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Variações entre abordagens de Glaser e Strauss

2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

3.2 APRESENTANDO O MÉTODO DE PESQUISA

3.2.2 Variações entre abordagens de Glaser e Strauss

Visando conhecer e distinguir ambas as abordagens, este tópico se dedica em comparar ainda que brevemente as concepções glaserianas e straussianas da TFD. Alguns autores sugerem que enquanto Glaser procurou desenvolver os principais tópicos da TFD clássica, Strauss, por sua vez, juntamente com Corbin, procurou desenvolver ferramental analítico. Neste ponto, residem as principais diferenças de Glaser em relação a Strauss e Corbin (HEATH; COWLEY, 2004). Glaser fora excessivamente crítico, alegando que a abordagem de Strauss e Corbin não permite que a emergência da teoria a partir dos dados, mas sim, apenas uma descrição conceitual completa (KELLE, 2005; MANSOURIAN, 2006).

Heath e Cowley (2004), analisaram as diferenças entre as abordagens de Glaser e Strauss e Corbin. Inicialmente, verificaram diferenças na ênfase dada à dedução e indução. Para os autores, enquanto Glaser enfatiza a indução, Strauss e Corbin procuram equilibrá-las no processo da pesquisa. A Figura 11 apresenta como a abordagem de Glaser sugere que os dados sejam analisados e codificados. Nesta perspectiva, todos os dados são importantes, porém procura-se evitar que dados sejam ajustados em ideias preconcebidas ao mesmo tempo em que a criatividade é exigida. O pesquisador deve ser capaz de lidar com a desordem e o enfado da comparação constante até que a teoria emerja dos dados (HEATH; COWLEY, 2004).

Figura 11 – Processo de indução, dedução e verificação segundo Glaser.

Fonte: Adaptado de Heath e Cowley (2004, p. 144).

Dados Dados Dados Dados Dados Dados Dados Dados Indução

Questões e padrões emergentes

Dedução/Verificação Dedução/Verificação Dedução/Verificação

Na abordagem de Strauss e Corbin, ao contrário de Glaser, afirmam que a ênfase na indução fora exagerada na abordagem original. Contudo, a característica da emergência se mantém, o que é um indicativo de que as ideias e hipóteses geradas demandam ser concretizadas nos dados, pela validação, como apresentado na Figura 12.

Figura 12 – Processo de indução, dedução e validação segundo Strauss e Corbin.

Fonte: Adaptado de Heath e Cowley (2004, p. 145).

Especificamente, em Corbin e Strauss (1990) é apresentada uma postura mais clara com relação à indução através da comparação dos dados no curso da pesquisa. Para os autores, o papel de indução não deve ser forçado, ao mesmo tempo em que, o papel da dedução demanda validação e elaboração de novas comparações de dados para assegurar a emergência. Assim, o equilíbrio entre dedução e validação, são baseados em grande medida na experiência do pesquisador e nas ideias geradas a partir dos dados (HEATH; COWLEY, 2004).

Além das diferentes ênfases ao processo de indução e dedução na pesquisa, Glaser e Strauss divergem com relação ao processo analítico de codificação dos dados. A TFD clássica preconiza dois níveis de codificação: categorização e integração (GLASER; STRAUSS, 1967). No Quadro 12 é possível verificar os desenvolvimentos realizados por Glaser e Strauss em seus trabalhos subsequentes. Glaser manteve em duas fases o processo de codificação, enquanto Strauss e Corbin ampliaram para três fases (CORBIN; STRAUSS, 1990). Contudo, Heath e Cowley (2004), ressalva que ambos os autores concordam que as fases não devem

Dados

Dedução

Validação

Dados

Indução Indução analíticoModelo

Dados Dedução Validação Dados Dados Dedução Validação Dados Teoria

ser desenvolvidas de maneira linear, sequencial, mas sim, empregadas de maneira interativa.

Quadro 12 – Processo de codificação comparado.

Glaser e Strauss (1967)

Glaser Strauss e Corbin

Fase de Categorização - - - Fase de Integração Codificação substantiva

Dependente dos dados.

Codificação aberta

Gerar categorias a partir dos dados

Técnicas analíticas envolvem questionamentos intensos (linha por linha ou por parágrafo)

Sequência da fase inicial As comparações, com foco em dados, tornam-se mais abstratas, as categorias são ajustadas e emergem possíveis quadros. Codificação axial Agrupamento de categorias em eixos Busca aprofundar e relacionar as categorias Estrutura e processo Modelos analíticos (esquemas que respondam questões do tipo o quê? Por quê? Como, quando e onde?

Codificação teórica

Adequação e refinamento das categorias em torno de um núcleo emergente. Codificação seletiva Integrar e refinar as categorias Descobrir a categoria central Técnicas (memorandos e diagramas)

Fonte: elaborado pelo autor com base em Heath e Cowley (2004, p. 146) A fase inicial do desenvolvimento da pesquisa com TFD, em Glaser, chamada codificação substantiva, é reconhecida pela dependência dos dados da pesquisa. Em Strauss e Corbin (1990; 2008) a denominação é codificação aberta, e também depende dos dados, porém possuí o acréscimo de técnicas para a categorização, visando identificar propriedades e dimensões das categorias. Para Heath e Cowley (2004), a adoção de questionamento intenso em Strauss e Corbin pode gerar centenas de códigos, que talvez justifique um nível a mais de codificação, no caso a codificação axial.

Na codificação axial, Strauss e Corbin (1990; 2008) desenvolvem o agrupamento das categorias em eixos, os quais permitem que categorias axiais emerjam. Procura-se encontrar o processo de interação entre as categorias por meio de relações causais, ou seja, um modelo analítico. Heath e Cowley (2004, p. 146) destacam que “a teoria é construída sob o controle de um quadro específico que agora dita de codificação para produzir um modelo linear de causas, as condições intervenientes e consequências que explicam o fenômeno, contexto, ações e interações”. Neste sentido, a codificação axial pode limitar a emergência da teoria como defendida na concepção original da TFD e pode fazer com que pesquisadores caiam na armadilha linear do positivismo.

Neste ponto, destaca-se que a presente tese apoiou o modelo analítico consequencial com as noções dos sistemas complexos. Através das propriedades dos sistemas complexos adaptativos a análise das relações causais entre categorias evitou a causalidade linear, não a excluindo, mas considerando que outros efeitos não lineares podem ocorrer. Notadamente, o uso da lente da complexidade para auxiliar o ‘modelo analítico’ contribuiu para evitar as armadilhas da linearidade.

Dá original fase de integração, Glaser desenvolveu o processo de codificação teórica, que é em boa medida semelhante ao processo de codificação seletiva de Strauss e Corbin. Neste momento, a codificação em Glaser procura ser refinada orbitando em torno de uma categoria central emergente. Em Strauss e Corbin (2008) a codificação seletiva desenvolve as categorias buscando a saturação teórica, ao mesmo tempo em que se busca uma categoria central que aglutine as demais categorias. Eleger uma categoria central parece o ponto ainda comum entre as duas abordagens. Contudo, o uso de técnicas é o diferencial da linha straussiana, o que deveria ser um mérito, porém tem gerado críticas de que tais técnicas limitam a sensibilidade e ideias essenciais para a geração de teoria (HEATH; COWLEY, 2004).

3.2.3 Razões para a escolha da TFD como método de pesquisa