CAPÍTULO III - ANÁLISE DAS FOTOGRAFIAS PREMIADAS
3.2 VENCEDOR DE 2019 - LORENZO TUGNOLI DO THE WASHINGTON POST
Em 2019, o fotógrafo italiano Lorenzo Tugnoli do jornal diário estadunidense The
extremidade sudoeste da Península da Arábia, como vencedora do The Pulitzer Prize, categoria feature photography.
Tugnoli já teve trabalhos de sua autoria publicados pelo The New York Times, The Wall Street Journal, Le Monde, Newsweek, Time Magazine, Wired, The New Republic, The Atlantic, Der Spiegel e LFI - Leica Fotografie International, entre outros. Desde sua mudança para o Líbano em 2015, seu trabalho consiste em explorar, continuamente, as consequências humanitárias dos conflitos na região e realizar projetos de longo prazo no Iêmen, Líbia e Líbano.
No entanto, o trabalho que lhe rendeu o prêmio na categoria feature do Prêmio Pulitzer foi o registro da crise humanitária de insegurança alimentar que a população do Iêmen enfrentou e ainda enfrenta na atualidade. De acordo com a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR)9, cerca de 20 milhões de iemenitas10 precisam de assistência humanitária, enquanto 16 milhões enfrentam a triste realidade da fome.
O trabalho vencedor de 2019, assim como a cobertura fotográfica de 2018 da agência britânica Reuters, também é composto por 16 fotografias que foram capturadas durante missão para o jornal The Washington Post, em que o fotojornalista teve que passar nove semanas no Iêmen no ano de 2018. Durante esta pesquisa, novamente a autora analisará cinco imagens. As demais podem ser encontradas diretamente no site The Pulitzer Prizes11 ou no endereço eletrônico do The Washington Post12.
9 Disponível em: https://www.acnur.org/portugues/2021/03/26/seis-anos-de-conflito-no-iemen-deixa-80-da-populacao-abaixo-da-linha-da-pobreza/.
10 Relativo ou pertencente à República do Iêmen (sudoeste da Ásia).
11 Disponível em: https://www.pulitzer.org/winners/lorenzo-tugnoli-washington-post.
12 Disponível em: https://www.washingtonpost.com/graphics/2018/world/amp-stories/photos-of-war-in-yemen.
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Figura 8 – Criança fica sem ar na unidade de terapia intensiva do Hospital al-Sadaqa
Fonte: Lorenzo Tugnoli/The Washington Post
Nesta primeira foto é possível ver a pequena Taif Fares sem ar na unidade de terapia intensiva do Hospital al-Sadaqa em Aden, no Iêmen, em 21 de maio de 2018. Ela nasceu com um problema cardíaco e, por isso, precisava de cuidados constantes. No entanto, Taif morreu poucos dias depois que esta foto foi tirada.
No início desta pesquisa foi explicado que o estudo iria analisar os fatores em comum entre as coberturas fotográficas premiadas nos anos selecionados pela autora, com o objetivo de mostrar aos profissionais de comunicação, e, principalmente, os fotojornalistas, as fotografias que têm se destacado na atualidade. Além disso, o outro objetivo é entender qual o principal fator comum presente nas imagens premiadas, para a compreensão do papel social que exercem.
Logo de cara notamos que a cobertura fotográfica de 2019 repete novamente os fatores tragédia e dor. Logo, fica evidente a preocupação da imprensa em noticiar as mais diversas situações de sofrimento vividas mundialmente, de forma a inserir o espectador naquele cenário.
O registro e a exibição de acontecimentos distantes, geograficamente, levam a proximidade das pessoas, colocando-as, de certa forma, “presentes” em situações que lhes pareciam remotas.
A partir disso, surge outro questionamento: capturar uma fotografia dita como feature é contar uma história utilizando da linguagem não verbal ou é espetacularizar a dor do outro?
Seria possível abordar fotojornalisticamente acontecimentos traumáticos e violentos sem recorrer a uma estética do horror?
Ao espetacularizar situações trágicas, há quem diga que a mídia acaba por promover o distanciamento dos espectadores, impedindo-os de efetuar ações em combate à violência e levando-os a crer que ela deve ser algo comum no dia a dia. No entanto, tudo possui dois lados da moeda. Como seria a nossa sociedade se não tivesse acesso à informação?
Figura 9 – Criança de três anos desnutrida e pesando cerca de quatro quilos
Fonte: Lorenzo Tugnoli/The Washington Post
Neste registro Ayesha Ahmed, de três anos, está gravemente desnutrida e pesando cerca de quatro quilos. Sua família foi deslocada por uma ofensiva militar na costa oeste do Iêmen.
