O subtítulo do presente item é uma das falas da entrevistada Mérida sobre sua intenção de retornar à Venezuela. Ao retratar a realidade em que vivia, suscitava recorrentemente a necessidade de muitas mudanças em seu país para que tivesse o desejo de retorno.
Para compreender o processo migratório venezuelano, sobretudo em direção ao Brasil, é necessário fazer um percurso sobre a história do país, que tem como plano de fundo uma
colonização espanhola e que conquistou a independência no século XIX, passando a construir a sua própria identidade nacional.
Como a maior parte dos países da América do Sul, a Venezuela passou por um período ditatorial, seguido de uma tentativa de redemocratização a partir de 1958. Entretanto, essa tentativa foi marcada por governos que prezavam pela manutenção de privilégios dentre a classe política. Essa manutenção foi manifestada pelo Pacto de Punto Fijo, que consistia em um acordo entre os partidos políticos de atuarem juntos, considerando que o Partido Comunista Venezuelano (PCV) foi deixado de fora desta coalizão, que abrangia a Ação Democrática (AD), o Comitê de Organização Política Eleitoral Independente (COPEI) e a União Republicana Democrática (URD) (AMENTA, 2010). Nesse sentido, o Pacto conferiu estabilidade política, uma vez que representava uma aliança de interesses.
O petróleo foi descoberto no território no ano de 1917 e, a partir de 1926, se tornou o principal produto de exportação. Desse modo, a Venezuela deixou de ser um país predominantemente agroexportador para ser um país petroleiro. Em consequência, a maior parte do capital financeiro passou a ser estrangeiro e, então, os períodos de recessão e prosperidade econômica estavam estreitamente relacionados com o valor do petróleo. Todo esse contexto levou o país a se tornar um importador de alimentos, o que influenciou a migração urbana (SANTOS, 2020).
Nesse raciocínio, ao se perceber o grande retorno lucrativo da exportação de petróleo e o produto ser visto como pertencente à população venezuelana, a principal reivindicação girou em torno da distribuição da renda petroleira, no lugar da nacionalização da extração do petróleo.
Esse posicionamento colaborou para a mantença de empresas estrangeiras, desde que, desta relação, fosse auferida uma distribuição da renda resultante. Logo, constituiu-se uma visão de que havia uma convergência entre os interesses da indústria e os da nação (SANTOS, 2020).
Assim, a percepção da Venezuela como uma nação petroleira se desdobrou em duas associações correlatas: entre democracia e distribuição da renda advinda do petróleo, e entre o progresso da nação e a prosperidade do negócio petroleiro. Esta ideologia, que aponta para a convergência entre o interesse nacional e o negócio petroleiro transnacional, está subjacente à frase de maior ressonância na Venezuela contemporânea: “Semear o petróleo”. (SANTOS, 2020, p. 35).
Essa construção histórica ajuda a perceber o que acontece atualmente na Venezuela.
Diante de sucessivas trocas de poderes, entre ditaduras e potenciais governos democráticos, a mudança da principal atividade econômica desde 1926 e, a partir daí, o enfoque econômico em
apenas um produto, mas cuja exploração ficou predominantemente nas mãos das empresas estrangeiras, retornando à população venezuelana apenas o lucro advindo da exportação, fez com que “a riqueza petroleira convertesse a Venezuela em uma espécie de ‘parasita da natureza’” (SANTOS, 2020, p. 36).
A capacidade de investimento no desenvolvimento da nação passou a depender do valor do petróleo, uma vez que deixou de se preocupar com a promoção de outras atividades de produção e também a diversificação da indústria. Outro aspecto relevante é que, diante da prosperidade petroleira, a disputa pelo poder para o governo do Estado aumentou, pois este cargo seria o intermediário entre os lucros petroleiros e o interesse da nação.
O Pacto de Punto Fijo precisamente funcionou para que houvesse uma maior estabilidade política diante dessa disputa pelo poder, além de garantir o lucro das atividades petroleiras, o que estreitou a relação entre Venezuela e Estados Unidos:
[...] costura de um arranjo satisfatório às diferentes frações da classe dominante no que concerne aos privilégios associados à renda petroleira. Este arranjo consumou-se em 1958 com o famigerado Pacto de Punto Fijo, que implicou fundamentalmente a partilha do Estado entre os dois braços da ordem: AD e Comité de Organización Política Electoral Independiente [...]
que passaram a se alternar no poder Executivo; integrar as Forças Armadas e aos privilégios petroleiros; controlar os sindicatos, [...] e reprimir os dissidentes, sobretudo comunistas. [...] o pacto aceitou as premissas em que se assentava a reprodução do negócio petroleiro, o que teve como consequência, no plano geopolítico, o alinhamento do país com os Estados Unidos. (SANTOS, 2020, p. 37).
