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Variabilidade morfológica de Brevipalpus

Vários autores já observaram variações intraespecíficas no gênero, especialmente em B. californicus, B. obovatus, e B. phoenicis, provavelmente por serem essas as espécies mais estudadas (DE LEON, 1961, 1967; MANSON, 1967; KNORR, 1968; HARAMOTO, 1969; GONZALEZ, 1975; BAKER et al., 1975; BAKER; TUTTLE, 1987; OCHOA, 1985; EVANS

et al., 1993; CHIAVEGATO, 1995; WELBOURN et al., 2003; BEARD et al., 2012). Como resultado dessa variação, um grande número de espécies sinônimas tem sido relatadas na taxonomia desse grupo.

Manson (1967) relatou a presença de variabilidade no padrão de reticulação das áreas dorsolaterais do podossoma e o tamanho das setas do idiossoma nas três espécies principais do gênero, sugerindo que tal variação poderia estar associada às diferentes hospedeiras desses ácaros. Gonzalez (1975) afirmou que a mesma variação poderia ser encontrada em populações de ácaros coletados a partir de uma única espécie de planta hospedeira. Por isso, tem havido a preocupação de que B. phoenicis, B. californicus e B. obovatus possam representar um grupo complexo que carece de mais estudos para uma correta identificação das espécies do gênero (KNORR, 1968; BAKER; TUTTLE, 1987).

Em Brevipalpus a quantidade de reticulação no propodossoma e opistossoma pode

variar com a idade e a qualidade nutricional do ácaro (MORISHITA, 1954; HARAMOTO, 1969; OCHOA, 1985; EVANS et al., 1993). Além disso, as técnicas de montagem podem também afetar a ornamentação dorsal e ventral do ácaro sob microscopia de luz. Já foi observado que superaquecimento e clareamento excessivo de espécimes montados em meio de Hoyer ou Berlese podem deixar a área central do prodossoma completamente lisa (WELBOURN et al., 2003). Esse mesmo caráter pode variar com o período entre a ecdise e a coleta e montagem do ácaro, pois o padrão de reticulação é pouco visível logo após a ecdise (HARAMOTO, 1969).

Variação em ninfas de B. phoenicis foi relatada em espécimes coletadas no Egito (ATTIAH, 1956), na Índia (MANSON, 1963), na Flórida (KNORR, 1968), em Cuba (PRIETO TRUEBA, 1984) e na Costa Rica (OCHOA, 1985; EVANS et al., 1993). Gonzalez (1975) rejeitou a maior parte da variação relatada, atribuindo-as a possível confusão de estádios imaturos, resultando na identificação incorreta de ninfas e afirmou que a variação real em B. phoenicis era mínima.

O solenídio no tarso da perna II, característica que também é amplamente utilizada para separar espécies dentro do gênero, apresenta variações no formato e tamanho, como

relatou De Leon (1967) em um estudo com B. phoenicis coletados na ilha de Trinidad.

Durante estudos em populações de Brevipalpus encontradas em laranjeiras com sintomas de leprose nas regiões de Bella Vista e Concórdia na Argentina, onde foram feitos os trabalhos iniciais que indicaram que a leprose dos citros tinha Brevipalpus obovatus como vetor naquele local, foram encontrados ácaros com um solenídio no tarso da cada perna II ou dois e

surpreendentemente, uma proporção alta (20-25%) de um terceiro tipo, com um solenídio em uma perna, e dois, na outra, que foi referido como assimétrico (KITAJIMA et al., 2010).

Já existem tentativas de taxonomia molecular, recorrendo-se a marcadores

moleculares (GROOT; BREEUWER, 2006; NAVIA et al., 2013). No entanto, os

conhecimentos sobre a genética molecular e filogenia de ácaros Brevipalpus ainda são

escassos. Recentemente há a tentativa de identificação de espécies através de uma porção

padronizada da região COI, o DNA barconding. Alguns estudos sobre a variabilidade

genética de B. phoenicis (Geijskes), utilizando marcadores moleculares, foram realizados por Rodrigues et al.(2004), Groot eBreeuwer (2006) e Navia et al. (2013).

Rodrigues et al.(2004) avaliaram a região COI do mtDNA e marcadores RAPD, para

estudar amostras de São Paulo, coletadas principalmente em citros, e ácaros da Flórida. Ácaros Brevipalpus do Texas, Oregon, Carolina do Sul, EUA, Rio de Janeiro e Minas Gerais, Brasil, foram incluídos no estudo. Os haplótipos do Brasil foram agrupados em uma clade distinta do grupo dos EUA, sugerindo uma subdivisão geográfica através da análise de

mtDNA. Groot eBreeuwer (2006) realizaram um trabalho com ácaros do gênero Brevipalpus

comamostras do Brasil e Holanda, traçando uma associaçãoda filogenia de endossimbionte e

dos ácaros Brevipalpus. Analisaram filogeneticamente 19 linhagens e inferiram que a

taxonomia molecular, fundamentada nas sequências do mtDNA, foi incompatível com a taxonomia clássica baseada na morfologia, sugerindo a necessidade de uma revisão taxonômica para o grupo. A conclusão é resultante do agrupamento de três linhagens identificadas como B. phoenicis pela taxonomia clássica, agrupadas na clade identificada

como B. obovatus pela taxonomia molecular. Navia et al. (2013), em um estudo recente

utilizando o marcador mitocondrial citocromo oxidase subunidade I (COI) identificaram a presença espécies crípticas entre os ácaros do gênero Brevipalpus.

A anatomia interna de B. phoenicis é complexa tendo Alberti e Kitajima (2010) gerado uma descrição preliminar.

Um aspecto ainda pouco explorado nos estudos com VTB refere-se às diferenças na eficiência de transmissão de diferentes populações e espécies de Brevipalpus, mesmo nos patossistemas mais estudados como a leprose dos citros. Por exemplo, a descrição inicial da

transmissão da leprose por ácaros envolvia B. obovatus (FREZZI, 1940; VERGANI, 1945),

mas em todos os casos posteriormente relatados, B. phoenicis foi apontado como vetor, como determinado por Musumeci e Rosseti (1963) no Brasil, apesar de um relato não confirmado de Knorr (1968) de que na Flórida, B. californicus e B. obovatus transmitiram a leprose. A taxonomia das espécies que atuam como vetoras de vírus tem sido recentemente questionada

tanto no aspecto morfológico como molecular. Mesa Cobo (2005) em sua ampla revisão taxonômica de tenuipalpídeos já indicava uma variação morfológica no padrão exibido pelo

histerossoma entre B. phoenicis. Estudos usando marcadores moleculares mostraram que

espécies tidas como uma, segundo características morfológicas, poderiam ser outra, baseado

nestes marcadores (GROOT;BREEUWER, 2006). Recentes estudos de diferentes populações

de B. phoenicis notaram variações na forma da espermateca e algumas outras características externas (OCHOA et al., 2011).

Percebe-se assim que estas questões estão longe de estarem resolvidas e o objetivo deste trabalho foi contribuir para esclarecer algumas destas pendências, combinando técnicas morfológicas (microscopia de luz e eletrônica) com a capacidade de transmissão de vírus de diferentes espécies. Um grande número de ácaros foi analisado em detalhe, incluindo-se características morfológicas externas e internas de diferentes populações de B. phoenicis e de outros Brevipalpus para encontrar características além das setas laterodorsais e solenídios no tarso da perna II que pudessem auxiliar na discriminação das espécies.

3 MATERIAL E MÉTODOS

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