3 VANTAGENS E DESVANTAGENS DA SOJA TRANSGÊNICA EM
3.2 VANTAGENS E DESVANTAGES DA SOJA TRANSGÊNICA INTACTA RR
GERAÇÃO)
A Intacta RR2 PRO, desenvolvida pela Monsanto ao longo dos últimos 11 anos, é uma nova tecnologia para soja produzida especialmente para o mercado brasileiro. O produto alia três soluções: maior produtividade (devido às tecnologias avançadas no mapeamento, seleção e inserção de genes em regiões do DNA com potencial aumento na produtividade); proteção contra as principais lagartas que atacam a cultura da soja; e tolerância ao glifosato proporcionado pela tecnologia Roundup Ready (RR), já presente na soja transgênica de primeira geração.
Na safra 2011/12 ocorreu o teste comercial com 500 produtores em 275 municípios de todo o país, os quais obtiveram ganho médio de 6,95 sacos/ha. Na safra 2012/13, o teste comercial foi realizado com 1000 produtores em 350 municípios de 13 Estados (Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Goiás, Tocantins, Maranhão, Bahia, Rondônia e Piauí, além do Distrito Federal) que mostraram ganhos de produtividade equivalentes a 5,84 sacos/ha. Isso significaria um aumento de renda de R$ 292,00/hectare, considerando-se o valor de mercado de R$ 50,00 por saco. A figura 21 ilustra o ganho de produtividade. Outros benefícios indiretos ligados à tecnologia seriam a menor utilização do maquinário com um melhor aproveitamento do tempo do produtor e o menor impacto ambiental pela redução no uso de inseticida e combustível (dados dos resultados dos testes comerciais realizados pela empresa Monsanto).
Figura 21 – Aumento da produtividade entre as duas gerações de soja transgênica
Fonte: Monsanto.
A agricultura movimenta um amplo leque de setores da economia, conforme a figura 22 demonstra. Assim, um aumento na produção de soja, via transgenia, tem efeito sobre inúmeros setores.
Figura 22 – Elos formados pela soja Fonte: MB Agro (2013).
A soja Intacta está sendo utilizada de forma comercial, pela primeira vez, na safra de 2013/14, após os resultados positivos encontrados nos testes realizados pela multinacional Monsanto. Se o aumento da produtividade vir a ser comprovado, se espera os seguintes benefícios, conforme Mendonça (2013):
- maior produtividade da cultura da soja no Brasil: nas últimas três décadas, a produtividade da soja veio crescendo, diminuindo a diferença entre os países com índices maiores que os brasileiros. Contudo é preciso continuar nessa trajetória. Com isso, tal tecnologia é uma aliada no aumento da produção de grãos;
- redução no uso de inseticidas: a resistência às lagartas, presente na soja Intacta, diminui o número de pulverizações e a quantidade de inseticidas requerida no processo produtivo;
- aumento do valor bruto da produção: o aumento de 5,84 sacos por hectare representaria um acréscimo de R$ 292,00 a mais por hectare; - efeitos positivos sobre as condições socioeconômicas da população:
como visto no capítulo 2, os municípios brasileiros que produzem soja possuem níveis elevados de IDH, o que permite inferir, mesmo longe de
ser conclusivo, que uma maior produção tende a levar a uma melhor condição de vida;
- incremento na balança comercial do país: o aumento no volume produzido no Brasil permitirá ganhos significativos no saldo comercial brasileiro do agronegócio. Isoladamente, o “complexo soja” já é hoje o maior saldo agrícola do país;
- menor impacto ambiental na cultura da soja pela redução na utilização de defensivos: a tecnologia é eficaz contra as principais lagartas que atacam a cultura da soja;
- aumento da competitividade do produtor brasileiro de soja em relação aos produtores de outras regiões: o ataque de lagartas é muito mais severo no Brasil do que nos Estados Unidos. O ambiente tropical permite a proliferação de lagartas em níveis muito mais elevados do que nas regiões temperadas. Nesse contexto a tecnologia Intacta acaba por servir muito mais ao Brasil do que aos EUA;
- aumento na renda dos trabalhadores: a ampliação da produção de soja gera aumento da renda na agricultura, nos setores dos quais a agricultura compra insumos e no restante da economia por impactos induzidos por essa modificação na economia da soja;
- aumento na geração de empregos: a ampliação da produção gera empregos na agricultura, há elevação no número de trabalhadores contratados ou de serviços de terceiros;
- aumento na arrecadação de tributos federais: o aumento da produção de soja eleva o PIB agropecuário. Este por sua vez impacta positivamente sobre PIB total. Por consequência do aumento na expansão da economia do país há elevação na arrecadação de tributos federais.
