4 O HOMEM DE COLARINHO BRANCO
4.2 A velha querida querida velha
Dentre todas, a escolhida, o relógio cuja hora avançada atrai o desejo sagaz do rapaz de colarinho branco, a querida por ele, aquela a quem desejou, buscou, procurou e selecionou dentre as demais que não poderiam satisfazer sua busca. O termo se destaca por ser o título do conto em questão, mas também pela sua persistência durante todo o enredo, no qual o termo querida é repetido cinco vezes, quatro delas em referência a velha meretriz.
Denota-se, portanto, o valor semântico que o vocábulo exerce dentro da composição do conto. Querida quando adjetivo significa, segundo o dicionário Aulete (2011), de que ou de quem se gosta muito, já quando substantivo tem sentido de pessoa de quem se gosta. Em
sentido mais profundo, segundo o dicionário online de português2, quando empregado como adjetivo, querida refere-se a que ou a quem se quer muito, e quando substantivo simboliza uma expressão carinhosa e íntima aplicada a uma pessoa a quem se estima ou ama, o mesmo que meu bem.
Há, por conseguinte, um sentido implícito de posse refletido, uma vez que querida é a pessoa a quem se quer muito, querer, por sua vez, expressa sentir vontade, ter intenção, desejar, aspirar, ter vontade de adquirir ou possuir pessoa ou objeto. As mulheres do conto analisado são postas como objetos em vitrines sujeitas à vontade e desejo dos homens que passam, escolhendo sua preferida, sua querida. De forma que todas do bordel estão a mercê do querer destes homens.
A velha, no entanto, é querida apenas por um desses homens, o rapaz de colarinho branco, cujo desejo e vontade de adquirir e possuir destina-se especificamente a velha, não apenas por ser a velha querida, a velha que se quer e se deseja por sua condição de mulher madura, vivida. Mas por ser a querida velha, a escolhida, a desejada, que é uma idosa. A troca desses dois termos insere a velha como o objeto singular de desejo do personagem masculino, ela não é apenas uma velha, mas a querida deste, a escolhida, definida pelo artigo e pela intenção.
A personagem velha surge de forma inusitada dentro do conto, posto que a sociedade culturalmente determina um comportamento contido e casto para as pessoas mais velhas, o que acontecia de forma ainda mais evidente no passado. A pessoa idosa é ligada diretamente aos conceitos de desuso, esquecimento, espera, invalidez, desengano, languidez. São, muitas vezes, retratadas ou idealizadas como pessoas sem capacidade física e mental para realizar as tarefas mais simples do dia-a-dia, como pessoas que, pelo avanço da idade, vão se tornando frágeis, inertes, e com isso perdendo ações, sentimentos e emoções de forma generalizada.
A personagem da velha narrada no conto de Trevisan segue um paradigma particular do escritor, pois não apresenta um comportamento dentro das linhas convencionais, mas revela sentimentos e condutas inesperadas que tendem a surpreender ao leitor, principalmente pela violência com que tais excentricidades são relatadas. Neste caso, a velha surge como objeto do desejo sexual de um jovem distinto da sociedade curitibana, ela, uma velha prostituta esquecida até então em sua cadeira de vime, a mesma, no entanto, ainda conserva alguns de seus atributos de sensualidade.
2 Verbete extraído da internet na página virtual Dicionário online de português. Disponível em:
“Ainda de pé, abriu-lhe os moles braços alvacentos de mãe d' água, nos quais surpreendeu o primeiro sinal de sedução: axila depilada, e pensou — "Sob a velha dorme a cortesã" (...).” (TREVISAN, 1959, p. 45).
Neste trecho do conto o jovem se surpreende com a atitude de higiene e cuidado pessoal da velha que mantém as axilas depiladas, representação da vivacidade ainda encontrada na velha meretriz, que não abandonou na cadeira de vime seus desejos, ainda que, neste ponto da vida, permanecessem estes guardados secretamente para um que a procurasse. A velha não implora a atenção e o desejo dos homens como as outras que suplicam durante a passagem do jovem, e dos outros homens, para serem eleitas, mas espera de vestido vermelho, enfeitada por anel de falso rubi, de unhas feitas e axilas depiladas, de batom nos lábios, secretamente aguardando o sufrágio do jovem por ela.
