2 Referencial Teórico
VARIÁVEIS GOVERNANTES
ESTRATÉGIAS DE AÇÃO CONSEQUÊNCIAS Modelagem Mental Habilidades
Intencionadas intencionadasNão-
Não- surpreendentes Surpreendentes Estruturantes Desestruturastes # # # Crenças Valores Normas internalizadas Pressupostos e Teorias Causais Comportamentos diretamente observáveis Competência Eficácia Aprendizagem
Aprendizagem de Ciclo Único Aprendizagem de Ciclo Duplo
detectado é corrigido permite que a organização continue com as mesmas políticas ou que alcance seus objetivos atuais, então aquele processo de erro-e-correção caracteriza a aprendizagem de ciclo único. Em analogia, a aprendizagem de ciclo único se parece com um termostato que aprende quando está quente demais ou frio demais e passa a ligar ou desligar o aquecimento do ambiente. O termostato pode operar esta tarefa porque consegue receber informação (a temperatura da sala) e toma medidas corretivas.
Na aprendizagem de ciclo único, a teoria-em-uso dos praticantes tem como valores preponderantes: manter controle unilateral das situações; esforçar-se para ganhar e não perder; suprimir os sentimentos negativos próprios e alheios; ser o mais racional possível. As estratégias de ação desencadeadas são: defender sua posição; avaliar os pensamentos e as ações dos outros, atribuir causas ao que quer que se esteja tentando entender. Os resultados de aprendizado neste processo são limitados ou inibidos, há consequências que encorajam mal entendidos e surgem processos de self-sealing (auto-oclusivos).
Na aprendizagem de ciclo único, a ênfase está nas técnicas e como torná- las mais eficientes. Na mudança de ciclo único, o modelo mental permanece o mesmo. Assim, as consequências não se alteram, ou se modificam e melhoram apenas por um tempo, em seguida, o “sistema” volta à situação anterior. A mudança de ciclo único pode ser eficaz em situações pontuais.
Por sua vez, a aprendizagem de ciclo duplo ocorre quando um erro é detectado e corrigido de modo, que envolva a modificação da base das normas, políticas e objetivos de uma organização. Envolve ainda o questionamento do papel dos sistemas de estrutura e aprendizagem que são a base dos próprios objetivos e estratégias. Na mudança de ciclo duplo, as consequências mudam efetivamente.
A teoria-em-uso no modelo de aprendizagem de ciclo duplo tem como valores preponderantes dos praticantes: utilizar informações úteis e válidas; dar às pessoas o direito de escolher livremente, e com informações corretas; assumir responsabilidade pessoal no monitoramento da eficácia. A mudança profunda e duradoura só é possível com a implementação do ciclo duplo, pois requer mudança nos modelos mentais que governam a ação.
O foco de grande parte da pesquisa de intervenção de Chris Argyris tem sido explorar como é que organizações podem aumentar a sua capacidade de
aprendizagem de ciclo duplo. Ele argumenta que a aprendizagem de ciclo duplo é necessária, caso praticantes e organizações queiram tomar decisões mais eficazes em contextos de mudanças rápidas e muitas vezes incertas (ARGYRIS, 1974; 1990).
A ciência da ação desenvolvida por Argyris e Schön (1974) é um campo de inquirição que possibilita explorar o raciocínio e os pontos de vista que subjazem à ação humana e produzem um aprendizado mais eficaz em organizações e em outros sistemas sociais. Para tanto, segundo esses autores, dois tipos de habilidades são centrais: a reflexão - desacelerar os processos de pensamento para tornar-se mais consciente de como se formam os modelos mentais - e a inquirição - manter conversações onde abertamente se compartilham visões e se desenvolve conhecimento acerca dos pressupostos uns dos outros. Essas habilidades são eficazes para revisar os modelos mentais com vistas à mudança profunda e duradoura.
2.2.1.4 Aprendizagem dêutero
É um tipo especial de aprendizagem e significa gerar e fazer uso sistemático dos mecanismos de feedback relacionados com as experiências anteriores de aprendizagem de ciclo único e duplo.
Para Argyris e Schön (1978) os membros de uma organização engajada no estágio de aprendizagem dêutero também aprendem sobre os contextos prévios de aprendizagens. Eles refletem e investigam ciclos de aprendizagem organizacional anteriores ou de falta de aprendizagem. Descobrem o que facilitou ou inibiu a aprendizagem, inventam novas estratégias de aprendizagem, produzem estas estratégias, avaliam e generalizam o que produziram. Os resultados são codificados nas imagens individuais e nos mapas e se refletem na prática de aprendizagem organizacional.
Aprendizagem dêutero significa afirmar que as organizações precisam aprender a superar os dois primeiros ciclos de aprendizagem. Alcançando esse estágio, elas são capazes de incrementar a capacidade de aprendizado de forma contínua.
