5.5 Variáveis tecnológicas
5.5.3 Variável #13: Infraestrutura
A infraestrutura, entre todas as variáveis tecnológicas, é a variável mais técnica de todas, e envolve quase nada de educacional em sua definição. Entretanto, é uma variável importante porque é o vetor que deverá prover todas as condições tecnológicas para execução adequada de todas as ferramentas de educação on-line (Variável #11: Learning Management System e Variável #12: Ferramentas de autoria). Assim, é importante um projeto de educação corporativa on-line estabelecer claramente quais são os requerimentos técnicos mínimos e ideais para a execução do projeto, incluindo aí conexão à Internet e disponibilidade de dispositivos (computadores, notebooks, tablets,
smartphones etc.) para a realização dos cursos disponibilizados na plataforma on-line
(DE CASTELL, BRYSON, JENSON, 2002; FEENBERG, 1991). A infraestrutura também guarda relação com a Variável #6: Formatos e com a Variável #9: Design Instrucional, no sentido de que optar por utilizar dispositivos móveis para distribuir os conteúdos irá requerer conteúdos em formatos adequados, com design instrucional adaptado para esse formato. Embora não se trate de um item diretamente relacionado ao
projeto de educação corporativa em sim, ele é importante porque pode limitar a disponibilidade de recursos, e assim restringir a utilização das ferramentas definidas.
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS
A educação corporativa é ainda um tema relativamente incipiente e com pouca produção acadêmica, principalmente quando analisado pela perspectiva da educação. Em contrapartida, os projetos de educação corporativa têm crescido em ritmo acelerado no mundo inteiro (MEISTER, 1999), e não é diferente no Brasil. Esse crescimento é nítido no mercado e nítido também para essa nova geração de trabalhadores do conhecimento (CASTELLS, 1999), embora as pesquisas sobre o assunto ainda não acompanhem, na vida real, o ritmo de expansão dessas práticas. Mas a ausência de debate sobre o assunto no meio acadêmico não significa que ele não seja relevante – na verdade, talvez seja justamente o contrário: talvez seja agora o tempo adequado para observar a educação corporativa como um movimento emergente, entendê-lo, e então contribuir para que essa prática se desenvolva de maneira sustentável e saudável, em todos os aspectos que permeia (educação, trabalho, tecnologia, sociedade).
É nesse sentido que este trabalho foi desenvolvido, na tentativa de fazer uma contribuição para a educação corporativa, aproximando-a do campo da educação e passando a analisar os processos de ensino-aprendizagem dentro do ambiente corporativo pelo viés da Pedagogia e da educação on-line. Para isso, este trabalho se
propôs a efetuar um levantamento dos principais conceitos subjacentes ao assunto – incluídos aí a sociedade, a educação, a educação para o trabalho e a tecnologia educacional – e, a partir da análise de diferentes fontes sobre esses temas, elaborar uma proposta metodológica que possa embasar a concepção e a implementação de um projeto de educação corporativa on-line.
À guisa de conclusão, para além da apresentação da proposta metodológica para concepção e implementação de um projeto de educação corporativa on-line desenvolvida neste trabalho, cumpre neste ponto formular respostas, ou pelos menos esboçar tentativas de resposta, para cada um dos questionamentos subjacentes a este trabalho apontados nos objetivos da pesquisa no Capítulo 1:
1. Qual é o contexto geral que permitiu a emergência da educação corporativa?
2. Como a Era da Informação transformou a sociedade e influenciou o surgimento da educação corporativa on-line?
3. Como o paradigma da tecnologia da informação influencia a educação corporativa on-line?
4. Como tem sido debatido o tema da educação corporativa no campo da educação – e qual é o espaço que esse tema tem ocupado nas discussões educacionais?
5. O que são as universidades corporativas e como elas se relacionam com as práticas de educação corporativa?
6. Há conflito entre universidades corporativas e universidades tradicionais?
7. Qual é o perfil dos profissionais que atuam com educação corporativa? O profissional da educação, com formação em pedagogia, está atuando ou sendo preparado para atuar com práticas de educação corporativa, com o objetivo de agregar fundamentos pedagógicos em projetos dessa natureza?
8. Quais são as tecnologias educacionais que podem e devem ser consideradas em um projeto de educação corporativa on-line, e quanto elas representam em projetos dessa natureza?
