1 1 Evolução dos conceitos de paisagem e de carácter da paisagem 1.1.1 Paisagem
2. Componentes do carácter da paisagem
2.1 Componentes telúricas
2.3.4. Vegetação e biodiversidade
A região Macaronésica constitui um dos centros de biodiversidade insular mais importantes do planeta, com a taxa de endemismos mais alta da Europa.119 Faz inclusivamente parte - em conjunto com a região Mediterrânica - de um dos 26 Hotspots de biodiversidade do planeta.120 No entanto, os diversos arquipélagos contribuem de forma diferente para esta biodiversidade: enquanto o número de espécies endémicas de organismos terrestres é de 420 para os Açores, em Cabo Verde existem 540 endemismos, a Madeira e as Selvagens possuem um total de 1 419 e nas Canárias encontram-se 3 672 espécies endémicas.121 Assim, enquanto as Canárias contribuem 62% para a riqueza específica destas ilhas, a Madeira e as Selvagens contribuem 22%, Cabo Verde 9% e os Açores apenas 7%.122 Para Paulo Borges et al a variação na diversidade das espécies endémicas é explicada por factores abióticos - de onde se destacam os factores
evolução a partir de um estado inicial pós-distúrbio; a degeneração manifesta-se como uma distorção na estrutura da comunidade e a regeneração num regresso a um estado próximo do anterior ao distúrbio. A principal diferença entre sucessão e regeneração é que no primeiro caso podem surgir comunidades intermédias ou pioneiras. ELIAS, R. op. cit. p.5 -6.
113 Idem, ibid.
114 Quando os factores de regeneração são intensos (deslizamento de terras por exemplo) e as áreas afectadas são de dimensão
elevada a regeneração é do tipo catastrófico; se os factores são menos acentuados (quebra de algumas árvores devido ao vento, por exemplo) e as clareiras abertas são menores a regeneração é do tipo por clareiras. ELIAS, R. op. cit. p.3 - 5.
115 DIAS, E. et al (2007) op. cit., p. 33. 116 DIAS, E. (1996) op. cit.p. 261. 117 DIAS, E. et al (2007b) op. cit., p. 74. 118 Idem, p. 74-75.
119 GOBIERNO DE CANARIAS - “Biodiversidade terrestre en la Macaronésia”. Canarias: Gobierno de Canarias, Consejería de Medio
Ambiente y Ordenación Territorial, 2008. p. 2.
120 BORGES, P. et al (2010b) op. cit. p. 472.
121 MARTÍN, J.et al (eds.) - “Using taxonomically unbiased criteria to prioritize resource allocation for oceanic island species
conservation”. “Biodiversity Conservation” 19 (2010) p. 1661.
climáticos e geomorfológicos - enquanto a diversidade de espécies introduzidas tem geralmente causas antropogénicas.123
Na mais recente “Listagem da fauna e flora terrestres dos Açores” refere-se que a biodiversidade total conhecida para os Açores é de 6 164 taxa individual (incluindo espécies e subespécies) de todos os grandes grupos de organismos terrestres que se reproduzem na natureza.124 A maior fatia pertence ao grupo dos artrópodes (insectos, aranhas, centopeias, ácaros etc.) com cerca de 37,28% dos taxa e a seguir encontram- se as plantas vasculares com 1110 taxa individuais, entre pteridófitos e espermatófitos.125 A riqueza específica terrestre conhecida para o arquipélago encontra-se expressa no quadro seguinte. Neste não se encontra a riqueza específica marinha já estudada (habitats marinhos e costeiros) que corresponde a cerca de 23% da biodiversidade dos Açores.126
Quadro 6 - Número total de taxa (espécies e subespécies) de organismos terrestres existentes nos Açores. (Diversos grupos de organismos e percentagem que esse grupos contribuem para a riqueza específica das ilhas dos Açores. Adaptado de Borges, P. et al “Descrição da biodiversidade terrestre e marinha dos Açores” in “Listagem dos organismos terrestres e marinhos dos Açores (A list of the terrestrial and marine biota from the Azores)”. Cascais: Princípia, 2010. p.18-19).
