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Stresse Percebido

3. Variável dependente: Reflexão da ERPD

3.1.Modelo Geral

Este modelo foi criado introduzindo as VIs que foram preditoras significativas da VD nos modelos específicos, nomeadamente, a Ansiedade-traço e as CPar. Explicou 7.9% da variância da Reflexão [R2=.079/ Adjusted R2=.069; F(2;179)=7.669, p=.001]f. Ambas as variáveis foram preditoras significativas: Ansiedade-traço (β=.228; p=.002; 5.20%) e CPar (β=-.208; p=.005; 4.37%) (diagrama 12).

Diagrama 12 – Modelo Geral: variáveis preditoras de Reflexão

Nas análises de RLMH, a dimensão CPar continuava a poder ser preditora da VD, após controlar os níveis de Ansiedade-traço. Introduzindo-a primeiramente no modelo, esta explicou 3.7% [R2=.037; F(1;180)=6.877; p=.009] da variância da Reflexão. Com a inserção de CPar em segundo lugar, o modelo passou a explicar 7.9% [R2=.079; F(2;179)=7.669; p=.001], ou seja, acrescentou 4.2% à variância (Tabela 10).

f

Página 37 de 93 CPar

Reflexão

Ansiedade-traço

Tabela 10: Sumário da RLMH; VD: Reflexão

Estatísticas referentes à mudança no modelo R2 R2 Ajust. Erro padrão Mudança R2 Mudança F g.l. p

Ansiedade-traço .037 .031 4.555 .037 6.877 1; 180 .009

CPar .079 .069 4.467 .042 8.186 1; 179 .005

 Relativo à mudança de F

Estatísticas de colinearidade: Tolerância=.970; VIF=1.031; Durbin-Watson=1.586.

Nas Análises de Mediação, as CPar foram mediadoras parciais da relação entre Ansiedade-traço e Reflexão (IC 95%: -.0902 a -.0061) (diagrama 13).

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DISCUSSÃO

De um modo geral, os resultados foram bastante elucidativos e as diversas análises foram consistentes ao ponto de podermos retirar conclusões robustas, as quais passamos a discutir.

Desde logo, é de salientar que Pessimismo e baixo Optimismo se relacionam predominantemente com dimensões negativas do Perfeccionismo e que o Perfeccionismo positivo parece ser independente destes traços. Já o Pessimismo Defensivo, além de se relacionar com o Perfeccionismo desadaptativo, também apresentou correlações significativas com dimensões mais positivas, como Perfeccionismo Auto-Orientado, Elevados Padrões e Esforços Positivos (dimensão do compósito). Este resultado não é inesperado, pois o PD é uma estratégia de coping que pode ser adaptativa e funcional, principalmente em pessoas com elevada ansiedade, e esta não se relaciona apenas com dimensões negativas do Perfeccionismo46,47.

Na comparação de médias de Percepção de Stresse entre os grupos das variáveis de Perfeccionismo, verificou-se que esta está aumentada nos participantes que têm níveis mais elevados de Preocupações com os Erros e Dúvidas sobre as Acções da EMP de Frost, Perfeccionismo Socialmente Prescrito e no total da EMP de Hewitt e Flett e Preocupações com as Avaliações do compósito. Assim, a Percepção de Stresse é sobretudo elevada nos grupos com níveis de Perfeccionismo desadaptativo aumentados, resultado que se coaduna com a investigação prévia23,24.

Actualmente verifica-se uma tendência crescente para usar as dimensões de segunda ordem do Perfeccionismo30,31,32, pelo que não quisemos deixar de testar modelos em que as inserimos como VDs em vez das variáveis de primeira ordem (ver apêndice 2 – modelos gerais com dimensões de Perfeccionismo de segunda ordem), o que, de resto, veio corroborar os resultados obtidos com as dimensões de primeira ordem. Assim, os modelos de regressão

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linear discutidos em seguida terão em conta, não só as dimensões de primeira ordem, como também as de segunda ordem.

