CAPÍTULO 1. E LOMAR , POETA EM TEMPO INDIGENTE
2.4 Vencer Prometeu
Baseando-se no conceito de cruzamento inter-racial do índio com o português, Elomar idealiza o arquétipo do sertanejo privilegiando elementos associados a tais etnias. Em relação aos rituais do sincretismo afro-brasileiro, é observada tendência em reafirmar estereótipos que divulgam uma visão negativa, decorrente dos valores cristãos e protestantes. Entende-os como forma de superação do paganismo, o que, segundo crença messiânica do compositor, é alcançado por meio do batismo.
Nesse sentido, a canção Canto de Guerreiro Mongoió é ilustrativa. O artista busca na figura do índio – especificamente, os Mongoiós, conhecidos como Camacãs, habitantes da região de Vitória da Conquista até o século XIX – o arquétipo do guerreiro para construir um manifesto do sertão. Faz, inclusive, citações em tupi e referências às famílias portuguesas tradicionais, como os Palmeiras e os Oliveiras, que iniciaram o povoamento daquela localidade:
Uíure iquê uatapí qui apecatú piaçaciara unheên uaá uicú arauaquí ára uiúre ianêiara Depois, depois de muitos anos
voltei ao meu antigo lar desilusões qui disinganos não tive onde repousar Cortaram o tronco da palmeira tribuna de um velho sabiá e o antigo tronco da oliveira jogado num canto pra lá qui ingratidão pra lá
Adeus vô imbora pra Tromba lá onde Maneca chorô de lá vô ino prú Ramalho prú vale verde do Yuyú Um dia bem criança eu era ouvi d’um velho contador sentado na praça da bandeira que vela a tumba dos heróis Falou do tempo da conquista da terra pelo invasor qui em inumanas investidas venceram os índios mongoiós valentes mongoiós [...]
O texto crítico – ao propor desembaraçar as teias de sentidos do sagrado – elucida as tensões entre os valores do artista e os do homem religioso, máscaras ficcionais, conforme ressaltado anteriormente. Retomo temas paradoxais que ilustram a postura de Elomar como “intelectual cristão”. A figura do autor é intrigante e enfatiza atitudes polêmicas e provocadoras. Nos textos, demonstra erudição e domínio dos recursos estilísticos e literários por meio de jogos de palavras que dinamizam a potência ambígua e plurissignificativa da
linguagem. Em Cantiga de Amigo, explora o signo “conta”, tanto no sentido de contar, narrar uma história, quanto no de operação matemática:
Dezessete é minha conta Minha amiga conta Uma coisa linda pra mim Conta os fios dos seus cabelos Sonhos e anelos
Conta-me se o amor não tem fim Madre amiga é ruim
Me mentiu jurando amor que não tem fim
O sentido de contar os fios dos cabelos é ambíguo: denota quantificá-los e, ainda, narrar, desenlear os fios de um novelo, de uma trama na qual figuram sonhos, aspirações, desejos ardentes, apaixonados. Do refinamento e agudeza das imagens, emerge o romantismo da canção, presente também em Deserança:
Já não sei mais o que é fazer contas até já perdi as contas
dos cantos dos rios das contas que meu peito, amor, cantou perdido de amor por ti [...]
Elomar transita, ainda, pelo discurso religioso e doutrinário: algumas vezes, cita, literalmente, trechos da Bíblia. Das tramas textuais, surgem tanto referências ao paganismo quanto à religiosidade cristã, perspectivas que se embatem nas frestas do dito e do não-dito, do que se sobressai ou se dissimula nas falas do homem religioso e do artista. O primeiro é conservador e reacionário; o segundo, atento ao sagrado popular e pagão, fascina-se com a diversidade das culturas e manifesta atitudes de protesto, inalienadas, por vezes anárquicas. Por meio delas, legitima a fala do oprimido, numa crítica contundente às políticas autoritárias, ao modo de um manifesto do sertão.
Nas tramas de valores enredados no discurso, ressalta-se o que do homem religioso é também dionisíaco, intuitivo, arrebatado, não-racional, e o que do artista é igualmente apolíneo, racionalista, centrado e fixo. O homem religioso e o revolucionário, conforme Octavio Paz (1984), são adversários da realidade conformada pela poesia, integrante do universo do artista. O religioso burocratiza os produtos da imaginação poética, transformando-os em crenças e estas, por sua vez, em sistemas rígidos. O revolucionário é inspirado pela razão crítica e compreende o tempo como uma realidade datada e histórica. A poesia não é constituída pela coerência da razão e, sim, pela dinâmica dos ritmos. O artista confere forma sensível às idéias religiosas, transmutando-as em imagens, pois uma das suas funções é apontar o outro lado das coisas, o maravilhoso cotidiano, que não é irreal, mas é a
extraordinária realidade do mundo. Por isso, é seduzido pelas potências míticas, extraindo delas não apenas o caráter religioso que encerram, mas, principalmente, a fabulação poética transfiguradora do mundo cotidiano.