Phylla
(grupos de organismos terrestres)
Número total de taxa
existentes Biodiversidade (%)
Artrópodes (insectos, aranhas, centopeias,
ácaros etc.) 2298 37.28
Plantas vasculares 1110 18.01
Líquenes (sensu lato) 788 12.78
Fungos (sensu lato) 583 9.46
Diatomáceas (de água doce) 536 8.70
Briófitos (sensu lato) 480 7.79
Nemátodos 131 2.13
Moluscos (lesmas e caracóis) 114 1.85
Vertebrados (cordados - mamíferos,
aves, répteis, anfíbios, peixes água doce) 71 1.15
Platyhelminthes (vermes) 31 0.5
Anelídeos (minhocas) 22 0.36
A região Macaronésica tem cerca de 4 500 espécies de plantas vasculares das quais uma quinta parte são endémicas de um ou outro arquipélago e cerca de 220 são compartilhadas entre arquipélagos.127 O número de plantas vasculares nativas e endémicas - menos de 300 128 - é relativamente reduzido se compararmos os Açores com a Madeira ou as Canárias e de entre estas apenas 73 são espécies endémicas.129 Assim, menos de um terço das plantas vasculares açorianas são consideradas indígenas130 e cerca de 70% são exóticas.131 A percentagem dos taxa introduzidos é menor nos pteridófitos e mais elevada
123 BORGES, P. et al - “Descrição da biodiversidade terrestre e marinha dos Açores” in “Listagem dos organismos terrestres e marinhos
dos Açores (A list of the terrestrial and marine biota from the Azores)”. Cascais: Princípia, 2010. p. 27.
124 Idem, p.10. 125 Idem, p. 18-19. 126 Idem, p. 22.
127 GOBIERNO DE CANARIAS, op. cit. p. 2.
128 SILVA, L. et al - “Flora vascular dos Açores: prioridades em conservação”. Ponta Delgada: Amigos dos Açores, CCPA, p.9. 129 BORGES, P. et al (2010) op. cit. p. 10.
130 BORGES, P.A.V. - “Plant and Arthropod species composition of sown and semi-natural pasture communities of three Azorean Islands
(Santa Maria, Terceira and Pico)”. “Arquipélago: Life and Marine Sciences”. 17A: 1-21 (1999). p. 17.
99 nas dicotiledóneas.132 Silva, Tavares e Smith afirmam mesmo que “a percentagem de taxa introduzidos nos Açores se situa entre as mais elevadas a nível mundial, mesmo considerando outros ecossistemas insulares.”133 Também Schäfer refere que este arquipélago tem um dos mais altos valores de espécies angiospérmicas introduzidas quando comparado com outros arquipélagos, mesmo a nível mundial.134
A riqueza específica açoriana é reduzida em termos de espécies de vegetação arbórea endémicas ou nativas. Encontram-se apenas dez espécies que atingem esse porte: a faia (Morella faya), o pau-branco (Picconia azorica), o louro (Laurus azorica), o sanguinho (Frangula azorica), a gingeira-brava ou ginja (Prunus azorica), a urze ou vassoura (Erica azorica), o azevinho (Ilex perado ssp. azorica), o cedro-do-mato (Juniperus brevifolia), o dragoeiro (Draceana draco) e o teixo (Taxus bacatta),135 as duas últimas muito raras na natureza. Quanto aos arbustos destacam-se, de entre outros, a uva-da-serra (Vaccinium cylindraceum), o folhado (Viburnum treleasei) o tamujo (Myrsine africana) o trovisco-macho (Euphorbia stygiana ssp. stygiana) e a rapa ou queiró (Calluna vulgaris).136 Existe também uma considerável diversidade de herbáceas e trepadeiras.
A maior parte das espécies endémicas ocorre na maior parte das ilhas,137 e “a ausência de algumas espécies em algumas ilhas será consequência das alterações humanas recentes do uso do solo, implicando extinções locais.”138 O facto de todas as espécies endémicas se encontrarem em praticamente todas as ilhas é característico deste arquipélago uma vez que existem outros arquipélagos, como por exemplo o Hawai, onde é comum encontrarem-se espécies endémicas características de cada uma das ilhas. No entanto os endemismos açorianos são bastante importantes, já que como refere Luís Silva “precisamente por serem poucas as espécies que pelos seus próprios meios colonizaram as ilhas, adaptando-se às condições naturais e criando ecossistemas únicos, a perda de qualquer uma delas terá um impacto enorme na biodiversidade dos Açores e da Macaronésia.”139 Algumas espécies apresentam dupla raridade, ou seja, são raras em termos da espécie propriamente dita e raras em termos de habitat. Existem mesmo algumas espécies de plantas vasculares e de briófitos que estão entre as mais raras da Europa.140 No quadro 7 apresenta-se o número total de espécies e subespécies de plantas vasculares existentes para cada ilha, assim como o número total de endemismos.
