de materiais e ideias (Pujolàs, 2009). No âmbito das atitudes, os estudantes mostram maior satisfação no trabalho em situação cooperativa, do que em situação competitiva. Os estudantes de turmas organizadas por pequenos grupos são mais cooperativos e altruístas, quando podem escolher trabalhar com outros. Têm, ainda, atitudes mais positivas, em situação de conflito.
Igualmente, é de realçar um aumento do nível de aspiração escolar, o que realça a atividade construtiva do sujeito, no contexto social em que se insere, desenvolvendo competências e conhecimentos que lhe permitam examinar, criticamente, o papel que a sociedade e ele próprio têm na sua formação (Slavin, 1999). É importante recordar que as experiências de aprendizagem cooperativa, comparadas com aprendizagens individualizadas, proporcionam uma autoestima superior. O estudo levado a efeito por Johnson, Johnson e Stanne (2000) comprovou correlações positivas da cooperação com a autoestima. Além disso, os discentes experimentam menos ansiedade, em grupos pequenos, e o trabalho em grupo aumenta a motivação individual.
O próximo quadro contém o conjunto das vantagens académicas, atribuídas à aprendizagem cooperativa.
Quadro 6- Vantagens académicas da aprendizagem cooperativa
• Estimula o pensamento crítico e ajuda os alunos a clarificar as ideias através da discussão e do debate. • O desenvolvimento das competências e da prática
torna-se menos aborrecida.
• Melhora o rendimento escolar dos alunos.
• Contribui para o desenvolvimento de uma atitude mais positiva em relação às matérias escolares. • Aumenta a capacidade de retenção dos
conhecimentos por parte dos alunos.
• Os alunos apresentam menos problemas disciplinares.
• Proporciona o desenvolvimento de uma linguagem mais elaborada nos debates e troca de informação.
• Desenvolve as competências de comunicação oral. • Fomenta as competências metacognitivas.
• As discussões cooperativas melhoram a recordação do conteúdo.
• Cria um ambiente de aprendizagem ativo, envolvente e investigativo.
• Permite atender às diferenças de estilos de aprendizagem.
• Os alunos mais fracos têm melhor desempenho, quando se juntam com colegas que têm melhor rendimento escolar.
• Proporciona aos alunos que têm melhores notas, a compreensão mais profunda.
Relativamente às vantagens académicas, observa-se a aquisição de aptidões e habilidades, incluindo melhoria no rendimento escolar (Fontes & Freixo, 2004). Do ponto de
vista cognitivo representa uma oportunidade de êxito, porque proporciona, como refere
Díaz-Aguado (2000, p. 139):
A aprendizagem observacional através dos modelos de aprendizagem cognitiva
e social que os colegas proporcionam;
O conflito sociocognitivo, que estimula a interação e maior motivação;
Uma maior quantidade de tempo de dedicação ativa à atividade, do que na aula
tradicional, o que implica maior nível de ativação e elaboração;
O alargamento das fontes de informação e rapidez com que se obtém feedback
sobre os próprios resultados;
Uma atenção individualizada, pois o trabalho entre colegas situa-se na área de
desenvolvimento próximo do educando (Vygotsky, 1998);
A oportunidade de poder ensinar os colegas, o que favorece a assimilação e a
reorganização significativas do conhecimento (Sanches, 2005).
Finalmente, referem-se as vantagens no domínio da avaliação, no quadro seguinte.
Quadro 7- Vantagens da aprendizagem cooperativa na avaliação
• Proporciona formas de avaliação alternativas, tais como a observação de grupos, avaliação do espírito de grupo e avaliações individuais escritas curtas.
• Proporciona feedback imediato aos alunos e ao professor, sobre a eficácia de cada turma e o progresso dos alunos.
• Os grupos são mais fáceis de supervisionar do que os alunos individualmente.
Fonte: Lopes e Silva (2009, p. 51), adaptação.
A aprendizagem cooperativa potencia, efetivamente, a capacidade de autoavaliação e heteroavaliação, do trabalho dos diferentes membros e do funcionamento do grupo. No trabalho de grupo tradicional e no modelo expositivo, dirigido a toda a turma, é o professor que controla os grupos ou a turma, permanecendo os discentes numa posição mais ou menos passiva. Na aprendizagem cooperativa, os estudantes, como pensadores críticos, ativos e reflexivos, devem controlar e avaliar, criticamente, a forma de funcionamento do próprio grupo, as suas forças e fraquezas, construindo, ativa e cooperativamente, formas renovadas de o grupo funcionar. Os próprios estudantes devem, pois, envolver-se em formas de auto, hetero e coavaliação, usando procedimentos sugeridos pelo professor ou desenvolvidos pelo próprio grupo (Arends, 2008; Fernandes,
2005; Sharan & Sharan, 1994). Tal só é possível com a operacionalização de instrumentos, que potenciam a autoavaliação e a autorregulação.
