I. O passado e o presente na escrita do Oceana
I. 2. A história que ensina
1.4 Veneza: o passado no presente
Quentin Skinner, em seu livro As Fundações do Pensamento Político Moderno, afirma que o ideal de liberdade para boa parte das cidades do norte da Itália tem sua origem antes dos tempos modernos, contexto temporal de James Harrington. Certa semente republicana poderia ser vista mesmo a partir do século XII, pois já
47 It was nowise probable, if Augustus had not made excellent laws, that the bowels of Rome could have
come to be so miserably eaten out by the tyranny of Tiberius and his successors. The best rule as to your laws in general is that they be few. Rome, by the testimony of Cicero, was best governed under those of the twelve tables[...] You will be told that where the laws be few they leave much to arbitrary power; but where they be many, they leave more, the laws in this case, according to Justinian and the best lawyers, being as litigious as the suitors. Solon made few, Lycurgus fewer, laws; and commonwealths have the fewest at this day of all other governments (HARRIGTON, Oceana, Preliminar I).
73 contrariavam a ideia difundida da monarquia hereditária ser a melhor forma de governo.
A primeira cidade a adotar a forma consular de governo foi Pisa, em 1085, que foi seguida por várias outras. Já na segunda metade do século XII, o poder passou dos cônsules ao podestà, funcionário da cidade que merece nossa atenção por representar muito do que eram os ideais republicanos do momento e que inspiram o pensador. Podestà geralmente era um cidadão de uma cidade vizinha, pois o objetivo era não ter nenhum vínculo que o atrapalhasse na administração da justiça. Era eleito por voto popular e tinha dois conselheiros principais. O poder dele estava tanto no âmbito administrativo como no judiciário. Era um funcionário, não um governo independente com funções irrestritas. Seu tempo de mandato era de seis meses e, ao final, passava por exames de suas contas e sentenças.
No entanto, se o ideal republicano de liberdade e não hereditariedade dos governos esteve presente nas cidades italianas, elas não estiveram livres de ameaças externas. Constantemente o poder papal e o Sacro Império Germânico fizeram tentativas de anexação dos territórios. Contudo, com a mesma força que eram atacadas, reafirmavam sua independência e a convicção sobre a forma como imaginavam que deveriam ser governadas. Isso fez, inclusive, com que se unissem em prol da defesa mútua, formando a liga Lombarda, que foi vencedora contra o imperador germânico (SKINNER, 1996, p. 28).
Entretanto, no século XIII muitas cidades terminaram por abandonar as constituições republicanas e aceitaram a paz de um único senhor para ter paz cívica: os tiranos. Assim, em muitos locais as divisões internas e a ascensão da classe de comerciantes significaram o fim do podestà, dando início às brigas de famílias pelo controle político. A conclusão a que muitas chegaram após as brigas incessantes foi que era melhor ser mandado por um único senhor do que ter a liberdade sanguinária (SKINNER, 1996, p. 45).
Florença e Veneza, no entanto, resistiram, sendo que Florença tornou-se símbolo da ideologia cívica republicana. Nesses locais, a retórica era estudada como fundamento necessário para a construção da virtude, necessárias a um bom governo republicano, baseado na liberdade. O ideal seria o de autogoverno, de liberdade e de um poder que devia emanar do povo.
74 Aristóteles, principalmente por intermédio dos pensadores escolásticos que colocavam ênfase na liberdade. Personagens como Cícero e Catão eram valorizados em detrimento de Júlio César, pois eram representantes da vontade popular. A paz estava ligada à liberdade, contrariamente aos pensadores que, como Hobbes, vinculavam a paz a um governo centralizador e monárquico (HOBBES, Leviatã).
É importante destacar crenças presentes em Harrington que tiveram, possivelmente, raízes em seu encontro com as cidades italianas. Um exemplo disso é a relação entre cidadania guerreira e liberdade republicana. Em Florença, se defendia a ideia de que os cidadãos deveriam poder defender suas terras contra os que quisessem atacá-las. Da mesma forma que defendia Harrington para o reinado de Oceana, seria necessário que os próprios donos das terras defendessem a cidade, pois mercenários só guerreavam por dinheiro. Esse ideal, já presente na Política de Aristóteles48, fazia parte da defesa dos pensadores de Florença e certamente inspirou
James Harrington.
Maquiavel, referenciado continuamente por Harrington em seu texto, também acreditava na necessidade de fortalecer a república por meio de homens com alto nível de virtude, cidadãos que lutariam pelo bem da cidade e não mercenários, contratados para defendê-la. Na Arte da Guerra, Maquiavel deixa claro que a milícia deve ser de cidadãos bem preparados na defesa de sua cidade.
