Existem várias definições de democracia. Para todos os gostos.
Escolher uma delas não é problemático. O grande desafio é criar uma democracia que consiga conciliar o aspecto formal (proce-dimento) com o seu conteúdo (substância). Ou seja, transformar uma democracia de direito em democracia de fato. Como pon-derou o ex-presidente das Filipinas, Fidel Valdez Ramos, “o de-safio político para os povos de todo o mundo atualmente não é apenas substituir regimes autoritários por democráticos. É, além disso, fazer a democracia funcionar para as pessoas comuns”.17
A igualdade formal (procedural) da democracia liberal18 pode servir de fachada para a manutenção de níveis substantivos de desigualdade e de violações de direitos civis. Por sua vez, igualda-de social sem liberdaigualda-de política igualda-desemboca em ditaduras popu-lares por falta de competição eleitoral e de respeito aos direitos políticos. Há ainda um outro óbice, de natureza metodológica.
Trata-se da dificuldade em se encontrar um padrão de medição que possa ser considerado como sendo a essência da democracia
“substantiva”. E mais, como escolher qual das “substâncias” será escolhida sem voltar a cair, no proceduralismo (Schapiro, 2003).
Será que procedimentos e substância devem ser vistos como entidades apartes que não se influenciam reciprocamente? Como conseguir um meio termo entre democracia como mera lista de procedimentos e democracia que se identifique com a concep-ção substantiva das necessidades da populaconcep-ção? É possível obter procedimentos com substância, evitando que a democracia
fi-17 Retirado de Sen (1999, p.183).
18 Para o (des)entrelaçamento entre democracia e liberalismo ver, respectivamente, Bobbio (2002) e Zakaria (2003).
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que “oca”? E, simultaneamente, substância com procedimentos impedindo que a democracia seja inócua?
A contenda entre democracia formal (“burguesa”) versus demo-cracia substantiva (“popular”) fez parte do debate político no sé-culo passado e persiste no início do novo sésé-culo, em especial nos países do Terceiro Mundo. O que continua em jogo é a disputa entre a igualdade política versus a desigualdade socioeconômica.
Para os marxistas de pouco vale para o trabalhador o direito de comparecer, de quatro em quatro anos, às urnas para escolher seu representante, se sua condição diária é de exploração.
Ainda para os marxistas, quando os trabalhadores procuram se organizar politicamente, somente os partidos que aceitem a ordem burguesa, ou que mesmo a rejeitando não tem chances de vitória, são aceitos na competição política. Para eles, isto não é democracia, mas ditadura da burguesia. Caso recente é o Parti-do Comunista Marxista-Leninista Parti-do EquaParti-dor que foi proscrito da competição eleitoral por ter chances de vitória. Para driblar a proscrição, este partido criou um braço político legalizado o Movimento Popular Democrático (MPD) que ajudou a eleger o presidente Luciano Gutierrez.
Com o passar do tempo, as democracias “populares” marxistas foram ruindo. Tais democracias não conseguiram nem melhorar a vida dos trabalhadores nem lhes dar possibilidade de escolher competitivamente seus representantes. Com isso, a democracia liberal formal prevaleceu e com ela a importância da democracia política. Este tipo de democracia conseguiu estabelecer um pro-cesso estável de desenvolvimento da riqueza, da alfabetização e da urbanização. Isso, contudo, é válido, em especial, para países centrais. Já para a maioria dos países periféricos...
Eis o paradoxo. A democracia na periferia, em regra, funciona para uma minoria. Vai contra a lição de Tocqueville segundo a qual a democracia se justifica quando favorece o bem-estar do maior número de pessoas (Aron, 1982). Este mal-estar corrói o componente substantivo da democracia tocqueviliana.19 Para os
19 Curiosamente já há nos EUA quem se preocupe com os efeitos políticos da crescente concentração de renda norte-americana. Há o receio que isto cimentará o surgimento de um regime menos democrático, i.e., plutocracia com outro nome (KRUGMAN, 2002).