A figura 23, desenvolvida pela Monsanto, mostra como 50% de adoção da tecnologia Intacta poderia trazer benefícios econômicos e sociais para os setores envolvidos no “complexo soja”.
Figura 23 – Principais benefícios da adoção da soja Intacta Fonte: Monsanto.
Porém, alguns pesquisadores consideram que o país perdeu seu momento na história quando houve contaminações de safras e com isso a dependência das sementeiras internacionais aumentou. Há quem alegue que a soja Intacta não ganha em produtividade, ela apenas reduz as perdas quando há ataques de insetos controlados pelas toxinas e tornamo-nos consumidores de mais agrotóxicos, perdendo-se a condição de ditar preços no mercado internacional.
Uma das maiores críticas dos produtores rurais é que foram realizados testes comerciais com a nova tecnologia antes da aprovação do mercado chinês (a aprovação do mercado chinês, principal comprador da soja brasileira, ocorreu apenas em junho de 2013), sendo que uma vez liberado o plantio, o contato com as outras variedades de soja seria inevitável, visto que há utilização de maquinário, secagem e transporte e com isso os grãos seriam misturados, podendo haver a recusa e até mesmo a devolução do produto.
Para a Monsanto, a nova tecnologia representa uma revolução nas lavouras de soja do país, já para os agricultores, especialmente os gaúchos, conforme o Jornal Zero Hora (03 ago. 2012), é uma variedade cara e pouco testada para justificar tamanha euforia. A empresa detentora da tecnologia pretende cobrar um valor seis vezes maior em royalties, entre R$ 115,00 a R$ 127,00 por hectare ou 7,5% na moega (cláusula muito criticada, pois significa que o produtor que alcança melhor rendimento terá de pagar mais) sendo que hoje o custo da primeira variedade de soja transgênica é de R$ 18,00 a R$ 24,00 ou 2%. Empresas públicas como a CCGL Fundacep e a Embrapa foram criticadas, pois ao invés de oferecer
ajuda aos produtores rurais aliaram-se à multinacional, fazendo com que o monopólio sobre as sementes viesse a crescer.
Em setembro de 2012 um grupo de agricultores ingressou com uma ação coletiva na Justiça exigindo a suspensão da cobrança de quaisquer valores de royalties pela tecnologia Intacta. Este impasse judicial estremeceu a relação dos produtores com a marca. A ação confirmou que o direito de propriedade intelectual relativo às tecnologias venceu em 31 de agosto de 2010, tornando-as de domínio público. Com isso os agricultores pediram a devolução de mais de R$ 500 milhões que foram pagos nas últimas safras. A Monsanto recorreu duas vezes da decisão, mas o STJ (Superior Tribunal de Justiça) negou os recursos impostos pela multinacional, que tinha o objetivo de ampliar a vigência da patente de soja transgênica no Brasil até 2014. A Justiça confirmou que a patente expirou em 2010, 20 anos após a data do seu primeiro depósito no exterior, registrada em 31 de agosto de 1990. A empresa, então, parou de cobrar royalties sobre a soja transgênica.
No início deste ano de 2013 a Monsanto propôs acordos individuais com os produtores. Estes poderiam optar por não pagar mais pela tecnologia e abrir mão de receber de volta o que já foi quitado nos dois últimos anos. Na ocasião, as entidades rurais alertaram os agricultores para que não assinassem a proposta, pois no acordo individual havia cláusulas em que o produtor se compromete com biotecnologias futuras, com formas de cobrança e com valores que a empresa queira cobrar de forma aleatória. A Aprosoja (Associação Brasileira dos Produtores de Soja) criticou o fato de a empresa solicitar aos produtores rurais o reconhecimento dos direitos de propriedade intelectual da RR1, sendo que a Monsanto nunca informou o número da patente, mesmo com pedido judicial. Com isso, a CNA (Confederação Nacional da Agricultura) pediu anulação dos contratos feitos até então.
