Parte I – Enquadramento teórico
Capítulo 1 – Qualidade, aprendizagem cooperativa e inclusão numa abordagem
1.3. A educação inclusiva e a abordagem experiencial em educação
1.3.1. Variáveis processuais: Bem-Estar Emocional e Implicação
Como vimos, esta abordagem experiencial pressupõe que o foco do adulto seja a promoção de elevados níveis de BEE e I, as variáveis essenciais de todo o processo. Assim, estes dois parâmetros são fundamentais na qualidade de um contexto de infância e considera-se ser neste sentido que o adulto deve atuar, de modo a oferecer a todas as crianças oportunidades de BEE e de potencializar as suas competências.
O bem-estar emocional da criança refere-se para Santos (1998) ao “sentimento de sentir-se em casa (a criança), ser ela própria, manter-se em contacto consigo própria, e ter as suas necessidades emocionais (atenção, reconhecimento, competência) satisfeitas” (p. 77). Compreende-se que a satisfação das necessidades físicas é apenas uma parte a considerar, prevalecendo também o carinho, a segurança, o sentir-se valorizada e reconhecida. Para Laevers (2004) atender ao BEE consiste em analisar até que ponto a criança se sentem à vontade, expressando-se com autenticidade, demonstrando vitalidade e autoconfiança.
Parafraseando Laevers (2014) o BEE “indica que uma criança está bem emocionalmente.” (p. 157) e esta condição reflete-se na forma como se relaciona com o meio e que este BEE é mais recorrente nas crianças que possuem autoconfiança, autoestima, assertividade e resiliência.
Enquanto o BEE reflete um comportamento, a I corresponde a uma dimensão da atividade humana e segundo Laevers (2004) “significa que há atividade mental intensa, que a pessoa está funcionando nos próprios limites de suas capacidades, com um fluxo de energia que vem de fontes intrínsecas” (p. 60), enraizando-se num nível de aprendizagem profundo. Em vista disso, a implicação corresponde ao estado no qual é evidente a concentração, a experiência intensa, motivação intrínseca, um fluxo de energia e um alto nível de satisfação ligados ao desejo do ímpeto exploratório (Paula,1998) que resultará no desenvolvimento da criança.
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Desta forma todos os temas que possam ser do interesse da criança, que satisfaçam a sua curiosidade ou cativem a sua atenção poderão promover a sua implicação.
Portugal e Laevers (2010) definem o nível de implicação como sendo o resultado do que as condições ambientes incitam na criança, ou seja, não se encontra relacionada com a capacidade da criança, devendo este fator ocorrer ou não devido à ação de qualidade e à capacidade do adulto. Desta forma o indicador da implicação dá feedback ao educador relativamente às repercussões que as ofertas educativas que dispõe à criança têm sobre ela. Em função disso o nível de implicação é considerado um indicador da qualidade do contexto educativo.
De uma forma sintetizada, Iglésias (2016) define que a I é fundamentalmente um indicador da qualidade da oferta educativa, pois refletem a reação e postura da criança perante aquilo a que foi apresentada. A sua implicação irá traduzir aquilo que as condições ambientais lhe provocam, informando o educador acerca da qualidade do contexto educativo.
Desta forma, a implicação está emparelhada com o processo de desenvolvimento, que requer que o adulto crie um ambiente desafiador através da promoção de atividades estimulantes e motivadores, favorecendo a concentração por parte das crianças (Justo, 2016). Para isso o educador deve criar um ambiente de desafios que atenda às necessidades das crianças, com o objetivo de dar oportunidade ao seu envolvimento. Desta forma, Portugal e Santos (2003) consideram-se que uma pessoa “totalmente implicada opera nos limites das suas atuais capacidades (em zona próxima de desenvolvimento).” (p. 165).
Estes dois conceitos são inseparáveis e complementam-se, sendo fundamentais ao equilíbrio e harmonia do desenvolvimento e aprendizagem da criança. Laevers (2008) considera que primeiro vem o BEE da criança e só depois a I desta nas atividades pois o bem-estar emocional é um alicerce para o envolvimento, no entanto salienta que em situações de elevada I a criança pode aumentar o seu nível de BEE, daí a relação entre estas duas variáveis. Assim, a criança só se irá implicar quando se sente bem no contexto e quando lhe são
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fornecidas as condições para que se sinta ela própria. Para isso importa criar uma boa relação entre o adulto e as crianças e um clima de grupo favorável.
Para otimizar tudo isto é essencial que o educador crie condições que sirvam de suporte à promoção de BEE e I e que possua uma atitude de predisposição para se envolver. Por outro lado, sendo o educador um mediador deste caminho importa considerar que também o seu BEE repercute a forma como atua.
Para otimizar estes níveis, foram criadas 10 iniciativas concretas, Ten Action
Points,a considerar segundo Laevers e Moons (1997, citados por Laevers, 2014):
1. Reorganizar a sala de aula em cantinhos ou áreas atraentes; 2. Verificar o conteúdo dos cantinhos e substituir materiais não
atraentes por materiais mais atraentes;
3. Introduzir materiais e atividades novos e não convencionais; 4. Observar as crianças, descobrir seus interesses e buscar
atividades que respondam a estas orientações;
5. Apoiar atividades em progresso por meio de estímulos e intervenções enriquecedoras;
6. Ampliar as possibilidades para livre iniciativa e apoiá-las por meio de regras e acordos concretos;
7. Explorar e tentar melhorar a relação com cada uma das crianças e entre as crianças;
8. Introduzir atividades que auxiliem as crianças a explorar o mundo do comportamento, dos sentimentos e dos valores;
9. Identificar crianças com problemas emocionais e desenvolver intervenções para auxiliá-las;
10. Identificar as necessidades das crianças em cada área do desenvolvimento.
Os cinco primeiros pontos aludem ao pilar da estimulação, o sexto ponto ao pilar da autonomia, o sétimo e oitavo à sensibilidade e por fim, os pontos nove e dez enfatizam um nível geral de intervenção, enfatizando a atenção do educador numa criança em que identificou algum tipo de preocupação e sobre a qual será fundamental uma intervenção mais específica. De um modo geral estes pontos foram pensados de modo a promover diversas intervenções tendo em mente as
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características do contexto, as limitações e potencialidades de cada situação e as consequências das intervenções para as crianças (Portugal & Laervers, 2010).
Desta forma, quando estas duas dimensões se encontram presentes numa criança depreende-se que o seu desenvolvimento está a decorrer em condições ideais.