A velhice é apenas uma das etapas da vida e que, portanto deve, e pode ser vivida e considerada como as demais; que o homem velho é um velho, mas que ainda é um homem e como tal precisa continuar vivendo, dando e recebendo, sem, ou apesar de, o estereótipo negativo que a sociedade/culturas lhe impinge (LOUREIRO, 1998, p.2).
O envelhecimento (processo), a velhice (fase da vida) e o velho ou idoso (resultado final) constituem um conjunto, cujos componentes estão intimamente relacionados (NETTO, 2006, p.9). Vivemos atualmente num mundo de envelhecidos. O aumento da população idosa é um fato decorrente da diminuição da mortalidade e fecundidade. Nery (2001) lembra que:
Idosos são populações ou indivíduos que podem ser assim categorizados pela duração do seu ciclo vital. Segundo convenções sociodemográficas atuais, idosos são pessoas de mais de 60 anos, nos países em desenvolvimento, e de mais de 65, nos países desenvolvidos (NERY, 2001, p. 45)
Observamos que o envelhecimento se apossa pouco a pouco da vida, se sobrepõe tão suavemente, misteriosamente, de nossos dias que nem percebemos. Para lidar com essa realidade, muitas vezes ignorada precisamos de nos conscientizar da beleza que existe em todas as idades. Sabe-se que a velhice traz perdas, mas também traz ganhos que merecem destaque. A sabedoria, a experiência e o conhecimento acumulado são preciosidades valiosas.
Alves (2006) comenta que quando a gerontologia surgiu no Brasil, as preocupações eram que se fizessem reflexões sobre o envelhecimento na intenção de se prolongar a vida humana e descobrir novas formas de se atingir a longevidade. Papaléo Netto (1996) esclarece que o envelhecimento teve seu estudo negligenciado por muito tempo e que somente nos últimos 30 anos originaram teorias sobre mecanismos do envelhecimento. Segundo Neri (2004) Gerontologia é uma palavra de origem grega que significa o estudo da velhice. A denominação “Geriatria” tem a mesma origem e foi cunhada para designar o tratamento clínico dos idosos.
No século XX, Metchinikoff correlacionou o envelhecimento a uma intoxicação, quando realizou pesquisas e supôs que a ingestão de iogurtes retardaria o envelhecimento, porém não chegou a comprovar essa teoria cientificamente. Posteriormente criou o termo Gerontologia como um ramo da ciência que se propõe a estudar o processo de envelhecimento em seus aspectos bio-psico-sociais e os múltiplos problemas que possam envolver o ser humano. Ainda nesse século, Nascher, geriatra americano, nascido em Viena, criou o termo Geriatria, um ramo da Medicina que trata das doenças que podem acometer os idosos. (Beauvoir, 1990).
Sabe-se que o envelhecimento existe para todas as espécies, e estas sofrem alterações gradativas desde o nascimento até a morte. O envelhecimento inicia com o nascimento e termina com a morte, isto é começa no útero e termina no túmulo. Smeltzer e Bare (2005) explicitam que o envelhecimento intrínseco, a senescência referem-se às alterações genéticas programadas de cada espécie, enquanto que o envelhecimento extrínseco, ou senilidade ocorre por influências externas como poluição do ar, luz solar e doenças. Com o envelhecimento celular a capacidade de o organismo manter a homeostasia (equilíbrio) fica cada vez mais diminuída. Na compreensão de Netto (2006, p.10): “A senescência resulta de alterações orgânicas, funcionais e psicológicas próprias do envelhecimento normal, enquanto que a senilidade é caracterizada por modificações determinadas por afecções”.
Com o avanço da idade ocorrem alterações no funcionamento de vários órgãos. Hudak e Gallo (1997) explicam que as células diminuem a capacidade de multiplicação, degradam a elastina e se tornam rígidas. Devido a essa incapacidade de equilíbrio homeostático surgem doenças do coração, neoplasias malignas, acidente vascular cerebral, influenza e doença pulmonar obstrutiva crônica, principais causas de morte no idoso. Porém é preciso lembrar que mesmo diante de doenças intratáveis, sofrimento físico e psíquico, todos querem viver. Nutre-se uma esperança, um mecanismo de defesa que os fazem pensar que deve haver um tratamento em algum lugar do mundo, ou até mesmo um milagre.