Finalmente, e focalizando uma última vantagem, a aprendizagem cooperativa tem vindo a afirmar-se como um meio eficaz de diversidade didática e educativa fundamental na sala de aula, cada vez, mais multicultural. Como refere Díaz-Aguado (2000), no que diz respeito à aceitação das diferenças, as estruturas de aprendizagem cooperativa revelam, comparando com as estruturas competitivas ou individualizadas, níveis superiores de aceitação interpessoal, entre estudantes de etnias diferentes, com deficiências ou de sexo diferente.
Por isso, apresenta-se como uma estratégia eficaz, quando se pretende promover a igualdade de oportunidades e a dimensão intercultural da educação, anulando a discriminação social (Ovejero, 1990). Poderá também funcionar como modelo de aprendizagem da cidadania democrática e de coesão social, uma vez que considera a heterogeneidade e o trabalho entre pares como formas privilegiadas de reduzir estereótipos e preconceitos, ao proporcionar o conhecimento do outro, nas suas diferenças e semelhanças e na experimentação de um percurso, com um propósito comum. Em consequência, a aprendizagem cooperativa tem-se afirmado como a forma mais eficaz de diferenciação pedagógica não discriminatória, imprescindível na sala de aula multilingue e intercultural.
4.2. Desvantagens da aprendizagem cooperativa
Como em qualquer método e/ou estratégia educativa, a aprendizagem cooperativa apresenta, igualmente, algumas desvantagens e riscos, que devem ser ponderados, para que não se comprometa a sua potencialidade. Um dos principais inconvenientes é o facto de alguns estudantes poderem ser postos de parte, no grupo, ou porque são menos capazes, ou porque se recusam a participar. A fim de evitar esta situação, é necessário encorajar os estudantes a serem individualmente responsáveis pela sua aprendizagem, uma vez que o desempenho do grupo depende do desempenho individual de cada elemento participante.
Cohen (1986), Mary McCaslin e Tom Good (1996), Battistich, Solomon e Delucci (1993) e Lopes e Silva (2009), apontam ainda outras desvantagens. Por vezes, os discentes preocupam-se em acabar depressa a tarefa, não dando o devido tempo à reflexão e à aprendizagem. Pode acontecer que a socialização e as relações interpessoais tenham
primazia sobre a aprendizagem concetual. Em algumas situações, os educandos podem mudar a dependência do professor, para o “especialista” do grupo.
Assim, compete ao professor estar atento, fazer um planeamento, controlo e acompanhamento cuidadosos, para agir logo que detete anomalias ou desvios. De qualquer modo, não se pode esperar resultados imediatos, pois esta metodologia exige um domínio progressivo de procedimentos e competências, implicando tempo e esforço (Arends, 2008).
Esta aprendizagem assenta num modelo de sociedade que se pretende democrática, pluralista e moderna, em que os indivíduos são autónomos e responsáveis. Contribui para a formação de indivíduo e vivência da cidadania, que também é um dos grandes objetivos da educação. Deste modo, a aprendizagem cooperativa não deve ser entendida como mera técnica ou estratégia, como ritual mágico, antigo ou moderno, a usar em contextos, tarefas ou momentos específicos, mas antes como cultura, desejo, modo de vida, em que a resolução de problemas assenta na reconstrução de relações de interdependência positiva, convivência, calor humano e confiança mútua (Bessa & Fontaine, 2002).
A aprendizagem cooperativa está longe de ser uma receita de resultado imediato. Por um lado, porque estão implicados fatores de mudança de atitudes e de clima de sala de aula e, por outro, porque a adesão dos estudantes a métodos que envolvem trabalho de pares é, por vezes, lenta (Abrantes, 2001). Assim sendo, mesmo os autores mais partidários da aprendizagem cooperativa não a defendem como único método de ensino, mas apoiam o seu uso, combinado com outras metodologias (Monereo & Gisbert, 2005).
Considerando, então, os resultados positivos da aprendizagem cooperativa, já demonstrados, quer teórica quer empiricamente, nomeadamente a promoção do desenvolvimento integral dos estudantes e o seu bem-estar psicológico e social (Bessa & Fontaine, 2002), este método surge numa das linhas de inovação educativa mais prometedoras, que interessa explorar e desenvolver, no processo de ensino e aprendizagem.