Muitos combates aconteceram em sua aldeia, Tahonan, na fronteira de Hodeida e Taiz.
Enfermeiras estavam cuidando de Ayesha, mas não havia médicos no Hospital al-Sadaqa, em Aden, Iêmen, em 15 de maio de 2018.
34 Segundo Sousa (2002), há três tipos de features photos: as fotografias de interesse humano, as fotografias de interesse pictográfico (Lester, 1991, p. 11-12) e as fotografias de animais. Para a análise desta fotografia, teremos como base o conceito de features de interesse humano, do jornalista Jorge Pedro Sousa:
Nos features de interesse humano as pessoas são representadas de modo simultaneamente natural e único (...). Não se conseguem antecipar as imagens. O momento é ímpar, é aquele que representa as pessoas sendo elas mesmas, estejam elas sozinhas ou em grupo. (SOUSA, 2002, p. 116).
O autor explica que a fotografia feature de interesse humano é única e representa um momento ímpar. De acordo com o dicionário online Michaelis13, na linguagem figurada, o conceito de “ímpar” seria algo “Que não tem igual; que não se assemelha a nada; incomparável, inigualável, único”. Este registro do fotógrafo Tugnoli sem dúvida alguma pode se encaixar no conceito de ímpar, pois mostra a realidade de uma criança que sofre com a triste problemática da fome.
Embora a insegurança alimentar extrema seja comum, tratamos o registro como único por não ser uma cena que se consegue capturar facilmente a qualquer momento. Ela também carrega com si um significado bastante triste: a representação não apenas uma única criança iemenita, mas de todas as que passam pela crise de segurança alimentar do país. É parte de um contexto social extremamente crítico enfrentado por grande parte da população do Iêmen.
Seguindo um dos principais questionamentos desta pesquisa resta-nos questionar: será que há mudança da problemática social a partir dos registros do sofrimento dos iemenitas? Para Sontag (2003), as pessoas não conseguem compreender o sofrimento do outro. Uma vez que estão acostumadas com suas realidades cotidianas, fica difícil se colocar no lugar de quem vive uma situação de sofrimento.
Que fazer com um conhecimento como o que trazem as fotos de um sofrimento distante? As pessoas, muitas vezes, se mostram incapazes de assimilar os sofrimentos daqueles que lhes são próximos. (Um documento contundente desse tema é o filme Hospital, de Fredrick Wiseman.) A despeito de toda a sedução voyeurística — e da possível satisfação de saber que “isto não está acontecendo comigo, não estou doente, não estou morrendo, não estou metido em uma guerra” —, parece normal para as pessoas esquivarem-se de pensar sobre as provações dos outros, mesmo quando os outros são pessoas com quem seria fácil identificar-se. (SONTAG, 2003, p. 83).
13 Disponível em: https://michaelis.uol.com.br.
Sob a perspectiva que os indivíduos são incapazes de assimilar o sofrimento humano de outrem, os registros fotográficos que narram histórias de violência, dor e sofrimento podem de nada adiantar no processo de mudança de uma problemática social. Vemos que as features photos contam histórias, mas é preciso que mais pessoas estejam dispostas a compreenderem as mensagens transmitidas por estas documentações fotográficas.
Figura 10 – Pai observa filho deitado em berço, incapaz de andar ou falar
Fonte: Lorenzo Tugnoli/The Washington Post
Abdo Saleh, de três anos, está deitado em um berço, incapaz de andar ou falar, enquanto seu pai, Saleh Abdo Ahmed, observa no pátio da casa da família em Al Jarb, Iêmen. Sua esposa havia partido alguns dias antes porque Ahmed não tinha meios para salvar o menino. Mas uma visita casual de um médico e a disposição de uma enfermeira da única clínica pediátrica do distrito de viajar até a vila e resgatar Abdo podem ter salvado sua vida.
É triste ver que os autores que discutem mídia, comunicação e fotojornalismo chegam à conclusão de que a sociedade tem se tornado cada vez mais insensível quanto às cenas trágicas que circulam nas notícias e nas fotografias jornalísticas.
(...) num mundo saturado, ou melhor, hipersaturado de imagens, aquelas que deveriam ser importantes para nós têm seu efeito reduzido: tornamo-nos insensíveis. No fim, tais imagens apenas nos tornam um pouco menos capazes de sentir, de ter nossa consciência instigada. (SONTAG, 2003, p. 88).
36 Essa fala da escritora estadunidense Susan Sontag em sua obra, intitulada “Diante da dor dos outros”, reafirma que as pessoas vivem dentro de um espectro de insensibilidade ante ao sofrimento do outro. A autora diz que a comunicação massiva que ocorre por meio da televisão seria a principal causa dessa apatia:
A questão propicia um exame do principal meio de comunicação jornalístico, a tevê.