Entretanto, ao valorizar, em simultâneo, o pensador – que capta a realidade presente pelo intelecto, pela razão e é consciente da historicidade do tempo – e o profeta – que visiona o futuro e aspira ao transcendente –, Elomar projeta um conceito ambíguo a partir do qual dialogam o artista e o homem religioso.
Com isso, processa um deslocamento, associando idéias a princípio incompatíveis, produzindo contrariedade e estranhamento. Compreende o sagrado não apenas como lenda, mito e realidade a-histórica, mas afirma sua historicidade, a atuação do homem no tempo presente, o que demonstra consciência moderna. Em Incelença ad moribundum solem, apreende-se tanto um sagrado histórico, transitório, marcado pela enumeração cronológica, quanto outro superior ao transcurso da história. No excerto seguinte, as referências aos personagens bíblicos em inversão temporal – de Jesus a Adão – opõem-se à imagem do sol, elemento da natureza que paira acima do mundo efêmero:
Ao grande Deus autor de terra e céus agradecemos benefícios
recebidos desse gigante de luz, o sol o mesmo sol que neste mundo viu Jesus, David, Moisés, Abraão Noé e a queda de Adão
Que ora, moribundo e de vela na mão vai deixando esse mundo
para sempre
abismando-se em grande escuridão para que venha o sol da justiça Jesus Cristo o nosso herói
libertador o Rei dos Reis.60 (ANEXO A)
Observa, igualmente, uma lógica do sagrado, embora não-racionalista, como na canção Seresta Sertaneza:
nestes mundos dissipados
magas entidades dotam o corpo meu de poderes encantados
mágicos sentidos na razão dos céus
pois findir61 o espaço e o tempo vencer as tentações rasteiras do instinto animal
só é dado a quem vê no amor o único portal (grifo meu)
60 Dois fragmentos dessa antífona foram gravados com os títulos Loa e Gratidão, no disco Elomar em
concerto.
61 “findir – neologismo criado pelo autor que, segundo ele, é uma forma supletiva para o ato de fazer fender algo por meio da ficção”. In: Darcília Simões, Elomar e a língua sertaneza, s.p.
As formas paradoxais e ambíguas do sagrado compõem uma poética em que artista e homem religioso constituem-se em duplo, ambos alter-ego da figura complexa do autor. Esses outros de Elomar entram em disputa de violas e valores. A força vital e caótica do sagrado convive com a vertente apolínea, a disciplina, a ordem, que se agrega ao sagrado doutrinário, moralizante e, por se fixar em determinada ideologia ou religião, repressor da pluralidade. Assim como na narrativa bíblica e na tradição oral, nos textos de Elomar encontram-se pontos nos quais o discurso religioso sobre o sagrado é construído pelo desejo de Verdade, conduzido pela idéia de origem absoluta e pelo anseio de unidade. Neles, a valorização das imagens da tradição cultural – desenvolvida de modo singular no Nordeste brasileiro – enfatiza uma cosmologia religiosa diversa e complexa que fornece as estruturas de um saber, estabiliza laços sociais e orienta interpretações e sentidos para a vida humana.
Em incursão de pesquisa, no Rio do Gavião, em 1998, ao ser indagado sobre possível conceito para o sagrado, Elomar responde: “sagrado para mim é tudo aquilo que me foi recomendado sacração pelo próprio Deus. Deus me recomendou como respeitável, como sagrado, como digno de amor e reverência. O que ele não recomendou não é sagrado.” E acrescenta: “Os meus conceitos de sagrado eu tiro da palavra sagrada, pelo que eu li, pelo que aprendi da palavra de Deus, o que Deus mostrou direta ou indiretamente. Como exemplos, o pão, a comida, a minha cultura, a moldura ética e moral [...]”.
