4 CONTRIBUIÇÕES DOS ESPECIALISTAS E PROPOSIÇÃO DO MODELO
4.1 ANÁLISE DO POSICIONAMENTO DAS COOPERATIVAS AGRÍCOLAS NO RS EM
4.1.1 Variáveis componentes do ambiente interno das cooperativas no Modelo Linguístico
O ambiente interno foi configurado com base na percepção dos especialistas e é composto por seis variáveis linguísticas. Este ambiente refere-se às particularidades internas da cooperativa, que são as competências que as diferenciam das demais organizações, quando da sua atuação na cadeia produtiva do biodiesel. Em suma, as variáveis que compõem o ambiente interno indicam as competências que promovem a alta diferenciação da organização.
A Figura 16 ilustra as variáveis que compõem o ambiente interno do Modelo Linguístico
SWOT-Fuzzy.
Figura 16 – Variáveis indicadas pelos especialistas, que compõem o ambiente interno do Modelo Linguístico SWOT-Fuzzy
Fonte: Elaboração da autora a partir de dados coletados.
A primeira variável mencionada pelos especialistas, identificada como pertencente ao ambiente interno, foi a variável ‘Relação de confiança entre agricultor e cooperativa’. Nas cooperativas agropecuárias ou mistas, o propósito da análise desta variável é avaliar se a organização cooperativa em estudo tem essa relação instituída como uma força ou fraqueza no ambiente interno.
Vale ressaltar que a cooperativa é institucionalizada através da associação de produtores agrícolas, sendo que na sua união, buscam almejar benefícios, não somente nos aspectos produtivos e financeiros. Essas organizações atuam de forma sustentável, buscando elevar o nível de vida daqueles que participam desta associação.
Muitos autores já buscaram retratar essa relação de confiança entre a cooperativa e associado. A transparência construída entre a cooperativa e associado gera uma ligação de fidelidade, ou seja, a confiança. A confiança entre o cooperado e cooperativa é considerada um dos pilares da cooperação, conforme afirmam Blomqvist e Stahle (2000); Gambetta (2000); Good (2000); Lorenz (2000); Lorenzen (1998).
Variáveis do Ambiente Interno da Cooperativa
1 - Relação de confiança entre Agricultor e Cooperativa 2 - Poder de barganha e negociação da Cooperativa 5 - Importância da diversificação da produção agrícola 6 - Capacidade de agroindustrialização 3 - Oportunismo dos associados 4 - Grau de Intercooperação
Para Bortolin et al. (2008, p. 63), a relação de confiança representa:
Tendo fundamental importância na promoção do dinamismo organizacional, a confiança desponta para as organizações como elemento determinante do grau de adesão e comprometimento com os esforços empreendidos pelos pares. Em se tratando das organizações cooperativas, a confiança assume papel ainda mais importante, devido às características inerentes ao modelo cooperativo.
Assim sendo, dentre esses atributos, a confiança do produtor na cooperativa, como da cooperativa no seu associado, é um elemento de ligação para todas as relações que se desenvolvem a partir do compromisso firmado entre as partes.
A segunda variável atrelada ao ambiente interno refere-se ao ‘Poder de barganha e negociação da cooperativa’. A habilidade de negociação é uma qualidade fundamental para o sucesso dos negócios em qualquer organização e instituição, sendo assim, os especialistas consultados também elencaram este potencial das cooperativas. Destacaram-no como um forte aliado no momento da tomada de decisão nos negócios, do acesso à matéria-prima, entre outras etapas do processo de transacionar.
Esta habilidade das cooperativas é exercida tanto com os seus cooperados e associados, como com os fornecedores de insumos e clientes dos produtos comercializados. Ademais, o poder de barganha e negociação da instituição pode estar associado a uma condição de saber fazer, tendo fundamental importância na promoção do dinamismo organizacional.
A cooperativa exerce esse poder nas duas formas destacadas, como fornecedora e como cliente. Porter destaca que quando no papel de fornecedora, a empresa ou organização é considerada poderosa, pois “Fornecedores poderosos capturam para si mesmos maior parcela da criação de valor, cobrando preços mais altos, limitando a qualidade ou os serviços ou transferindo custos para os participantes do setor (PORTER, 2009 p. 13).” Portanto, o poder de barganha dos fornecedores interfere diretamente na determinação dos custos da firma.