Alves (2006, p.53) considera o seguinte:
A vida longa é um prêmio. A velhice pode ser um tempo de intenso desenvolvimento social e espiritual. Quem envelhece não deseja que sua vida sofra uma contração, pois, apesar das perdas, das dificuldades e dos problemas, o idoso quer viver: mesmo sendo velho, apesar de ser velho e porque pode contar com a ajuda de sua experiência para viver mais plenamente, como direito e prêmio por ter lutado sempre.
Neste sentido Camarano (2002, p.17) lembra que “a qualidade de vida ou sobrevida dos idosos com as doenças crônicas antes de representarem risco de morte, constituem uma ameaça à autonomia e independência do indivíduo”. E como nos lembra Loureiro (2000, p.38):
Viver muito, ou mais, não é o mais importante, o que interessa é viver bem! O imaginário, vivo e criativo, contém as reservas de crença nas possibilidades do homem. Ser ainda necessário é a dialética, numa oposição à inutilidade pretendida pela sociedade é a oposição ao sentimento imposto da percepção desviada pela lente ideológica do feio que estereotipa.
Se na maioria das vezes o envelhecimento é acompanhado por doenças crônicas e limitações físicas e cognitivas, o idoso e sua família passam por situações difíceis e pior ainda, quando esta família é pobre e tem dificuldade de acesso aos serviços de saúde. Loureiro (2000) lembra que atualmente, a idéia de velhice é associada a doenças e o homem velho é desconsiderado, e a velhice é estigmatizada com o rótulo de impotência.
Para que haja autonomia, é preciso que o idoso tenha suas capacidades físicas e mentais preservadas. E dessa forma o idoso poderá ter oportunidades de auto-realização e autonomia, pois só dessa maneira ele alcançaria a felicidade (FALEIROS e REBOUÇAS, 2006).
Nas circunstâncias atuais, a sociedade não atribui ou não permite ao velho outro papel que não o de refugo, de desconsideração estereotipada, pois não o considera mais capaz de produzir economicamente, capacidade tida como essencial na visão capitalista de hoje. Assim, o homem velho desempenha papel subalterno, de acordo com as possibilidades que a situação do momento e do lugar lhe concede (LOUREIRO, 2000, p.26).
Diante do aumento da expectativa de vida, é preciso conservar a qualidade de vida. O enfermeiro pode auxiliar na qualidade de vida humana sempre, mas seu papel parece crescer quando sua ação se destina aos idosos, tanto mais aos idosos institucionalizados, como nesta dissertação se estuda. Assim como a infância e a adolescência, o envelhecimento faz parte do nosso ciclo de vida, é um processo natural. É um processo inevitável e irreversível.
Beauvoir (1990) relata que “não acreditamos que ficaremos velhos. Há uma voz interior que murmura que nós não envelheceremos, apenas as outras pessoas, e assim a sociedade prossegue negando os velhos como nossos semelhantes”. Um paradigma criado pela sociedade que traz em si uma força poderosa que conduz a rejeição ao velho. Segundo Loureiro (2000, p.28):
Os motivos internos ressoam, ao pressentir os estímulos jogados (como iscas) pelo social, determinando um comportamento que, apesar de trazer em si uma quota das pulsões internas, segue a marca do requerido, do aceito, do não-relegado.
Beauvoir (1990) afirma que é preciso lembrar que os idosos são tão humanos quanto os jovens, manifestam desejos, sentimentos e reivindicações. Os mais jovens escandalizam o amor, o ciúme de idosos e para os quais eles vêem a sexualidade como repugnante, preconceituosamente, tudo no idoso é ridículo. Mas a sociedade espera que o idoso seja sereno, seja exemplo de todas as virtudes, mas a sua felicidade é ignorada, como expressa Beauvoir (1990 p.12):
Para que o idoso seja visto com bons olhos é preciso que ele seja sábio, com cabelos brancos, experiente, venerável ou então é visto pelo outro extremo, um
velho louco, caduco e zombado pelas crianças. De qualquer forma, sendo visto como virtuoso ou louco nunca é visto como homem.