Em contraponto a essas poucas vaidades, a velha apresenta certa timidez, ou vergonha de seus atos e sua entrega ao jovem, desde o momento em que o mesmo se aproxima dela, até a entrega total ao ato sexual, de forma que, somente após esta entrega, ela o encara. Enquanto o jovem apresenta total despreocupação com o julgamento que podem ter suas atitudes, beijando a mão da velha na saída do bordel, ou mesmo conservando a marca de sua aventura quando guarda o lenço manchado de batom, a personagem idosa se esquiva dos seus beijos e evita aparecer na janela para a despedida, com receio do que podem pensar do rapaz, sente vergonha por ele.
(...) aproximava-lhe aos poucos a cabeça da sua, entre os protestos inúteis de — "Nón... nón... Na boca nón...", beijando-a enfim e, até no beijo, a velha resistia, sem descerrar os lábios frios e enrugados, presa a dentadura com a ponta da língua no céu da boca. (TREVISAN, 1959, p. 45).
Ao sair do bordel o rapaz demonstra alívio e satisfação por cumprir seu itinerário plenamente, sente-se realizado e em paz, “agora estou bem.”, repetem-se enfaticamente duas vezes no final da narrativa. A procissão é cumprida, o enterro é realizado. O sentimento de bem estar é alcançado como numa passagem cujo ritual precisa ser cumprido para que se possa conceber o novo.
Percebe-se no parágrafo final do texto como o cerimonial se instaura no rito celebrado. As imagens douradas podem representar tanto as divindades e santos que olham do alto a aflição dos seres humanos que vivem com suas mazelas e culpas sem que por elas possam ser atingidos, como podem representar as divindades pagãs adoradas em cultos profanos e condenada pelas religiões cristãs.
Misturou-se com o povo que, ora diante das portas, ora de cabeça erguida para as janelas, adorava as imagens douradas nos seus nichos, dir-se-ia indiferentes à aflição dos homens, não fora o gesto de esperança com que todas balouçavam a mão direita, unindo em círculo perfeito o polegar e o indicador, no convite ao gozo da inocência perdida e recuperada (...). (TREVISAN, 1959, p.46).
O gesto manifestado por essas divindades, que convidam ao deleite no qual se perde a inocência, isto é, a virtude e a castidade, que pode por este gesto de esperança ser recuperada. Assim, o mesmo gesto que no início da narrativa surge nas mãos das cortesãs indicando a perdição, surge como a redenção agora nas mãos destas figuras sagradas.
Solitárias à janela ou amontoadas uma atrás da outra, nos degraus vacilantes da escada, afundados no meio, de tantos passos que os subiram e desceram. Todas elas, serenas ou entoando ladainha em voz baixa e lamuriosa, repetiam o mesmo gesto em que, as pontas unidas do polegar e indicador em círculo perfeito, concebiam o símbolo da inocência perdida (...). (TREVISAN, 1959, p.42).
O símbolo em círculo indica o movimento cíclico, o ciclo da inocência que perdida pode ser recuperada, posto que se ela não se perde, não há como recuperar. De forma que, num ciclo, os elementos que o compõem são interdependentes. Um começa sem que o outro precise terminar, e unidos pelo movimento constante de rotação pertencem a um mesmo silogismo. Depreende-se, então, que a virtude e a perdição pertencem a este mesmo silogismo e, para manter o equilíbrio, ambas precisam coexistir.
O rapaz de linho branco cumpre este ritual de inocência perdida e recuperada, pois pelo ato de perdição ele sente-se remido. A relação com a velha é este ponto culminante e extremo que mortifica sua virtude por meio da desonra, para que o mesmo reinicie, recomece e, sentindo-se novamente em paz consigo mesmo, possa voltar para casa, para a família, para a sociedade e cumprir o papel ao qual é subordinado.