Como veremos, Harrington inspira-se muito no florentino em seu conceito de Republica Moderna. Para ele, ninguém como Maquiavel havia apresentado o conceito de prudência moderna, que era a base de sustentação de um governo sadio e duradouro que não se abateria por qualquer motivo.
Como podemos perceber, esse é um local comum no campo da argumentação para os pensadores ligados às cidades italianas. Por exemplo, Savanarola, que era um pregador protestante, mesmo pensando que a monarquia era a melhor forma de governo – embora fizesse exceção para o caso de Florença – alertava sobre o perigo de tropas mercenárias, defendendo a necessidade do soldado-cidadão como salvaguarda de sua cidade (SKINNER, 1996, p. 170).
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“Se o país deve pertencer aos homens de guerra e aos que governam o Estado, não pensamos, porém, como alguns, que todas as riquezas devam ser comuns; acreditamos apenas que seu uso deve ser comunicado como que entre amigos, de modo que a nenhum cidadão possa faltar o pão” (Política) [ grifos meus].
75 Como admirador de Veneza, Harrington entendia como importantes valores que eram defendidos e admirados pelas cidades italianas por serem defensores da forma republicana de governo como promotora da liberdade. Dessa forma, ele e os pensadores italianos olhavam para a Antiguidade com questionamentos e olhares semelhantes, admirando os defensores republicanos e repudiando os que defendiam o governo de um só.
De acordo com Quentin Skinner, Veneza foi quem mais demonstrou apego aos valores tradicionais na independência de governo. Em suas palavras: “Enquanto o resto da Itália sucumbia à regra dos signori, os venezianos jamais renunciaram a suas antigas liberdades” (SKINNER, 1996, p. 160). Para isso, alicerçavam sua constituição em três elementos: o consiglo grande, corpo responsável pela eleição da maior parte dos magistrados; o senado, que controlava as relações exteriores; e as finanças e o Dage, com seu conselho, que era o chefe eleito do governo.
É preciso observar que a relação entre os poderes e a divisão lembra muito, como vimos, a forma como o pensador inglês entendia que o poder devia ser, com divisão e formação sumariamente oligárquica. Só havia uma diferença: para Harrington, era indispensável a participação do povo como elemento representante na divisão de poder. Isso faltava à Veneza e, por isso, houve muitos protestos daqueles que foram afastados do governo. Para contê-los, foi instituído um órgão de segurança pública, responsável por conter tais manifestações.
Após isso, Veneza teria entrado num período de paz e prosperidade que foi reconhecido em boa parte do mundo, durando cerca de seis séculos de estabilidade política. Não por acaso, foi chamada de “República Sereníssima”, exemplo a ser seguido pelas demais. O grande ponto era como os venezianos conseguiram conciliar a liberdade política com a exclusão de facções que poderiam balançar os alicerces da paz. É importante perceber que esse é um ponto comum que une vários autores do período moderno: a manutenção da paz em um mundo constantemente balançado pela mudança de poder e por guerras era a questão que inspirou muitas teorias políticas como as de Hobbes, Harrington e Maquiavel.
Pier Paolo Vergerio tentou resolver esse enigma, propondo uma carta ao chanceler de Veneza, datada de 1394, em que desenvolveram o texto chamado Fragmento sobre a República de Veneza (op. Cit SKINNER, 1996, p. 160). Tendo
76 como base a tese de Platão, defendia que a melhor forma de governo era a combinação das três formas “puras” de governo, resultando numa junção entre a monarquia, a aristocracia e a democracia. Assim, a razão do sucesso de Veneza estava na boa combinação das três, o que trouxera paz e estabilidade invejável à cidade. Assim, o Doge representava o elemento monárquico; o senado, o aristocrático; e o Grande Conselho, o democrático. A sabedoria de Platão, portanto, usada em Veneza, era o sentido dessa cidade ser um modelo e exemplo para todas as outras.
Barbaro, que era o destinatário dos Fragmentos, respondeu com elogios à carta, aproveitando para sugerir que incluísse na tradução, já pronta, das Leis do pensador ateniense uma introdução com analogias entre a teoria platônica e a prática veneziana. Jorge, por sua vez, escreveu o ensaio no livro e dedicou-o ao Doge, recebendo uma bela remuneração por sua exposição da singular estabilidade da República (SKINNER, 1996, p. 161).