Quadro 7 - Número total de taxa (espécies e subespécies) de plantas vasculares existentes e número de taxa endémicos em cada uma das ilhas dos Açores. (Adaptado de Borges, P. et al “Descrição da biodiversidade terrestre e marinha dos Açores” in “Listagem dos organismos terrestres e marinhos dos Açores (A list of the terrestrial and marine biota from the Azores)”. Cascais: Princípia, 2010. p.18, 23).
132 SILVA, L. ; TAVARES, J.; SMITH, C.W. - “Biogeography of azorean plant invaders”. "Arquipélago: life and marine sciences”.
Supplement 2 (Part A) (2000) pp. 19.
133 SILVA, L. ; TAVARES, J.; SMITH, C.W. op. cit. p. 23.
134 SCHÄFER, H. - “Ferns and flowering plants of Faial island (Azores) with special attention to neophytes”. Germany: University of
Regensbourg, February 2000. Diploma thesis at the Department of Botany. p.462.
135 ELIAS, R. op. cit. p. 162. 136 SJÖGREN, E. (1973) op. cit.
137 SILVA, L. et al - “Flora vascular dos Açores: prioridades em conservação”. Ponta Delgada: Amigos dos Açores, CCPA, p.9. 138 BORGES, P. et al (2005b) op. cit. p. 56.
139 SILVA, L. et al, op. cit., p.9. 140 SJӦ GREN,E. (2000) op. cit. p. 5.
Ilhas Número total de
taxa existentes Número de taxa endémicos Santa Maria 647 36 São Miguel 760 54 Terceira 674 58 Graciosa 451 24 São Jorge 519 55 Faial 768 56 Pico 616 61 Flores 550 55 Corvo 349 43
O número de taxa presentes em cada ilha oscila entre os 349 para a ilha do Corvo e os 768 para o Faial. São Miguel e o Faial têm os números mais elevados de taxa total mas não têm um maior número de endemismos o que significa a existência de uma elevada percentagem de biodiversidade à custa da introdução de novas espécies. As ilhas que preservam um maior número de endemismos são o Pico e a Terceira e a ilha com menor número de espécies endémicas é a Graciosa. De facto, existe uma grande variabilidade no que respeita ao número de taxa endémicos entre as ilhas mais baixas - Santa Maria e Graciosa - e as restantes, já que a orografia das primeiras condiciona a pluviosidade e uma menor pluviosidade conduz naturalmente a uma menor presença de espécies que requerem grandes quantidades de água, como as espécies da laurissilva e das florestas de montanha. O número relativamente reduzido de endemismos do Corvo poderá estar relacionado com a sua diminuta dimensão.
Assim, considera-se que nas ilhas de Santa Maria, Graciosa e Corvo a vegetação endémica se encontra reduzida e que aqui a paisagem é pobre em formações florestais endémicas.141 No entanto, o facto de não encontrarem formações florestais endémicas nem as espécies delas características não significa que não existam ecossistemas importantes, especialmente ao nível da orla costeira.142 Em todas as três ilhas os ecossistemas costeiros apresentam elevada biodiversidade e são alvo de protecção específica. Borges et al referem a existência de um padrão de distribuição das espécies de plantas vasculares e de briófitos que está relacionado com os diversos grupos geográficos, em que se individualizam o grupo central (Pico, S. Jorge e Faial) e o grupo ocidental (Flores e Corvo).143 No entanto, apesar da importância da localização geográfica e da proximidade entre ilhas, são as diversas situações ecológicas existentes (dependentes essencialmente de factores climáticos e fisiográficos) que mais condicionam a semelhança da vegetação entre estas.144 No que diz respeito aos factores climáticos Borges et al apontam para a existência de um gradiente de distribuição da vegetação em função da humidade com as ilhas mais secas (Graciosa e S. Maria) distintas das restantes.145