A primeira das perguntas refere-se ao contexto geral que permitiu a emergência da educação corporativa. A esse respeito, no decorrer deste trabalho foi possível observar que na verdade a educação corporativa é apenas mais um movimento dentro de um processo maior de transformação iniciado pela Era da Informação, e como tal se insere em um fluxo de economia global – muito embora alguns projetos de educação corporativa on-line tenham apenas alcance local (questão 1). Nesse mesmo sentido, o trabalho buscou elucidar, através do pensamento sociológico de Castells e outros cientistas sociais, como a Era da Informação transformou a sociedade e influenciou o surgimento da educação corporativa on-line. Isso ocorreu pelo estabelecimento de um novo paradigma (o paradigma da tecnologia da informação), que colocou a informação como a matéria base da sociedade, em detrimento do antigo modo de produção industrial e manufatureiro. Ainda, as redes de tecnologia de informação tomaram, nesse processo, papel central, ao permitir fluxo de informações em escala global e em volume sem precedentes na história (questão 2). Outra mudança fundamental ocasionada pelo paradigma da tecnologia da informação foi na forma como o homem aprende, e como isso se reflete na educação corporativa on-line. Esse novo paradigma redefiniu o aprendiz do século XXI, também chamado de “trabalhador do conhecimento” por Castells, e modificou o espaço-tempo em que os processos de ensino-aprendizagem ocorrem (questão 3).
Neste trabalho, também foi possível identificar que a maior parte do debate sobre o tema da educação corporativa foi desenvolvido no campo da administração, da economia e da gestão de pessoas, que é, via de regra, a origem dos projetos de tal natureza; e que muito pouco se tem debatido sobre o que há de fundamento educacional por trás desses projetos. Passadas já algumas décadas desde a implantação dos primeiros projetos de educação corporativa, hoje já é possível observar acertos e erros ocorridos no processo natural de desenvolvimento e acomodação dessa prática, e assim criar mecanismos de ajuste que permitam a prossecução da educação corporativa em uma direção positiva, e que possa gerar resultados benéficos para todos os envolvidos – os trabalhadores do conhecimento, a educação, a educação on-line, e para as empresas também. Isso porque um das constatações deste trabalho é que o componente pedagógico é justamente um dos pontos não contemplados nos projetos de educação corporativa on-line – e esse é mais um motivo pelo qual este trabalho aponta que a aproximação da educação corporativa com o campo da educação, além de não ser
negativa para nenhuma das partes, é fator crítico para o desenvolvimento das práticas de educação corporativa (questão 4). Conforme demonstrado no Capítulo 2 através de algumas pesquisas sobre o perfil do profissional de educação corporativa, a ausência de profissionais de educação atuando na educação corporativa é perceptível, ao mesmo tempo em que a Pedagogia é a principal área de formação recomendada para o profissional que atua com educação corporativa. Parece haver aí um descompasso entre oferta e demanda de profissionais com formação em educação para atuar em práticas de educação corporativa (questão 7). Ainda nesse sentido, este trabalho também empreendeu uma releitura sobre as universidades corporativas, ao fazer uma análise sobre o que elas significam nas práticas de educação corporativa. De acordo com o que foi discutido no Capítulo 2, trata-se de uma expressão carregada de significados – na área de administração, sempre muito positivos; já na área de educação, quase sempre muito negativos. Este trabalho evidenciou também que boa parte das críticas que se faz às universidades corporativas no campo da educação se deve a pontos obscuros no conceito, como uma possível substituição das universidades tradicionais pelas universidades corporativas, ou mesmo a concorrência de uma contra a outra por espaço e representação entre o público estudante-trabalhador, ao mesmo tempo em que as universidades corporativas se declaram dependentes de parcerias com universidades tradicionais para reconhecimento e legitimação de seus cursos e currículos. Assim, jogada luz sobre todos esses aspectos sobre as universidades corporativas, este trabalho propõe minimizar a importância da expressão universidade corporativa, entendendo-a apenas como uma expressão mercadológica, e esvaziar seu significado quando analisá- la pela perspectiva da educação; propõe-se também que em vez de utilizar a expressão universidade corporativa, priorize-se a utilização, no campo da educação, da expressão “educação corporativa”, que é na verdade o cerne de toda universidade corporativa e sobre a qual pode-se produzir um debate mais agregador e positivo (questões 5 e 6).
Já no Capítulo 3, esta pesquisa apresenta uma breve revisão de conceito sobre tecnologia educacional e educação on-line, buscando fugir ao óbvio e discutir a tecnologia educacional apenas como meio para execução de um projeto de educação corporativa on-line. Nesse sentido, esse trabalho concorda com outros estudos na área segundo os quais é tempo de se pensar em uma teoria educacional da tecnologia, superando o debate tecnicista sobre o assunto no campo da educação. Assim, a tecnologia passa a ser entendida apenas como um recurso, dentre vários outros, nas
mãos de profissionais da educação, que poderão extrair dela o que há de melhor para atingir os objetivos de um projeto de educação corporativa que se insere na Era da Informação e no paradigma da tecnologia da educação. É por esse motivo que o Capítulo 3 apresenta, além dessa necessária discussão sobre o conceito da tecnologia educacional e da educação on-line, apenas um breve inventário das principais tecnologias educacionais empregadas na educação on-line (questão 8).