Quando as organizações são configuradas como clientes, Porter caracteriza o poder de barganha nesta perspectiva, que os clientes podem ser poderosos. Podem exigir preços finais melhores (preços mais baixos), pressionando os custos da empresa para cima. Os clientes somente se tornam poderosos se possuírem influência suficiente sobre a empresa fornecedora, essa influência reside basicamente na busca de preços menores (PORTER, 2009). No cenário do poder de barganha na conduta do cliente, basicamente esse poder de barganha reside na consistência da influência dos clientes no nível de preços.
Sendo assim, o fato das cooperativas estarem empoderadas nos momentos de tomada de decisão nos negócios faz com que sua representação seja ampliada, tanto na percepção de
credibilidade por parte dos negociantes quanto no estilo de conquistar maiores benefícios para cooperativa e associados.
A variável linguística ‘Oportunismo dos associados’ também foi indicada pelos especialistas como um fator que compreende o ambiente interno da organização. Oliver
Williamson, proponente da Teoria dos Custos de Transação4, envolve na sua concepção que a
firma é composta por um nexo de contratos e, que a racionalidade limitada e o comportamento oportunista dos agentes caracterizam os custos de transação (SILVA; BRITO, 2003). Fazendo uso do conceito de oportunismo, Williamson (1985, p. 47) o define como:
[...] oportunismo refere-se à revelação incompleta ou distorcida de informações, especialmente para esforços calculados para enganar, destorcer, disfarçar, ofuscar, ou de outra forma, confundir. Ele é responsável por condições reais ou inventados de assimetria de informação, que muito complicam problemas de organização econômica. [...] Oportunismo envolve frequentemente formas sutis de engano. Ambas as formas, ativas e passivas e ex-ante e ex-post estão incluídos. (WILLIAMSON, 1985, p. 47, tradução nossa)
O oportunismo dos associados nas cooperativas, partindo do conceito de Williamson, reside no aproveitamento de oportunidades que são oferecidas aos associados, por outros agentes da cadeia de produção. A cooperativa é uma instituição em que o cooperado é dono do próprio negócio, portanto, além dos benefícios como associado, recebe parte dos lucros. Porém, o associado pode ser levado, por interesse próprio, em seu benefício exclusivo a não cumprir todos os acordos realizados com a cooperativa.
Essas manifestações acontecem, conforme o relato dos especialistas, nos momentos de negociação de insumos, na realização da assistência técnica, na entrega da produção agrícola como ainda no faturamento, que é a venda da produção. Citam-se ainda diversos outros momentos em que o cooperado é corrompido pelo mercado, influenciado pelas ações das cerealistas, das empresas multinacionais fornecedoras de insumos e sementes, entre outras.
O grau de oportunismo dos associados às cooperativas pode ser considerado como um termômetro da solidez dos negócios entre cooperativa e cooperado. Este comportamento oportunista pode elevar os custos da cooperativa com os associados que praticam oportunismo
4 Corrente metodológica originada da Nova Economia Institucional - NEI, a Teoria dos Custos de Transação tem por base duas conjecturas comportamentais: a racionalidade limitada e o comportamento oportunista dos agentes econômicos. As transações são caracterizadas na Teoria dos Custos de Transação por atributos de cunho objetivo, a saber: especificidade dos ativos, a incerteza e a frequência das transações, em que as alterações nestas características, colocam em cheque os limites da racionalidade humana e facilitam a ação oportunista (CARSON; MADHOK; WU, 2006). Relacionando o tema as cadeias produtivas agroindustriais, muito autores vem fazendo uso da abordagem da TCT para compreenderem as dinâmicas de transação entre os elos da cadeia, podem ser citados Arbage (2004), Oliveira (2008), Zonin (2013), Oliveira (2014) e Castro (2015).
em relação à cooperativa. Cook (1995) descreve que a propriedade comum é um dos principais problemas de agência que interferem sobre as organizações, o associado faz uso dos benefícios da propriedade coletiva, porém não emite a sua contrapartida neste relacionamento. A cooperativa, por sua vez, cumpriu seu papel, na oferta de assistência técnica adequada, melhores preços nos insumos, acompanhamento integral da propriedade rural, como financiadora e estoquista da produção, entre outras iniciativas. Portanto, a instituição precisa ter controle do oportunismo dos associados, para evitar custos desnecessários ou prejuízo nas transações comerciais.