Os modelos de regressão linear tendo como VD a Percepção de Stresse, na amostra total, corroboram as considerações anteriores. Nos modelos compostos por variáveis da mesma natureza (modelos específicos), o papel das DA e das PE foi indiscutível como preditores da Percepção de Stresse, bem como o das PA_comp. Nos modelos gerais contendo estas variáveis, as DA não mostraram ser preditoras significativas da Percepção de Stresse, tendo-se destacado apenas as PE e as PA_comp. Já no estudo prévio das correlações, estas variáveis de Perfeccionismo negativo apresentavam correlações moderadas com a Percepção de Stresse, sendo os seus coeficientes os de maior magnitude. É de realçar a importância da utilização desta dimensão de segunda ordem, pois o padrão das suas relações quer com a Percepção de Stresse quer com o Optimismo/Pessimismo vem fornecer mais evidências na compreensão da sua natureza, uma vez que a relação entre as dimensões de segunda ordem e outras variáveis psicológicas ainda não foi suficientemente explorada50,51.

Um dos pontos inovadores deste estudo foi a utilização, pela primeira vez em Portugal, da LOT-R como escala bidimensional38,39. Os resultados que obtivemos com a análise factorial, e que mostraram a bidimensionalidade do constructo medido pela escala, vão de encontro às perspectivas que defendem que o Optimismo e o Pessimismo não são extremos de um mesmo contínuo. Ou seja, para uma melhor caracterização de uma pessoa quanto a estes traços de personalidade, devemos conhecer não apenas os seus níveis de Optimismo, mas também os de Pessimismo.

Como seria de esperar, as correlações entre Optimismo/Pessimismo e Percepção de Stresse foram moderadas, tendo sido de sentido inverso para o Optimismo. Também os níveis de Percepção de Stresse se distinguiram significativamente entre os grupos de Optimismo e de Pessimismo, tendo-se verificado que a Percepção de Stresse aumenta com o Pessimismo e

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diminui com o aumento do Optimismo. É de realçar, também, que no modelo específico de RLM, constituído apenas pelas variáveis do LOT-R, o Optimismo (no sentido inverso) foi o único preditor de Percepção de Stresse, sugerindo que os níveis baixos de Optimismo estão mais associados ao stresse do que o Pessimismo. Mais uma vez, estes resultados indicam que baixo Optimismo não é equivalente a Pessimismo.

A associação entre Perfeccionismo negativo e Percepção de Stresse é maior quando estão também presentes baixos níveis de Optimismo, à semelhança do que se verificou no estudo de Black e Reynolds (2013)16, estudo já referido na introdução.

Por outro lado, também as PE (e as PA_comp) potenciam a relação entre baixo Optimismo e Percepção de Stresse. No seu conjunto, estes resultados mostram que esta combinação de traços parece ser potencialmente perniciosa para a Percepção de Stresse.

Não obstante não se terem verificado pontuações significativamente diferentes no stresse por grupos com diferentes níveis de Ansiedade-traço (provavelmente devido à homogeneidade da amostra, constituída unicamente por estudantes, onde os grupos com elevada e baixa Ansiedade-traço eram de pequena dimensão e não atingiam pontuações extremas35), optámos por realizar análises de RLM tendo como VD Percepção de Stresse e tomando separadamente os grupos com diferentes níveis de Ansiedade-traço, para procurar fundamentar o nosso objectivo de testar se as variáveis que explicam a Percepção de Stresse são diferentes em pessoas com diferentes níveis de Ansiedade-traço.

Apesar de o reduzido tamanho dos grupos com baixa e alta Ansiedade-traço não ter impedido a realização das análises segundo os critérios de Pallant et al. (2011)52, ainda assim, é de salvaguardar que tal limitação metodológica poderá ter influenciado a obtenção de resultados significativos. Além disso, esta circunstância dificulta a generalização dos resultados, justificando-se no futuro repetir estas análises numa amostra maior e com maior

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dispersão nos níveis de ansiedade, preferencialmente incluindo participantes de uma amostra clínica.