O processo de corrosão do Pacto ocorre sobretudo com a queda do preço do petróleo em 1980 e a consequente desvalorização do bolívar em 1983. Em 1989, ocorreu o Caracazo, como ficou conhecida a manifestação popular causada pelo aumento do preço da gasolina, que “foi a rebelião mais violenta contra a agenda neoliberal na América Latina no final do século XX”
(SANTOS, 2020, p. 42). Esses acontecimentos, pelo aumento da delinquência, pela diminuição do emprego formal nos setores público e privado, e pelo aumento da pobreza e extrema pobreza (SANTOS, 2020), preencheram o cenário resultante de um programa neoliberal.
Hugo Chávez, em 1992, guiado pelo bolivarianismo, incorreu em uma tentativa de tomada de poder. A tentativa não foi exitosa, mas não foi empecilho para que saísse vitorioso nas eleições de 1998. A partir do início de um governo que representava uma ruptura com as estruturas mantidas desde o fim da ditadura de Marcos Pérez Jiménez (1952-1958), surgiu uma oposição alinhada com os interesses econômicos advindos da política estadunidense.
Com a Constituição promulgada em 1999, inaugurou-se a chamada V República ou República Bolivariana, referindo-se ao nome e aos ideias de Simón Bolívar, figura que remete à independência do país e que é considerado o pai da pátria. Com isso, Chávez buscou reestruturar a Venezuela segundo “os ideais dos artífices da memória coletiva e identitária venezuelana” (SILVA, 2017, p. 04) e também a partir de uma “democracia participativa e protagônica” (SANTOS, 2020, p. 47).
A Revolução Bolivariana,8 durante as eleições, pautou vigorosamente a democracia.
Para isso, implementaram a democracia participativa com grande força, primeiramente para complementar a democracia representativa, passando a ter sua relevância própria, de poder popular e soberania para a população. A contradição, nesse âmbito, reside na força que o governo executivo possui (SCHEIDT, 2019).
Isso revela que tinha um projeto social e nacional contra interferências sobretudo econômicas, advindas do interesse histórico dos Estados Unidos. Desse modo, empreendeu-se um louvável desenvolvimento venezuelano, em que setores sociais receberam recursos:
O governo Chávez logrou o que ninguém jamais lograra na história republicana da Venezuela: aumentar vertiginosamente as receitas do Estado graças a uma política petroleira que permitiu o aumento de preço do barril do petróleo no mercado internacional – “recriação” da OPEP – e o uso destes mesmos recursos para cumprir uma das principais promessas de campanha, a saber, a implementação de política social de inclusão da parcela mais pobre da população (camponeses, indígenas, operários, moradores dos subúrbios das grandes cidades, mulheres, etc.). (SILVA, 2017, p. 02).
O interesse do país norte-americano possui raízes de longos anos, guiado pela força econômica que a fonte natural de petróleo venezuelana detém, uma vez que fica localizado muito mais próximo dos Estados Unidos do que a outra grande reserva no mundo, o Irã. Assim como menciona Gilberto Maringoni, “a interferência estadunidense na política interna da Venezuela aconteceu durante todo o século XX e no início deste” (2009, p. 28).
A partir desses anos, a política estadunidense buscou ter certo controle de preço e vantagens, o que aproximou vários governos venezuelanos da política dos Estados Unidos durante anos, mantendo uma relação desequilibrada, uma vez que a população venezuelana não percebia os retornos nos serviços públicos, os quais permaneciam de baixa qualidade:
8 “[...] o chavismo na Venezuela pode ser considerado um processo revolucionário na medida em que proporcionou importantes transformações na composição do poder do Estado, no funcionamento das instituições democráticas, na realização de amplos programas sociais que alteraram os índices de pobreza e distribuição de renda, bem como nas medidas de soberania nacional e impulsos à integração latino-americana.” (SCHEIDT, 2019, p. 43).