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está na competição eleitoral. É que a concepção schumpeteriana de democracia põe em relevo a escolha dos governantes em vez de como eles exercem o poder.
Zakaria (1997), ao analisar como os governantes exercem o poder, mostrou como a ampliação das eleições pelo mundo afora foi responsável pelo surgimento do que denomina de “democra-cia iliberal”. Ou seja, a democra“democra-cia em que os eleitos falham em proteger direito básicos dos cidadãos. A aparência de democracia torna-se uma grande ameaça à própria democracia.
Aos poucos, o conceito de democracia voltou a ser crescen-temente questionado. No meu caso, não para substituí-lo, mas para aprofundá-lo mostrando suas limitações, particularmente, em países onde a desigualdade social atinge níveis abissais20 e os direitos dos cidadãos são cotidianamente violados sem grande perspectivas de reparação. É o retorno da antiga disputa entre
“formalismo” e “substância”, só que em outro patamar, mercê das lições da história. Hoje, já se sabe da existência de fortes indícios de que liberdades econômicas e políticas se reforçam mutuamente, em vez de serem conceitos antagônicos.
Sen (1999), por exemplo, mostra-se preocupado em não dei-xar que a democracia seja uma mera competição eleitoral. O in-telectual indiano, não por acaso, descreve o caso do tigre real de Bengala que habita a floresta de Sunderban. Há uma lei que proíbe caçá-los, protegendo-os. A floresta também é famosa pela qualidade de seu mel. Os pobres da região arriscam suas vidas na coleta do mel. Vários coletores são mortos anualmente pelos tigres por falta de oportunidade de levarem uma vida decente.
No Nordeste brasileiro, vários pescadores de lagosta morrem ou ficam inválidos, por mergulharem em grandes profundida-des sem balão de oxigênio. Ao retornar à superfície, a embolia pulmonar os mata ou os aleija. E o que dizer de emigrantes
bra-20 De acordo com Ricardo Paes de Barros, para um nível de desigualdade parecido com a média mundial, o Brasil, com sua renda per capita, deveria ter 10% de pobres em sua população. Tem, todavia, 30%. Em termos mundiais, a média de rendimentos dos 10%
mais ricos da população de um país é cinco vezes maior do que a dos 40% mais pobres.
No Brasil, ela é 30 vezes maior. Na Argentina, 10 vezes (DA SILVA, 1999).
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sileiros que morrem de sede no deserto dos EUA por tentarem ilegalmente uma melhor condição de vida? Qual a importância da democracia para o miserável coletor de mel, para o pescador de lagosta e para o emigrante brasileiro? A democracia não pode estar desligada do contexto socioeconômico em que vivem os indivíduos. Do contrário, torna-se, para muitos, irrelevante.
A perda da esperança das massas por uma solução institucio-nalizada para seus problemas, leva à descrença na democracia.
Daí o apelo do Movimento dos Sem-Terra, dos zapatistas, dos senderistas, dos chavistas, dos “cocaleros” bolivianos etc., à re-volução social. O campesinato seria a vanguarda do socialismo.
A situação agravou-se com a introdução de programas de estabi-lidade econômica na América Latina, de inspiração neoliberal.
Em regra, a situação de pobreza das massas deteriorou-se. Como lembra ironicamente Paula Magariños, “com a estabilidade, os pobres podem pelo menos programar a própria miséria”.21 Si-tuação que ameaça se espalhar pela classe média que está cada vez mais empobrecendo (Falcão, 2004). Ou seja, aumentar-se o número de ricos e de pobres.
Há um vazio conceitual. As teorias sobre democracias e sobre democratização não são persuasivas. Tais teorias são aplicadas, primordialmente, em países com tradição democrática. O que não é o caso do Brasil. Por isto mesmo, elas se chocam com a realidade de países periféricos. A visão schumpeteriana de demo-cracia ilustra esta situação. Como veremos a seguir.