Uma imagem tem sua força drenada pela maneira como é usada, pelos lugares onde é vista e pela freqüência com que é vista. Imagens mostradas na tevê são, por definição, imagens das quais, mais cedo ou mais tarde, as pessoas se cansam. O que parece insensibilidade se origina na instabilidade da atenção que a tevê intencionalmente provoca e nutre por meio da sua superabundância de imagens. (SONTAG, 2003, p.
88).
Para ela, o excessivo consumo de imagens propiciado pela televisão acaba por transformá-las em banalidade. Este pensamento da autora data o ano de 2003. Imagina se ela tivesse acompanhado os anos seguintes, quando a comunicação através dos meios digitais eclodiu? À medida em que o acesso à internet se tornou mais popular, o mercado comunicativo foi se expandindo e, com isso, a divulgação de informações ganhou mais espaço. Assim sendo, o consumo constante e imoderado de fotografias e notícias intensificou-se ainda mais, não sendo mais a TV a única responsável por propiciar a superabundância de imagens, e, por consequência, a criação de indivíduos hiper saturados.
Figura 11 – Estudantes assistem às aulas na escola Sir Alibdaa
Fonte: Lorenzo Tugnoli/The Washington Post
A figura 11 é o registro de estudantes assistindo às aulas na escola Sir Alibdaa, no bairro do hospital al-Thawra, em Taiz, Iêmen. A escola fica a poucos metros de uma estrada exposta ao fogo de franco-atiradores Houthi.
Nesta imagem o fotojornalista Lorenzo Tugnoli conseguiu captar o olhar direto de uma das estudantes. Ele conseguiu registrar o exato momento em que ela olha diretamente para a lente da câmera. Não é preciso saber o contexto da imagem para notar que a jovem transmite um olhar cansado e preocupado. É possível perceber o semblante de exaustão e também de tristeza. Não se trata de uma fotografia que choca de imediato (como as figuras 8 e 9), ela carece de uma interpretação mais profunda, de um olhar mais atento aos detalhes que compõem o registro.
Figura 12 – Jovem na entrada de uma casa sem telhado onde sua família mora há dois meses após escapar de combate
Fonte: Lorenzo Tugnoli/The Washington Post
A figura 12 mostra Jameela Abdullah na entrada de uma casa sem telhado onde sua família mora há dois meses depois de escapar de um combate em sua aldeia de Al-Jarahi. No sul do Iêmen, um punhado de refugiados iemenitas se transformou em uma inundação, com centenas abandonando suas casas todos os dias. Campos de refugiados surgiram em toda a
38 região, aumentando a pressão sobre as agências de ajuda e hospitais ocidentais, ao mesmo tempo em que piora uma crise humanitária que já é considerada a mais grave do mundo. A maioria das pessoas estava fugindo de confrontos perto da cidade portuária estratégica de Hodeida, sitiada por forças iemenitas alinhadas com uma coalizão apoiada pelos EUA, liderada pela Arábia Saudita e pelos Emirados Árabes Unidos.14
Esta fotografia possui elementos que atraem a atenção do olhar e que também são agentes conferidores de sentido: as cores. Por ser uma feature photography podemos afirmar que os tons da roupa da jovem e da espécie de tecido que cobre o teto não foram colocados ali intencionalmente pelo fotojornalista. Provavelmente foi apenas o momento que acabou favorecendo a composição estética do registro de Tugnoli.
Analisando esteticamente, os tons de rosa e turquesa se encaixam em perfeita harmonia cromática, além de serem cores contrastantes. Atrelado a isso, o fato de parte da parede possuir um tom claro e ao redor o tom ser mais escuro, talvez por conta do efeito das sombras também, causa o efeito de harmonia entre o fundo e o objeto (que seria a jovem). As cores dessa imagem enriquecem ainda mais a fotografia. Ao saber da história de Jameela Abdullah e do contexto do registro fotográfico, torna-se ainda mais impactante.
E esta foi a cobertura fotográfica que consagrou o Prêmio Pulitzer de 2019, na categoria feature photography, ao fotojornalista e colaborador do The Washington Post, Lorenzo Tugnoli: a trágica realidade da crise humanitária da fome no Iêmen. A seguir, iremos analisar as features photos vencedoras do prêmio de 2020. Salientamos, mais uma vez, que nesta pesquisa cinco imagens foram analisadas. No entanto, a cobertura fotográfica completa de Tugnoli possui 16 fotos, que estão disponíveis no site da premiação15 ou no endereço eletrônico do The Washington Post16.
3.3 VENCEDORES DE 2020 - CHANNI ANAND, MUKHTAR KHAN E DAR YASIN DA