Na publicação “Top 100: as 100 espécies ameaçadas prioritárias em termos de gestão na região biogeográfia da Macaronésia” encontram-se 23 taxa açorianos dos mais diversos grupos de seres vivos, desde as plantas vasculares e artrópodes até aos briófitos e vertebrados.146 De entre as plantas vasculares destacam-se espécies que se encontram em comunidades costeiras, como a vidália (Azorina vidalii) e a camarinha (Corema album).147 A primeira é considerada a espécie mais ameaçada dos Açores e esta avaliação relaciona-se com o facto de ser o único género endémico exclusivo do arquipélago. Desta listagem de espécies ameaçadas fazem parte outras plantas herbáceas açorianas mas também espécies de porte arbóreo como o cedro (Juniperus brevifolia), o louro (Laurus azorica) e a ginjeira-brava (Prunus
azorica).148Existem ainda outras espécies arbóreas nativas que nem se encontram na lista porque se encontram à beira da extinção na natureza, como o teixo (Taxus baccata).149 Da análise da listagem referida na publicação “Top 100” pode-se concluir que a maior parte das espécies ameaçadas deste arquipélago se
141 GOMES, M.A. - Conservação da avifauna na laurissilva dos Açores”. Horta, Direcção Regional do Ambiente, 1994. p. 48 e anexo IB. 142 SJÖGREN, E. - “Bryophyte flora and vegetation on the island of Graciosa (Azores) with remarks on floristic diversity of the Azorean
islands”. “Arquipélago: life and earth sciences”. 8: 63-96 (1990). p. 63.
143 BORGES, P. et al (2005b) op. cit. p. 57. Esta afirmação é corroborada por estudos fitossociológicos recentes como os de Aguiar, C. et
al, op. cit.
144 OLIVEIRA, J. - “Diversidade da flora dos Açores: estudo da sua variação interilhas e comparação com outros arquipélagos
macaronésicos”. Arquipélago: revista da Universidade dos Açores”. Série Ciências da Natureza. Nº 7 (1985) pp. 81-101.
145 Idem, ibid. A importância deste gradiente de humidade tinha sido já apontada por Sjögren no que diz respeito à distribuição da
vegetação natural.
146 Esta obra incide sobre toda a Macaronésia mas as espécies consideradas como mais ameaçadas são originaras das Canárias, por
ser aí que se concentra mais de 60% de toda a biodiversidade da região. Reflecte o universo das espécies ameaçadas que têm possibilidades de ser recuperadas. MARTÍN, J.et al - “Using taxonomically unbiased criteria to prioritize resource allocation for oceanic island species conservation”. “Biodiversity Conservation” 19 (2010) pp. 1661.
147 MARTÍN, J. et al - “Top 100: Las 100 especies amenazadas prioritárias de gestión en la región europea biogeográfica de la
Macaronesia”. Canarias: Consejería de Medio Ambiente y Ordenación Territorial, Gobierno de Canarias, 2008.
148 MARTÍN, J. et al .(2008) op. cit. O louro encontra-se na Lista Vermelha das Espécies Ameaçadas da IUCN. DIAS, E. et. al. (2007c)
op. cit. p. 205.
101 encontra no Grupo Central e que o Faial é uma das ilhas onde se encontra um maior número de espécies ameaçadas.150 Outras espécies em perigo crítico são o dragoeiro (Dracaena draco) e a gingeira-brava (Prunus azorica) enquanto o louro (Laurus azorica), o folhado (Viburnum treleasei) e o sanguinho (Frangula
azorica) se encontram em perigo.151
Quanto à representatividade das formações florestais naturais na paisagem Sjögren refere que as ilhas onde persistem as maiores e mais ricas manchas de florestas naturais se encontram no Grupo Central, e são a Terceira, o Pico, São Jorge e Faial.152 Luís Silva refere que as maiores manchas de vegetação natural com pouca ou nenhuma intervenção humana surgem na Terceira, Pico e Flores.153 Estas referências estão de acordo com as figuras seguintes, relativas à distribuição actual (2007) e potencial de algumas espécies de vegetação endémica mais significativas como a faia (Morella faya), o louro (Laurus azorica), o sanguinho (Frangula azorica) e o cedro (Juniperus brevifolia), segundo a cartografia elaborada pelo Gabinete de Ecologia Vegetal Aplicada da Universidade dos Açores (GEVA).