E as pessoas comuns? Não tinham nenhum direito real, a não ser se virar como podiam para sobreviver, procurando incomodar o menos possível as “pessoas importantes”. [...] Um analfabetismo generalizado, para além de 10%, escolas públicas que não prestam, normalmente localizadas em edifícios em ruínas, escolas privadas decentes para os mais ricos. Uma alta mortalidade infantil e de gestantes. Expectativa de vida abaixo dos 60 anos. Aposentadorias ridículas e nenhum plano de seguridade social. Substancialmente, um barril de pólvora estava a ponto de explodir e inchava cada dia mais. (AMENTA, 2010, p. 16).
Por conta dessa relação, a economia da Venezuela ficou restrita à produção de petróleo, monodependente, sendo um país que importava produtos básicos, dependendo, dessa forma, de outros países para a sua subsistência, como assenta Amenta (2010, p. 38): “[...] Pelo fato de que tudo é importado e as aduanas e a fiscalização são suscetíveis à corrupção, por que produzir?”.
Assim, a dependência dos Estados Unidos apenas crescia, o que evidenciava uma vantagem unilateral, uma vez que era guiada por uma política de alianças que prezava pela manutenção de privilégios da classe política, marginalizando cada vez mais o restante da população.
Historicamente, os norte-americanos são os principais parceiros econômicos venezuelanos, em uma relação que remonta ao início do século XX e que se aprofundou durante o período puntofujista. Enquanto os Estados Unidos passavam por um intenso processo de industrialização e necessitavam de fonte energética, a Venezuela, que possui o petróleo, precisava de produtos industrializados. Essa interdependência se tornou clara durante o governo Chávez, que, mesmo com sérias rusgas com o governo de George W. Bush, não interrompeu o comércio com os Estados Unidos. (SALGADO, 2019, n.p).
A presença de Hugo Chávez, mesmo que em um primeiro momento tenha se sustentado em uma tese da terceira via com um capitalismo “mais humano”, depois dos ataques que seu governo sofreu e da sua trajetória, defendeu a implementação do que chamou de socialismo do século XXI (SANTOS, 2020) e, desse modo, contra as investidas imperialistas, significou uma preocupação aos políticos conservadores com suas alianças internacionais, sobretudo com os Estados Unidos.
Como liderança de um país que representa um grande potencial econômico relacionado com o petróleo, sofreu uma tentativa de tomada do poder em 2002. A oposição fez um plano em que o principal argumento estava relacionado à parceria de Hugo Chávez com Fidel Castro, liderança de Cuba na época, e como essa associação socialista poderia representar um perigo à democracia.
Juntamente com os serviços televisivos do país, orquestraram uma manifestação que se tornaria o meio para prender Hugo Chávez e obrigá-lo à renúncia da presidência. Apesar dos
esforços, a renúncia não aconteceu e, pelo amplo apoio que Chávez tinha do povo, inclusive dos militares, por ele mesmo ter sido um, assim conseguiu sua liberdade e o retorno ao seu cargo.
Todo esse contexto mudou a situação social e econômica no país. Se antes existia uma estabilidade política, evidenciada pelo Pacto Punto Fijo, e uma economia impulsionada pelo petróleo, as derrocadas no poder significaram uma instabilidade política e econômica que teve como consequência direta uma crise social. Desse modo, o país que não tinha tradição de emigração internacional, em que há um processo de saída de pessoas do país em direção a outros países, começa a migrar (SILVA, 2017).
Entretanto o que marcou as migrações desse período foi que as pessoas que saíam do país constituam a classe mais rica e escolarizada, o que evidencia que a principal motivação de saída era a oposição ao governo chavista (SILVA, 2017). A situação se agravou com a morte do Húgo Chávez, em 2013, e com o contexto conflituoso que restou para saber quem iria ter a sucessão no poder. Isso gerou uma crise de abastecimento em uma economia que se encontrava fragilizada.
[...] com a morte de Chávez, houve o aumento da tensão política em virtude do acirramento da disputa pela sucessão do líder carismático, a qual abalou ainda mais uma economia que já se encontrava em dificuldades, resultando em uma grave crise de abastecimento, acompanhada de um processo inflacionário bastante intenso, que geraram uma tensão social capaz de aumentar, ainda mais, os níveis de violência dentro do país. (SILVA., 2017, p. 05).
Nessa nova onda migratória, a questão de classe não fica mais tão em evidência (SILVA, 2017), devido às consequências da crise de abastecimento e ao processo de melhoria econômica de algumas pessoas no período de Chávez. Silva (2017, p. 07) invoca que “a situação atual da maioria dos venezuelanos que se encontra em Roraima é de um movimento causado pelo desabastecimento e por um processo inflacionário que gera fome na população, a qual chega ao Brasil visivelmente debilitada em termos físicos”.