O ‘Grau de Intercooperação’ foi mais uma das características citadas pelos especialistas, como promotoras de forças e fraquezas da cooperativa no ambiente interno. A intercooperação está incluída nos princípios cooperativistas, definidos pelos pioneiros de Rochdale. O ato de intercooperação significa a cooperação entre as cooperativas, através da troca de conhecimentos e ajuda mútua na comunidade que estão inseridas. Em síntese, o compartilhamento de experiências e conhecimentos entre as cooperativas resulta em uma relação de ganha-ganha para as organizações envolvidas.
Além do mais, a relação entre cooperativas é importante para o fomento da filosofia do cooperativismo, assim como para manutenção da estrutura cooperativista. Porém, a intercooperação é tida por alguns especialistas da área como um sonho a ser alcançado, que é percorrido a passos lentos. Alguns estudiosos já relatam essa falha, quanto ao processo de intercooperação entre cooperativas. Schneider (2003) apud Lago (2009) afirma que organizações não cooperativas estão incorporando o processo de intercooperação de forma mais ágil as suas estratégias de negócio do que as próprias cooperativas.
Lago (2009) descreve que a relação de intercooperação é importante para que as cooperativas alcancem a sustentabilidade econômica. Neste sentido, estas instituições podem ser o pilar de sustentabilidade ambiental, promovendo a inovação tecnológica sustentável nas ações com seus associados.
Na perspectiva do ambiente interno, os especialistas citaram como uma variável que pode ser caracterizada como força ou fraqueza a ‘Diversificação da produção agrícola’. Essa diversificação consiste na ideia de a cooperativa abrigar uma variedade de culturas vegetais em seu catálogo técnico. Os especialistas salientaram que quanto mais diversificado o portfólio da cooperativa, e da produção de seus associados, menores serão os riscos que a cooperativa é exposta, por apostar em um único produto, ou em um pequeno grupo de produtos. Tendo assim, na diversificação, além da ampliação dos seus negócios, uma segurança ou sustentabilidade na sua lucratividade.
Ressalta-se que o PNPB incentiva a produção de biodiesel a partir de diversos grãos oleaginosos e, de outras matérias-primas consideradas ‘restos’, como sebo. Partindo deste conceito, foi considerada a importância da diversidade de matérias-primas para produção do biocombustível.
Essa promoção à diversidade reflete diretamente no departamento técnico das cooperativas. Considerando a opinião dos especialistas, estes concordaram que o potencial de promover a diversificação nas propriedades dos agricultores associados a cooperativa, pode vir a representar uma força ou fraqueza para organização. Mas a sentença deste potencial cabe ao contexto de cada cooperativa.
A promoção da diversificação nas propriedades está associada a rotação de culturas e ao enriquecimento do conhecimento do agricultor. Desta maneira, a cooperativa oportuniza novas formas de inserção econômica e social ao agricultor, não ficando dependente de uma cultura específica. E ainda, tratando e realimentando o solo, evitando desgastes, quando este é explorado de forma demasiada.
A última variável, indicada pelos especialistas para ambiente interno, foi ‘Capacidade de Agroindustrialização’. Refere-se a própria capacidade e interesse da cooperativa em investir na agroindustrialização das matérias-primas que recebe, galgando possíveis ganhos econômicos e financeiros. A agroindustrialização da produção recebida na cooperativa, além agregar valor ao produto gerado pelo cooperado, proporciona diferentes fontes de renda e de inserção da cooperativa e seus associados em novos mercados.
Além da agroindustrialização contribuir com ganhos econômicos, é considera uma fonte de transformação do espaço, as movimentações que indústria instalada na região de atuação da cooperativa provocar, podem denotar parte do desenvolvimento regional dos municípios atingidos (FERNANDO FILHO; CAMPOS, 2003). Vale ressaltar a exemplo de outras cooperativas de diferentes ramos de agroindustrialização, Lago (2009) afirma que a agroindustrialização tem por objetivo quando instalada a partir de uma cooperativa, a desenvolver uma opção econômica aos associados, através da diversificação da atuação da cooperativa, ampliando os ganhos do associado e da cooperativa.
Esse interesse em agroindustrializar também pode sinalizar o quanto a cooperativa é arrojada nos seus investimentos. Característica essa que interfere em todos os aspectos, tanto no âmbito financeiro como no relacionamento social com os associados.
4.1.2 Variáveis componentes do ambiente externo da cooperativa no modelo linguístico