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Evento 2 em comparação com Evento 5

5.8. Variação na Declividade do Perfil

De acordo com a diferença das declividades dos perfis avaliados ao longo da praia do Estaleiro, é possível considerarmos que a porção sul possui uma maior declividade quanto comprada com a porção norte. Isso pode ser explicado pelo fato da porção sul possuir característica retilínea, tornando-a mais exposta a ação das ondas, sendo assim a maior energia que chega a costa juntamente com a elevada capacidade de remobilização de sedimento na face da praia resulta em perfis de maior declividade. Tal remobilização sedimentar reflete, na maioria das vezes, na diminuição da largura do perfil.

Em 1983, Short & Wright descreveram um modelo de variação de perfil de praia, bem como os aspectos hidrodinâmicos e sedimentares, estudando seis modelos de praias, entre elas, uma reflectiva. Segundo os autores, a ocorrência dos tipos morfológicos de praia é dependente de dois fatores principais: o nível de energia de onda (que controla o limite da zona de espraiamento) e a granulometria (que influencia

88 no transporte do sedimento). As variações na textura dos sedimentos praiais ao longo e através da costa, e o padrão de distribuição dos mesmos, fornecem importantes informações sobre os principais processos atuantes neste sistema (ARAUJO, 2008).

Em 1999, Menezes avaliou aspectos morfodinâmicos das praias do litoral centro-norte catarinense, onde definiu características condizentes com os resultados deste estudo. O autor afirma que a face da praia do Estaleiro é composta por areia média a grossa com fração média de 0,59 mm. A porção norte da praia foi caracterizada por declividade média de 8 graus, com ondas do tipo mergulhante e ascendente com altura média de 0,7 metros, enquanto que a porção sul apresentou declividade média de 9 graus na face da praia e ondas do tipo ascendente, com média de 1 metro. De acordo com Araujo (2008), o sedimento grosso está associado com regiões mais energéticas, e sedimentos mais bem selecionados se encontram em ambientes com suprimento sedimentar estático, que podem ser retrabalhados e distribuídos segundo as condições hidrodinâmicas.

Calliari (2003) afirma que o aumento da declividade da antepraia está relacionado diretamente com a forma de quebra da onda. O autor classifica praias reflectivas como ambientes com zona de arrebentação formada por ondas do tipo ascendente e mergulhante. Esse tipo de ambiente recebe um forte impacto de ondas com regularidade, modificando o perfil da praia.

O perfil da porção central da praia do Estaleiro apresentou as maiores declividades, este se mostrou bastante suscetível tanto a deposições como perdas no volume sedimentar. A forte declividade gerada neste setor está relacionada com o afloramento rochoso existente no local, o qual se estende desde a porção emersa até a porção submersa da praia. Esta característica faz com que o trem de ondas incidentes na praia encontre barreiras antes mesmo da profundidade de quebra, alterando assim sua direção de propagação. De acordo com Gomes (2003), em litorais recortados, as ondas parecem se concentrar nos pontos mais avançados. Isto ocorre porque as ondas encontram águas rasas primeiramente nesses pontos, mudando a direção para essas regiões, consequentemente, a energia das ondas concentra-se nesses pontos.

Uma subida do nível do mar sobre a costa implica em uma sedimentação sobre o fundo marinho. Neste mesmo momento, existe uma migração da linha de costa para o interior do sistema, implicando em uma retração da face praial e acumulação destes sedimentos na área imersa (ARAUJO, s.d.). Estes sedimentos tendem a ficar

89 depositados no fundo até a próxima incidência de ondas com capacidade para remobilização destes.

6. CONCLUSÃO

Os cenários estudados no decorrer deste projeto apresentaram resultados individuais em cada situação proposta, porém, na maior parte deles foi observado um padrão de mobilidade similar entre os perfis praias. A porção central da praia do Estaleiro (representada pelo perfil 4) foi o local onde ocorreram as maiores variações do volume sedimentar, assim como da linha de costa.