Durante o governo de Húgo Chávez, entre 1999 e 2013, como destacado, apesar das tentativas de boicote por parte principalmente dos Estados Unidos, ocorreu um grande avanço econômico e social. O PIB quintuplicou de tamanho, a Venezuela ficou como exemplo mundial de combate à fome, segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) organização da ONU que trata de questões como nutrição e fome. A pobreza foi diminuída em 49% (quarente e nove por cento) e a pobreza extrema em 63% (sessenta e três
por cento). Ficou com o menor índice de desigualdade de renda e riqueza de um país da América do Sul, a expectativa de vida média aumentou, o IDH cresceu e a mortalidade infantil foi reduzida (WEISBROT, 2016). Ainda nesse sentido, Santos (2020, p. 52-53) traz:
Entre 2002 e 2010, a população em estado de pobreza na Venezuela reduziu de 48,6% para 27,8%, e essa cifra baixaria a 21,2% em 2012. Similarmente, observou-se uma redução de 22,2% para 10,7% de venezuelanos vivendo na extrema pobreza, atingindo 6,5% em 2012. Estes números colocaram o pais como o terceiro menos pobre da América Latina continental, depois da Argentina e do Uruguai. Além disso, a Venezuela registrou o coeficiente Gini – índice que aufere o grau de concentração de renda – mais baixo da América Latina (0,394). No campo do trabalho, o desemprego caiu de 14,6% em 1999 para 6,4% em 2012, enquanto o emprego formal ascendeu de 53% para 57,5%
[...].
Hugo Chávez foi reeleito em 2012, mas devido ao tratamento de câncer a que estava submetido, não chegou a assumir o cargo. Naquele momento, indicou como seu sucessor Nicolás Maduro. Dessa forma, na eleição realizada em 2013, pós morte de Chávez e nos preceitos constitucionais da Venezuela, Nicolás Maduro foi eleito para um mandato de seis anos, dando continuação aos ideais iniciados por Hugo Chávez, amparado sobretudo no tripé
“refundação da Venezuela, antineoliberalismo e combate à pobreza” (BASTOS; OBREGÓN, 2018, p. 05).
Essa transição da figura política no cargo executivo do país teve grandes consequências, em uma linha política que governa a Venezuela desde 1999, que não é bem aceita pelas grandes potências capitalistas e seus aliados, diante de uma gestão que defende o anti-imperialismo e, ao mesmo tempo, possui um produto de mercado de grande valia.
Nessa medida, somou-se ainda a grande importância dos barris de petróleo para a gestão interna, cujo valor é guiado pelo mercado internacional. O governo chavista, com o lucro advindo da venda do petróleo, investia no serviço público de moradia, saúde, educação e cultura, desenvolvendo o país. Entretanto, as baixas nos preços incorreram justamente no esfacelamento desses âmbitos da sociedade, provocando uma crise social e econômica.
Aliado a isso, incidiu o aproveitamento desses momentos instáveis pelos países que possuíam interesse em adquirir petróleo de maneira mais vantajosa. Com isso, empreenderam tentativas de golpes, como a proclamação de Juan Guaidó, apoiado pelos Estados Unidos, como presidente interino9 da Venezuela em 2019. Com tais incursos e um posicionamento de Nicolás
9 Pessoa que ocupa temporariamente o cargo da presidência quando este está vago ou a pessoa legítima a ocupá-lo ou exercê-lo está impossibilitada.
Maduro considerado por cientistas políticos muito menos carismático e mais distante de uma política de conciliação que Chávez tendia a fazer, o país sofreu embargos e medidas austeras, convergindo para uma crise política e de desabastecimento de produtos básicos.
Apesar de as oscilações econômicas serem uma questão recorrente na história do país, desde 2014, foi intensificada na Venezuela a chamada “guerra econômica”, caracterizada, entre outros motivos: pela queda do preço do petróleo no mercado internacional, pela alta da inflação e por cortes feitos pelas grandes empresas no abastecimento de insumos não fornecidos pelo Estado, como alimentos e medicamentos. Cerca de metade desses insumos básicos consumidos no país é de produtos importados; logo, a suspensão do seu ingresso ou a redução da sua oferta por sabotagens no abastecimento afeta de forma imediata e grave a situação de milhões de pessoas. Diante desse cenário, o governo Maduro reagiu decretando “estado de emergência”, em fevereiro de 2016, o que lhe atribuiu poderes especiais, porém não conseguiu reagir dando cabo de alguns problemas, inclusive de ordem humanitária, como a emigração, principalmente para países vizinhos, como o Brasil. (BELLO, 2019, p. 5).
