3 CAPÍTULO III: ANÁLISE ACERCA DA APROPRIAÇÃO DO ESPAÇO
3.2 Dados qualitativos e análises
3.2.9 Venda de apartamentos
A questão da venda de apartamentos é um ponto importante para destacarmos, pois é proibida a venda desses imóveis já que são provenientes de uma política social cujo objetivo é facilitar o acesso da população que almeja conseguir a casa própria, mas não tem condições de financiá-la. Neste sentido, a Caixa Econômica Federal que é responsável pelo financiamento não autoriza a venda dos imóveis, pois pode até perder o imóvel qualquer beneficiário que praticar tal ato, porém, mesmo assim encontramos alguns moradores que relataram que essa prática existe no Residencial Major I.
Segundo M-01 no condomínio
Tem apartamentos aqui vendidos, passados pra outras pessoas. A Seplan dizia que não podia, que ia atrás pra tomar, mas muita gente tá indo embora. E outra... quando eles vem, a pessoa que comprou conhece a pessoa que vendeu, aí combina e diz assim: “Eu passo a semana na sua casa até a Seplan vir e saber que eu to morando, quem que vai dizer que eu não estou?”, mas tem vizinhos que sabem que ela realmente não mora, que já vendeu, mas ninguém realmente diz nada não quer se envolver porque isso aí é o papel da Seplan fiscalizar, mas tem muita gente que faz isso, sabia? Passa a semana na casa pra quando a Seplan vir achar que está morando sendo que não tá, aí quando a Seplan passa a pessoa vai embora e pronto, muitos fazem isso aqui (M-01, Out., 2015).
A partir deste depoimento podemos observar como os moradores “burlam” os poderes públicos em relação ao controle sobre a moradia, ficando claro que não existe uma
fiscalização e um controle efetivo por parte da SEPLAN em relação a ocupação dos apartamentos pelos devidos beneficiários. Neste sentido, podemos também questionar a própria seleção das famílias, pois, se realmente se encaixam nos critérios estabelecidos deveriam residir no imóvel e não vende-lo ou alugá-lo.
Sobre o contrato de compra e venda (M-03, Out., 2015) relata que
Aí faz outro contrato por cima, esse apartamento aqui de frente já foi vendido duas vezes, já teve dois donos. Mas, só que esse contrato de compra e venda não procede porque até o momento não é de ninguém porque não foi quitado, por enquanto ainda é do Banco, então, ninguém pode vender. Aqui até onde eu sei nunca veio uma vistoria. A gente escuta boatos que tiraram gente de uns apartamentos no Major III, mas é só boato. Eu vi uma vez só a Seplan perguntando se quem estava aqui era eu mesmo como morador depois disso nada. Um apartamento desse aqui é avaliado em torno de R$100.000,00 e o que acontece é que o pessoal vende por R$10.000,00 aí piora a situação porque, em tese, quem entra num negócio desse é errado, se teve coragem de entrar num negócio errado, é porque é errado e está se arriscando muito porque quem levou o dinheiro num vai devolver. Ontem eu fui na Caixa e diz eles que em breve a Caixa vai estar fiscalizando aqui, num sei se vai mesmo.
É evidente que há um descompasso entre as estratégias dos moradores e a perspectiva técnica que segue a lógica do que é “legal” e permitido. Alguns moradores tentam de alguma maneira “burlar” tais regras impostas pela instituição (neste caso o Caixa Econômica Federal) que regula os contratos dos apartamentos, porém, cabe ressaltar que até o momento não existe nenhuma fiscalização formal sendo realizada no local, apenas as visitas técnicas da SEPLAN, que segundo os próprios entrevistados, não são regulares e que quando ocorrem não conseguem identificar tais práticas.
O entrevistado (M-03, Out., 2015) ainda descreve
Outro problema é que algumas pessoas agem de má fé porque se não quiser o apartamento ao invés de entregar a Caixa Econômica pra repassar pra outra pessoa... aí resultado: o pessoal vende barato e termina que entra outras pessoas que na maioria das vezes é pior do que quem já estava. Aí o que acontece? No começo a gente ficava até meia noite ou uma hora da manhã lá fora e agora tem medo até de deixar a janela aberta à noite.
Essa fala tem dois elementos importantes: um seria o caráter da venda, propriamente dita e, outro, as consequências e o conflito já gerados pela vinda de outros moradores. Podemos observar também como os primeiros moradores (aqueles que participaram do sorteio) se posicionam em relação a estes moradores que se inserem no local a partir da compra ou aluguel do apartamento, estes são tidos como “não merecedores” desta moradia, pois, não participaram do processo legal como os demais.
Como mencionado outra prática existente é o aluguel dos apartamentos por parte de alguns beneficiários como relata (M-05, Out., 2015).
Na verdade aqui eu não ganhei [o apartamento], aqui é alugado, porque é assim, a dona que ganhou isso aqui ela vendeu a outra pessoa e essa pessoa foi e me alugou, aí aqui é alugado. Mas, eu amo aqui, eu gosto, em vista da casa onde eu morava que estava com muitos problemas e eu já estava pensando em como ia passar o inverno lá, tinha cada goteira parecia uma peneira! Era uma casa antiga, casa velha, caibo podre tinha muito cupim em cima do sofá e lá eu pagava R$ 300,00 já aqui eu pago R$250,00 e aqui é “mais bom” tudo limpinho, tudo “enxutinho” isso é coisa pra rico, eu gosto muito daqui, a gente só paga mesmo o aluguel, o condomínio do apartamento é do dono.
Temos como exemplo do que foi abordado anteriormente sobre o aluguel dos imóveis a fala de M-05 que relata que reside no imóvel porque o alugou de uma pessoa que não foi a beneficiária do sorteio, ou seja, o imóvel já havia sido vendido e agora está alugado o que configura duas práticas distintas consideradas ilícitas, uma vez que o imóvel ainda não foi quitado junto ao Banco por isso não poderia ter sido vendido, no entanto, tais práticas ocorrem porque não existe uma fiscalização que possa detectar tais práticas.