Por fim, com base em tudo o que foi discutido nos capítulos anteriores, o Capítulo 4 apresenta alguns fatores que devem ser considerados na concepção e implementação de um projeto de educação corporativa on-line, agrupando-os em uma proposta metodológica que inclui premissas e variáveis (de contexto, pedagógicas e tecnológicas) que devem ser analisadas e definidas, de forma a contribuir para um projeto de educação corporativa on-line que leve a cabo os objetivos que o projeto se propõe a atingir. Assim, foi elaborado um esquema gráfico, apresentado na Figura 6, que resume os principais fatores a serem considerados na concepção e implementação de um projeto de educação corporativa on-line.
Com a elaboração dessa proposta metodológica e toda a discussão que a acompanha, este trabalho pretende contribuir para o estabelecimento e evolução do tema da educação corporativa, incluído agora no campo da educação e delimitadas suas fronteiras com outras áreas. Assim, destaca-se como contribuições desta pesquisa os itens que seguem. Primeiro, a aproximação entre educação e educação corporativa, nos termos propostos neste trabalho, pode representar ganhos para as duas práticas; para a educação porque abre mais um campo de atuação no inesgotável universo da prática educacional; e para a educação corporativa porque o aporte dos fundamentos pedagógicos em projetos dessa natureza pode representar um salto de qualidade e assertividade dessas práticas. Assim, entende-se essa como uma aproximação benéfica para ambas as partes, e por isso desejável. Resta analisar, e esse pode ser objeto de futuras pesquisas, qual a hierarquia da relação entre as duas práticas, no sentido de estabelecer uma simbiose (para emprestar aqui o termo da biologia, que define a relação mutuamente vantajosa entre dois ou mais organismos de “espécies” diferentes) ou incorporar a educação corporativa definitivamente dentro do campo da educação. Ainda nesse sentido, uma segunda contribuição de destaque desta pesquisa é o espaço-tempo que ela ocupa. Não ao acaso, esta pesquisa foi desenvolvida dentro de um programa de pós-graduação em Educação, em uma universidade que é tradicionalmente reconhecida
como um bastião da “educação para a vida”, da formação de professores e de pesquisadores em educação. Por isso, entende-se como mérito desta pesquisa trazer esse debate para dentro da área da educação, mas pela perspectiva da educação, e não pela perspectiva enviesada da lógica de mercado, proveniente do campo da administração, gestão de pessoas ou qualquer outro. Mais uma contribuição desta pesquisa é o delineamento, ainda que primário, do perfil do profissional que atua com educação corporativa, em comparação com a formação dos profissionais de educação provenientes dos cursos superiores de Pedagogia disponíveis no Brasil. Neste ponto, destaca-se a abertura de novas oportunidades para pesquisas básicas, que busquem confirmar o delineamento desse perfil profissional, e pesquisas aplicadas, que investiguem o impacto do perfil do profissional de educação no sentido de prepará-lo para atuar com educação corporativa. A última contribuição relevante deste trabalho foi justamente a apresentação de uma proposta metodológica para concepção e implementação de projetos de educação corporativa on-line. Tal proposta metodológica pretende ser, já a partir da publicação deste trabalho, um instrumento entregue ao mercado e à sociedade, especialmente para aqueles que atuam com educação corporativa, seja ele proveniente ou não do campo da educação. Espera-se que esse instrumento seja aplicado para embasar projetos de educação corporativa on-line, e que traga resultados significativos para o sucesso de tais práticas. Além da aplicação em projetos de educação corporativa on-line, a proposta metodológica ora apresentada também se serve como balizador de futuras pesquisas, em âmbito acadêmico, sobre o tema da educação corporativa, no sentido de que abre discussões ainda pouco exploradas sobre a educação corporativa como uma prática de educação. De forma especial, uma lacuna não preenchida por esta pesquisa é a análise teórico-metodológica da educação aplicada no contexto da educação corporativa. Esse é mais um item que merece desdobramento em futuras pesquisas sobre o tema: explorar os fundamentos pedagógicos provenientes dos estudos em educação, como o sócio-interacionismo de Lev Vygostky e a epistemologia genética de Jean Piaget, e analisar quais contribuições essas teorias educacionais podem agregar às práticas de educação corporativa.
É certo que muito mais há que se produzir nesse debate, como ficou claro no decorrer deste trabalho, com diversos pontos ainda não aprofundados. Tem-se por certo, portanto, que se trata de um debate iniciado há pouco tempo, que procura dar forma a uma prática ainda incipiente, mas com grande representação já na atualidade e que ainda
possui grande potencial de expansão futura – daí a importância de um debate esclarecedor e contínuo.
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