O mito da Veneza como lugar da república ideal, modelo a ser seguido por todas as nações, influenciou não só as cidades vizinhas, mas a Inglaterra, fundadores dos Estados Unidos e o próprio Brasil. Na Guerra dos Mascates, quando se propôs uma república, o modelo era o de Veneza (MELLO, 2002, p. 155). Esse é um dado interessante e curioso, de certa forma, já que a Revolução de 1817, por exemplo, já se voltaria aos modelos da Revolução Francesa e da Constituição Americana. O modelo veneziano, em tempos modernos, superaria, inclusive, como vimos, seus antecessores antigos: os romanos.
Segundo Evaldo Cabral de Mello (2002, p. 159), o mito glorioso de Veneza estaria presente no Brasil graças aos florentinos que se estabeleceram em Pernambuco, em meados do século XVI, sendo o mais ilustre deles Felipe de Cavalcanti. No entanto, o modelo estava circunscrito ao estado de Pernambuco, já que, até então, se acreditava que a república era perfeita para pequenos estados como Gênova, Veneza ou os Países Baixos. Somente após a independência americana a crença desse modelo para grandes extensões se encherá de sentido, fazendo mudar a ideia de que, para grandes estados, o melhor governo era uma monarquia. Assim, não se imaginava construir uma república com a dimensão das terras portuguesas, pois embora a Inglaterra tenha vivido certo tempo como uma República, logo isso se modificou.
77 já que, em sua concepção, não existe a limitação que se imaginava para os regimes republicanos. Para ele, aliás, não há uma único forma de governo, mas, de acordo com a distribuição das propriedades, existe um modelo ideal que mantém a paz e a estabilidade permanente. Assim, na Inglaterra moderna, o ideal seria uma república e não uma monarquia, como era o pensamento de boa parte dos intelectuais do período. De acordo com Pocock (2003), para entender a importância que Veneza, juntamente a outras cidades gregas, terá na imagem dos pensadores modernos, é importante entender a centralidade do conceito de virtude (virtú), como o mais importante na política. Os Renascentistas e leitores modernos almejavam a virtude dos antigos como o bem mais essencial na vida em sociedade, capaz de trazer a paz e a estabilidade social. Nesse sentido, os lugares onde a virtude mais estaria desenvolvida seria nos governos republicanos, promotores da virtude de forma ampla e total (POCOCK, 2003 (b), p. 185). Pensadores de Florença tinham como principal questão como a república começa e como pode permanecer:
[...] Para os teóricos florentinos, preocupados com os valores republicanos, portanto, era tanto uma prática e um problema teórico de primeira ordem mostrar como repúblicas surgiram e como elas podem ser mantidas. As apostas eram muito altas, sendo nada menos do que o estabelecimento da virtude como princípio de vida ativa; os riscos foram igualmente altos, por causa da dificuldade de fundamentar a empreitada em um fundamento inseguro e transitório (POCOCK, 2003 (b), p. 184)49.
A virtude é o grande valor humanista e moderno, que é buscado como necessário para a construção de um governo sadio e duradouro. É importante destacar que isso têm suas raízes nos clássicos – principalmente em Aristóteles – que, como vimos, tinham o bem comum como o valor mais importante do governo. Isso permeia a obra de Harrington já que ele, como outros de sua época, compreende a república como o local onde a virtude está mais presente.
Dessa forma, entre o passado antigo e o seu presente, Harrington apresenta os modelos e inspirações do seu modelo de Estado. Enquanto Israel, Atenas e Esparta
49For Florentine theorists concerned with republican values, therefore, it was both a practical and a
theoretical problem of the first order to show how republics came into being and how they might be maintained. The stakes were very high, being nothing less than the establishment of virtue as a principle of active life; the risks were equally high, because of the difficulty of grounding the enterprise on any but an insecure and transitory foundation.
78 eram as raízes de suas reflexões sobre o passado, Veneza era o modelo em seu tempo. Para ele, contudo, não há diferenças, já que, como vimos, entre o passado e seu presente há uma ligação que une e dá sentido. A narrativa historiográfica dá sentido e une fatos distantes no tempo e no espaço, possibilitando aprender com o passado e dar sentido ao presente.
Para convencer seu leitor, essa junção entre presente e passado é estabelecida de maneira clara, possibilitando perceber que há um elo entre os antigos e seus contemporâneos que permite dar ao que acontece entendimentos comuns. Nesse sentido, é possível perceber que a retórica é usada não meramente como ornamento, mas como persuasão de acordo com o que se imagina ser a comunidade linguística de seu momento.
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