Os produtores retiraram a ação, mediante proposta da empresa, que ofereceu desconto nos royalties da Intacta RR2 durante as quatro próximas safras. Agora, o produtor que optar por usar a tecnologia terá um custo inicial de R$ 115,00 por hectare, que será pago juntamente com a semente. Nesse período, o agricultor receberá um bônus de R$ 18,50 por hectare, a ser usado para a compra de sementes da soja RR2 no ano seguinte. Dessa forma, o custo da RR2 será de R$ 96,50 por hectare. Contudo, o produtor que não concordar, pode permanecer na Justiça para reaver o que foi pago no período.
Todavia, os produtores gaúchos não concordam com a proposta. Segundo a Aprosoja – RS, o trato é unilateral e beneficia apenas a Monsanto, sendo que a única diferença entre a RR1 e a RR2 é o possível combate à Helicoverpa (lagarta que gerou prejuízos enormes nas lavouras de soja) e isto ainda não é totalmente confirmado. Os agricultores gaúchos entraram com uma ação judicial, que já transcreveu e já percorreu todos os trâmites, tendo ficado determinado que a Monsanto tem a obrigação de devolver em acordos individuais os valores cobrados indevidamente.
Outro obstáculo para a multinacional é a comprovação de rentabilidade. A multinacional divulgou resultados de produtividade média de pouco mais que seis sacas por hectare, se comparada com outras variedades. Porém, as experiências individuais apresentam desempenhos variados, chegando a ser até inferiores.
Um exemplo é o caso de um agricultor de Santiago – RS que, em 80 hectares plantados com a Intacta RR2, colheu 43 sacos por hectare. Já em áreas cultivadas com sementes tradicionais o resultado médio foi de 47 sacos por hectare, com algumas variedades chegando a 60 sacos. Diante disso, o produtor não pretende investir na nova cultivar na próxima safra (dados obtidos do Jornal Zero Hora).
No que se refere ao combate a lagartas, a nova variedade foi eficiente, porém, já existe um domínio prévio do controle da praga sem ter a necessidade de pagar valores tão altos. Outro risco existente é que os insetos-alvo podem adquirir resistência e outros insetos, que eram pragas secundárias, se desenvolvem, exigindo tratamentos químicos que antes não era preciso, gerando mais custos ao produtor rural.
Assim, antes de qualquer outra ação prática, no sentido de se implantar a soja Intacta de forma comercial, torna-se necessário que os resultados da empresa detentora da tecnologia sejam aferidos por órgãos oficiais de pesquisa.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao longo deste trabalho estudaram-se algumas características da economia da soja, em especial a partir da implantação da soja transgênica no Brasil, comparando suas vantagens e desvantagens nas diferentes gerações.
A agricultura brasileira tem importante papel no abastecimento nacional e dentre as culturas com potencial em expansão a soja vem sendo a lavoura mais importante. Hoje, Estados Unidos, Brasil e Argentina, pela ordem, são os maiores produtores do grão e, consequentemente, os maiores exportadores.
Os avanços tecnológicos deram um novo direcionamento às atividades produtivas desta oleaginosa. Esse processo contínuo de introdução de novas tecnologias, especialmente a transgenia, trouxe transformações na produção agrícola e, consequentemente, causa mudanças na estrutura socioeconômica do campo. Atualmente, no Brasil, a área plantada com soja transgênica chega até a 88% do total semeado com a oleaginosa.
Contudo, o cultivo de sementes transgênicas ainda gera debates. As desvantagens na maioria das vezes são apresentadas por ambientalistas, movimentos sociais e consumidores com receio dos efeitos da biotecnologia, porém, não há comprovação de que os argumentos estejam corretos. Por outro lado, para a maioria dos agricultores e empresas que atuam neste segmento a soja transgênica trouxe enormes vantagens. Alguns chegam a mencionar que a mesma é “só vantagem”, representando uma oportunidade de maiores ganhos, melhores rendimentos e um controle eficaz das ervas daninhas. Porém, não está ainda totalmente provado que a produção de transgênicos é mais barata e que aumente a produtividade. Cálculos realizados têm mostrado que os custos das lavouras de soja transgênica e convencional se equivalem, pois a economia no uso de defensivos
agrícolas no cultivo das sementes modificadas, às vezes, é perdida no pagamento dos royalties à empresa fornecedora da tecnologia (no caso a Monsanto).