Ainda assim, como estudo preliminar, não deixa de ser interessante focar alguns dos resultados desta parte das análises. Com esta amostra verificámos que nas pessoas com baixa Ansiedade-traço, nenhuma dimensão do Perfeccionismo é preditora de stresse, ou seja, a Percepção de Stresse nestas pessoas parece ser independente dos níveis de Perfeccionismo, mesmo do desadaptativo. O mesmo se verificou para as dimensões de ERPD, que medem o PD, sugerindo que pessoas com baixa Ansiedade-traço não necessitam de o usar como estratégia de coping, provavelmente porque, sendo os seus níveis de ansiedade baixos, têm à partida, menor tendência para experienciar stresse. No que diz respeito às variáveis do LOT-R, apenas o Optimismo foi preditor de stresse. Este dado é interessante tendo em conta os achados anteriores relativamente ao peso que o baixo Optimismo teve nos modelos de RLM com a amostra total, sendo que mesmo em indivíduos cujos níveis de ansiedade são baixos, o Optimismo (em sentido inverso) pode contribuir para o Stresse.

Também no grupo com elevada Ansiedade-traço, as variáveis de Perfeccionismo não foram preditoras de stresse. Tendo em conta a vasta literatura sobre as relações entre ansiedade e Perfeccionismo, e stresse e Perfeccionismo46,47, seria de esperar um resultado diferente nesta análise. Mais uma vez salientamos que o reduzido tamanho da amostra, pode ter introduzido alguma distorção nos resultados. Ainda assim, parece-nos legítimo pensar na possibilidade da Percepção de Stresse nas pessoas com elevada Ansiedade-traço poder ocorrer mesmo na ausência de Perfeccionismo, devido à sua maior susceptibilidade53. A este respeito, é de notar a considerável semelhança de conteúdo entre os itens do STAI para avaliação da Ansiedade-traço e os itens de instrumentos para medição do traço Neuroticismo54,55, o qual, em diversos estudos, anula o efeito do Perfeccionismo56. Sugerimos, por isso, que se esclareça esta possibilidade num estudo futuro, com uma amostra

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superior de pessoas com elevada Ansiedade-traço. A mesma interpretação se aplica ao facto de nenhuma dimensão do LOT-R ter sido preditora de stresse, em pessoas com elevada Ansiedade-traço.

Apesar das limitações decorrentes do reduzido tamanho da amostra, é importante realçar um resultado que replica o que se sabe acerca do PD. Em indivíduos de elevada Ansiedade-traço, a dimensão Pessimismo do ERPD que, como já foi referido, traduz a necessidade que os pessimistas defensivos têm em baixar as expectativas para diminuir os níveis de ansiedade contingentes ao desempenho, foi preditor da Percepção de Stresse. Paralelamente a este resultado, a comparação de médias de PD por grupos de Ansiedade-traço mostrou também que os que têm maiores níveis deste último utilizam mais PD, confirmando empiricamente a perspectiva de Norem (2001)40, autora da ERPD.

Também as análises de RLM, tendo como VD as dimensões da ERPD, confirmaram as considerações anteriores. Tanto para ERPD total, que, relembre-se é uma medida geral de PD, como para a dimensão Pessimismo (cujo conteúdo dos itens é de pessimismo defensivo), a Ansiedade-traço, as DA, a PA_comp. e o Pessimismo_LOT-R foram preditores significativos, tal como seria de esperar. Também preditoras significativas do Pessimismo_ERPD foram as PE.

De entre estas variáveis, optámos por controlar a Ansiedade-traço nos modelos de regressão hierárquica, uma vez que, à partida, o PD já é por definição uma estratégia de coping cognitivo mais utilizada por pessoas ansiosas, permitindo-nos assim perceber qual o papel das outras variáveis, nomeadamente de Perfeccionismo e de Optimismo/Pessimismo, no PD.

Na explicação da variância do total da ERPD, o Pessimismo acrescentou uma percentagem significativa de variância (de 6.1%), o que permite especular a possibilidade dos pessimistas, sob um certo grau de ansiedade, também utilizarem o PD como estratégia de

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coping. No entanto, a correlação entre PD e Pessimismo_LOT-R é moderada e não elevada,

mostrando que estes dois atributos podem não coexistir, sendo plausível que pessoas utilizem o PD sem serem necessariamente pessimistas.

O facto de as DA ainda acrescentarem um adito significativo de 5% neste modelo de RLMH, e de as PA_comp. acrescentarem 7.7% no modelo paralelo, mostra que os níveis de PD são explicados em grande parte pelos níveis de Perfeccionismo negativo. É bem sabido que este tipo de Perfeccionismo aumenta os níveis de ansiedade46,47, pelo que faz sentido pensar que pessoas perfeccionistas usem mais o PD como estratégia de coping.