A primeira espécie encontra-se principalmente nas florestas costeiras nativas e nas manchas de laurissilva localizadas em altitudes mais baixas. O louro é um indicador da presença de laurissilva e o sanguinho surge em condições de equilíbrio da mesma. O cedro encontra-se tanto junto à costa como nas zonas de maior altitude das ilhas, na laurissilva mas também nos bosques e ecossistemas de alta montanha. Por meio da análise das figuras é possível colocar a hipótese de que é no Grupo Central (à excepção da Graciosa) e nas Flores que existe uma maior presença de espécies endémicas e nativas de vegetação natural. Santa Maria, São Miguel e o Corvo são as ilhas onde as espécies aqui representadas surgem com menor expressão.
Figura 12 - Carta de distribuição actual e potencial da faia (Morella faya), uma espécie indicadora de bosques de faia. (a partir de DIAS, E. et al - “Distribuição das principais manchas florestais: Açores”. Lisboa: Edição Público, 2007(d )p. 314).
150 Esta listagem reflecte não só uma avaliação da ameaça mas também da importância relativa de cada espécie e por isso está
dependente de critérios, que estão definidos na obra.
151 DIAS, E. et al (2007c) op. cit. p. 206.
152 SJÖGREN, E. - “Azorean bryophyte communities: a revision of differential species”. “Arquipélago: life and marine sciences”. 20A: 1-29
(2003) p. 16.
Figura 13 - Carta de distribuição actual e potencial do louro (Laurus azorica), uma espécie indicadora da laurissilva.(a partir de DIAS, E. et al - “Distribuição das principais manchas florestais: Açores”. Lisboa: Edição Público, 2007(d )p. 316).
Figura 14 - Carta de distribuição actual e potencial do sanguinho (Frangula azorica), uma espécie indicadora de condições de equilíbrio da laurissilva. (a partir de DIAS, E. et al - “Distribuição das principais manchas florestais: Açores”. Lisboa: Edição Público, 2007(d )p. 318).
103 Figura 15 - Carta de distribuição actual e potencial do cedro (Juniperus brevifolia). (a partir de DIAS, E. et al - “Distribuição das principais manchas florestais: Açores”. Lisboa: Edição Público, 2007(d )p. 313).
No entanto, não são só as plantas vasculares que contribuem para a biodiversidade destas ilhas. Nos Açores existe uma elevada diversidade de briófitos, que se encontram em todos os tipos de substratos, dentro e fora das florestas naturais (em rochas, solo, húmus, troncos e ramos de árvores, arbustos e até em folhas e frondes de fetos) formando comunidades complexas e luxuriantes e com elevados valores de biomassa.154 Estas pequenas plantas primitivas (que incluem os musgos, hepáticas e antocerotas) desempenham um importante papel nos ecossistemas onde ocorrem actuando na retenção e intercepção de água e sais minerais, decomposição de matéria orgânica e protecção física dos solos.155 A sua presença encontra-se associada à pureza dos ecossistemas, tanto atmosférica como da água.
A brioflora dos Açores tem afinidade tanto com a brioflora da Europa Ocidental, de onde provém em grande parte, como com a brioflora da América e de África.156 A diversidade de espécies é bastante elevada - 480 espécies157 - e comparável à existente na Madeira e nas Canárias ao contrário do que acontece com as plantas vasculares.158 Esta profusão está relacionada com a elevada humidade relativa do ar e com a localização do arquipélago. As ilhas de maior dimensão apresentam uma maior riqueza de espécies do que as mais pequenas mas a percentagem de endemismos é baixa, existem apenas 7 espécies endémicas,159 das quais se poderá realçar a Echinodium renauldii, que geralmente se encontra a média-baixa altitude, presentemente considerada uma das espécies de briófitos mais ameaçada do mundo.160 Existem ainda 27
154 BORGES, P. et al (2005b) op. cit. p. 29.
155Idem, ibid.
156 DIAS, E.; MENDES, C. - “Sphagnum recurvum P. Beauv. on Terceira, Azores, new to Macaronesia-Europe”. “Journal of Bryology”. 31
(2009) p. 199.