Se tal realidade não fica tão evidente na passagem da soja convencional para a transgênica de primeira geração, ela estaria mais clara na passagem desta para a chamada soja transgênica de segunda geração, a Intacta RR2 PRO. Embora ainda em início de implantação, ainda há muitas desvantagens presentes em sua utilização, especialmente porque não se pode provar ainda o seu maior benefício: ganho em produtividade. Todavia, há ganhos econômicos confirmados em sua prática, especialmente no uso de mão de obra e maquinário.
Por outro lado, hoje já há uma escassez de sementes convencionais no mercado, e isso é grave, pois tira o direito de escolha dos produtores e os torna reféns de multinacionais detentoras das tecnologias. Como estudos científicos sobre os efeitos dos transgênicos na saúde humana são escassos, alguns países ainda são resistentes a importar alimentos geneticamente modificados. Com isso, é oferecida uma espécie de prêmio ao produtor que utiliza a semente convencional. Em alguns casos o prêmio pode chegar até R$ 8,00 a mais por saco, com o intuito de suprir a demanda de alimentos de países que não aderem à tecnologia. Mesmo com o prêmio, o plantio da soja convencional, no Brasil atual, é bastante pequeno, pois os produtores rurais alegam que a maior rentabilidade da soja transgênica supera o valor do prêmio, inviabilizando a soja convencional.
Pelos estudos existentes, alguns aqui reportados, a passagem da soja convencional para a soja transgênica de primeira geração tem sido positiva pelo lado econômico, com a cadeia produtiva da oleaginosa ganhando, em especial os produtores rurais. Isso causa uma grande expectativa em relação à implantação da soja transgênica de segunda geração, conhecida como Intacta RR2 PRO. Ora, o estudo mostrou que, por enquanto, não está provado que a passagem da soja transgênica de primeira para a de segunda geração venha a resultar em ganhos expressivos aos produtores. Especialmente se considerar o alto valor dos royalties a serem pagos para a empresa Monsanto, detentora da tecnologia. Dito de outra forma, os estudos aqui desenvolvidos não foram conclusivos para se poder afirmar que a implantação da soja transgênica de segunda geração terá vantagens econômicas ao setor produtivo nacional. Todavia, é bom lembrar que a mesma está apenas em seu início de implantação comercial.
Pelo sim ou pelo não, o fato é que analisar a vantagem de substituição da produção de soja convencional por soja transgênica (independente da geração) é uma tarefa difícil, pois é necessária uma exaustiva comparação de custos de produção e comercialização, entre as variedades, em diferentes condições climáticas, tecnológicas e fundiárias. Infelizmente, por enquanto, os dados desse tipo de análise são ainda insuficientes, o que limita a obtenção de resultados mais precisos que justifiquem a decisão de adotar uma das três variedades. Faltam ainda mais e diversificadas avaliações independentes, que sejam isentas dos documentos existentes na atualidade, a maioria reforçando os interesses comerciais das empresas proprietárias das tecnologias. O avanço tecnológico é decisivo para a humanidade e, provavelmente, a transgenia se confirme integralmente como um ganho importante nesse sentido, em particular no que diz respeito ao lado econômico. Todavia, por enquanto, os resultados da soja Intacta RR2 PRO estão longe de comprovar essa possibilidade. Mesmo porque os mesmos não foram aferidos por órgãos oficiais de pesquisa, os testes foram realizados em apenas duas safras e o aumento de produção não foi certificado por nenhuma instituição pública.
Portanto, há muito por fazer até se ter total certeza de que a soja transgênica em geral e a de segunda geração em particular seja uma inovação que resultará em ganhos econômicos decisivos aos produtores rurais. Mesmo que, empiricamente, a passagem da soja convencional para a soja transgênica de primeira geração esteja se confirmando interessante para os agentes presentes na cadeia produtiva da oleaginosa.
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