Este resultado é extremamente relevante, especialmente porque existem poucos estudos nesta área e justifica a relevância de continuar a investigar a funcionalidade desta estratégia de coping para os perfeccionistas. Apesar de apenas as dimensões negativas de Perfeccionismo se terem revelado preditores significativos do PD, outras dimensões tendencialmente positivas, como o PAO e os EP, também se correlacionaram com esta estratégia e, por isso, consideramos que, em estudos futuros, valerá a pena investigar se o PD é usado tanto por perfeccionistas adaptativos como desadaptativos.

Tal poderá vir a ter importantes implicações terapêuticas. Com efeito, sabe-se que o PD é usado por pessoas ansiosas para diminuir os níveis de ansiedade e que, a longo prazo, as pessoas se tornam menos ansiosas e conseguem atingir níveis de satisfação com a vida57 e níveis de stresse comparáveis aos das pessoas optimistas. Assim, em contextos psicoterapêuticos com pessoas perfeccionistas, o PD poderá ser fomentado como estratégia de coping no sentido de ajudar os doentes a regular os seus níveis de ansiedade, de preocupação e de ruminação.

Nos modelos tendo como VD o Pessimismo_ERPD, não só as percentagens de explicação das dimensões de Perfeccionismo foram mais elevadas (>10%), como também as PE, e não apenas as DA (e PA_comp), foram preditores significativos.

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Ainda, as dimensões de Perfeccionismo foram mediadoras das relações entre o total de ERPD e Ansiedade-traço, bem como entre este e o Pessimismo_ERPD, revelando que o Perfeccionismo desadaptativo, e particularmente, níveis elevados de DA e PE (ou PA_comp) potencia a utilização do PD por pessoas ansiosas.

Considerando as próprias características dos constructos de Perfeccionismo e de PD, este padrão de resultados carreia um notório potencial heurístico. O pessimista defensivo procura baixar as expectativas relativamente aos eventos futuros, reflectindo sobre os possíveis desfechos, o que lhe permite reduzir os níveis de ansiedade e, assim, obter um melhor desempenho; sendo este último uma questão central para o perfeccionista que vive preocupado com o seu desempenho. Neste contexto, é legítimo pensar que os perfeccionistas possam usar o PD, para ao planear o futuro, evitar erros e diminuir os seus níveis de ansiedade.

Por último, e referindo-nos à dimensão Reflexão40,41,42 do ERPD, esta não foi explicada nem pela Ansiedade-traço, nem pelo Optimismo/Pessimismo. Na concepção de Norem11,12, a Reflexão refere-se à vertente reflexiva do PD, como o próprio nome indica, focada no planeamento dos eventos e desfechos futuros. As variáveis de Perfeccionismo que funcionaram como preditores foram as Críticas Parentais e EP_comp, o que suscita o interesse em continuar a explorar o carácter mais negativo ou positivo da Reflexão.

Possíveis limitações deste estudo prendem-se com o facto de a amostra ser constituída por estudantes universitários. Considerando que o Perfeccionismo parece diminuir com a idade58, poderá ser relevante analisar a relação entre o Perfeccionismo, o Optimismo/Pessimismo e a Ansiedade-traço noutros grupos da população geral. Estudos que explorem estas variáveis em amostras clínicas poderão também dar um contributo científico relevante.

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Em conclusão, este estudo mostra que baixo Optimismo e Perfeccionismo negativo são traços relacionados, cuja combinação parece aumentar a Percepção de Stresse. Confirmámos que o PD é uma estratégia de coping mais utilizada em indivíduos com elevada Ansiedade-traço, nomeadamente os que têm elevados níveis de Perfeccionismo negativo. Este último contributo foi completamente inovador.

AGRADECIMENTOS

Agradeço aos meus amigos, particularmente, à Susana Miguel por ser a minha fonte de desabafo quando o trabalho não corre bem; ao Francisco Mouraz pelo apoio constante e incondicional. E, especialmente, aos meus pais e irmão, por tudo o que fizeram e continuam a fazer por mim.

Por último, agradeço a todos os voluntários pelo preenchimento dos inquéritos, pois sem eles o estudo não seria possível.

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