Essa definição dicotômica e valorativa enfatiza um dos aspectos do sagrado, aquele pertinente ao homem cristão, excluindo, desse modo, as tramas de onde emergem outras potências do sagrado. A vertente do homem religioso é predominante nas antífonas, cantos em louvor a Deus. Entre elas, Incelença ad moribundum solem, na qual, entretanto, vê-se também um sagrado apocalíptico, dionisíaco, na referência ao fim dos tempos:
I ORÁCULO
Chora minh’alma infeliz pois te é vindo um grande mal nenhuma réstea de luz desde o austral ao setemptrião em desespêro ingente
os homens sôbre a terra tomada pela escuridão
enregelados chocalhando os queixos se mal dizentes no ferver da tribulação e desgraçados, famintos e nús
em densas trevas e sós sem fanal os homens se vão II ORÁCULO
U’a negra mortalha cobre a terra posta pelas mãos da morte
não se ouve mais o som das flautas nem bulício de meninos
brame o mar em gigantescas ondas rugem feras abissais
já não há mais pão nem há mais vinho pois os campos não produzem mais III ORÁCULO
Alcemos nossas mãos aos altos céus cantemos loas para o grande Deus eis que este mundo chega ao final morrendo o sol (ANEXO A)
A canção Loas para o Justo é outro exemplo que revela a vertente do sagrado conformada pelo homem religioso:
Quando os campos fulminados são Pelos dardos de ouro do sol E os rebanhos magrinhentos vão Vagabundos procurando o sal Sopra o Norte, vento amigo Forma o forro e a chuva cai Confundem o autor desta grandeza Uns dizem é a natureza
Cantam os menestréis Já eu canto com fé e firmeza Que o autor da natureza É Cristo, o Rei dos Reis Se na noite tenebrosa
O anjo mau ferir meu coração Turbulenta e em pavorosa Arderá minha consciência de réu Tua presença silenciosa
Enternece o peito meu Minha alma, candeia falida De noiva vestida
De novo acendeu
Levantaste-me do munturo E em meu covil escuro A luz resplandesceu Testificam-Te estas loas Urdidas no fuso coração Ciente que Tu povoas
Meus cantos com Tua inspiração Já entreguei-Te minha vida Meus queridos, tudo o mais Receba agora meus louvores Que nestes cantares
Minha alma Te faz Levantai cegos menestréis Cantai que o autor de tudo É Cristo, o Rei dos Reis
Em Loas para o Justo, o cantor opõe sua definição de sagrado à de outros menestréis. Estes reduzem a explicação dos fenômenos naturais à confluência de elementos que geram efeitos na própria natureza, a exemplo da chuva que chega com a força do Vento Norte e traz a fertilidade. Os menestréis conferem os benefícios da chuva à natureza, o que é uma visão tendenciosa para o paganismo. O cantor, diferentemente, é enfático e atribui dimensão
sagrada ao evento, aceitando-o como epifania. A canção Natureza, do cantador Ivanildo Villanova, é exemplar do assunto. Para justificar as manifestações surpreendentes da natureza, assevera: “Isso é obra da santa natureza”; “pela força da santa natureza”; “pelo santo poder da natureza”; “com os fios da santa natureza”; “quanto é grande e tão bela a natureza” ou “pela força suprema da natureza”, sem, em nenhum momento, arrogar a autoria dessas manifestações a Jesus Cristo. Ao contrário, o cantor de Loas para o Justo reclama a autoria para Cristo, o Rei dos Reis, o Justo, para o qual as loas são dedicadas, reafirmando a doutrina cristã, transmitida pela Bíblia e comprovada na observação da natureza.
A alma do cantor das loas, comparada à “candeia falida”, veste-se de noiva, eleva-se com a revelação de Cristo que a levanta do monturo. A sua consciência, antes “covil escuro”, é arrebatada pela luz resplandecente que descobre a santidade de Cristo, a quem confere poder
inspirador. Há aqui referência à Parábola das Dez Virgens, do Novo Testamento62. A “candeia
falida” representa o estado de espírito do cantor, para quem a porta do Reino dos céus estava fechada, antes de aceitar a luz da santidade de Cristo. A canção termina com o pedido aos outros menestréis que se levantem e também confiem no filho de Deus como símbolo de justiça, poder e, finalmente, como Autor da Natureza.
Na definição de sagrado do cantor das loas, há uma recusa das divindades do paganismo, identificadas com o diabo, anjo do mal a ser vencido, para o triunfo do Deus cristão, como em Seresta Sertaneza:
[...] tresloucado cavaleiro andante a vasculhar espaços
de extintos céus
num confronto derradeiro venci Prometeu, anjo do mal o mais cruel
acusador de meus irmãos.
Os versos “venci Prometeu, anjo do mal/ o mais cruel/ acusador de meus irmãos” expressam atribuição negativa ao paganismo. Prometeu é uma divindade da mitologia grega e criador da raça humana, juntamente com Minerva. Possuía dons proféticos e era cultuado em Atenas. Júpiter, temendo a força humana, esconde-lhe o fogo, mas Prometeu, numa atitude transgressora, voa ao céu, acende um galho nas brasas do carro solar e entrega a chama ao homem. Noutra versão, ele rouba o fogo de Vulcano e Júpiter manda Pandora à terra para espalhar desgraças entre os homens. Mas Prometeu mantém uma postura de revolta, desafiando os deuses, por isso Júpiter o acorrenta ao monte Cáucaso e envia uma águia para comer-lhe o fígado que se regenera constantemente. Trinta anos após, é libertado e torna-se
62 Cf. Mateus, cap. 25, v. 1-13.
mortal, mas volta à condição de divindade quando o centauro Quirão, ferido por uma flecha de Hércules, oferece-se para morrer no lugar do titã. Vencer Prometeu – que em Seresta
Sertaneza recebe a designação de acusador dos homens, assim como o diabo é entendido no
Antigo Testamento63 – significa, então, superar o paganismo. Portanto, triunfa a fé cristã num
Deus uno e universal que apaga o diverso, plural e estranho.