2.2.1.5 Modelos I e II de teorias-em-uso
Argyris e Schön estabeleceram dois modelos ou dois tipos de programas- mestre que descrevem características das teorias-em-uso que podem inibir ou favorecer a aprendizagem de ciclo duplo. Acredita-se que todas as pessoas utilizam uma teoria-em-uso comum em situações problemáticas, que os autores descrevem como Modelo I – um conjunto de valores governantes e de ações comportamentais que dificultam e comprometem a qualidade da aprendizagem e o grau de eficácia, mas que é dominante na prática social,
O Modelo II é composto por um conjunto de valores governantes e de estratégias de ação que facilitam a aprendizagem e podem levar a um comportamento individual e organizacional mais eficaz (ARGYRIS, 1982, 1985, 1990, 1993, 2000, 2004; ARGYRIS, PUTNAM e SMITH, 1985; ARGYRIS e SCHÖN, 1996).
a) O Modelo I de teorias-em-uso
Argyris tem declarado que praticamente todos os participantes de seus estudos operavam a partir das teorias-em-uso, ou os valores consistentes com o Modelo I (ARGYRIS et al., 1985, p.89).
Neste Modelo, as teorias-em-uso são concebidas e implementadas pelo sujeito com o intuito de ser vencedor, em qualquer situação. A estratégia de ação principal procura o controle unilateral do ambiente e da tarefa, mais a proteção unilateral de si e dos outros. Sendo assim, o Modelo I leva a rotinas muitas vezes profundamente enraizadas e defensivas (ARGYRIS 1990; 1993) – e estas podem operar nos níveis individual, grupal ou organizacional. A exposição de pensamentos, sentimentos e ações podem tornar as pessoas vulneráveis à reação das outras pessoas. No entanto, a afirmação de que o Modelo I é predominantemente defensivo tem ainda outra consequência: se as ações são impulsionadas para afastar as pessoas de alguma coisa, então essas ações são controladas e definidas por aquilo de que as pessoas estão se afastando, e não por elas mesmas, nem por aquilo na direção do que gostariam de estar se movimentando. Por isso, o potencial para crescimento e aprendizagem está seriamente limitado. Caso o comportamento
seja motivado pelo desejo de não ser visto como um incompetente, isso poderá levar a esconder coisas de si mesmo e de outras pessoas, a fim de evitar sentimentos de incompetência.
É somente por meio do questionamento e da mudança das variáveis governantes que será possível produzir novas estratégias de ação que podem lidar com circunstâncias que mudam.
O que Chris Argyris procura fazer é mover pessoas do Modelo I para o Modelo II, tanto na orientação quanto na prática – aquele que fomenta aprendizagem de ciclo duplo. Ele sugere que a maioria das pessoas, quando perguntadas, declara o Modelo II. Argyris não oferece nenhuma razão do por que a maioria das pessoas declara o Modelo II. Acrescido a isso, nota-se que a maioria da pesquisa em torno de modelos tem sido efetuada ou por Argyris ou seus associados. O quadro 4 demonstra as características da teoria-em-uso do Modelo I:
Quadro4- Modelo I- características das teorias-em-uso
Valores Governantes e Pressupostos Estratégias Consequências
Alcançar o objetivo por meio do controle unilateral Maximizar ganhos e minimizar perdas Minimizar a geração e expressão de sentimentos negativos Agir racionalmente Eu entendo a situação; aqueles que veem de modo diferente não entendem Eu estou certo/ aqueles que discordam estão errados Eu tenho motivos puros; aqueles que discordam têm motivos questionáveis. Meus sentimentos são justificados Controle unilateral do ambiente e da tarefa Proteger a si e aos outros unilateralmente Favorecer caminhos de ação que desencorajem a investigação
Tratar seus próprios pontos de vista como obviamente corretos Fazer atribuições e avaliações secretas Manter as aparências Relacionamentos defensivos Baixa liberdade de escolha Reduzida produção de informação
Pouco teste público de ideias
Fonte: Adaptado de Valença, 1995, p. 77
b) O Modelo II de teorias-em-uso
As características significativas do Modelo II incluem a habilidade de requerer dados de boa qualidade e de fazer inferências. O Modelo II procura incluir
os pontos de vista e as experiências de participantes ao invés de procurar impor um ponto de vista em cima da situação. O quadro 5 demonstra as características da teoria-em-uso do Modelo II:
Quadro 5- Modelo II- características das teorias-em-uso
Valores Governantes e Pressupostos Estratégias Consequências
Informações válidas Escolha livre e informada Comprometimento interno Compaixão Eu tenho algumas informações; os outros têm outras informações Cada um de nós pode ver coisas que os outros não veem
As diferenças são oportunidades de aprendizado As pessoas estão tentando agir com integridade, dadas as suas condições Controle partilhado Participação no desenho e na implementação da ação Atribuição e avaliação ilustrada com dados relativamente e diretamente observáveis Visão conflitante vindo à tona Encorajamento para fazer teste público das avaliações Melhor compreensão redução de conflito e da defensividade Mais confiança Menos processos autorrealizáveis e auto-oclusivos Maior aprendizagem Maior efetividade Melhor qualidade de trabalho e de vida.
Fonte: Adaptado de Valença, 1995, p. 78
Argyris e Schön (1974) definiram as virtudes sociais do Modelo II que ajudam aos membros de grupos e organizações a edificarem um ambiente comportamental mais favorável à aprendizagem. Essas virtudes podem ser visualizadas no quadro 6:
Quadro 6-Virtudes sociais do Modelo II
VIRTUDES SOCIAIS DO MODLEO 2