O envelhecimento é um processo que começa quando as células diminuem gradativamente a capacidade de multiplicação, podendo ocorrer doenças do coração, neoplasias malignas, acidente vascular cerebral, influenza e doença pulmonar obstrutiva crônica, as principais causas de seqüelas permanentes, irreversíveis ou morte no idoso.
O envelhecimento depende dos fatores biológico, psíquico, cultural e social que podem acelerar ou retardar as doenças. Portanto, para minimizar os efeitos da senilidade é preciso adquirir hábitos alimentares saudáveis, prática regular de exercícios físicos e atividades sociais com a família e a sociedade. Sobre o envelhecimento, Loureiro (2006, p.32) escreve que:
O homem forma-se, deforma-se, imprime sua marca e tem força na motivação das mudanças; que o idoso é um velho, mas um ser humano e, como tal precisa não só de sobreviver, mas de viver de forma digna, de aprender, não só recebendo, mas, também participando daquilo que deseja e para o que pode ser solicitado; que o ser humano velho é também um cidadão, com direitos e deveres.
A longevidade sempre foi desejada por todos, mas ninguém quer ficar velho, talvez por que haja certa aversão ao diferente, ao mais lento, improdutivo e fora dos padrões de beleza atuais. Debert (2004) utiliza o termo "reinvenção" para qualificar o processo de envelhecimento atual, onde o envelhecimento caracterizado pelo declínio é percebido como transgressão, algo imperdoável. Mas esta reinvenção pela qual passa o processo de envelhecimento significa a negação da velhice propriamente dita, conforme explicitação da autora:
No contexto em que o envelhecimento se transforma em um novo mercado de consumo, não há lugar para a velhice, que tende a ser vista como conseqüência do descuido pessoal, da falta de envolvimento em atividades motivadoras, da adoção de formas de consumo e estilos de vida inadequados. (DEBERT, 2004, p.227).
Loureiro (1993) defende a proposta de organizações que respeite a diferença e que trabalhe não para o idoso, mas com o idoso, isto é de forma que se considere o idoso como senhor de sua própria vida, enfim com sua autonomia preservada. É importante compreender que é preciso respeitar as decisões e convicções, religiosidade e sempre que possível permitir que o idoso tome suas próprias decisões. Decisões que muitas vezes são impedidas pela própria família, cuidadores e profissionais de saúde.
Quando chega um determinado momento, o indivíduo vai perdendo seus papéis sociais e o trabalho não o aceita mais. Se nessa esfera não é aceito, ele também começa a perder o seu papel no âmbito familiar. O indivíduo começa a ser considerado inútil, um incômodo. Então, ele vai ser descartado em algum lugar. (SOUZA, 2003, p.77)
Souza (2003) observa que o idoso asilado se encontra submetido a regras que envolvem elogios para quem as acata e punição para quem as transgrida, a fim de torná-lo dócil e a adaptar-se. O afastamento e esfriamento de relacionamentos com familiares e amigos faz com que seja de sofrimento o tempo daqueles que são deixados sós. Isso faz do asilo uma perspectiva ao mesmo tempo assustadora e inevitável.
Atualmente a busca pela institucionalização surge como uma alternativa para as famílias de baixa renda ou para idosos que perderam seus vínculos familiares, não sendo correto culpar ou julgar abandono por parte da família por institucionalizar seu idoso. ILPI - Instituição de Longa Permanência para Idosos é a tradução de Long – Term Care Institution,
termo que qualifica os cuidados básicos oferecidos ao idoso institucionalizado. Loureiro (1993, p.120) escreve que:
O fenômeno velhice vem sendo estudado e pesquisado por antropólogos, psicólogos e sociólogos, que endereçam seus estudos aos velhos asilados à política de aposentadoria, ao desengajamento social, ao lazer, à dicotomia de idades, à posição familiar e às atitudes hostis das sociedades, entre outros aspectos.