157 BORGES, P. et al (2010) op. cit. p. 18. 158 BORGES, P. et al (2005b) op. cit. p. 29. 159 BORGES, P. et al (2010) op. cit. p. 23. 160 BORGES, P. et al (2005b) op. cit. p. 32.
espécies sob algum grau de ameaça na Europa ou no mundo que têm populações estáveis nos Açores.161 Nestas ilhas coexistem espécies estritamente boreais como o Sphagnum sp. e outras caracteristicamente tropicais, embora a altitudes diferenciadas.162
Para além da vegetação é importante referir a relevância - para os ecossistemas e para a paisagem - dos outros grupos de organismos terrestres. Os artrópodes, moluscos, nemátodos e anelídeos são essenciais para a manutenção dos ecossistemas pelo seu importante papel de formação do solo e na dispersão das plantas. São uma teia invisível da paisagem que assegura a sua integridade, simultaneamente robusta como todas as formas de vida, mas também sensível à acção humana, especialmente quando esta altera os delicados equilíbrios físico-químicos dos ecossistemas. Os efeitos da acção do homem são mais evidentes na alteração da vegetação natural do que na fauna de invertebrados, no entanto as duas comunidades encontram-se intimamente ligadas já que a segunda depende largamente da primeira.163 De facto, existem cerca de 267 espécies de artrópodes e 49 de moluscos terrestres endémicos cujos habitats preferenciais são a floresta laurissilva, os prados naturais e as pastagens semi-naturais, o meio subterrâneo (grutas e outras cavidades vulcânicas) e as zonas húmidas.164 Os constrangimentos devidos à altitude e ao clima são menos patentes na fauna de invertebrados do que na vegetação, provavelmente devido à sua rápida capacidade de adaptação,165 facto que é especialmente visível na fauna de artrópodes predadores (como por exemplo as aranhas) que são um elemento essencial ao equilíbrio dos ecossistemas por constituírem o topo da cadeia trófica dos invertebrados.
À data do povoamento a fauna nativa deste arquipélago era apenas constituída, no que diz respeito aos vertebrados, por aves e por morcegos - o morcego-dos-Açores (Nyctalus azoreum), uma espécie endémica destas ilhas, e por morcegos do género Pipistrellus sp.166 As aves têm um papel de grande importância na preservação dos ecossistemas naturais e de entre estas destacam-se o milhafre (Buteo buteo rothschildi) e o pombo-torcaz-dos-Açores (Columba palumbus ssp. azorica), o primeiro pelo facto de ser uma espécie carnívora e o símbolo por excelência dos Açores e o pombo-torcaz por ser uma das principais hipóteses de dispersão das sementes de maior dimensão das espécies da laurissilva. De facto, o grande tamanho das sementes de uma boa parte das espécies da laurissilva indicia que estas poderão ter chegado aos Açores no estômago de aves e as diversas espécies de pombos presentes nas ilhas são as principais candidatas a dispersores.167 De entre os columbídeos o pombo-torcaz é um pombo grande que habita nas florestas e que por isso poderá ter tido um papel importante nos processos de regeneração da floresta, já que as outras espécies de aves são na sua maioria demasiado pequenas para ingerir e processar os frutos em questão ou então as são carnívoras.168 O pombo-das-rochas (Columba livia atlantis) tem também uma população relevante nos Açores.
Apesar da diversidade em espécies de aves não ser muito elevada (não ultrapassa as 40 espécies entre residentes e nidificantes) existem duas espécies endémicas, o priôlo (Pyrrhula murina) e o painho-de- Monteiro (Ocaenodroma monteiroi),169 diversas subespécies endémicas - como por exemplo as diversas estrelinhas (Regulus regulus spp.) - e todas elas cumprem um importante papel na cadeia alimentar destas ilhas. O priôlo, uma das aves mais ameaçadas da Europa, encontra-se restrito à zona do Pico da Vara em São Miguel e uma parte do seu habitat tem sido alvo de um processo de recuperação, como se refere no capítulo 6. O arquipélago é também um importante centro de estabelecimento de populações de diversas espécies de aves marinhas - como por exemplo os cagarros (Calonectris diomedea) e os garajaus-rosados
161 Idem, ibid.
162 DIAS, E. (2001) op. cit. p. 261. 163BORGES, P. (1999) op. cit. p. 19. 164 BORGES, P. et al op. cit. p. 483-484. 165 BORGES, P. (1999) op. cit. p. 18. 166 DIAS, E. et al (2007b) op. cit. p. 69. 167 Idem, p. 68.
168 Idem, ibid.
105 (Sterna dougallii), espécies estivais que vêm nidificar nestas ilhas - e de passagem de uma grande variedade de espécies de aves migradoras provenientes tanto da Europa como da América do Norte.170