O mandato de Maduro iniciado em 2013 iria até o ano de 2018, com a realização de novas eleições em maio e posse em janeiro de 2019, momento em que Juan Guaidó se proclamou presidente interino. Mesmo em seu primeiro mandato, houve acusações de fraudes das eleições, ocasião em que ocorreram manifestações internas, assim como da política internacional. Após auditoria pelo Conselho Nacional Eleitoral (CNE), a vitória de Maduro sobre Henrique Capriles foi confirmada. Em 2018, novamente o discurso das fraudes eleitorais foram suscitadas, principal razão para a autoproclamação por parte de Juan Guaidó.
Os principais atingidos por essas instabilidades políticas, institucionais, econômicas e, consequentemente, sociais são os cidadãos venezuelanos, em uma crise generalizada e que evidencia ainda mais a desigualdade social. Apesar de a diminuição do poder aquisitivo perpassar a sociedade venezuelana, algumas pessoas sentem mais que outras. Aqueles que dependem de rendas fixas, como aposentadorias e pensões, sentem mais do que aqueles que possuem acesso a divisas10 e conseguem aproveitar as especulações do mercado paralelo, também conhecido como bachaqueo (LANDER, 2016). Nesse sentido:
Há um desabastecimento generalizado de alimentos, medicamentos e produtos domésticos. As famílias venezuelanas têm que passar cada vez mais tempo percorrendo estabelecimentos e fazendo fila na busca de alimentos que não estejam além de sua capacidade aquisitiva. Está havendo uma redução significativa no consumo de alimentos por parte da população. [...] No âmbito
10 Termo da economia que diz respeito às moedas estrangeiras consideradas fortes, como o dólar e o euro atualmente.
do acesso aos medicamentos e serviços de saúde, a situação é igualmente crítica. Os hospitais e outros centros de saúde apresentam elevados níveis de desabastecimento de insumos básicos, assim como a falta de equipes e instrumental médico, devido a limitações no acesso a peças e outros insumos, nacionais ou importados. (LANDER, 2016, n.p.).
Os migrantes venezuelanos que entram no Brasil, em sua grande maioria, possuem alta escolaridade (UEBEL, 2019), o que também pode ser reflexo das ações chavistas, denominada
“boliburguesía”, sendo “um neologismo criado pela contração dos termos ‘bolivariano’ e
‘burguesia’ para descrever uma nova elite composta de empresários e funcionários públicos que enriqueceram durante o governo de Hugo Chávez” (SANTOS, 2020, p. 50).
Contudo, mesmo que no período chavista tenham ocorrido grandes avanços, ainda resistiram altos índices de criminalidade, além de denúncias de corrupção e a visível dependência do petróleo. Somado a isso, não houve um projeto para uma soberania alimentar, que se assenta nas importações. Esses fatores colaboraram para acentuar a crise que a Venezuela enfrenta atualmente e cujos esforços para superação acabam não sendo tão efetivos, devido aos problemas enunciados, que estão na raiz da formação econômico-social da Venezuela.
[...] o chavismo resistiu a implementar modestas reformas que sinalizariam um disciplinamento da riqueza e do consumo. Por exemplo, na Venezuela, não há imposto sobre ganhos financeiros [...]. Por fim, o governo resistiu a mexer no preço da gasolina, a mais barata do mundo, mas cujo subsídio sangra os cofres públicos. (SANTOS, 2020, p. 60).
O fato de não ter adotado essas medidas voltadas para o disciplinamento e o consumo contribuiu para a fragilização da economia venezuelana. Em 2014, os preços dos barris de petróleo começaram a despencar, o que influenciou a possibilidade do desenvolvimento dos programais sociais e o panorama econômico em geral. Em 2015, a crise se intensificou com a vitória da oposição de Maduro nas eleições parlamentares, o que acarretou a ingovernabilidade
O fato de não ter adotado essas medidas voltadas para o disciplinamento e o consumo contribuiu para a fragilização da economia venezuelana. Em 2014, os preços dos barris de petróleo começaram a despencar, o que influenciou a possibilidade do desenvolvimento dos programais sociais e o panorama econômico em geral. Em 2015, a crise se intensificou com a vitória da oposição de Maduro nas eleições parlamentares, o que acarretou a ingovernabilidade