Verificou-se que as ondas de tempestade provenientes do quadrante sudeste foram dominantes nos processos avaliados do conjunto de dados e são responsáveis pelas maiores variações volumétricas, ou seja, maior transporte longitudinal ao longo da costa. Enquanto que as ondas de nordeste foram avaliadas em apenas uma situação, mas estas apresentaram também elevados valores de variação morfológica. Devido a suscetibilidade da praia do Estaleiro tanto para ondulações de sudeste e nordeste, avaliadas nos projetos, assim como sul e leste descritas por Short (1999), é possível definirmos a característica de praia exposta, já constatada por diversos autores.

As altas taxas de variação morfológica evidenciadas pelo evento 3, o qual predominou a ondulação de Noroeste, demonstra que o promontório rochoso na extremidade norte da praia não oferece significativa proteção a essa porção, uma vez que os dados dos perfis 1 e 2 nesta situação sofreram uma perda sedimentar de um total de 30,30 m³/m. Levantamentos realizados por Wrigth et al., (1991) indicam que os fluxos de sedimentos são de uma magnitude bem maior durante as tempestades do que durante os períodos dominados pela ação das ondas consideradas normais, o que explica as altas taxas de variação morfológica destacadas neste estudo.

Eventos de alta energia se mostraram responsáveis pela retração da linha de início da vegetação, uma vez que todas as análises semanais destes eventos evidenciaram o recuo desta linha pela influência do limite máximo da maré. Além da influência das ondas sobre a costa, outro parâmetro que se mostrou restritivo para o desenvolvimento progradativo da vegetação foi a largura da face exposta da praia. Na

90 porção norte, a qual apresentou um perfil mais extenso, foram evidenciadas as maiores variações positivas da linha de vegetação.

De forma geral, a maior deposição sedimentar na porção norte da praia e consequentemente perda de sedimento na porção sul, é reflexo da dominância do trem de ondas incidentes do quadrante sudeste nos eventos avaliados. Entretanto, não se pode afirmar que o transporte longitudinal ao longo da costa respeita uma única orientação S-N, principalmente devido aos elevadores valores de variação volumétrica no perfil 3, o qual se localiza ao lado norte do afloramento rochoso, enquanto que o perfil 4 fica ao lado sul deste.

As grandes modificações nos perfis 3 e 4 são característicos de um ambiente com processo de rotação praial, uma vez que o afloramento rochoso serve como barreira para o sedimento que é transportado longitudinalmente ao longo da enseada. O elevado acúmulo sedimentar e progradação da linha de costa no perfil 3 demonstra que o transporte sedimentar também ocorre com orientação N-S, apesar do predomínio de sentido S-N. Essa troca sedimentar entre as extremidades da praia, onde não é observada a perda líquida de sedimentos permite a suposição de um fenômeno de rotação praial, uma vez que análise de um processo morfodinâmico como este deveria ser avaliado em uma maior escala de tempo para que seja de fato conclusivo.

De acordo com a metodologia empregada e apesar das limitações encontradas ao longo do projeto, as conclusões obtidas por meio deste estudo tornam-se pertinentes devido a morfologia da praia ser de característica refletiva. Como já mencionado, praias com essa configuração possuem a maior parte do sedimento na porção subaérea, permitindo que a maior parte do volume sedimentar seja avaliado através de aquisições realizadas na face da praia, o que garante uma maior precisão dos dados coletados e resultados obtidos.

Toldo et al., (2003), propõe um modelo conceitual para praias com circulação fechada, no qual os sedimentos que entram na zona de surfe e antepraia são provenientes da erosão da linha de praia devido a influencias de ondas de alta energia.

Inicialmente estes sedimentos são transportados para zonas próximas a costa, onde permanecem depositados em uma determinada profundidade. Após a passagem de eventos de tempestade e estabilização do sistema praial, a hidrodinâmica local retorna a sua normalidade, fazendo com que a fração de sedimento que foi removida pelas ondas de ressacas sejam novamente incorporadas a face da praia, fazendo progradar a linha de

91 costa. Além das características que definem a praia do Estaleiro como uma enseada de sistema fechado, com poucas e fracas correntes de retorno, essa deposição sedimentar nas zonas próximas a costa, proposta pelo autor, explicam o balanço sedimentar neste ambiente.

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